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terça-feira, 4 de junho de 2019

Mundo Maia

Se, por um lado, a Cidade da Guatemala permite que se tenha um vislumbre do cotidiano e das cores do país, é viajando para o interior que se conhece uma das heranças mais impressionantes de todo o continente: a cultura maia. Uma história riquíssima e complexa, da qual quase não se ouve falar. E, entretanto, cada uma das civilizações mesoamericanas (e americanas de forma geral) não deve nada às suas equivalentes europeias. De ambos os lados do oceano se desenvolveram culturas com aspectos positivos e negativos - nada mais humano. Estamos falando de arquitetura, línguas, passatempos, gastronomia, mas também de guerras, disputas por poder e vidas sofridas. Somos todos humanos, em qualquer parte do globo.
Pois no norte da Guatemala está a pequena cidade de Flores, capital do departamento de Petén. A cidade, localizada numa ilha no lago de Petén Itzá, é pitoresca por si só. Mas é em torno dela, no interior do departamento de Petén, que se localiza uma das joias da América Central: as ruínas das antigas cidades maias. A mais famosa delas é Tikal, mas há outras. São cidades inteiras escondidas na selva: caminha-se no meio do mato e vai-se descobrindo aos poucos cada estrutura. Algumas restauradas e expostas em clareiras, outras escondidas sob a floresta, as mais altas despontando acima da altura da copa das árvores. Ao final do dia, andou-se alguns quilômetros e não se chegou a ver tudo.
É uma perspectiva bem diferente de Teotihuacán, a imponente cidade asteca no atual México. Lá, a ausência de vegetação faz com que se possa ter facilmente uma visão geral das ruínas num passar de olhos. No caso maia, estamos falando de cidades que vão se mostrando aos poucos e que, assim, guarda seguidas surpresas ao visitante.
E se a beleza das construções antigas misturadas à vegetação nativa enche os olhos, também não deixa de impressionar a constatação de quantas pessoas viveram ali, tiraram da terra (e especialmente do milho) o seu sustento, deixaram nela suas alegrias e suas tristezas. O que dá vontade de pesquisar mais, de buscar livros novos e antigos, que por sua vez levam à descoberta de novas belezas. O "Mundo Maia" (que é, apropriadamente, o nome do aeroporto da cidadezinha de Flores) é uma teia de aranha que, como tal, não se pode descrever em poucas palavras.

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Escópia, a surpreendente capital da Macedônia

Čaršija, o centro antigo
Escópia, a capital da Macedônia, é uma das cidades mais surpreendentes que já visitei. Por mais que cada cidade dos Bálcãs (uma região particularmente diversa) tenha suas peculiaridades, a capital macedônia atual encontrou uma forma única de se diferenciar.
Ao que parece, a cidade - chamada de Skopje ou Скопје nas línguas locais - era um lugar relativamente cinza e sem graça durante a maior parte das últimas décadas. Em 1963, um terremoto arrasou a cidade. O desastre, porém marcou a região de duas formas talvez inesperadas. A primeira delas, política: foi um grande exemplo (ou oportunidade, ou pretexto) para o Marechal Broz Tito, o poderoso presidente da Iugoslávia, usar sua diplomacia visando a atrair investimentos da comunidade internacional. Em plena Guerra Fria, a Iugoslávia gozava de uma posição ímpar: um país não-alinhado, o que tornou possível que o esforço de reconstrução da cidade fosse feito com ajuda tanto do bloco ocidental quanto do bloco dito comunista. Até hoje, muitos logradouros de Escópia têm nomes que homenageiam doadores que ajudaram na reconstrução: a rua México, o quarteirão russo, os blocos sueco e finlandês.
Ponte das Artes sobre o rio Vardar
Mesmo assim, a cidade reerguida dos escombros não deixava de ter a cara da arquitetura socialista iugoslava, ou seja, continuava um tanto cinza e sem graça.
A coisa toda mudou radicalmente há poucos anos, quando a prefeitura resolveu executar um grande plano de reurbanização, enchendo a cidade de monumentos, pontes e prédios grandiosos. O conceito de arquitetura neoclássica foi levado às últimas consequências em colunas, fachadas e outros elementos que lembram nitidamente a antiguidade da região. Algumas das construções impressionam pelo tamanho, outras pelo realismo, outras ainda por um ar, digamos, kitsch - um exemplo é o inacreditável hotel em que ficamos, erguido sobre pilares cravados no rio para imitar um barco. Inusitado, sem dúvida. O hotel-navio disputa a atenção dos passantes com fachadas cheias de colunas, pontes repletas de estátuas e monumentos como o de Alexandre, o Grande. Isso sem contar que em fevereiro de 2017, quando visitamos, a cidade continuava com diversos canteiros de obras a anunciar futuros acréscimos à paisagem.
Uma das muitas estátuas
Não faltam críticos a essa política de urbanismo. Alguns dizem que se trata de desperdício de dinheiro para um povo que não é exatamente rico. Outros dizem que as construções não são "autênticas" ou que deixam de lado a oportunidade de valorizar o trabalho de artistas de vanguarda. Há quem fale que estão transformando Escópia numa Las Vegas dos Bálcãs. Eu particularmente acho as críticas exageradas. Pode haver controvérsias, sim, mas não me resta dúvidas de que todas essas obras fazem da capital macedônia um lugar muito bonito - e quem não gosta de viver num lugar bonito? E as partes antigas da cidade - como as ruínas do forte, o velho centro e os templos - estão sendo preservadas. As novas obras trazem consigo corrupção e desvio de verbas? Provavelmente sim, infelizmente, duma forma que nós brasileiros ja estamos (vergonhosamente) acostumados. Mas é claro que o embelezamento da cidade não é o culpado pela corrupção e não deve ser atacado por isso; não culpemos os frutos sadios pela parte podre. Enfim, o fato é que é difícil ficar indiferente quando se visita Escópia e, ao mesmo tempo, vê-la pessoalmente ajuda muito a entendê-la - como sói acontecer com as cidades, principalmente as longínquas.

Hotel Senigalia, construído num (falso) navio

domingo, 13 de março de 2016

Pirâmides do México

Ao andar pelo México, é impossível não se deparar com referências à cultura pré-colombiana. Na comida. Nos nomes dos logradouros e em várias palavras de uso corrente (vocês sabiam que chapulín é o nome de um tipo de grilo?). Em representações artísticas (de painéis, pinturas e esculturas a jóias e amuletos, são inúmeros os objetos com traços astecas).
Porém, a herança mais palpável dos povos que habitaram o México é, sem dúvida, feita de pedra: as suas pirâmides, templos e cidades. A humanidade, por algum motivo, parece gostar de pirâmides. A eterna vontade de se aproximar do céu, talvez. Ainda hoje, visitar as ruínas dessas pirâmides que fomos deixando ao longo da história é impressionante.
Nos arredores da Cidade do México fica a antiga cidade de Teotihuacán. Acordamos cedo para ir até lá e fomos recompensados: as hordas de turistas ainda demorariam um pouco para chegar e, assim, tínhamos Teotihuacán e suas pirâmides quase que só para nós. Um dia frio, com o sol recém começando a se mostrar; caminhamos pela avenida central, subimos e descemos as pirâmides, enquanto alguns balões passam no horizonte. As ruínas de Teotihuacán tiram o fôlego pela paisagem e pelo esforço de subir todos aqueles degraus.
Um pouco mais longe, já no estado de Puebla, está a pirâmide de Cholula. Que é, esta sim, bastante inusitada para quem chega com a ideia de uma pirâmide clássica. A grande pirâmide de Cholula é considerada a maior do mundo em área e em volume, mas não em altura (a esse respeito, a comparação da Wikipedia é bastante interessante). E tem a particularidade de estar, hoje, quase completamente tomada pela vegetação, a ponto de que  um desavisado poderia chegar ao topo com a impressão de estar subindo um morro, e não escalando uma pirâmide. No alto há uma igreja católica que remonta ao século XVI, o que disfarça ainda mais a pirâmide original. Controverso, talvez, mas não de todo surpreendente: afinal, é o eterno desejo de se aproximar do céu.


domingo, 11 de janeiro de 2015

O Grão-Duque e os Castelos

Qualquer viajante razoável terá visitado repúblicas: países como a Argentina, os Estados Unidos, França, Itália ou Portugal. Sem contar nosso próprio Brasil ou tantos outros lugares por esse planeta afora.
Muitos terão ido além e visitado algum reino. Como o Reino Unido, claro, mas também a Espanha ou o célebre Reino da Dinamarca, além de outras terras nórdicas. Para quem não está acostumado, a proximidade com reis e rainhas não deixa de ser curiosa.
Com sorte ou disposição, o viajante terá pisado num território governado por um príncipe - a começar pelo Principado de Mônaco.
Assim, juntamente com cidades e países, vai-se colecionando formas de governo.
Pois bem, hoje é dia de falar de um lugar que tem um Grão-Duque como chefe de estado. Adivinharam? Trata-se de Luxemburgo.
Afinal, esse pequeno e belíssimo país espremido entre a Bélgica, a França e a Alemanha é um Grão-Ducado. Fotos e imagens alusivas ao grão-duque e à família real - ou seria (grã-)ducal? - são encontradas facilmente nas lojas da capital.
Sei muito pouco sobre o Grão-Duque, mas ele é certamente alguém de sorte, pois não apenas nasceu em berço de ouro, mas num país que é uma verdadeira joia europeia, cenário de contos-de-fadas. E poliglota, se contarmos que um lugar tão pequeno tem três línguas oficiais, incluindo a sua própria (luxemburguês) e que todos por lá também falam inglês.
Mas talvez o mais legal seja mesmo percorrer Luxemburgo em busca de seus castelos. Para início de conversa, como o país é pequeno, não é difícil ir de uma ponta à outra. Saímos da capital, que por si só já vale a visita, e percorremos uma sucessão de vales sinuosos, muito deles pontuados por rios estreitos. E, no alto das colinas, castelos típicos exatamente como imaginamos que devem ser: muralhas de pedra, cercados por fossos e com ponte levadiça, torreões e tudo o mais.
Começamos pelo castelo de Vianden, que corresponde bem à descrição que fazemos mentalmente. O castelo, por dentro e por fora, é lindo, e está repleto de histórias de reis, de grão-duques e de guerra (não esquecer que castelos tinham um fim bélico). Não somente de guerras medievais: o de Vianden chegou a desempenhar papel fundamental na Segunda Guerra, quando foi sitiado pelos nazistas na sua invasão de Luxemburgo.
Em Esch-sur-Sûre, o que chama a atenção é a minúscula cidade cortada por um rio. Dali, subindo uma ladeira não muito longa, chega-se às ruínas de outro castelo. Que se destaca sobretudo pela vista que oferece do vale, do rio e da própria cidade. Dê-lhe encher os olhos e os cartões de memória das câmeras com essa paisagem!
Descendo do castelo até o que parece ser o centro de Esch-sur-Sûre, encontramos um lugar para almoçar.
Seguindo caminho, mais além encontramos o castelo de Bourscheid. Nesse, os muros parecem ainda mais antigos que em Vianden (certamente, a sua última reforma é que é mais antiga).
Depois, o dia já está chegando ao fim, e voltamos à cidade de Luxemburgo, a capital. Onde, para não fugir à regra, não faltam castelos e construções fortificadas - e esses, em geral, conseguimos explorar a pé. Para citar um último, há o Forte Thüngen que, perfeitamente restaurado, guarda um museu de história que tem tudo a ver com o passeio.

sábado, 23 de outubro de 2010

As fontes de Minas

Sabemos que, há alguns séculos, não se falava em água encanada nas casas, isto seria um luxo inimaginável mesmo para as famílias abastadas. Daí a importância das fontes públicas de água, comuns nas cidades e vilas pelo Brasil afora. O interessante é que, em muitos lugares, ainda hoje pode-se ver algumas destas fontes preservadas e imaginar a rotina daqueles tempos, em que a dona de casa (ou, no mais das vezes, um escravo ou escrava) ia diariamente até a fonte buscar água para a cozinha, para a higiene da família, enfim, para todos os usos. Havia também a figura do aguadeiro, profissão herdada dos ibéricos e já desaparecida, que percorria as ruas oferecendo barris de água. Conta-se que os aguadeiros formavam filas nas fontes ou chafarizes, onde se abasteciam, antes de sair apregoando água fresca para a população.
E quem vai a Minas Gerais tem um prato cheio para se observar as fontes remanescentes desta época, pois muitas foram conservadas e algumas até ainda jorram água. Vale registrar algumas delas.


Chafariz da Glória, em Ouro Preto, com as tradicionais carrancas que jorravam água.














Chafariz do Pilar, também em Ouro Preto, um dos que foram restaurados para voltar a fornecer água como no século XVIII. Detalhe para as flores de jacarandá que formam um belo tapete na primavera.
















Chafariz de São José, na pequena Tiradentes, um dos mais imponentes. Servia para abastecimento da população, para as lavadeiras de roupas e também como bebedouro para animais, principalmente cavalos. Notem que possui até mesmo um oratório no centro.














E este obviamente não é um chafariz histórico de Minas, mas sim uma peça do variado artesanato em pedra-sabão daquele estado. Trouxe-o de Ouro Preto, torcendo para que não se quebrasse na viagem, e hoje ele faz parte da minha galeria de lembranças de viagem.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Viagem à roda da minha cidade

Boa parte das pessoas, mesmo dizendo adorar conhecer novos lugares, esquece-se de visitar sua própria cidade. Porém, é às vezes tão perto de casa que encontramos as cenas e os cenários mais encantadores! Procuro evitar este mal: sempre que posso, fecho os olhos e torno a abri-los diante das ruas que se oferecem aos meus passos. E assim vou descobrindo lugares. Ou redescobrindo. Uma visita à cidade onde nasci acaba trazendo muitas novidades, e não há tempo para achar que já sei de cor a paisagem, de tanto olhar para ela.
Nesta semana, uma região de Porto Alegre que, embora não estivesse nos meus trajetos mais habituais quando eu morava lá, desde cedo foi para mim um símbolo da cidade. Dali, num relance, avistam-se alguns dos nossos mais típicos cartões-postais. Que, de tão óbvios e tão integrados à paisagem, podem nem chamar a atenção de quem pensa estar, também, integrado à paisagem. Falo da histórica Ponte de Pedra, lembrança de uma Porto Alegre antiga. Do Centro Administrativo, marco de uma cidade moderna (embora o prédio de arquitetura marcante já exista há um bom tempo). E, claro, do Monumento aos Açorianos, emblema de Porto Alegre, ligação da cidade atual com a vila primitiva e seus fundadores.
Poucas vezes eu havia passado por ali com uma câmera na mão. Foi o que fiz agora, com a sorte de poder contar, também, com o céu limpo e com o coração bem disposto. Valeu a pena. Sempre vale a pena reencontrar os ângulos de que a cidade natal se vale para nos falar.