sábado, 5 de dezembro de 2009

Granada, eco de fantasias


Dale limosna, mujer,
que no hay en la vida nada
como la pena de ser
ciego en Granada.
Francisco Alarcón de Icaza
Granada, Andalucía (ou Andaluzia). Claro que a Espanha é um país de cultura vasta e complexa; mas eu considero Granada como a cidade que que se manifesta mais intensamente a atmosfera espanhola que aprendi a imaginar em casa e na escola. Aquela España de sangre y de sol.
Como tal, não é difícil adivinhar que, a despeito das belezas (e tanto Granada quanto a Andalucía de forma geral são plenas de belezas, sobretudo na arquitetura), a degustação plena desta região passa, principalmente, por um olhar atento à cultura local. Neste ponto, tive sorte: já na chegada (de trem, o que, na Europa, é todo um capítulo à parte), dirigi-me à hospedagem: nada menos que uma casa andaluza, simples mas completa e bem localizada, que tratei de alugar pessoalmente com irriquieta velhinha. Nenhum hotel ou pousada poderia ser mais pitoresco.
Mas a viagem, na verdade, começara muito tempo antes, nas histórias de família (que vão muito além do Dominguez espanhol que trago no nome) e nos sonhos de conhecer o que havia do outro lado do oceano. A Espanha foi minha primeira e inesquecível viagem desta magnitude. E ofereceu um mosaico (de azulejos andaluzes, talvez) fascinante, juntando porções já imaginadas ou experimentadas por mim (a língua, um pouco da culinária, algumas histórias) com outras inteiramente novas (nada é pleno enquanto não é vivido de fato).
O palácio mouro da Alhambra, talvez a principal joia histórica e arquitetônica da Espanha, fica em Granada, e só ele já compensa a visita à cidade. Não vou me estender sobre outros pontos (o Generalife, a Catedral, o Monastério) que os guias já descrevem com precisão. Mas é encantador chamar a atenção para o que vai além disto tudo, para o clima de mistério que emana de todas estas paredes medievais. Caminhar pelo Albaicín, o labiríntico bairro antigo, é uma experiência única. Lá, assim, como na Alhambra, o visitante acaba envolvido por um clima de Mil e Uma Noites que talvez exista apenas em pouquíssimos outros lugares. A influência mourisca está em toda a parte, e é uma delícia mergulhar nas lendas românticas de Granada. Quase se sente a presença, por exemplo, do rei que, derrotado, chorou ao abandonar a cidade e acabou encantado, dentro de uma montanha, onde está há séculos reorganizando seu exército para a retomada de Granada. E se a escolha é por uma noite ao som do flamenco, poucas coisas se comparam a um espetáculo oferecido por ciganos dentro de uma das cavernas que habitam há séculos. Sente-se, de mistura ao cantar flamenco, o eco de fantasias de todos estes séculos.
Outros aspectos da Espanha estão lá, como em todo o país: as tapas, o jamón, algumas das inúmeras variedades da paella, para ficar só no campo gastronômico. O sol, a sesta. Os laranjais. Convites aos sentidos e à imaginação. Granada, já antes de os espanhóis inaugurarem a história da América, era um reino prenhe de histórias. E assim continua: um lugar onde os ecos do passado se multiplicam, confundindo a lenda e a realidade, para criar lembranças e ilusões maravilhosas em casa novo visitante.

sábado, 14 de novembro de 2009

O Hotel Fantasma

Chegamos à ilha das Flores, no arquipélago dos Açores, ao cair da tarde. Instalamo-nos no hotel e, como de hábito, saímos para dar uma volta a pé pela cidade. O reconhecimento do terreno, digamos assim, aproveitando o que ainda restava de luz do sol. Procurávamos, também, traçar um plano para o jantar: era preciso encontrar uma padaria ou mercado onde comprar coisas que nos permitissem fazer um lanche, assim como tínhamos feito nas outras ilhas por que passamos, ou então encontrar um restaurante ou lancheria agradável.
Os Açores, porém, têm uma particularidade. As lojas fecham e as ruas ficam desertas assim que começa a escurecer. Não há vida noturna, pelo menos nada comparado ao que estamos acostumados. E em Santa Cruz das Flores, vila de 2500 habitantes (a ilha inteira tem 4000 habitantes), realmente não esperávamos muito agito. Apenas um lugar onde comprar um sanduíche e algo para beber...
Não achamos. E voltamos para o hotel, resignados. Então, já no quarto, vendo ao acaso alguns folhetos de propaganda, achei o anúncio de um restaurante tentador. Parecia um ambiente grande, com música ao vivo, onde serviam lanches e refeições completas, que faria bonito em qualquer metrópole. O point. E o melhor: junto ao hotel Ocidental, dizia o folheto. Era precisamente onde estávamos.
Lá vou eu, então, mais uma vez, explorar o lugar. Missão: encontrar o tal restaurante. Eu estava achando estranho que não tivéssemos passado por ele antes, mas bastaria perguntar a alguém. Desci. Não encontrei ninguém na recepção do hotel. Paciência, pensei, e saí a procurar o restaurante. Dei a volta no hotel (que não era pequeno) e não vi nada. Não satisfeito, dei mais uma volta, procurando com mais atenção. Absolutamente nada. Estávamos numa ponta junto ao mar e definitivamente não havia outro prédio em volta. Ainda pensei: será que o restaurante fica dentro do hotel? Voltei, intrigado e disposto a perguntar a alguém no hotel (na rua, não havia mais ninguém). Na recepção, ninguém. Na sala de estar, ninguém. Ninguém em todo o andar térreo. Subi a escada (um cartaz dizia que o restaurante do hotel ficava no andar seguinte). Já não me importava tanto achar aquele restaurante específico, eu queria achar um canto qualquer onde comer, e de quebra queria saber onde estavam as pessoas daquele lugar. Pois o outro andar não só estava deserto como tinha as luzes apagadas. Havia uma porta onde se lia “Restaurante”. A porta estava fechada, estava tudo escuro e só se ouvia o vento e as ondas do mar, lá fora.
Ainda percorri o que pude em busca de nem sei mais o quê (ou quem). Nada. Encontrei, no saguão, uma pequena lojinha de lembranças. Fechada. E só. O hotel estava deserto! Era uma situação inusitada: recém-chegados a uma ilha onde, de repente, não se via mais uma única pessoa, habitávamos um hotel fantasma. Sem escolha, desisti: voltei ao quarto e me deitei cedo, controlando a fome.
Na manhã seguinte, tudo normal: havia pessoas circulando e o café da manhã estava montado naquele mesmo restaurante que antes estava fechado. Servimo-nos, comemos e saímos para a rua, para enfim passear e descobrir o que o povo da ilha das Flores tinha a nos dizer.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Estas cidades do interior...

Há viagens que nos proporcionam emoções deliciosas.
Grandes cidades têm aderido à popularização das viagens turísticas e oferecem atrações dificilmente imbatíveis: city tours, monumentos, museus, sem contar os hotéis de luxo e os grandes navios de cruzeiro. O problema disto tudo é que, se simplesmente nos deixarmos levar, a viagem terá aquele gosto de comida industrializada, congelada e embalada para ser aquecida no microondas.
Para nossa sorte, gravitando em torno destes destinos mais badalados estão as pequenas cidades. Aquelas que nos oferecem o sabor do doce que nossas mães e avós costumavam fazer em casa. Quem prova, leva consigo uma lembrança toda especial deste sabor.
Às vezes, eu me surpreendo com o estilo, ao mesmo tempo familiar e completamente diferente, que têm certas cidades do interior... É um resgate, amplificado e regado com um toque pitoresco, de coisas que marcam uma vida.
As estradas gaúchas estão pontuadas de barracas que vendem os mais diversos itens. Algumas não passam de uma tenda com o produto de determinada região – seja ele pinhão, melancia, morango, laranja, vinho. Outras são grandes vendas de beira de estrada que contam com tudo isso e mais artesanatos, erva-mate e os tradicionais queijos, salames, copas, caldo-de-cana, cucas, chimias, mandolates... Um mundo. Para muitos, cada um destes produtos tem uma história própria e reencontrá-los é voltar a uma época marcante da infância. O caldo-de-cana, assim como os puxa-puxas, lembram-me as frequentes idas ao litoral da minha família, quando eu era criança e a escala numa destas barracas era quase obrigatória. As chimias, compradas ou feitas em casa, estavam sempre na nossa mesa. Os grôstoli ou, em bom gauchês, cuecas-viradas, eram a saborosa marca registrada de nossa divertida e inesquecível tia. Queijos e salames faziam a festa dos adultos: eu confesso que não era particular fã deles, mas passei a ser depois que cresci um pouco mais. E assim fui construindo todo um mosaico...
Que não para, porém, na culinária. Não há como não ser marcado pela atitude das pessoas do interior, tão diferentes nas coisas simples. Não necessariamente melhor ou pior, apenas diferente. Numa destas cidadezinhas, no Natal, gente que eu não conhecia e que era amiga da minha irmã convidou toda a nossa família para um churrasco, de surpresa. E me presentearam com litros do vinho produzido por eles mesmos. Noutra ocasião, também no interior do estado, conheci pessoas interessantíssimas que praticamente só falavam um carregado dialeto italiano – não por afetação, apenas por costume.
Mais recentemente, fui visitar minha irmã em Nova Prata, cidade que não é das menores. Encontramos a praça central com um palco armado para a apresentação de Luiz Marenco, músico nativista. Fomos comer um crepe suíço (certo, não é algo tão natural quanto os citados queijos e chimias, mas para mim é tão nostálgico quanto eles). Puxando assunto com a moça que nos atendeu, disse que minha irmã morava na cidade e que eu tinha vindo do Rio. Ao que a moça replicou:
— Ah, vieste para o show do Luiz Marenco, então?
Minha reação foi sorrir intimamente ao constatar o quanto as referências dela eram diferentes das minhas: a guria achava a coisa mais natural do mundo que eu tivesse saído do Rio de Janeiro para o interior do Rio Grande do Sul por causa de uma apresentação nativista específica! Depois, fiquei pensando que não se trata de este ou aquele músico, esta eu aquela comida, mas de um encontro comigo mesmo, e particularmente com a criança que eu fui e sou. Um encontro que não costuma acontecer nos McDonald’s — lugares que, coincidência ou não, o menino Eduardo frequentava muito menos que as velhas barracas de estrada.

sábado, 17 de outubro de 2009

Os pássaros

A meio caminho entre Porto Alegre e Montevideo, passávamos pelo Taim, e passavam por nós bandos de pássaros voando em V. Para onde iriam aquelas aves que cruzavam nosso céu e nossos sonhos?
Deixavam-me vidrado, colado ao vidro do carro, acompanhando com os olhos aqueles longínquos viajantes. Seriam pássaros uruguaios visitando o Brasil, ou pássaros brasileiros nos acompanhando ao Uruguai, ou talvez visitantes vindos de muito mais longe?
Aquelas aves viajavam em excursões que pareciam tão bem coordenadas! Ninguém se atrasava, ninguém se perdia a olhar lojinhas de quinquilharias, ninguém fechava a cara diante de insossos guias de museus empoeirados!...
Se eu me juntaria a uma excursão destas? Seria uma pena acompanhar o grupo e não poder parar para ver um detalhe da paisagem, ou para conversar com um guri na estrada, lá embaixo... Mas que delícia a companhia daqueles pássaros tão experientes em termos de voos a terras distantes! As tertúlias aéreas que teríamos valeriam, com certeza, por viagens inteiras.
E é por isso que os pássaros, de tempos em tempos, ficam trocando de posição no bando: aposto que estão é passando a cuia de chimarrão de mão em mão... Ou de asa em asa.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Cidade Maravilhosa, Cidade Olímpica


O brasileiro, acima de tudo, é emoção. Isto ficou claro, hoje, na apresentação realizada em Copenhague. Enquanto o discurso das outras candidatas olímpicas apelava para a razão – tecnologia, investimentos em estrutura, condições logísticas – o Rio de Janeiro apelava para o coração. Os argumentos mais fortes foram os menos palpáveis: a ausência de edições anteriores dos jogos na América Latina, a festividade e a nossa fama (justificada ou não) de povo receptivo e simpático.
E então o suspense, a apoteose e o êxtase. Como na apuração dos desfiles de escolas de samba, a leitura do envelope desencadeou reações na cidade inteira e no país inteiro. Reações diversas (o apoio à candidatura foi grande, mas não unânime) com um ponto em comum: a emoção. Uns faziam muxoxo, outros fechavam a cara. Muitos festejaram na praia, gritando, dançando e cantando em diversos ritmos. Outros choraram.
Vejam a cena do presidente Lula chorando copiosamente, rosto afogueado, emoção incontida. Não me lembro de ter visto outro chefe de estado alguma vez numa demonstração tão profunda de emoção. Vejam a cena e digam: este cara pode ter muitos defeitos (e outras tantas qualidades), mas aí está uma reação maravilhosamente autêntica.
E merecida. Sei que ainda se vai falar muito das consequências da escolha do Rio de Janeiro, mas é fato que chegamos a um grau de reconhecimento internacional impensável há não muito tempo.
Não faltam críticas: a cidade tem problemas de transporte, de segurança, de hospedagem. E deveria ter outras prioridades. Bom, eu acho que está mais do que na hora de uma cidade que se pretende turística, e porta de entrada de estrangeiros, investir nisto tudo, e os Jogos Olímpicos são a oportunidade perfeita. Muitos dizem que somos um país corrupto e que o evento será um prato cheio para o desvio de dinheiro público. Eu não discordo, mas penso que não são os Jogos que vão agravar este problema. Se há corruptos, eles independem das Olimpíadas e precisam ser enfrentados com ou sem Jogos. Mais do que isso: se há corrupção e desonestidade, é preciso pensar: não estará ela em todos os níveis? Não somos um país democrático? Os “políticos” são a representação de toda a população. Por que seriam uma classe à parte? Não concordo com a atitude que muitos têm de lavar as mãos, atirando para “os políticos” a responsabilidade de todos os nossos problemas. Se há corrupção, ela é responsabilidade nossa. Pensemos nisto.
Mas não deixemos de pensar, também, que não se chega à toa ao ponto em que chegamos: a cidade e o país aclamados por representantes do mundo inteiro. Merecemos, sim, a festa. Eu, particularmente, adoro receber amigos em casa. Pois que venham, a festa está marcada: Rio de Janeiro, 2016.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Farroupilhas

O dia 20 de setembro, aniversário da Revolução Farroupilha, é uma data que movimenta todo o Rio Grande do Sul, numa intensidade que talvez espante os mais desavisados. A Revolução, como todas as revoluções, teve seus erros e seus acertos; entre estes, ela teve o mérito de propiciar a redação da primeira constituição republicana das Américas. Apesar disto, o que se comemora não é propriamente a Revolução Farroupilha; é a valorização de uma cultura da qual o povo gaúcho não esconde o orgulho; uma cultura cuja força, a meu ver, enobrece não só o estado como todo o Brasil. Afinal, poucos países têm tanta diversidade cultural quanto o nosso, e só temos a ganhar valorizando cada parte deste espectro. Assim, não é à toa que eu pulo do Bumba-meu-boi, sobre o qual escrevi há alguns dias, para a Semana Farroupilha.
E este salto vem junto com uma carga emotiva bastante grande. Há anos eu não passava o 20 de setembro em Porto Alegre. Nas ocasiões anteriores, eu havia tratado de marcar a data organizando pequenas confraternizações no Rio de Janeiro e até indo ao trabalho com o lenço farroupilha ao pescoço. Mas nada disso se compara a poder passar a data no meu pago, ou seja, em Porto Alegre. Setembro é o mês em que está de pé o Acampamento Farroupilha,num dos parques da cidade. O ambiente se transforma. E tudo culmina, é claro, no 20 de setembro, com um grande desfile à beira rio que enche o peito dos gaúchos, sobretudo daqueles que, como eu, vivem fora do estado e anseiam por qualquer ligação com a terra natal.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Viagem à roda da minha cidade

Boa parte das pessoas, mesmo dizendo adorar conhecer novos lugares, esquece-se de visitar sua própria cidade. Porém, é às vezes tão perto de casa que encontramos as cenas e os cenários mais encantadores! Procuro evitar este mal: sempre que posso, fecho os olhos e torno a abri-los diante das ruas que se oferecem aos meus passos. E assim vou descobrindo lugares. Ou redescobrindo. Uma visita à cidade onde nasci acaba trazendo muitas novidades, e não há tempo para achar que já sei de cor a paisagem, de tanto olhar para ela.
Nesta semana, uma região de Porto Alegre que, embora não estivesse nos meus trajetos mais habituais quando eu morava lá, desde cedo foi para mim um símbolo da cidade. Dali, num relance, avistam-se alguns dos nossos mais típicos cartões-postais. Que, de tão óbvios e tão integrados à paisagem, podem nem chamar a atenção de quem pensa estar, também, integrado à paisagem. Falo da histórica Ponte de Pedra, lembrança de uma Porto Alegre antiga. Do Centro Administrativo, marco de uma cidade moderna (embora o prédio de arquitetura marcante já exista há um bom tempo). E, claro, do Monumento aos Açorianos, emblema de Porto Alegre, ligação da cidade atual com a vila primitiva e seus fundadores.
Poucas vezes eu havia passado por ali com uma câmera na mão. Foi o que fiz agora, com a sorte de poder contar, também, com o céu limpo e com o coração bem disposto. Valeu a pena. Sempre vale a pena reencontrar os ângulos de que a cidade natal se vale para nos falar.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

As melhores livrarias do mundo

Já comentei antes que os livros fazem parte das minhas viagens. Duplamente: tanto porque viajo com eles, lendo-os, quanto porque viajo atrás deles, deliciando-me com as livrarias que encontro pelo caminho.
Assim, vou colecionando não só livros, mas também livrarias. Há algumas que são realmente marcantes. Certas livrarias chegam a ser mundialmente famosas. Claro que estou longe de conhecê-las todas; muitas não passam, pelo menos por enquanto, de sonhos de consumo. A Strand, em Nova Iorque, onde se diz que é possível encontrar tudo e nada ao mesmo tempo – porque, de tão grande, não se encontra o que se procura, mas encontra-se uma porção de livros que nem sonharíamos procurar. A Selexyz Dominicanen, de nome difícil, em Maastricht, nos Países Baixos, que simplesmente está instalada dentro de uma igreja medieval.
São espaços encantadores, sem dúvida, que eu espero conhecer pessoalmente um dia. Porém, como qualquer lista de “melhores do mundo” há de ser sempre subjetiva e pessoal, não faz sentido incluir na minha relação lugares em que eu nunca estive. Minha lista das melhores livrarias do mundo é a lista das minhas melhores livrarias do mundo, sutileza que justifico lembrando que só pode ser especial o que nos toca, e só nos toca o que julgamos conhecer (um pouco que seja). Eis aqui a minha lista, então, que serve como reminiscência nostálgica e convite para os que me leem: quais as melhores livrarias do mundo?
Em terceiro lugar, a livraria Lello, no Porto. Quem me falou dela pela primeira vez foi minha amiga Marta, e graças à Marta é que a visitei. Trata-se de um prédio com arquitetura e decoração de tirar o fôlego. Um convite aos olhos. E não chega a ser uma livraria grande em tamanho, o que, no caso, é uma vantagem, porque permite que ela seja aconchegante.
Em segundo lugar, El Ateneo, em Buenos Aires. Neste caso, o que rouba a cena é a sensação de surpreendente grandiosidade. Um ambiente onde os livros são as estrelas. Pudera, estamos num teatro, literalmente! Um antigo teatro convertido em livraria não tem como não ser uma experiência única. Como se não bastasse isso, o recheio do lugar é muitíssimo variado e tem preço bastante acessível.
Em primeiro lugar... Não, não posso dizer o primeiro lugar. Iriam rir de mim ou desconfiar de que estou fazendo piada. Pois o primeiro lugar não é nenhuma destas grandes livrarias que figuram em revistas ou guias turísticos. É, como eu insinuei aí em cima, a minha livraria. Estou falando desta livraria que encontramos sem esperar quando dobramos uma esquina, à toa, pela primeira vez. De repente, lá está ela: uma porta estreita, talvez uma escadaria um tanto empoeirada, estantes caóticas e apertadas. E, no meio de tudo, tesouros que vão nos conquistar (não nós a eles), livros nunca lidos que vão fazer lembrar a infância. E, quando nos maravilharmos ao ler a nota escrita à margem de uma destas raridades por uma mão infantil ou por um coração apaixonado, o senhor de trás do balcão, que parece ter vivido ali sua vida inteira, vai nos sorrir como quem conhece todas as histórias. E nos piscará o olho, pois terá adivinhado o que adivinhamos: que sempre haverá um novo leitor para as velhas leituras.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

As casas de Neruda

Um dos muitos motivos para se conhecer o Chile é o poeta Pablo Neruda.
Verdade que, quando se trata de um escritor, não é necessário ir ao seu país para começar a entendê-lo. Mas as ondas do Pacífico, a cozinha chilena, as pessoas – ah, as pessoas! – o país inteiro ganha um novo ar aos olhos do poeta. Assim como os seus versos ganham um novo significado quando contemplamos o entardecer do alto de um dos tantos cerros sorvendo um mote con huesillos, o curioso refresco chileno de trigo e pêssego.
E há, ainda, as casa de Neruda. Andando pelo Chile, tem-se a impressão de uma inédita familiaridade com o poeta, pois três de suas moradas estão preservadas e abertas à nossa visita.
São casas belas e interessantíssimas mesmo para quem não é fã do poeta. Repletas de curiosidades, como convém à habitação de uma mente criativa. A começar pelo fato de que algumas delas têm nomes próprios: La Chascona, em Santiago, La Sebastiana, em Valparaíso. La Chascona é a casa onde morou Matilde, amante e depois esposa de Neruda. La Sebastiana é uma pitoresca casa com amplas janelas para o mar. Mas a minha preferida é, sem dúvida, a casa da Isla Negra.
Isla Negra, para começar, não é uma ilha, mas um pequeno balneário e vila de pescadores. Das três, esta casa é a mais distante da capital, mas também a de visita mais recompensadora.
A própria vista que se tem do lugar é fantástica. Para quem leu ou viu O Carteiro e o Poeta, é impossível não imaginar Neruda contemplando este mesmo oceano. Mas o que mais chama a atenção é mesmo a casa. Comprida e estreita como os vagões de um trem (o pai de Neruda foi ferroviário), como um navio (a paixão pelo mar é patente na casa e na obra do poeta), como o próprio Chile. Tudo ali são referências. Há carrancas de proa. Há coleções de coleções: o poeta era muito criativo na arte de reunir objetos (ele mesmo se dizia um “coisista”). Há o “cavalo mais feliz do mundo”: um boneco que chegou a ganhar vários presentes de visitantes diversos, incluindo entre os presentes três rabos postiços. Viajar pela casa é deliciar-se com o inusitado. E descobrir que as palavras de Neruda não foram à toa:
"Em minha casa tive brinquedos pequenos e grandes, sem os quais eu não poderia viver. O menino que não brinca não é menino, mas o homem que não brinca perdeu para sempre o menino que vivia nele e que lhe fará muita falta. Por isso, edifiquei também minha casa como um brinquedo e brinco nela da manhã à noite."
Fotografia: parte da decoração nerudiana da Isla Negra e a vista para o Pacífico.

domingo, 14 de junho de 2009

Comentário musical de Porto Alegre

Como apaixonado pela minha cidade natal, eu estava devendo uma carta sobre Porto Alegre. Afinal, apesar de já ter escrito sobre ela em outros espaços, minhas botas de tantas léguas ainda não haviam palmilhado o solo porto-alegrense como deveriam. Pois qualquer viagem, por mais longa que seja, começa sempre no ponto de partida, não é? Vamos, então, a Porto Alegre.
Como escrever sobre Porto Alegre? O que destacar, quais lembranças despertar, que foco e que lente usar? A resposta é difícil para quem tem tanto da cidade nas veias. Mas é preciso escolher por onde começar, e eu escolho a música.
Porto Alegre tem algumas canções muito emblemáticas, não tanto pelo ritmo em si, mas principalmente pelas letras, pela forma apaixonada, lírica e às vezes ingênua de evocar a si mesma. São canções que estão na ponta da língua de qualquer porto-alegrense, que são orgulhosamente repetidas no aniversário da cidade, no aniversário farroupilha, nas festas de final-de-ano, em qualquer ocasião. E são canções que tocam particularmente fundo em quem, tendo nascido e vivido lá, mora longe da cidade dos jacarandás. É o meu caso.

A primeira destas canções é Horizontes, de Flávio Bicca. Flávio é ator e a canção surgiu na década de 1980 como parte de uma peça de teatro chamada Bailei na curva, que ainda hoje faz bastante sucesso no estado. Horizontes tem um forte fundo político e a menção à cidade oscila entre o saudosismo, um certo desconforto e uma esperança. Tornou-se o hino extra-oficial de Porto Alegre. Como pode? A canção evoca temas caros a nós, gaúchos da capital: o cotidiano de uma cidade que, oscilando entre um lado provinciano e outro cosmopolita, cresce e se transforma. Não está imune aos percalços do tempo, mas sabe afirmar com convicção: “não vou me perder por aí”. Assume com orgulho sua identidade, como qualquer porto-alegrense.

Deu pra ti, da dupla Kleiton & Kledir, exala Porto Alegre por todos os poros. A ponto de não ser facilmente compreendida pelos forasteiros. “Deu pra ti”? É a forma consagrada que temos de falar, com toda a propriedade, que “chegou, que o cara pode cair fora, pode tirar o cavalo da chuva, não faz mais sentido continuar o que vinha fazendo, já foi suficiente a demonstração de sua inoportunidade ou incompetência” – nada melhor que o Dicionário de Porto-Alegrês do Luís Augusto Fischer para explicar. Então o que Kleiton & Kledir proclamam, e não poderiam fazer melhor, é o sonho de todo desgarrado do pago: “Deu pra ti, baixo astral, vou pra Porto Alegre, tchau!”

E um passeio musical pela minha terra só pode terminar de maneira exaltada: Porto Alegre é demais é o que escreveu José Fogaça para sua mulher Isabela cantar. Acabamos todos os gaúchos cantando juntos. Afinal, a escala musical completa ainda é pequena quando se canta a saudade da terra natal. Saudade assim não se esgota: apenas dá uma trégua quando volto, quando revejo enfim o rio Guaíba e a cidade que ele banha. Não tem jeito: “é lá que eu vivo em paz”.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Memórias Ilustradas de Portugal

Poucas vezes fiz anotações de viagem tão sistemáticas quando agora. Pois comprei em Lisboa (n'A Vida Portuguesa) uma caderneta onde comecei a tomar notas e isto acabou sendo um exercício excelente para reviver alguns detalhes da viagem. Preenchi 58 páginas! Além de ser bastante coisa, são anotações particulares (nenhum segredo, mas também nenhuma intenção séria de publicação). Então ficarei no meio-termo: não há necessidade de colocar tudo aqui, mas uma amostra pode ser interessante. Eis algumas páginas que são, com todas as letras (e desenhos), cartas de tantas léguas.





































sábado, 23 de maio de 2009

Voltando para casa

A despedida, o final da viagem e das férias...
Costuma ser um dos momentos mais doloridos. É quando nos arrependemos de não termos feito isto ou aquilo, de não termos visitado este ou aquele lugar. É quando as tarefas da "vida real" surgem com sua face mais chata nos lembrando de que o mundo não parou enquanto estávamos fora e de que há muito trabalho à nossa espera...
Mas eu, como otimista que sou, gosto de pensar no outro lado de tudo. O final de uma viagem, por melhor que ela tenha sido, é sempre o início de uma próxima viagem. E partimos mais ricos de lembranças, de experiências, de aprendizados. Vários apendizados: da genealogia dos reis portugueses ao catálogo dos doces conventuais, da melhor forma de lavar e secar roupa num quarto de hotel à forma, sempre aperfeiçoada, de conviver dentro e fora deste mesmo quarto durante dias seguidos.
A viagem continua nos livros a serem lidos, nos discos a serem ouvidos, nas histórias a serem relembradas sempre com uma nova cor. Escrevo, já em casa, ouvindo um fado. Com o coração agradecido a este país que proporcionou tantas descobertas.

Fotografia: rosa-dos-ventos em Belém, Lisboa.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

A noite com música é melhor


Fado.
De quem vem a Lisboa, a Portugal.
Ontem fomos assistir a uma apresentação de fado. Emocionante. Uma noite daquelas que vivemos já sabendo das saudades que teremos e já imaginando as recordações que guardaremos.
Era um restaurante instalado num antigo prédio da Alfama, um dos bairros mais tradicionais da cidade. A comida, portuguesa, muito boa. A música, como tinha de ser, com os ingredientes que se imagina de um bom fado: tocada e cantada entre as mesas, à meia-luz, com elegância na voz, no dedilhado, nas roupas, na postura. Um fado que, assim como o tango, nasceu marginal e hoje é estrela de uma noite que se faz cosmopolita em salas e ruas que abrigaram mouros e cristãos, lendas e histórias, artistas e... mais artistas. Porque, segundo dizem, ser fadista não é apenas cantar o fado, é também ouvi-lo. Ou senti-lo.

terça-feira, 19 de maio de 2009

A Vida Portuguesa

Estamos em Lisboa, e aqui há bastante coisa para se ver. É uma ótima cidade para se estar e para se passear.
Na verdade, trata-se do meu retorno à capital portuguesa. Eu havia estado aqui durante apenas um dia; agora, com mais tempo, estou conhecendo mais, aproveitando melhor e gostando demais.
No meio de todas as atrações túristicas inevitáveis (as igrejas, os bondes, a torre de Belém, o Mosteiro dos Jerónimos etc.), descobrimos, aqui e ali, pedaços de uma vida pitoresca. O mais marcante são as roupas estendidas em varais na janela dos apartamentos. Estão por toda a parte: às vezes são coloridos, às vezes são divertidos, sempre são inusitados.
Outra descoberta é uma loja chamada A Vida Portuguesa. É pena que eu não tenha como publicar imagens agora, mas levarei as fotografias para o Brasil: trata-se de uma loja com fascinantes produtos vintage. Sabonetes antigos, loções, brinquedos típicos de décadas atrás, enlatados (sardinha, azeitonas, atum), cera para piso de madeira, livros, fotografias... Algo como os pais portugueses do talco Granado e da pomada Minâncora. Tudo bem arrumado num prédio antigo e inundado por música, claro, de décadas atrás. Ah! Se eu, que não vivi nada disso, fiquei encantado, imagino que haja pessoas que se emocionem ao ver tantas memórias reunidas assim!

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Vidro, barro e cerâmica

O que há para comprar em Portugal? O forte, sem dúvida, são as garrafas e as peças de cerâmica - azulejos, vasos, pratos, jarros etc. Há peças lindas, com diversos desenhos, algumas bastante coloridas.
O problema: ficamos com vontade de fazer compras e mais compras, mas como acomodar tudo na mala? Este tipo de peça é o que há de mais frágil e, portanto, menos recomendável para levar de lembrança de uma viagem! Ainda mais quando se trata de uma viagem que inclui diversos trechos de avião e outros tantos de trem...
A solução, como sempre, é um meio termo: não resistimos a imaginar nossas casas decoradas com um vaso ou azulejo e a arranjar lugar para tanto nas malas, por difícil que possa parecer. (E garanto que na hora de fechar a malas, assim como na hora de colocá-las no trem, parece realmente difícil.) Mas as peças maiores e mais impressionantes voltarão conosco apenas na lembrança - contribuem para formar um painel de sensações que, felizmente, é fácil e prazeroso de se carregar.

domingo, 17 de maio de 2009

Doces portugueses

Pastéis de nata, bolinhos de D. Amélia, ovos moles, cornucópias, jesuítas... São tantas as opções de doces! E cada um deles corresponde a uma tentação quase irresistível...
Em praticamente todas as cidades é muito fácil encontrar uma pastelaria - que corresponde, aproximadamente, a uma confeitaria no Brasil. É entrar, dirigir-se ao balcão, onde estão expostos os quitutes, escolher e se deliciar. Estes doces têm sido nossa sobremesa, às vezes nosso lanche, e às vezes ainda levamos alguns para comer à noite, no quarto do hotel...
Os pastéis de nata são os famosos pastéis de Belém (mas que só são genuinamente de Belém quando feitos neste bairro lisboeta). Os de D. Amélia são típicos da ilha Terceira, nos Açores; o nome é referência à imperatriz do Brasil e rainha de Portugal, segunda esposa de D. Pedro. Ovos moles são típicos de Aveiro e se encontram nas mais diversas formas e como recheios de diferentes delícias. E há ainda tantos que sequer sabemos o nome! São inúmeros os doces à base de ovo: os chamados doces conventuais, que nasceram das mãos das freiras nos conventos.
Assim vamos fazendo a nossa viagem dos sentidos - dando ao paladar uma posição de honra.
E, com a licença de vocês, preciso atacar um pastel de natas, que este texto me deixou com água na boca!

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Caminhando por ruas medievais

Chegamos, enfim, a Óbidos.
Óbidos é, como dizem os livros de viagem, uma encantadora cidade cercada por muralhas medievais. Num extremo está o seu castelo. As ruas seguem o traçado original, as paredes são brancas e floridas... E há turistas. Muitos turistas, falando diferentes línguas, fotografando e circulando entre lojas de artesanatos. Lembra a cidade de Parati, no litoral fluminense - embora cada uma tenha suas particularidades, é claro.
Óbidos: um lindo lugar para se ver uma vila medieval. Mas... Eu diria apenas para 'ver'. Porque a ilha do Corvo, aquela sim, é um lugar para se 'sentir' uma vila medieval. A diferença? Na ilha, as ruas e as construções parecem mais autênticas, moldadas às necessidades dos habitantes e não reformadas de acordo com e estética do turismo. As pessoas realmente vivem daquela maneira, com o que a terra dá, os quintais são repletos de plantações e de animais, não de lojas de suvenires, e até mesmo as fechaduras das portas são únicas. Óbidos é mais fotogênica que isto, sem dúvida: restaurada e conservada, colorida, parece não ter um único beco cheirando mal. Mas qual delas, Óbidos ou Corvo, qual será que permite sentir melhor como se vivia séculos atrás?
Talvez cada uma tenha sua graça. Eu tenho medo de que o Corvo se transforme num lugar como Óbidos. Assim como Óbidos não precisa se transformar no Corvo.

Fotografia: vista de Óbidos.

Padaria?

Em Coimbra, como em algumas outras cidades por que passamos, estávamos procurando um mercado para, à noite, fazermos um lanche rápido. Com o tanto que temos comido durante o dia, um sanduíche às vezes é mais que suficiente para o jantar.
Acontece que, perto de onde estávamos, não encontrávamos lugar algum onde comprar pão e frios. Ainda mais depois das seis da tarde, quando tudo parece fechar.
Até que surgiu na nossa frente a Padaria Popular. Entramos, mas o lugar parecia mais bar que padaria. Perguntamos. A resposta foi mais ou menos assim:
- Não há pão. Isto é um 'snack bar', 'Padaria' é só o nome do estabelecimento.
Pois é, desculpem-me os portugueses, mas tivemos de vir a Portugal para encontrar uma padaria que não vende pão!

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Coimbra

Vista noturna da cidade de Coimbra - fotografada da janela do nosso quarto...

quarta-feira, 13 de maio de 2009

A menina da ria

Aveiro, a 'Veneza portuguesa'. Eis uma cidade deliciosamente feminina.
Para começar, ela é banhada não por um rio, mas por uma ria - assim chamam uma espécie de lagoa-estuário nesta região do país.
Aveiro é elegantemente feminina quando se veste de pontes a cruzar seus braços. É languidamente feminina quando se estende em canais de água. É suavemente devota no convento onde viveu Santa Joana. E é saborosamente familiar quando oferece aos visitantes seus doces de ovos moles.
Nossa visita foi curta, mas suficiente para apreciar um pouco disto tudo, como numa espécie de degustação. E ainda tivemos tempo para ir à vizinha Costa Nova, um lugarejo à beira mar e à beira ria... Costa Nova de casas coloridas e listradas. Vibrantes como as cores dos próprios barcos que percorrem esta região.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Hospitalidade portuguesa, com certeza

Enfim, no continente. Cidade do Porto, linda com sua arquitetura típica, suas igrejas, suas pontes, a vista do rio Douro. E o mais interesante: não é uma cidade excessivamente grande. O Porto parece que soube se conservar num tamanho razoavelmente pequeno para ser um lugar agradável.
Porém, no caso, isto ainda não é tudo. Se as viagens são feitas de lugares, são mais ainda feitas de pessoas. Pois tivemos a felicidade de uma recepção primorosa no Porto. Marta e Pedro, eu já desconfiava que iria encontrar pessoas simpáticas, mas vocês conseguiram superar minhas expectativas! O coração ficou um tanto mais português (e portuense) com o carinho de vocês, as atenções redobradas, as conversas saborosas, o bacalhau indescritível...
Ah, e o azeite de oliva em tudo: será que alguém no Brasil consegue imaginar o que é uma garrafa de 5 L de azeite de oliva e a velocidade com que se consome uma garrafa destas, de tão generalizado que é seu uso?
Ah, os amigos que deixamos no norte de Portugal: o vinho do Porto que levamos terá o sabor destas lembranças!

sábado, 9 de maio de 2009

Fragmentos de conversas açorianas

- É bonito!
(Qualquer açoriano sobre qualquer vista de sua ilha.)

- Por que tantos muros de pedra?
- Temos muitas pedras, é preciso usá-las de alguma maneira, para dar espaço à terra onde plantar...

- Já foram ao Peter?
(No Faial, sobre o café que é parada obrigatória.)

- Maio ainda dá capote aos marinheiros.
(Numa região de ventos imprevisíveis, o aviso de que a primavera chegou mas ainda não se firmou.)

- Com licença, era o senhor que estava caminhando na rua ontem à noite, durante minha aula de música?
(Numa ilha em que todos se conhecem e as ruas ficam desertas quando cai a tarde.)

- Não há um açougue na ilha?
- Talho? Não temos. Cada um de nós cria suas próprias vacas. Aqui é um lugar diferente de qualquer outro. É preciso saber viver no Corvo.

- Hoje aqui, amanhã também...
(Suave resignação com o isolamento da ilha.)

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Bom dia, Corvo!


Chegamos hoje à ilha do Corvo, a 'mais pequena' dos Açores. Para chegar aqui, tomamos um avião de apenas 18 lugares que chamam de Mosquito...
O lugar é uma minúscula vila inacreditavelmente parada no tempo. Ruelas que parecem medievais habitadas pelos corvinos juntamente com suas criações de porcos, galinhas, cães... Moinhos de vento que encantariam D. Quixote. E essas pessoas que parecem conhecer uns aos outros e nos cumprimentam sempre, na rua, com um bom-dia ou boa-tarde. O dono da pousada foi nos buscar no aeroporto - sem aviso prévio, eu sequer informara que chegaria naquele avião. Acomodou-nos um tanto improvisados em sua velha caminhonete Ford e nos trouxe até aqui: o Comodoro, a única pousada da ilha, surpreendentemente moderna e confortável.
Vínhamos cogitando que os Açores são uma espécie de país em miniatura. Pois o Corvo é uma miniatura dos Açores, uma miniatura primorosa.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Terra e água, as pedras e o mar

Os açorianos são, como não podia deixar de ser, um povo dividido entre a terra e o mar. E o que mais chama a atenção é a maneira como as pessoas se relacionam com o seu meio em cada uma das ilhas.
Na ilha Terceira, são voltados completamente para a terra. Criam gado e cultivam o solo. Terra de origem vulcânica, dividida em pequenos lotes or pitorescos muros de pedra. Quem quiser conhecer a Terceira, com sua curiosa alma vulcânica, tome o táxi do sr. Aurélio e ele contará todas as histórias que conhece.
Vá depois ao Faial, outra das ilhas. O contraste com as demais se dá na forma como os faialenses abrem os braços para o mar. Os barcos ancorados e o café do Peter recebem quem chega. E a arte tradicional da ilha é feita, vejam só, em dentes de cachalote!
A frase que repetem por aqui não é exagero: cada ilha é diferente, cada uma tem suas particularidades e encantos.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Vista noturna de Angra do Heroísmo

Alguém aí já visitou a cratera de um vulcão?

Eu já. E amanhã devo visitar mais uma... Desculpem a afirmação pedante, mas é uma forma que encontrei de contar o quanto a paisagem aqui é diferente. Os Açores são ilhas vulcânicas: cada ilha é o topo de um vulcão no meio do oceano, às vezes mais de um vulcão.
Isto faz com que as ilhas tenham uma geografia realmente linda e incomum! A cratera que visitamos ontem (Sete Cidades) é realmente grande: engloba uma vila encantadora, que parece perdida no tempo e no espaço; mais ainda, contém lagoas de cores indescritíveis. Imaginem, por exemplo, uma lagoa em forma de oito onde metade é verde e metade é azul... Cores que as fotos, por melhores que sejam, terão dificuldade para mostrar...
Enfim: eses 'loucos' açorianos vivem num lugar... único!

domingo, 3 de maio de 2009

"Estes simpáticos malucos"

A frase não é minha - nós a encontramos escrita por aqui. Ah, estes simpáticos malucos! Frase que pretende descrever os açorianos e parece que consegue bastante bem.
Malucos? No melhor dos sentidos. Se Asterix e Obelix cá viessem, também diriam, com a melhor das intenções: estes açorianos são doidos! Bem, eu particularmente adoro uma pitada de sandice assim: gente que vive em ilhas isoladas do resto do mundo, que fala uma língua tão parecida e tão diferente da nossa, que constrói suas casas com pedras vulcânicas, cozinha usando o calor da terra, enfrenta tremores de terra, enfrenta o mar, convive com baleias, aves, vacas... E enchendo a boca para falar de sua terra. Cativante.
Ontem, enquanto passávamos os olhos por uma lojinha, começamos a conversar com a moça que lá trabalhava. Mais que uma aula do sotaque açoriano (que já está parecendo mais compreensível), ganhamos várias dicas sobre as ilhas e uma conversa bastante simpática. Ah, estes simpáticos açorianos!
Susete - a moça da loja - falou dos moinhos de vento, contou histórias, lembrou Ne(p)tuno... E falamos de viagens e lugares, ela contou de sua Ribeira Grande, nós de nosso Brasil... Alô, Minas Gerais, Susete tem parentes aí! Laços que para alguns parecem pouco, mas que vão construindo um belo mosaico. Não esqueceremos tão cedo da fotografia de uma onda quebrando na costa e formando a imagem perfeita do perfil de Netuno, nem esqueceremos que a cavalgada da Ribeira Grande acontece no dia de São Pedro. Algumas das histórias de ontem. Mas não, Susete, eu não sabia nada disso antes, realmente foi apenas um exercício de prestar atenção às imagens, às datas e às palavras. Se o restante das ilhas oferecer uma recepção assim tão simpática, estaremos bem servidos.
E se puderes visitar teus parentes em Minas, não duvido de que será uma viagem inesquecível como esta que estamos fazendo!

sábado, 2 de maio de 2009

O idioma dos Açores

Já atravessamos uma vez e meia o oceano. Assim: do Brasil até o Porto, e em seguida do Porto até São Miguel, a maior das ilhas açorianas.
Aqui, o dia foi de caminhar pela cidade, experimentar o ar ilhéu, acostumar-se a ele. A cidade é muito bonita. Acabamos deixando para amanhã a exploração dos arredores de Ponta Delgada (a principal cidade), que deverá ser de muito mais contato com a natureza.
Agora, chama a atenção o modo de falar, o sotaque açoriano! Quando falam diretamente conosco, em geral, eu entendo (embora tenha tido uma ou outra dificuldade e minha mãe tenha pedido várias vezes para a pessoa repetir o que dizia!). Mas, quando "pescamos" alguma conversa na rua, entre pessoas da terra, é algo simplesmente incompreensível! Como se via bastante aqui, de vez em quando parávamos, curiosos, tentando identificar: que língua será esta que estão falando? Não raro acabávamos nos dando conta de que era apenas português... o português dos Açores!

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Próxima parada: Portugal


Tome o leitor as páginas seguintes como desafio e convite. Viaje segundo um seu projecto próprio, dê mínimos ouvidos à facilidade dos itinerários cômodos e de rasto pisado, aceite enganar-se na estrada e voltar atrás, ou, pelo contrário, persevere até inventar saídas desacostumadas para o mundo. (...) A felicidade, fique o leitor sabendo, tem muitos rostos. Viajar é, provavelmente, um deles. Entregue as suas flores a quem saiba cuidar delas, e comece. Ou recomece. Nenhuma viagem é definitiva.

Assim José Saramago apresenta a sua Viagem a Portugal, livro que é crônica, é guia turístico, e também é algo fascinante que eu me abstenho de descrever, pois o prêmio Nobel da nossa língua não precisa das minhas palavras a explicar as suas. Fato é que se trata de um livro incomum. Encantador.
Tanto quanto uma viagem a Portugal pode ser encantadora. Especialmente para nós brasileiros. Afinal, herdamos de Portugal a língua (e com a língua um certo modo de pensar) e aspectos de religiosidade, musicalidade, gastronomia. Acima de tudo, herdamos de Portugal a saudade de um povo navegador, cantada desde antes de Camões e ainda depois de Pessoa. Mesmo um brasileiro que não descende explicitamente de portugueses tem tudo isso muito vivo. Semelhanças e diferenças a serem exploradas.
Tudo isso para anunciar que meu próximo destino se encontra no além-mar, nas terras lusas. Desta vez, com a companhia de minha mãe, com quem compartilharei (ou multiplicarei) os passos. Viagem que se dividirá em duas partes: Açores e Portugal continental.
A parte do continente dispensa apresentações demoradas; será um trajeto não linear entre o Porto e Lisboa, do qual eu pretendo falar à medida que estiver sendo percorrido. E conhecer os Açores representa uma ligação afetiva com terras longínquas e pouco exploradas, talvez ainda mais afetiva do que aquela com as cidades do continente. Explico. Nascemos e nos criamos numa cidade fundada por açorianos. Mesmo que Porto Alegre hoje seja uma metrópole com inúmeras influências, das quais os colonizadores originais são apenas uma delas, a memória dos açorianos segue viva em monumentos e histórias. Faz parte do imaginário popular. Como se não bastasse, os Açores são não uma, mas um punhado de ilhas praticamente perdidas na imensidão do oceano. Pode haver algo mais simbólico que isso? Pode alguém como eu, que já escreveu sobre o mar, ilhas, cais, barcos e pescadores, não se sentir atraído pelos Açores? Nosso porto (e nossa Porto) cresce e se enobrece em vista de tantos portos.
Resta agora içar as velas e se lançar ao mar. Sem esquecer as cartas, tantas léguas a serem semeadas. Cada carta será um convite para nos acompanhar nesta viagem. Então... vamos a bordo!

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Uruguai, terra da Banda Oriental


Trilha sonora para esta crônica: Mi país, Rubén Rada

Eu era criança e viajávamos todo ano para o Uruguai. Cerca de meio dia na estrada entre Porto Alegre e Montevidéu. Muitas vezes, tínhamos a companhia das aves que voavam em bando, numa formação em V que me fascinava. Cortavam o céu, acompanhavam a estrada durante horas. Viajavam – daí a formação em V de viagem.
Eu, na verdade, não tinha consciência disto tudo. Mesmo cruzar a fronteira era um ato simples, que parecia não exigir esforço. Tal era a impressão causada, sobretudo, pela familiar recepção que tínhamos do lado de lá por aquela gente a cujo modo de falar eu logo me acostumei.
Até hoje tenho em Montevidéu amizades duradouras e sinceras. Como não se sentir em casa junto daquelas pessoas?
Tudo isso fez com que eu conhecesse um Uruguai que não era um país de guias turísticos, monumentos, cartões-postais. Até porque criança não repara nessas coisas. O meu Uruguai foi, desde sempre, um país que se revelava nos detalhes. Nas colheradas de doce de leite que eram oferecidas a nós, crianças. Nas fatias de goiabada. Nos trólebus que cortavam as avenidas do centro. Nos brinquedos do Parque Rodó, o parque de diversões da cidade. Nas nossas brincadeiras de criança, nós que corríamos pela rambla (a avenida litorânea) enquanto os adultos mateavam olhando para o rio. Nos sonhos de singrar o rio, que mais parecia mar, a bordo daqueles navios que zarpavam do porto. Nas visitas à livraria que mais parecia um mundo.
As primeiras e mais emocionantes incursões a livrarias de que me lembro foram todas em Montevidéu. Havia lá um grande sebo aonde minha mãe costumava me levar. Na minha memória, ficávamos lá durante horas. Enquanto ela garimpava Agatha Christie, eu descobria Júlio Verne, A Ilha do Tesouro, Sherlock Holmes... Aí nasceu meu gosto pela leitura: com estes livros, escritos em espanhol, naquela época em que aprendi que ler era fácil e divertido. Phileas Fogg, o capitão Nemo, o misterioso pirata da perna-de-pau eram companhias que eu poderia ter à hora que quisesse, sempre ao alcance da mão.
As estradas do Uruguai, estradas da minha infância, com o tempo foram ampliando horizontes. Elas me levaram a Punta del Este, onde a contemplação extasiada dos iates na marina começou a me convidar ao mar. Sonhava navegar, sonhava ao menos lançar mensagens enroladas no interior de uma garrafa. Quem as leria? A mensagem na garrafa seria não só uma viagem no espaço: seria uma viagem no tempo. Outra pessoa, de outra idade, em outra cidade, a receberia. Responderia?
As estradas tomam rumos diversos. Em minha última viagem à Banda Oriental, em 2006, meus olhos já eram mais de turista e menos de criança do que eu gostaria. O que não faz o tempo... A lembrança de tudo estava lá, mas o coração, já adulto, apesar das férias vivia algumas preocupações que não teriam cabido na criança. Pena é que demorei a me dar conta disto. E esse Uruguai que segue no meu roteiro de sonho, desde então não retornei para lá. As garrafas com mensagens? Bem, acho que o plano original evoluiu um pouco. Não lanço garrafas de qualquer tipo. Mas mensagens todos nós deixamos, e quem seguir meus passos encontrará exatamente isso – passos a serem seguidos ou não. Caminhos, alguns prontos, mas a maioria ainda por fazer. De sonhos, de palavras, de histórias.
Fotografia: eu e meu irmão em Montevidéu, 2004.

sábado, 4 de abril de 2009

Cartas de tantas léguas e a Banda Oriental

É chegada a hora de navegar em outros mares... Este blogue existe há quase um ano. Na época, criei o espaço para colocar as crônicas da minha viagem à Ásia e para servir de elo com o Brasil enquanto eu estivesse fora. E o blogue cumpriu seu objetivo, tanto que eu ainda me emociono ao reler as primeiras postagens e seus comentários. Agora, aquela viagem passou, outras viagens se aproximam...
Então, resolvi expandir o horizonte: falar não só daquelas bandas, mas de outras tantas que há por este mundo afora. É por isso que temos nova capa e novo título: das Bandas Orientais às Cartas de tantas léguas, novas bandas a serem exploradas. O endereço continua o mesmo, assim como a vontade de viajar. E assim como as cartas são, sempre, uma forma de viajar – talvez mais eficientes que mágicas botas de contos de fadas.
Para começar, falarei um pouco sobre como tudo começou, ou seja, sobre a verdadeira Banda Oriental...

Na geografia dos pampas, as águas têm um papel importante como marco de fronteira. Foram as águas, no caso, o rio Uruguai, que definiram a divisa entre os dois países hispânicos do pampa. A oeste do rio, ou seja, na banda ocidental, a Argentina. A leste, ou seja, na banda oriental do rio Uruguai, o país que hoje conhecemos como Uruguai e cujo nome oficial é República Oriental del Uruguay. Daí os uruguaios serem chamados, ainda hoje, orientales. E daí aquela região ser chamada historicamente de Banda Oriental, mesmo pelos gaúchos do Continente de São Pedro (Rio Grande do Sul), para quem a Banda Oriental ficaria na direção do ocidente.
Ainda criança, algumas das minhas primeiras viagens foram em direção à Banda Oriental. Na época, eu sequer imaginava que ira, um dia, conhecer “outras” bandas orientais... Prova de que o mundo dá voltas e nem sempre se consegue prever os caminhos.

terça-feira, 10 de março de 2009

Outras bandas: a Cidade Luz

Paris.
Sim.
Nas Bandas Orientais?
Bem, quem acompanhou minha viagem sabe que Paris fez parte do roteiro. Afinal, para se ir até o outro lado do mundo era preciso passar por algum lugar no caminho. No meu caso, Paris.
Que é, digam o que quiserem, deslumbrante.
Por isso, coloco aqui três imagens-momentos-motivos para se sonhar com Paris (e digo isso eu, que nunca fui um grande francófilo, tanto que preferi visitar China e Índia antes de pensar em uma viagem à França).

Motivo 1. Paris tem o charme de um livro antigo e bem conservado, de um tesouro que não sai de moda. É assim quando se caminha pelas margens do Sena, quando se flana pelas ruelas do Quartier Latin (flanar: verbo que parece ter sido criado para Paris; aliás, dizem que foi realmente criado para Paris), quando se descobre o cuidado com as fachadas, as calçadas, os lampiões, as estações de metrô.

Motivo 2. Paris é uma cidade muito fácil para o turista. A despeito da língua (mas quem se arrisca com o mandarim não pode reclamar do francês) e do preço. É fácil porque é fácil andar por ela, o que não impede o visitante de se perder uma vez ou outra - mas se perder no melhor sentido da palavra flanar. Boa parte das atrações estão ao longo do rio, e basta segui-lo para passar pelos principais pontos turísticos. Para quem não quer andar ou para os destinos mais distantes, a cidade tem literalmente centenas de estações de metrô: um meio fácil de se chegar a qualquer lugar. E para quem procura um meio-termo, um passeio agradável olhando a paisagem sem se cansar muito, Paris oferece simpáticas bicicletas de aluguel. Simpáticas e práticas. A ideia é simples e espanta que ainda não tenha sido adotada em outras cidades ao redor do mundo.

Motivo 3. Paris tem uma coleção de cartões-postais que dispensam apresentações: a torre Eiffel, o Louvre, a catedral de Notre Dame, o Arco do Triunfo... Para todos os gostos.

Só não falo mais porque o pouco tempo que passei lá não permite. Paris deixou-me uma certeza: preciso voltar a esta cidade para percorrê-la com calma...

texto e imagens por Eduardo Trindade

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Rajastani


Um personagem típico do Rajastão, na Índia. Notem o traje: o chamado kurta-pyjama, que é este conjunto de camisolão comprido (kurta) e calça longa enrolada no tornozelo (pyjama). Apesar do nome, é um traje considerado formal. O turbante, enrolado à maneira do Rajastão, denuncia a origem de quem o usa.
Detalhe: quando fiz esta foto, em Jaipur, não tive como escapar de dar uma gorjeta (Tip!). E esse onipresente pedido de gorjeta me incomodava bastante, não tanto pela quantia, mas principalmente pela insistência...

domingo, 25 de janeiro de 2009

Sinetes

Os sinetes orientais são carimbos esculpidos em pedra e usados pelos chineses em pinturas e peças de caligrafia como uma espécie de assinatura do artista. Além disso, muitos deles são extremamente bonitos e bem-elaborados, sendo por si só uma obra de arte. Na verdade, duas obras de arte em uma: além da escultura do carimbo, cujo corpo geralmente representa algum animal típico ou mitológico, há a gravura do nome do usuário, em ideogramas, na base. As livrarias que visitei possuíam alguns livros sobre essa técnica na seção de artes.
Sinetes assim são fáceis de se encontrar na China e seu preço pode variar bastante, dependendo do grau de elaboração da peça e, é claro, da capacidade de pechincha do comprador. E em alguns lugares se encontram artesãos que gravam o nome do interessado na hora.
Então: uma peça pequena, fácil de transportar; uma peça de arte original, ao menos para nós ocidentais; uma peça ligada à escrita e à pintura, que são duas de minhas paixões. Claro que eu não sairia de lá sem um sinete destes...
O meu tem a imagem tradicional do dragão chinês e os ideogramas do meu nome - ou pelo menos da "tradução" mais usual, que seria algo como Aidehua:


E esta é a banca de um vendedor/gravador de sinetes em Panjiayuan, um mercado fantástico de artesanato, antiguidades e curiosidades no sul de Pequim:


texto e imagens por Eduardo Trindade