sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Turim pelas beiradas

Eduardo Trindade
O motivo de minha ida a Turim foi a participação num congresso - o 5o. Congresso Mundial de Tribologia, no qual apresentaria um trabalho (minha primeira apresentação no exterior, em língua estrangeira!).
Daí que eu tinha uma semana em Turim, mas com a expectativa de pouco tempo livre para conhecer a cidade.
Acabou sendo excelente, a começar pelo congresso. Mas não é dele que quero falar aqui, e sim da minha experiência piemontesa - Turim é a capital da região italiana do Piemonte ("pé do monte"). Uma cidade cercada por picos nevados que já abrigou os Jogos Olímpicos de Inverno. E, sobretudo, uma cidade com muito mais atrações do que eu supunha.
Porém, vamos por partes. Para começar, uma viagem em que, ao invés de estar simplesmente "de férias", tem-se obrigações e horários a cumprir é sempre algo diferente - e interessante. Todo dia de manhã eu saía pontualmente para pegar o bonde que me levaria ao local do evento. E misturar-se com outros tantos que também pegavam o bonde, reparar nas pessoas que acordavam cedo, descobrir o movimento das ruas, transitar por lugares que não estão necessariamente no topo da lista de atrações turísticas... Tudo isso cria uma intimidade, eu e a cidade fomos nos tornando cúmplices de segredos que só os que não têm pressa descobrem. Minha pequena alegria das manhãs era quando o cobrador do bonde, depois de usar o inglês para pedir o bilhete de alguns óbvios estrangeiros, dirigia-se a mim em italiano. Ou quando, na rua, pediam-me alguma informação. Curioso comportamento do ser humano, que luta tanto para se destacar mas, no fundo, adora se misturar.
Eduardo TrindadeE a alegria do final de tarde era se esbaldar com o delicioso sorvete italiano; percorrer as ruas; percorrer principalmente as praças, muitas e tão bonitas elas; descobrir as surpresas da cidade. Assim fui sorvendo Turim pelas beiradas, aos poucos me aproximando do seu coração. É curioso e fascinante que Turim seja a capital por excelência de alguns símbolos italianos: uns quase banais, como os grissini e o gianduia ("pai" da Nutella!), outros grandiosos como o cinema e a indústria automobilística. Sim, a paixão italiana por carros se manifesta em todos os cantos da Bota, mas (Maranello à parte) é em Turim, casa da FIAT, que ela se mostra mais entranhada no espírito da cidade. Que, de quebra, possui um magnífico museu do automóvel... Mas a relação dos italianos com suas máquinas merece um capítulo à parte. O que vale dizer, por ora, é que é uma relação de quem vê o automóvel como objeto de arte, como elemento da família. Algo diferente do que se percebe nos Estados Unidos: se lá o que vale é a potência do motor escondido sob o capô, na Itália o diferencial são as curvas da carroceria. A Itália é um país de design, e isso se percebe em cada uma das marcas de Turim que se confundem quase com a história da cidade, do Cinquecento da Fiat às tradicionais canetas Aurora.
E claro, já que o futebol é tão caro aos italianos, ele também estaria muito bem representado por lá: Turim é a casa da Juventus, um dos times mais vitoriosos e de maior torcida do país. Mas quem acabou ganhando a minha simpatia foi o seu rival, Torino - pelas cores, pela história, pelo fato de eu passar todo dia em frente ao seu estádio e talvez também por um quê de provincianismo que, na minha cabeça, o identifica orgulhosamente com a cidade. Uma cidade da qual comecei a sentir saudades antes mesmo de ir embora.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

A faca mongol

Não é de surpreender que não haja tantas oportunidades de compras na Mongólia Interior quanto em Pequim. Mas eu, que ouvira falar das facas mongóis, queria vê-las e levar alguma para casa.
Há objetos que me fascinam, e entre eles estão as facas - fascínio que é provavelmente consequência da cultura gaúcha e que desde pequeno vi cultivado em casa, pois lembro do orgulho com que meu vô e meu pai exibiam suas lâminas favoritas.
E os mongóis, que em termos de cultura campeira estão para a China como os gaúchos estão para o Brasil, é claro que teriam alguma faca para fazer bonito na minha própria coleção.
Encontrei-a quando eu já não esperava: no acampamento em que estávamos havia uma lojinha, e na lojinha havia algumas facas. A maioria delas, de bainhas coloridas, objeto de decoração para turistas. Algumas, mais autênticas, tinham o cabo em osso, lâminas de qualidade e passavam a segurança de que, mais que para decorar, haviam nascido para serem usadas.
Tomei uma delas na mão e me apaixonei. Perguntei o preço, já me preparando para pagar algo exorbitante. Razoáveis 140 yuans - uma faca de qualidade semelhante no Brasil custaria pelo menos o dobro ou triplo. Controlei-me para não escolher uma segunda faca!
Saí plenamente realizado pela aquisição do meu objeto de desejo: uma faca mongol! Já me imaginava exibindo-a e usando-a no Brasil.
No dia seguinte, fomos à cidade de Baotou, onde pegaríamos o avião para ir da Mongólia Interior até Pequim. Fizemos o check-in, despachamos as malas... Eis que a bagagem é imediatamente inspecionada pelo raio X e me chamam a um canto: há uma faca na minha mala? Sim, mas é uma bagagem despachada! Não importa, não é permitido levar facas no avião para fora da Mongólia Interior. Quem diria!
Imaginem minha frustração. Não adianta discutir, também não adianta pensar em mandar a lâmina pelo correio - dizem-me que não é permitido, e pronto.
Deixei-a com PangPang, a prestativa chinesa que nos acompanhou em nossa visita à Mongólia Interior e que demorou um instante a entender que estava ganhando aquele presente.
E assim foi a história da faca mongol que fez parte da minha coleção durante um dia apenas.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Mongólia

O território da Mongólia histórica é dividido hoje entre a Mongólia Exterior (República da Mongólia), independente, e a Mongólia Interior, uma província autônoma da China. Embora a noção que a maioria de nós tem da Mongólia seja a do país independente, ambos os lados da fronteira compartilham muito da cultura e dos traços étnicos - mal comparando, assim como a cultura gaúcha se estende pelos pampas de Brasil, Uruguai e Argentina.
A língua mongol é falada nas duas Mongólias, embora seja minoria nas cidades do lado chinês. Curiosamente, no país do norte, por influência soviética, ela é escrita com o alfabeto cirílico, mas manteve o alfabeto mongol tradicional na parte chinesa. E só esse incrível alfabeto já é uma atração à parte.
Mas a atração maior é mesmo os campos, o "pampa mongol" onde se encontram famílias vivendo de acordo com os mesmos costumes há milhares de anos (verdade que algumas modernidades foram introduzidas, como motos e caminhões, mas outros aspectos, como o "banheiro natural", continuam surpreendentemente comuns).
Na Mongólia Interior, visitamos um acampamento mongol na região de Hutenxile. A paisagem do lugar é fascinante, mas creio que ainda mais fascinante é o contato com a gente simples que vive lá. Verdade que ficamos num acampamento para turistas (visitado principalmente por chineses, creio que éramos os únicos estrangeiros). Mas a cultura mongol está por toda parte. Somos recebidos, segundo a tradição, por braços que estendem lenços coloridos em sinal de boas-vindas. Oferecem-nos a aguardente local, que é indelicado recusar, e mais indelicado ainda deixar de fazer a pequena cerimônia: colocar o dedo anular na bebida e em seguida agitá-lo, oferecendo as primeiras gotas para divindades do céu, para divindades da terra e para os ancestrais - nessa ordem. Vemos alguns aobao - pilhas de pedras simbólicas do espiritualismo mongol - e adicionamos algumas pedras a eles.
Andamos a cavalo, num passeio pelo campo. O cavalo mongol é provavelmente o orgulho maior desse povo e, treinado à maneira deles, ignora solenemente nossos comandos ocidentais.
Somos levados, pela senhora que nos acompanhou no passeio a cavalo, ao interior da sua casa e recebidos dentro de seu próprio quarto. Comunicamo-nos por mímicas e olhares. Ela nos oferece pedaços de melancia. Aceitamos agradecidos mas, no quarto dela, não sabemos o que fazer com as sementes... É definitivamente insondável a etiqueta das refeições nesse lado do mundo. Na dúvida, engolimos as sementes de melancia, imaginando que esse pode ser um gesto natural mongol - ou que a senhora deve achar incrivelmente estranhos esses ocidentais que comem sementes. Depois, é-nos oferecida uma bebida insondável que acaba por ser simplesmente leite (de égua?) com chá.
Ao mesmo tempo em que vivenciamos tudo isso, somos também atração: alguns mongóis e chineses pedem para tirar fotos ao nosso lado; sorrimos e posamos para as câmeras, pedindo apenas fotos com eles em troca. De repente, pedem para ver nosso dinheiro, e em pouco tempo causamos um alvoroço: nossas notas de reais são cobiçadas e disputadas ansiosamente pelos mongóis.
À noite, somos avisados de que haverá uma festa com dança em volta da fogueira. Fico esperando uma apresentação folclórica mas, em vez disso, organizam uma mini-boate ao ar livre, com luzes e música bate-estaca, sob o olhar desconfiado do retrato gigante de Gêngis Khan a um canto. O inusitado chega ao máximo quando, entre as músicas, começam a tocar um funk carioca: "Ui! Adoro quando ela sobe e desce!..." Encolhemo-nos, torcendo para que, em vez de uma homenagem aos visitantes brasileiros, seja apenas uma coincidência e que eles não tenham ideia do que significa aquela letra.
Mas, afinal, a festa não dura muito, e somos liberados para uma noite de sono única numa tenda sob o céu estrelado dos campos mongóis. Noite que parece pequena para assimilar as sensações de um dia como aquele.

por Eduardo Trindade

terça-feira, 10 de setembro de 2013

(Nem sempre) roupa suja se lava em casa

Quando se viaja, é difícil gerenciar o estoque de roupas limpas.
Em férias, acabamos levando peças que duram aproximadamente uma semana; para as semanas seguintes, é necessário lavá-las: no próprio quarto do hotel, ou então em alguma lavanderia. Em geral, considero a primeira opção mais simples e cômoda, mas nem sempre ficamos numa mesma cidade o tempo suficiente para as roupas secarem. Então a lavanderia é mais conveniente.
E acontece que estávamos no verão de Guilin, província chinesa de Guangxi, uma combinação que faz qualquer um empapar em poucas horas na rua. A Renata já estava ficando sem roupas limpas.
Daí, depois de infrutíferas buscas pelas ruas e de perguntar para algumas pessoas, descobrimos que não é tão fácil assim achar uma lavanderia em Guilin.
O que fiz, então, foi procurar uma rede wifi e jogar "laundry" no Google Maps, que então mostrou a "Jiajie Laundry" numa ruazinha a 17 min de caminhada. Decorei a palavra chinesa para lavanderia e gravei no celular os três ideogramas que significam "lavagem de roupas". E lá fomos nós.
O Google nos levou a um endereço que se resumia a um espaço pequeno e atulhado de coisas, que parecia uma oficina mecânica ou loja de ferragens, mas que tinha entre a infinidade de quinquilharias um ferro de passar... e um velhinho chinês com cara de chinês e unhas amareladas que certamente nunca ouvira falar em Google Maps.
Mostrei para ele os ideogramas "lavagem de roupas" na tela do celular e ele assentiu. (Ressalve-se aqui o fato de que mímicas não são universais, gestos que faríamos no Brasil para simbolizar uma lavagem, perguntar o preço ou mesmo indicar os números perdem o sentido na China.) Bem, perguntei o preço (em mandarim) e ele respondeu 50 yuans - bem razoável. Então faltava descobrir a que horas buscar a roupa, mas eu simplesmente esquecera como se dizia isso em mandarim. Arrisquei: "zhenme zhou?" Ele corrigiu: "zhenme dian?" Repeti "zhenme dian?", sem muita convicção. Apontei para o relógio. Ele não entendeu. Insisti. O velhinho falou: "qi dian". Bem, "qi" é sete, deduzi que deveríamos passar lá às sete horas - eu estava quase seguro de que "dian" era a palavra chinesa para "hora". "Quase seguro?" - perguntou a Renata - "Tem certeza de que não são sete dias?" Eu não tinha tanta certeza. Voltei ao relógio, fui contando as horas em chinês e o velhinho sorria da situação, mas não conseguia transmitir segurança.
Então passou um outro chinês na rua. Bilíngue! E nos ajudou, confirmando em inglês que podíamos buscar as roupas às sete horas, afinal. O velhinho da oficina-lavanderia sorriu e, com ingênua cordialidade, ofereceu cigarros que recusamos gentilmente. Saímos deixando as roupas, apesar de que sentíamos certo calafrio a cada vez que víamos varais estendidos pelas ruas.
Voltamos pontualmente às sete. A alguma distância, reconhecemos as roupas no varal - aparentemente limpas! A alegria foi instantânea, banal e contagiante. O velhinho não estava lá, mas da porta ao lado algumas pessoas nos observavam e vieram nos atender. Sorriram, recolheram as roupas, pagamos. Convidaram-nos para entrar e tomar chá. Recusamos como havíamos recusado os cigarros, apesar de que fiquei com uma vontade de aceitar... Se ao menos conseguíssemos manter uma conversa mínima com eles! Bem, pelo menos a missão estava cumprida: roupas aceitavelmente limpas por mais alguns dias.