quarta-feira, 17 de outubro de 2012

História de bola rolando

Estádio Centenário, Montevidéu
O destino quis que uma das minhas mais divertidas e memoráveis experiências em estádio de futebol fosse no Uruguai.
Eu e a Renata passaríamos uma semana no país vizinho. Tendo tempo e disposição, surgiu a ideia de aproveitarmos a boa fase do futebol uruguaio e a coincidência de que uma partida do Peñarol pela Copa Libertadores estava marcada para aqueles dias.
É bom que a dimensão disso fique clara. O aurinegro Peñarol é time simpático aos nossos anfitriões. Estes são apaixonados por futebol. E o jogo seria no Estádio Centenário, especial por vários motivos: pela própria arquitetura do estádio, que tem mais de 80 anos; por ter sido o privilegiado palco da primeira final de Copa do Mundo (uma vitória do Uruguai sobre a Argentina); e, no plano pessoal, por ter sido aonde, quando criança, eu acompanhara um grande e saudoso amigo uruguaio.
Desta vez, quem nos acompanharia seria o Guillermo, filho daquele amigo, e sua esposa Claudia, simpaticíssimos ambos. Tudo acertado, ingressos comprados com antecedência, combinamos de nos encontrarmos no dia do jogo. Então, logo no começo do grande dia, a Renata vira para mim e fala o que eu talvez já estivesse pensando e não tinha me dado conta: o divertido mesmo é irmos com a camisa do time, não? onde podemos comprá-la?
Dito e feito. Fomos aos arredores do estádio (que fica dentro de um dos belos parques de Montevidéu) e encontramos onde comprar camisas do Peñarol. Mesmo sem conhecer um jogador sequer do time, lá fomos nós orgulhosos com nossas aquisições, que ostentavam o nome Núñez, número 8, nas costas.
Bola da primeira final de Copa do Mundo
Confesso que, ao entrar no estádio, estava feliz como criança que vai ao circo. Eu não guardava praticamente nenhuma lembrança do Centenário - eu era pequeno demais na última vez que tinha estado lá, mas lembrava que o tio Pepe tinha estado do meu lado, e isso bastava para me emocionar. Além disso, percebi no estádio um ar de saudosismo que mexia comigo. Aquela construção antiga e robusta era em tudo diferente dos estádios brasileiros a que eu estava acostumado. Nas arquibancadas em meio a curiosas plantas aqui e ali, no público com mate a tiracolo (cena que também era comum em Porto Alegre há alguns anos, mas hoje proibida do lado de cá da fronteira), na proximidade com o campo. Estávamos na Platea América, colados ao gramado na altura do círculo central: o mesmo local que o tio Pepe costumava frequentar, informa orgulhosamente o Guillermo.
Quando a bola rola, acompanhamos a torcida em sua cantoria: a música, que vai desde uma versão de Ilariê até tímidos palavrões, lembra, como todo o resto, um futebol de outra época. Apenas nos decepcionamos um pouco ao notar na escalação a ausência do Núñez, que estampava nossas camisas. Uma pena, ainda mais que o tal Núñez deve ser realmente querido, porque pelo menos metade do estádio tem camisetas com o nome dele nas costas. Baita desfalque.
Quando o jogo vai para o intervalo, ainda com o placar em branco, eu aproveito para comprar um bom churros uruguaio de um ambulante. A partida recomeça e então é só alegria: gol do Peñarol! O estádio explode, e nós com ele, cantando Y ya verán, ¡la Copa Libertadores vamos a ganar!
Ingressos para a partida e para o museu
O placar fica nisso, o que é suficiente para a torcida aurinegra. Mas nós ainda teremos uma epifania quando a Renata, tão intrigada quanto eu, chama a minha atenção para o fato de que aparentemente todos os jogadores têm Núñez escrito nas costas. Até o goleiro!? Pergunto ao Guillermo: quem é o Núñez? ele está jogando? A resposta óbvia: Núñez é o nome da empresa de ônibus que patrocina o time!
Réplica da Taça Jules Rimet
Mesmo que a experiência futebolística daquela noite tenha sido, na minha opinião, praticamente completa, ainda tivemos mais no dia seguinte. Com a confiança de quem sabe o nome do patrocinador do time e, mais ainda, tendo descoberto que o camisa 8, ídolo do Peñarol, se chama Pacheco, voltamos ao estádio. Não é dia de jogo, mas nosso interesse agora é visitar o museu do futebol que fica lá. E que bela visita! Certo, os "museus do futebol" têm ficado mais comuns, mas não sei se algum outro merece esse nome tanto quanto o do Centenário, em Montevidéu. Lembrem que estamos falando da cidade onde começou a Copa do Mundo. Já na entrada, a pessoa que nos recebe chama a atenção, com um orgulho uruguaio quase ingênuo, para o desenho dos nossos ingressos: são cópia dos ingressos para a famosa primeira Copa. No museu estão bolas de partidas históricas, camisas, troféus originais ou réplicas... E o mesmo ar de saudosismo que eu já tinha experimentado na noite anterior. O passeio se encerra com nova visita às arquibancadas do estádio, desta vez vazio. Mas não completamente: meus ouvidos parecem captar daquelas arquibancadas um eco de muitos anos de sons, gritos, cantos. No meio desse eco está a voz do tio Pepe e, agora mais do que nunca, também a nossa.

sábado, 7 de julho de 2012

O que o Peru e o Maranhão têm em comum?

Refrigerantes!
Quem pisa no Maranhão dificilmente vai embora sem reparar no guaraná Jesus - rosada e dulcíssima instituição local que, dizem, é mais popular que a Coca-Cola naquelas paragens.
Lembrei disso quando ouvi, em Lima, que o refrigerante mais consumido do Peru é a Inca Kola, cor amarelo brilhante, sabor tão doce quanto o similar maranhense... ou quanto um punhado de balas de tutti frutti.
Há quem adore e não consiga viver sem; há quem deteste. Eu, que são sou fanático por refrigerantes, não perdi as oportunidades que tive de provar um e outro, justamente pelo que têm de inusitado. Sabores como esses ajudam a criar histórias, nem que seja por causa das risadas que inevitavelmente provocam quando relembramos aqueles momentos (ah, a cara do garçom orgulhoso da especialidade local enquanto olhávamos para ele mais do que desconfiados daquelas bebidas estranhas!).
Se a Inca Kola é uma refrigerante obviamente industrializado, um outro símbolo peruano que pode ser produzido artesanalmente é a chicha morada - espécie de suco de milho roxo (sim, milho roxo!) com temperos. Claro que também provei dela, mas confesso que foi um pouco mais difícil mandá-la goela abaixo - falta de paladar treinado ou de gosto adquirido, talvez - o que não me impediu de trazer para casa um envelopinho de chicha morada em pó.
Outros lugares também têm os seus sabores marcas-registradas, alguns com evidentes referências (anti?)globalizantes. Nos países da ex-Iugoslávia, é a Cockta, refrigerante de cor escura e rótulo vermelho, que fiquei imaginando que seria uma alternativa nacional à Coca-Cola em tempos de regime comunista. O sabor tem sim um quê de coca-cola, mas com um fundo amargo que me desagradou - mais uma vez faltou, talvez, o tal gosto adquirido.
Na ilha de Malta, provei um dos refrigerantes de sabor mais exótico que conheço: Kinnie, que lembra uma mistura de água tônica e guaraná e tem a cor deste último. Aprovado.
E, claro, no Uruguai experimentei várias vezes os refrigerantes de pomelo, no começo achando-os ácidos e amarguíssimos, depois apaixonado pelas lembranças que eles me evocavam. Gosto adquirido.


sábado, 16 de junho de 2012

Eppur si muove


Esfera armilar
E é gratificante que esteja em movimento - o planeta, a mente, a nossa capacidade de descobrir, criar e ir além.
Uma das boas surpresas que Florença me reservou foi o Museu Galileu (Museo Galileo), prato cheio para qualquer viajante interessado por ciência. Como é o meu caso.
Embora leve apropriadamente o nome de Galileu, o museu vai muito além de ser dedicado apenas ao homem que é considerado um dos criadores do método científico. Verdade que não faltam instrumentos e dispositivos criados ou imaginados por Galileu. Mas, mais do que isso, trata-se de um museu sobre a história da ciência. E eu não me lembro de história mais fascinante que a da evolução do conhecimento humano.
Estando localizado onde está, é claro que a primeira referência teria de ser o próprio Galileu Galilei, filho ilustre da Toscana. Impossível não lembrar que ali perto, em Pisa, foi feito o famoso experimento que demonstrou que objetos em queda têm a mesma aceleração, independente de sua massa. Difícil não se emocionar vendo os próprios telescópios que deram ao homem uma visão mais clara do seu lugar no universo.
E então se vai além: no museu há uma infinidade de engenhosos sistemas mecânicos, químicos e elétricos que permitiram aos primeiros cientistas realizar seus estudos. Esferas armilares (fundamentais à navegação séculos antes do GPS), termômetros, barômetros, relógios, calculadoras manuais... Objetos que nos fazem pensar, tão habituados que estamos a computadores e instrumentos de precisão, no quanto os recursos tecnológicos evoluíram ao longo do tempo. Vivendo numa época em que a maioria das pessoas que eu conheço inverte matrizes algébricas (sem dar por elas!) com a ponta dos dedos num teclado de computador, passei a valorizar mais quem já fazia ciência no século XVII e resolvia problemas de cálculo antes mesmo da invenção do cálculo.
Uma avó da tabela periódica
Em termo de museus, o mais famoso e badalado de Florença é, sem dúvida, a Galleria degli Uffizi, casa de impressionantes pinturas e esculturas renascentistas. Mas eu gostei foi de saber que ali perto, no Museu Galileu, reside um pouco da história da ciência. Que afinal a arte não faz sentido se não andar ao lado da ciência, e vice-versa.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Ler também é uma forma de partir. Ou de chegar.


Viajo nos livros, pelos livros e por livros. Em mais de um sentido, livros me aproximam de pessoas e de lugares.
Viagens são um tema recorrente aos livros. Livros são um tema recorrente aos viajantes.
Minhas leituras influenciaram a escolha de não poucos destinos de viagem. Saramago, de certa forma, aproximou-me de Portugal – seus livros acalentaram meu desejo de conhecer mais a fundo nossos irmãos d’além-mar. Na Espanha, senti-me um pouco Quixote e meu coração pulou quando vi moinhos. Martín Fierro me ensinou o que já era óbvio, que temos mais em comum com os argentinos do que gostam de admitir os contadores de piadas. Visitei cidades, estradas e casas instigado por autores que as descreviam.
E, em visita, colecionei novos livros.
Perdi-me em livrarias chinesas, prometendo mentalmente aprender um dia a desvendar os ideogramas das páginas que levaria na bagagem – promessa temporariamente adormecida, mas absolutamente não abandonada.
Tive um pouco mais de sucesso, ou de persistência, na Croácia e na Bósnia: aos poucos, o idioma daquela parte dos Bálcãs tem deixado de ser incompreensível e já venci mais de um livro trazido de lá.
Não tive tempo nem coragem de ousar a língua turca e, pior, deixei Istambul ao mesmo tempo cativado por Orhan Pamuk e com o coração partido por não incluir na bagagem livro algum dele. Mas sei que ainda haverá tempo para corrigir esta falha.
Librería Ruben, Montevidéu
No Brasil, tão familiar e tão imensamente rico, mergulhei com Monteiro Lobato, Erico Verissimo, Guimarães Rosa, Josué Montello, Ariano Suassuna e tantos outros. Com os cordéis do Ceará. Com os poetas de baixo do MASP, em São Paulo, e dos blogues de todos os cantos. Não canso de descobrir este país que é sempre um pouco maior que o abraço, apenas para nos fazer abrir mais o peito.
De peito aberto, visitei livrarias, sebos, feiras de rua. Em Madri, espantei-me com a velhinha que tomava conta de uma banca de livros. A pobre senhora era tudo, menos vendedora. Tinha um ciso a menos ou um quê de ciúme a mais, ciúme dos seus livros: ela literalmente enxotava aos berros quem quer que se aproximasse da sua banca.
Em Paris, ganhei de presente uma edição linda de Vinte Mil Léguas Submarinas no seu idioma original. Júlio Verne no estado mais puro. O escritor que primeiro me incentivou a ler e que antes de qualquer outro me apresentou ao mundo das “viagens extraordinárias”. Tudo porque, quando criança, descobri meus primeiros Júlio Verne nas prateleiras de certo sebo uruguaio.
Em Montevidéu, revi um antigo endereço mais de vinte anos depois, com as mesma prateleiras de livros empoeirados até o teto. Através dos livros, quando viajo, sempre sou surpreendido por um pouco de mim em alguma parte.

segunda-feira, 19 de março de 2012

Então eu fui comprar alfajores

Yo tengo pintada en la piel
la lagrima de esta ciudad.

Jorge Drexler
Tenho o péssimo hábito de deixar as coisas mais importantes para depois. Vou me dedicando ao que é menor, mais fácil, explico para mim mesmo que se trata de um aquecimento para o que vem depois... E corro o risco de muito tempo ser tempo demais. Na ânsia de fazer perfeito, acabo não fazendo.
Foi assim com minha crônica sobre Montevidéu. Quando se trata de escrever sobre minhas viagens, não faz sentido eu não falar sobre Montevidéu. E, no entanto, até agora a cidade tem passado quase em branco, alvo de uma ou outra referência, mas não das palavras que eu queria e que ela merecia.
Então me dei conta de que já era hora; vamos à crônica, saia ela do jeito que sair. Certa vez, quando eu era pequeno, a tia Nini me deu dinheiro para que eu comprasse alfajores. Sempre amei alfajores, mas naquele dia morri de medo e vergonha: o que ela queria era que eu fosse sozinho até o mercado e pedisse alfajores, numa cidade que, por mais que já começasse a me soar familiar, não falava a minha língua. Quis recusar, mas ela insistiu para que eu fosse, para que eu não tivesse medo de falar com um montevideano desconhecido ou de falar errado. Acabei comprando os alfajores e ela me abraçou, orgulhosa. Aquela foi minha primeira experiência de negócios em língua estrangeira.
Não, a tia Nini não é minha tia de verdade, mas é como se fosse. É daquelas pessoas que a gente não sabe como qualificar, porque seria pouco chamar de amiga. É a tia Nini, e pronto, quem a conhece não precisa de mais para saber o tamanho do coração por trás dessas letras.
Minhas viagens para Montevidéu, quando eu era criança, aconteciam lá e cá - claro que pegar a estrada era especial, mas igualmente especial era receber os amigos uruguaios na nossa casa brasileira. Quando íamos para Montevidéu, muitas vezes no carnaval (nosso maior feriado, afinal de contas), eu virava as noites ao lado do tio Pepe, assistindo à transmissão em espanhol dos desfiles na Sapucaí. Tio Pepe, fã do futebol uruguaio e do carnaval brasileiro, tão tio quanto a Nini. Ele que me havia tomado nos braços num dia em que eu tive medo de morrer e gritei assustado, tudo porque eu era um guri de uns cinco anos que tropeçara e dera com a cabeça numa quina de pedra, sentia o sangue escorrer e meus pais não estavam por perto. Ali nos conhecemos, eu e o tio Pepe. Ficou na testa minha única cicatriz e no peito, mais indelével ainda, uma amizade.
Quando eles vinham ao Brasil, aproveitávamos para visitar os pontos turísticos do meu estado. Gramado, Canela, algumas praias gaúchas, um minicruzeiro pelo Guaíba... Muito do que conheço do Rio Grande do Sul acabou tendo um sotaque uruguaio. Tive a sorte de passar minha infância num Brasil-Uruguai de fronteiras fluidas.
E o lado de lá acabou ficando quase tão familiar quanto o lado de cá – mas não a ponto de perder o encanto. O tempo e a minha mudança para o Rio de Janeiro ameaçaram me afastar do Uruguai mas, no final das contas, só aumentaram a vontade de voltar. Voltei. O mate uruguaio, os parques da infância, o rio que parece mar (ou será o mar que na verdade é um rio?), as feiras de rua, o doce de leite. O Estádio Centenário, as calçadas centenárias, as árvores às centenas. E as risadas, e os sorrisos, sempre os sorrisos. Mais uma vez, voltarei.

domingo, 11 de março de 2012

Little rain cakes

Uma das primeiras coisas que fizemos em Sarajevo, depois de instalados em nossa pousada, foi sair para dar uma volta e procurar um lugar onde comer. Ainda era cedo para o jantar, mas já passara bastante do meio-dia e não tínhamos almoçado.
Encontramos um restaurante pequeno (não mais que quatro ou cinco mesas), aconchegante e vazio (consequência tanto do horário quanto da época do ano). O cardápio oferecia opções que instigavam, eu já sentia água na boca e estava ansioso para provar a culinária bósnia. Concentrei-me naturalmente na página que listava as especialidades locais. Ali, havia uma opção que dizia (em inglês) doughnuts com queijo, achamos que seriam uma boa aposta para entrada ou acompanhamento. Fizemos nosso pedido incluindo os tais doughnuts, mesmo sem saber exatamente como seriam.
Quando chegou a comida, descobrimos que os doughnuts eram uma espécie de versão balcânica dos brasileiríssimos bolinhos de chuva, porém na forma de um aperitivo servido com um tipo de cream cheese. Deliciosos. Os outros pratos também estavam excelentes, assim como o clima do ambiente, mas sem dúvida os doughnuts roubaram a cena. A essa altura, já não tínhamos nas mãos o cardápio, mas ficamos tratando de fazer associações; eu não lembrava do nome bósnio daquele prato, mas sugeri que doughnut poderia ser talvez uma tradução literal. Comentamos casos engraçados em que tínhamos visto isso acontecer (um restaurante carioca que traduzia contrafilé como against-fillet...) e então saiu: "Fosse no Brasil, o nome disso seria rain cake. Aliás, little rain cake". Bolinho de chuva, little rain cake. Perfeito! Rimos um bocado, saciamo-nos, saímos de lá extasiados.
Dias depois, em Mostar, fomos a outro restaurante e lembramos de procurar little rain cakes no cardápio. Não esperávamos que estivessem com o mesmo nome de doughnuts, mas o cardápio tinha fotos dos pratos, o que facilitava nossa vida, e lá estavam eles, os little rain cakes! Em bósnio, uštipci. Pois então: garçom, uštipci! Estavam ainda melhores que os de Sarajevo, e era uma porção bastante farta (dez bolinhos para nós dois, e se tratava apenas da entrada!) com queijo até não poder mais. Foram little rain cakes antológicos (o nome já tinha pegado).
No dia seguinte, de volta a Sarajevo, tínhamos uma ideia fixa: o lugar que escolhêssemos para almoçar teria de servir little rain cakes. Um problema: havíamos, mais uma vez, esquecido o nome bósnio da iguaria. Mas não me fiz de rogado. Num lugar que anunciava algo suspeito de se parecer com os little rain cakes, eu parava e perguntava - mas eram apenas hambúrgueres. Noutro, chegamos a sentar, chamei o garçom e usei toda meu conhecimento linguístico para descrever, em bósnio, os little rain cakes e perguntar se eles tinham algo parecido. O garçom ficou um tanto em dúvida, por esse e por outros motivos (o cardápio de maneira geral não tinha nos agradado) saímos e fomos tentar a sorte noutro lugar. Caminhamos bastante, já tínhamos fome e os restaurantes pareciam se esconder de nós, até que dei de cara com uma placa em que reconheci logo a palavra mágica: uštipci! Entramos, sentamo-nos e fomos direto ao ponto. Desta vez, os bolinhos só não estavam melhores porque a porção era pequena (isto é, menor que a de Mostar). Como a oferta de queijo, neste e nos outros lugares, era sempre farta, brincamos que os bósnios calculavam mal: os bolinhos que traziam eram poucos para aquele tanto de queijo! Mas a verdade é que nos fartávamos, ainda mais quando nos lembrávamos de que, nos botecos do Brasil, não é raro servirem "porções" de apenas duas ou três unidades. O que tínhamos pela frente era little rain cakes para toda uma família! E, sendo só nós dois e só uma entrada, devorávamos todos sem dó.
A essa altura, os restaurantes bósnios devem estar sentindo falta dos gulosos brasileiros. Nós só não sentimos mais falta deles porque, bem, ontem mesmo eu fiz little rain cakes - digo, uštipci - aqui em casa. Ficaram bons, mas é verdade que precisam ser aprimorados. Não tenho muita experiência em fazer bolinhos de chuva, que dirá uštipci. Mas não chega a ser um problema: sempre é bom ter um motivo para praticar este tipo de coisa, não é mesmo?

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

E se o mundo tiver outro aroma além da pólvora?

É inevitável: pensar na Bósnia é pensar na guerra. Admito que pensei muito na guerra. Mesmo ela já tendo terminado há 17 anos, o que é bastante e é pouco.
Cheguei em Sarajevo e os olhos, com um instinto de curiosidade mórbida, começaram a procurar as marcas da guerra. Foi fácil encontrar: prédios com marcas de balas e bombas, outros em ruínas. As pessoas também têm marcas, e não preciso estar em Sarajevo para saber disso.
Mas não vou a Sarajevo por causa de guerra alguma, embora elas às vezes se interponham no caminho (os conflitos, nessa região, dão mais que chuchu). Quero saber o que mais Sarajevo tem, e a primeira coisa que descubro é que tem um povo não apenas simpático como também muito ávido para mostrar o lado alegre de seu país.
São uma simpatia e uma alegria que contagiam. Mais ou menos como quando visitamos um conhecido humilde numa cidade do interior. A Bósnia é aquele primo pobre e de bom coração que nos recebe de um jeito simples, quase ingênuo, mas que cativa mais que toda a ostentação do tio rico. Chego a Sarajevo, nevou bastante nos últimos dias e a neve atrapalha a caminhada, mas o coração se sente aquecido. As mesquitas, as cores e as lojas lembram a Turquia, mas com menos ostentação. É um ar oriental adquirido porque um dia o destino quis assim e os bósnios, humildemente, souberam fazer uma bela limonada do que era para ser um ácido limão (a invasão turca, uma das tantas guerras que ensanguentaram os Bálcãs).
Às vezes me incomoda a fumaça de um cigarro: a Bósnia é aquele primo pobre que fuma o tempo todo, mas de um jeito que dá mais pena que raiva.
A música bósnia é contagiante: soa ao mesmo tempo mais autêntica que a dos turcos e mais original que a de croatas e sérvios. Procuro-a nas rádios e na televisão, vou a uma loja e saio com um punhado de discos.
A comida bósnia segue o mesmo caminho do meio, um meio que vai além. O kebab, como na Turquia, está em toda parte; alguns dos pratos que vejo na Bósnia eu já havia provado na Croácia; outros são novidade, e sou conquistado pelos uštipci, bolinhos tão deliciosos que merecem uma crônica à parte.
Provo uma barra de chocolate bósnio: deixa muito a desejar e me dou conta de que isso era previsível, a marca do chocolate se chama Mikado. Mas fico rindo do nome da marca e termino de comer o chocolate como quem aceita por educação a xícara de café do primo humilde.
Vejo um país de montanhas nevadas que já sediou orgulhosamente uma edição dos Jogos Olímpicos (de Inverno). Que deu ao mundo dois Prêmios Nobel, o que definitivamente não é pouca coisa. Um país de rios humildes como ele mesmo, cativantes como ele mesmo. Sobretudo, de pontes para atravessar os rios. Pontes para ir ao encontro das gentes, nada poderia representar melhor a Bósnia. Um país de encontros, de gentes, de sorrisos, onde o aroma de esperança sempre soube durar mais que o de pólvora.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Sarajevo

Quando puderem, assistam a "In the land of blood and honey" ("U zemlji krvi i meda"). É um filme sobre a Guerra da Bósnia. Não esperem as palhaçadas trágicas de "A vida é bela"; é só mais um filme de guerra. Um filme magnífico. Verdade que, como praticamente qualquer um que se propusesse a mexer numa ferida tão funda e recente como a da Guerra da Bósnia, o filme levanta polêmica. Mas, acima de tudo, faz pensar.
Assisti a ele num cinema de Sarajevo.
Passei toda a sessão sem respirar, o coração apertando a cada cena que a tela mostrava. Guerra, a coisa mais estúpida que pôde ser inventada, aquilo que nos faz sentir vergonha da raça humana. Saí do cinema com vergonha.
E procurando desesperadamente algo de que eu pudesse me orgulhar.
Vi olhos bonitos que olhavam para os meus e mãos macias que tocavam as minhas. Saí para a rua e vi o anoitecer numa Sarajevo linda. Sim, linda. Coberta de neve, cortada por um rio, um rio costurado por pontes, pontes construídas por mãos humanas... Mãos que não sei se eram bósnias, sérvias ou croatas. Mãos muçulmanas ou cristãs, ou talvez agnósticas, ou quem sabe de que outra religião? Uma Sarajevo de gente bonita, de gente simpática, sobretudo de gente que não é tão diferente assim de nós ou de seus vizinhos. Uma Sarajevo de músicas alegres e comidas saborosas - tudo isso também feito por mãos humanas. Assim como o filme que vi - feito por mãos humanas para que algo triste e importante não fosse esquecido, ou para fazer um desabafo como o que minhas mãos escrevem agora. Assistam o filme para se certificarem de que nenhuma guerra é bonita, mas venham a Sarajevo quando puderem para descobrirem que esta cidade e estas pessoas têm, sim, um coração encantador.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

A viagem do samovar

13 190 quilômetros de avião. 1 010 quilômetros de ônibus ou carro. 150 quilômetros de trem. 20 quilômetros de barco. Total de 14 370 quilômetros, o que não chega a ser uma volta ao mundo (a linha do equador mede 40 000 quilômetros), mas é uma distância bem considerável.
Cinco países, incluindo dois estados brasileiros. Dez cidades, sem contar aquelas em que esteve só de passagem. Três continentes diferentes.
E o currículo poderia ter sido ainda um pouco maior se, durante três dias, não tivesse ficado à minha espera no "guarda-coisas" do aeroporto Atatürk.
Conheço uma pessoa que, quando viaja, leva consigo o boneco de um pequeno gnomo. Esse gnomo, que usa roupas coloridas e segura uma maleta, aparece nas fotos que ela tira dos lugares que visita. É uma referência a Amélie Poulain e, acima de tudo, uma maneira simpática e divertida de dar um toque de exclusividade às fotos (poucas coisas são mais chatas que viajar sozinho e não ter a quem pedir para bater uma foto... ou ter de pedir ajuda a um passante que nunca faz a foto que se estava imaginando).
O gnomo da minha amiga é pequeno, bem menor que o do pai de Amélie Poulain. Ótimo para acompanhá-la aonde quer que ela vá.
Meu gnomo é um samovar. Mede exatamente 55 centímetros de altura e felizmente (?) pode ser desmontado em três partes. As duas partes menores cabem na mala que tinha vindo vazia do Brasil; o corpo do samovar, só mesmo numa sacola de mão.
Eu sinceramente não sei de outro samovar que tenha viajado tanto nem de forma tão variada. Phileas Fogg, o inglês de A Volta ao Mundo em 80 Dias, teria inveja do meu samovar.
Meu samovar já visitou uma das mais importantes universidades do Brasil, já dormiu numa caverna, já foi quase esquecido numa esteira de raio-x de aeroporto, já andou de bonde e de vaporetto (o barco que funciona como ônibus nos canais de Veneza).
Hoje, orgulhosamente, ele serve chá num apartamento do Rio de Janeiro. Está feito o convite aos amigos para virem conhecê-lo.

sábado, 28 de janeiro de 2012

E a viagem termina como começou

Veneza, cá estou eu no último dia de férias, extraindo prazeres dos pontos que já conheço na cidade e procurando outras joias inéditas para mim. Não é difícil num lugar como Veneza.
Eis que me ocorre visitar a feira de Rialto. Seria uma feira de rua absolutamente comum se não fosse Veneza. O Canal Grande está ali do lado, o leão de São Marcos me observa do alto, os feirantes gritam em italiano-veneziano e estas colunas que sustentam a abóbada carregam o peso de séculos. Com isso tudo, Rialto deve ser, sem grande esforço, a feira de rua mais cara da Europa.
E pensar que há algumas semanas eu percorria os bazares de Istambul. Completo um círculo histórico: as duas cidades estão intimamente ligadas. Veneza foi um império grandioso graças ao comércio com o Oriente, através da Turquia. E Constantinopla/Istambul floresceu graças ao comércio com o Ocidente, representado pelos venezianos. Não por acaso, Veneza entrou em declínio quando os ibéricos passaram a fazer concorrência através de uma rota alternativa. No meio tempo, Veneza aprendeu com Constantinopla e vice-versa. As fachadas em estilo oriental que se veem ao largo dos canais percorridos pelas gôndolas não são acaso. Cortinas chamadas de venezianas ou de persianas (este nome, possivelmente, um equívoco histórico), também não. Marco Polo (que nasceu na Croácia, numa época em que a República de Veneza controlava a região) saiu de Veneza e passou por Constantinopla para chegar ao Oriente. Nada mais conveniente que eu, depois de visitar Istambul, redescobrisse Veneza.
Num lugar qualquer desta minha aventura, li uma frase de Orhan Pamuk, o Prêmio Nobel turco, dizendo que, ao voltarmos de viagem, nunca encontramos um lugar igual ao que deixamos, pois nós mesmos mudamos no caminho. A frase faz sentido e já deve ter sido dita por mais gente antes dele. Voltando para casa, eu poderia dizer: a viagem termina, como começou. Mas virão outras.