domingo, 9 de junho de 2019

Língua e literatura maias

Na semana passada, falei da cultura maia, e logo vem à mente a arquitetura deles - especialmente as pirâmides. Mas disse também que essa cultura ia além. E um dos exemplos mais impressionantes, para mim, está em sua escrita.
Os povos maias têm, na verdade, uma série de línguas distintas, embora aparentadas entre si: somente na Guatemala, 22 delas, de 5 ramos distintos, são reconhecidas como idiomas oficiais. Essa diversidade já existia na época pré-colombiana; então, a rigor, falar de uma língua ou uma literatura "maia" seria tão preciso quanto citar uma língua "europeia". Mas, como esse blogue não tem a pretensão de um trabalho acadêmico, vou me permitir falar sobre alguns aspectos que me chamaram a atenção nesse conjunto mais ou menos homoêngeneo de culturas escritas maias.
Para começo de conversa, os maias foram (até onde se sabe) os primeiros e únicos povos americanos a desenvolverem um sistema de escrita, o qual era baseado em símbolos elegantes e elaborados. Infelizmente, poucos destes textos chegaram até nós, pois a maioria se perdeu com o tempo ou com a conquista espanhola. Mas os que sobreviveram são de encher os olhos! Deem uma olhada nestas páginas coloridas de um dos raros almanaques maias que restaram.
Códice de Madrid

Trabalhos como esse são, a rigor, são mais de interesse linguístico e visual que literário. Obras literárias propriamente ditas chegaram até nós por via oral, e foram posteriormente compiladas em livros. O mais famoso destes é sem dúvida o Popol Vuh, muitas vezes dito ser, a título de comparação, a "Bíblia Maia". Ele é, na verdade, uma narrativa mítica de um dos vários povos maias e contém, entre outras coisas, o mito da criação do mundo.



Numa inusitada transposição de uma forma de arte a outra, tivemos o privilégio de jantar, no restaurante Flor de Lis, um menu totalmente baseado no Popol Vuh. Surpreendente como cada prato recria, de forma absolutamente criativa, alguma das passagens do livro. O próprio mito da criação do Popol Vuh dá uma dica, afinal segundo ele os homens foram feitos de milho (hombres de maíz) - não sem antes algumas tentativas fracassadas com barro e madeira. Ao final, pudemos conversar com o chef Diego Télles, uma pessoa simpática dotada de talento tão grande quanto sua criatividade. Uma joia garimpada à margem do circuito gastronômico internacional.




Finalmente, outra expressão que não é puramente literatura maia, mas que bebe dessa fonte, é a obra do autor guatemalteco Miguel Ángel Astúrias, ganhador do Prêmio Nobel. Seu livro Hombres de Maíz é uma leitura difícil, justamente por incorporar muitos termos e referências da cultura maia e camponesa, mas é de uma criatividade fascinante. Como no próprio Popol Vuh, são histórias encadeadas que, ao final, compõem uma grandiosa tela. Ler qualquer um deles - Hombres de Maíz ou o Popol Vuh - é compreender melhor uma cultura diferente da nossa e aceitar que homens simples, com costumes tão diferentes, têm as mesmas aspirações, dores e desejos que nós mesmos.



terça-feira, 4 de junho de 2019

Mundo Maia

Se, por um lado, a Cidade da Guatemala permite que se tenha um vislumbre do cotidiano e das cores do país, é viajando para o interior que se conhece uma das heranças mais impressionantes de todo o continente: a cultura maia. Uma história riquíssima e complexa, da qual quase não se ouve falar. E, entretanto, cada uma das civilizações mesoamericanas (e americanas de forma geral) não deve nada às suas equivalentes europeias. De ambos os lados do oceano se desenvolveram culturas com aspectos positivos e negativos - nada mais humano. Estamos falando de arquitetura, línguas, passatempos, gastronomia, mas também de guerras, disputas por poder e vidas sofridas. Somos todos humanos, em qualquer parte do globo.
Pois no norte da Guatemala está a pequena cidade de Flores, capital do departamento de Petén. A cidade, localizada numa ilha no lago de Petén Itzá, é pitoresca por si só. Mas é em torno dela, no interior do departamento de Petén, que se localiza uma das joias da América Central: as ruínas das antigas cidades maias. A mais famosa delas é Tikal, mas há outras. São cidades inteiras escondidas na selva: caminha-se no meio do mato e vai-se descobrindo aos poucos cada estrutura. Algumas restauradas e expostas em clareiras, outras escondidas sob a floresta, as mais altas despontando acima da altura da copa das árvores. Ao final do dia, andou-se alguns quilômetros e não se chegou a ver tudo.
É uma perspectiva bem diferente de Teotihuacán, a imponente cidade asteca no atual México. Lá, a ausência de vegetação faz com que se possa ter facilmente uma visão geral das ruínas num passar de olhos. No caso maia, estamos falando de cidades que vão se mostrando aos poucos e que, assim, guarda seguidas surpresas ao visitante.
E se a beleza das construções antigas misturadas à vegetação nativa enche os olhos, também não deixa de impressionar a constatação de quantas pessoas viveram ali, tiraram da terra (e especialmente do milho) o seu sustento, deixaram nela suas alegrias e suas tristezas. O que dá vontade de pesquisar mais, de buscar livros novos e antigos, que por sua vez levam à descoberta de novas belezas. O "Mundo Maia" (que é, apropriadamente, o nome do aeroporto da cidadezinha de Flores) é uma teia de aranha que, como tal, não se pode descrever em poucas palavras.