sábado, 30 de janeiro de 2016

Viagens Extraordinárias e livros que incentivam a rodar o mundo

Descobri Júlio Verne quando criança, num sebo aonde fora levado por minha mãe. De Verne foram os primeiros "livros de adulto" (ou seja, livros com mais texto que ilustrações) que me lembro de ter lido.
A verdade é que, embora hoje algumas das suas previsões mais ousadas estejam, digamos, ultrapassadas, são obras que não perderam o brilho. Ao contrário, têm se renovado. Afinal, continuam sendo lançadas novas edições e adaptações para A Volta ao Mundo em 80 Dias, Viagem ao Centro da Terra, Vinte Mil Léguas Submarinas e outros tantos.
Júlio Verne não foi só um escritor de sucesso, foi também um autor bastante prolífico: ao longo de mais de quarenta anos, publicou dezenas de Viagens Extraordinárias - esse era o título da série de livros que lhe deu fama.
O interessante, aqui, é que esses livros tinham todos os ingredientes básicos para atrair uma criança como a que era eu. Ou, de outra forma, é possível encontrar neles sementes que ajudaram a moldar meus gostos (e não falo só do gosto por livros) e meu caráter. As Viagens Extraordinárias tratam basicamente de aventuras (talvez uma das formas mais infalíveis de se prender o leitor), ciência (não à toa, Júlio Verne é considerado um precursor da ficção científica) e viagens (lugares longínquos, descrições geográficas, históricas e antropológicas). E sempre com tiradas de humor e de romance. Cada história se passa num lugar diferente - seja a África, a Rússia, o céu ou o fundo do mar. Os personagens costumam ser de nacionalidades diferentes, e com características quase sempre aderentes à nacionalidade (de forma um pouco estereotipada para um crítico dos dias de hoje, mas ainda assim válida) - o inglês é metódico e preciso, o francês perto dele é irreverente e despreocupado, o estadunidense é empreendedor, o nórdico é de poucas palavras e absolutamente leal. E, claro, as referências ao desenvolvimento científico e tecnológico são marcantes - a ida à Lua, o submarino, cálculos físicos e análises geológicas estão todos lá.
 Se não propriamente um aventureiro, cresci meio cientista e viajante. Cheguei à conclusão de que toda viagem pode ser extraordinária. E apreciador de livros, incluindo os de Júlio Verne.
Daí que, visitando Paris, a Renata me presenteou com algo realmente fantástico: uma edição especial de Vinte Mil Léguas Submarinas em seu idioma original. Eu já teria adorado ganhar a mais humilde das edições; pois essa é recheada com todo tipo de maravilha relativa ao romance: a planta do Nautilus, o mapa da viagem, fac-símiles das ilustrações originais e de manuscritos do autor. E tudo isso das mãos da mulher que eu amo cada vez mais, minha mais completa viagem extraordinária.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Krtek, a toupeirinha

Krtek - literalmente a Toupeira - é um personagem de desenho animado tchecoslovaco ou, mais precisamente, tcheco (seu criador é tcheco e e ela nasceu em Praga mas, na época, o que existia era a Tchecoslováquia e os dois atuais países da região eram ainda mais ligados do que hoje). Trata-se de um desenho singelo, simpático, voltado para crianças mas fácil de cativar gente grande como nós. No final das contas, mesmo sem nunca termos visto a Toupeirinha quando pequenos (a Guerra Fria contribuiu para deixar muitas coisas longe de nós por muito tempo, e mais coisas ainda longe do lado oriental), não há como não se afeiçoar a ela. O clima do desenho lembra um pouco o de alguns desenhos da nossa própria infância, porém sem a maldade que havia (e nem sempre percebíamos) num Pica-Pau ou num Tom & Jerry.
Hoje já é bem mais fácil transitar entre os dois lados da ex-Cortina de Ferro, e assim a Toupeirinha não só viajou o mundo como já virou até astronauta, numa das missões do ônibus espacial Endeavour! Infelizmente ainda não é fácil achar vídeos dela no Youtube, mas alguns dos desenhos animados estão disponíveis na Internet e o que coloquei abaixo é um bom exemplo.
Enfim, no nosso caso, conhecemos a Toupeirinha enquanto andávamos por terras tchecas e eslovacas. Ela está na televisão dos dois países, assim como está nas livrarias e em referências diversas (camisetas, bonecos, bonés) das cidades de lá. A Toupeirinha é um tanto atrapalhada, mas tem bom coração. Sua curiosidade às vezes a coloca em confusão; em compensação, sempre há algum amigo disposto a ajudá-la.
Foi amor à primeira vista, claro. Como resultado, nós a trouxemos para casa, onde ela imediatamente faz amizade com o Puffin. Hoje, onde um vai, vai o outro junto! Aliás, quando soube que eu estava escrevendo sobre a Toupeirinha, o Puffin fez questão de deixar uma mensagem para ela. Aqui vai: próóóóóó!!!

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Guia Puffin de Gastronomia 2016

Depois do sucesso da primeira edição do Guia Puffin de Gastronomia, chegou a hora de apresentar os melhores restaurantes do ano que se passou! 2015 teve grandes viagens e mesas dignas de nota. E, assim, a Renata e eu não poderíamos nos furtar à difícil (e agradabilíssima) tarefa de listar os restaurantes que mais nos encantaram. A seleção deste ano teve até cédula de votação preenchida pelos jurados!
Foi adotado o critério de que as casas que apareceram na edição anterior não entrariam na lista desse ano para, assim, dar oportunidade às nossas novas descobertas. Então, relembrando, o Guia Puffin de Gastronomia distribui entre uma e três enguias para os estabelecimentos que proporcionaram as mais excepcionais experiências gastronômicas - incluindo na avaliação a comida, o ambiente, o serviço, enfim, a experiência completa. Na lista passada, o Olympe, no Rio de Janeiro, e Le Louis XV, em Mônaco, foram os agraciados com três enguias.
Enfim, sem mais delongas... a edição 2016 do Guia Puffin de Gastronomia!

Oui Oui, Rio de Janeiro - 1 enguia
Cozinha: Roberta Ciasca
É um restaurante acolhedor e relativamente simples, com cara de bistrô. Os pratos escolhidos no menu podem ou não ser compartilhados. A proposta é que, como os itens em geral não são grandes, é possível montar uma pequena degustação combinando algumas das diversas opções oferecidas.
Particularidade: a chef também comanda outro restaurante, o Miam Miam, no mesmo bairro (Botafogo).

CT Brasserie Fashion Mall, Rio de Janeiro - 1 enguia
Cozinha: Claude e Thomas Troisgros - chef convidado: Batista
A família Troisgros aparentemente comanda alguns dos melhores lugares para se comer bem no Rio de Janeiro (sim, o Guia Puffin é fã da sua cozinha, afinal este é o terceiro restaurante Troisgros listado!). O CT Brasserie é um restaurante de shopping (na verdade, são dois restaurantes, cada um num shopping da cidade), e isso faz com que ele seja relativamente informal, sem deixar de ser muito agradável.
Particularidade: conforme entreguei aí acima, quem comandou a cozinha na noite de nossa visita foi o Batista, o simpático braço-direito de Claude Troisgros. Era a estreia dele no controle do cardápio, que ganhou um sotaque tão nordestino quanto o próprio Batista - e ganhou também nossa total aprovação.

Manu, Curitiba - 2 enguias
Cozinha: Manoella Buffara
Que haja um restaurante do nível do Manu fora do eixo Rio-SP é uma bela notícia. Uma cozinha autoral bastante criativa, com uma sequência de pratos bem-elaborada, que nos conquistou desde o primeiro bocado. Saímos de lá mais que satisfeitos e, ao mesmo tempo, com vontade de recomeçar.
Particularidade: a chef comanda pessoalmente a cozinha e, ao final do serviço, veio conversar pessoalmente conosco. Este tipo de atenção, na opinião do Guia Puffin, faz toda a diferença!

Eleven, Rio de Janeiro - 2 enguias
Cozinha: Joachim Koerper
Eleven é um premiado restaurante português que abriu em 2015, no Rio de Janeiro, sua primeira filial. O cardápio tem alguns toques portugueses, mas é essencialmente contemporâneo. O atendimento que tivemos foi particularmente notável.
Particularidade: o chef é alemão, casado com uma brasileira, e comanda a matriz do restaurante em Lisboa. Com uma mistura dessas, não surpreende que tenha aterrissado no Rio de Janeiro!.

Tegui, Buenos Aires (Argentina) - 2 enguias
Cozinha: Germán Martitegui
Ultrapassando a entrada discreta, chega-se a um salão amplo e elegante onde provamos um cardápio repleto de ingredientes naturais típicos da culinária argentina preparado com um olhar inovador. Apenas para dar uma ideia: pão de erva-mate no couvert, mollejas como eu nunca tinha provado antes, a melhor cremona de nossas vidas... Até a alface era indescritível.
Particularidade: o chef Germán Martitegui é um dos jurados do Masterchef Argentina (que, diga-se de passagem, está muito acima da versão brasileira do programa). Ao chegar à mesa, um cartão dizendo que "o que acontece no Tegui fica no Tegui" pede que se evitem fotos.

Lasai, Rio de Janeiro - 2 enguias
Cozinha: Rafa Costa e Silva
Quando poderíamos sonhar com uma comida desse nível tão perto de casa que se pode ir a pé! O restaurante funciona num casarão amplo e o cardápio consiste numa maravilhosa sequência de degustação, daquelas que não saem facilmente da cabeça. A apresentação de cada prato é particularmente bonita e criativa.
Particularidade: ao chegar, somos convidados a subir para o terraço, ao ar livre, onde servem os primeiros aperitivos. Depois, passamos para nossa mesa no salão. Entre o terraço e o salão, passamos pela cozinha, impecável!

La Degustation Bohême Bourgeoise, Praga (Rep. Tcheca) - 2 enguias
Cozinha: Oldřich Sahajdák
No centro da bela cidade de Praga, o restaurante se esmera na criação de um menu a partir de produtos tchecos. Oferece, assim, versões elevadas de pratos que são, de certa forma, típicos da região: ingredientes nobres da culinária internacional estão presentes mas, muitas vezes, quem brilha mesmo é a beterraba ou o salsão.
Particularidade: provamos o menu degustação harmonizado com sucos, o que acrescentou ainda mais sabor à experiência.

Maaemo, Oslo (Noruega) - 3 enguias
Cozinha: Esben Holmboe
Este restaurante é certamente uma experiência inesquecível. Elegante e impecável em cada detalhe. Perdemos a noção do tempo (nossa refeição começou à tarde e foi terminar já de noite, sempre sob a luz do sol noturno escandinavo), mas sabíamos que estávamos em boas mãos, com o ritmo dos pratos se sucedendo à perfeição, harmonizados com sucos igualmente perfeitos. O cuidado no atendimento e na apresentação dos pratos é dos melhores que já vi. Cada preparação (sempre com ingredientes frescos) tem uma motivo e uma história que nos é contada com paixão. Mesmo sofisticado, o restaurante consegue mostrar raízes bem definidas na comida norueguesa tradicional.
Particularidade: como o restaurante fica num segundo andar, um pouco escondido de quem passa, ainda no meio da rua fomos surpreendidos pelo recepcionista que nos esperava chamando pelo nome. Depois, no meio da sequência de degustação, num intervalo providencial, somos convidados a visitar a cozinha e conhecer cada um dos responsáveis pelos pratos daquele dia.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Buenos Aires e o tango

Buenos Aires é certamente uma das cidades estrangeiras mais visitadas por brasileiros. Nós mesmos já havíamos estado lá antes, assim que voltar a visitá-la, agora, foi mais um reencontro que um grande ineditismo. Não importa; o centro, San Telmo, a Recoleta, La Boca, sempre valem a pena.
O fato é que os reencontros permitem que a gente repare no que havia passado despercebido na primeira ocasião. Os olhos e a mente trabalham num ritmo diferente. Num compasso de dois por quatro. Ou seja, tango.
O tango não é exclusividade argentina mas, aparentemente, nenhuma outra cidade tem tanto a cara de um tango quanto Buenos Aires. E, da mesma forma, nenhum outro estilo musical tem tanto a cara de Buenos Aires. Senão, vejamos. Um estilo multifacetado: é música, é canção, é dança. De origem humilde, mas aparência aristocrática (e capaz de unir classes sociais). É um clássico: antigo, sim, mas nunca antiquado. E suscita paixões ardentes, para o bem e para o mal.
O tango é orgulhoso. Nasceu pobre, nos arrabaldes de Buenos Aires e de Montevidéu; fez sucesso em Paris, depois em Hollywood; e hoje ostenta um olhar altivo e um figurino emblemático, do chapéu escuro aos sapatos de couro. Mas também dispensa qualquer figurino quando surge numa milonga, numa esquina ou na praça de um shopping. Como a alma argentina, que não esmorece diante de políticas fracassadas e crises econômicas e segue adiante, embalada pela arquitetura imponente dos prédios antigos (mas não antiquados) da capital portenha. Há alguns anos, em minha primeira passagem por Buenos Aires, encontrei inúmeras pechinchas de CDs nas lojas de música. A economia do país não passava por um bom momento e, como uma das consequências, todas as maiores vozes do universo latinoamericano e mundial eram oferecidas quase de graça. Todas, exceto as que cantavam tango: o ritmo nacional não entrava em promoção, ninguém rebaixava a voz de Gardel. O tango era a derradeira resistência na montanha-russa da economia argentina.
Foto: Renata TeixeiraSe alguém quiser uma discussão acalorada, basta ir a Buenos Aires e sustentar, diante de um apreciador de tango, que Carlos Gardel era uruguaio. Pode ou não ser verdade e, por irrelevante que pareça, a controvérsia tenderá a ser tão acalorada quanto uma disputa entre River e Boca. Parece que, em Buenos Aires, as maiores paixões começam ou terminam em tango ou futebol.
Fomos ao Abasto, região tanguera de Buenos Aires. Lá, entre outras coisas, está o Museo Casa Carlos Gardel, onde viveu o célebre cantor. É um espaço relativamente pequeno, simples, mas que vale a visita. Gardel personificou o tango e sua trajetória foi espetacular, do nascimento misterioso à morte trágica. O tango nem sempre é fácil (ao contrário do que Al Pacino nos quis fazer acreditar) e pode ser brilhante, mas também triste. Como um quê de Buenos Aires.

sábado, 7 de novembro de 2015

Histórias da neve

Eduardo TrindadeEnquanto, no Brasil, já estamos sob horário de verão e nos preparamos para o calor, o inverno se aproxima no Hemisfério Norte. Um inverno completamente diferente daquele a que estamos acostumados.
Para começar, não estamos preparados para lidar com o frio rigoroso. Quase não temos sistemas de aquecimento nos ambientes. Na maior parte do país, sequer temos roupas apropriadas. E, sobretudo, não temos a prática de conviver com baixas temperaturas.
Em compensação, temos uma curiosidade natural por conhecer neve. Morando em Porto Alegre, vi nevar sobre minha cidade em duas ocasiões num espaço de pelo menos dez anos. Em ambas, foram apenas flocos tímidos, que em nada lembravam os filmes que vemos no cinema, mas tecnicamente era neve. Anos depois, num mês de fevereiro, estive em Londres e fui surpreendido por uma neve fina, ainda insuficiente para formar montanhas brancas, mas bastante para fascinar um brasileiro como eu.
Eduardo TrindadeMais tarde, noutra viagem, tive a chance de ver neve abundante. Telhados e ruas cobertos por mantos brancos e fofos. Sem distinguir o meio-fio, sem ver onde termina o asfalto e onde começa a calçada, caminhar (sobretudo transportando malas) era um desafio trabalhoso, apenas recompensado pela vista deslumbrante de montanhas brancas, lagos e rios congelados.
Claro que, apenas via oportunidade, eu não resistia à tentação de brincar como criança, afundando os pés na neve fofa e (até então) imaculada. Na primeira ocasião, moldei um boneco de neve e o batizei de Josip - nome balcânico por excelência, já que eu estava na Croácia. Depois, ao seguir viagem, tive pena ao abandonar meu novo amigo, mas me consolei pensando que Josip se adaptaria melhor que eu àquele clima frio.
foto: Renata TeixeiraEm Helsinque, vi o mar congelado pela primeira vez, e fiquei genuinamente espantado. No mesmo dia, andei por mais caminhos nevados. Naquele ambiente, a Renata e eu nos municiávamos de bolas de neve e as jogávamos um no outro, brincando como crianças. Lá pelas tantas, apareceu um menino que também brincava de guerra de bolas de neve; na minha empolgação, resolvi desafiá-lo. Oh, céus! O guri era ágil, sofri uma derrota avassaladora! Eu, legítimo Napoleão entre os russos, tive dificuldade em negociar um armistício, mas aprendi com meu pequeno oponente que a experiência na neve é algo que se conquista aos poucos. Um brasileiro como eu não poderia impunemente medir forças com um finlandês.
Dias depois, tínhamos ido a Estocolmo, onde a neve era apenas um pouco menos abundante, e caminhávamos pela cidade. Em certo ponto, resolvemos descer um longo lance de escada a céu aberto para alcançar nosso destino. A escada estava inteiramente coberta de branco, quase soterrada, e só fomos por ela porque a alternativa envolvia um longo desvio por um caminho que nem sequer sabíamos onde passaria. Os degraus, cheios de neve, eram traiçoeiros e escorregadios. Agarramo-nos ao corrimão, mas esse mal acompanhava os primeiros metros e logo sumia, deixando-nos entregues à nossa própria desenvoltura (perspectiva nada animadora, dada a recente experiência com bolas de neve) numa escada que era mais um barranco amplo, gelado, molhado e escorregadio. Fazendo menção de voltar, a Renata perguntou: "não é perigoso ir por aqui?" Eu, sem vontade de dar a volta, olhando para o trecho com corrimão que deixaríamos para trás e para a sua continuação tão ou mais íngreme abaixo de nós, não resisti e lancei a ironia: "se o corrimão só vem até aqui, é porque só existe perigo até esse ponto!..." Bem, o fato é que devagar, com o cuidado de um gato escaldado (ou melhor, congelado), chegamos com sucesso ao final da escada.

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Inverno de Praga

Eduardo TrindadeNão era mais primavera quando chegamos a Praga.
Verdade que as tropas e os tanques de guerra há anos já foram embora. Mas o que primeiro nos recepcionou, quando desembarcamos do trem num final de tarde de fevereiro, foi o vento frio do inverno centro-europeu.
Então caminhamos até a Praça Venceslau (Václavské náměstí), que seria nosso endereço por alguns dias. Gosto de praças, e essa é uma área grande com jeito de porta de entrada para a cidade histórica - com efeito, as ruas vão ficando cada vez mais interessantes de se percorrer à medida que se  caminha a partir da praça em direção ao centro.
Contra o frio, casaco, luvas, touca. E chocolate quente. O frio que encontramos em Praga não era extremo, mas também não era nada confortável; mesmo assim, trazia consigo uma vantagem: podíamos comprar chocolate quente na rua, com o pretexto de nos aquecermos, sem remorsos! E seguir caminhando com o copo da bebida, um pouco mais aquecidos e felizes.
Eduardo TrindadeBem, Praga tem muitas das coisas de que eu gosto. Um centro grande e bonito, de arquitetura deslumbrante, perfeito para se perder a pé. Uma língua intrigante (mas não completamente incompreensível para quem já flertou com algum idioma eslavo). Comida farta, saborosa e ligeiramente diferente da nossa (e Kofola, um dos melhores refrigerantes que já provei). Uma moeda única (certo, admito  que usar reais ou euros seria mais conveniente, mas lidar com coroas tchecas é mais divertido e dá um ar singular à viagem). No final das contas, Praga se mostra ao visitante como uma grande e fascinante cidade europeia, embora não tão cosmopolita quanto suas irmãs mais famosas, como Paris ou Roma. O componente surpresa conta a favor da capital tcheca - não temos tantas referências prévias de Praga como temos de uma Paris, por exemplo, que não se cansa de ser cenário de filmes, e assim se pode conhecer Praga à nossa maneira, sem preconceitos. Sim, a tendência é a de uma cidade cosmopolita, não vivemos mais a ocupação soviética e os grupos de turistas não deixam dúvidas disso; mas ainda há um ar levemente retrô na cidade. Ninguém vive à toa uma primavera de Praga, ou inverno.
Saindo do centro, experimentamos uma visita ao zoológico e uma partida de hóquei no gelo pelo campeonato local. Assim, mais uma vez oscilamos entre o familiar e o levemente exótico. De volta ao centro, descobrimos a Pařížská - rua de comércio chique, com lojas Louis Vuitton, Montblanc, Dior, que nos faz pensar numa Champs-Élysées e não por acaso tem nome de Paris. Não há dúvidas de que a Primavera passou por aqui.
E as livrarias, o relógio da igreja, o castelo, o rio. As ruas, as ruas deliciosas de se caminhar de mãos dadas. Quando o frio ou a fome pressionam, entramos num café. Então seguimos com uma certa leveza. O inverno, em Praga, vale a pena.

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Uma cidade nas montanhas da Eslováquia

por Eduardo TrindadeBanská Štiavnica é uma pequena cidade nas montanhas da Eslováquia. Chega-se a ela após dirigir cerca de duas horas desde a capital Bratislava, incluindo um serpenteante trecho de subida. Esse trecho requer especial cuidado nas condições em que o percorremos - à noite e na neve do inverno. Pois o simpático e valente Škoda (como resistir à tentação de dirigir um carro local?) fez a subida sem reclamar. Já bem perto do destino final, a estrada volta a descer um pouco, visto que, a rigor, a cidade se localiza numa depressão, uma espécie de vale entre as montanhas. No vale e nas encostas que o cercam, em antigas ladeiras, estende-se Banská Štiavnica.
(A propósito: uma das histórias contadas por lá diz que as mulheres de Banská Štiavnica estavam entre as preferidas dos homens da região. O motivo? As suas pernas fortes, cultivadas às custas de subir e descer colinas.)
Pois então. Como eu dizia, chegávamos em Banská Štiavnica, o GPS indicava faltar uns 100 m até nossa pousada e lá ia eu fazer a última curva do trajeto. Noite fechada, neve dos dois lados da estrada que, agora, se resumia a uma rua íngreme. Então senti um pneu deslizar - gelo! O carro escorregou ligeiramente e não saiu mais do lugar. Estávamos atolados na neve. O Škoda certamente já teria enfrentado situações mais exigentes mas, em compensação, era a primeira experiência do humilde cronista que vos fala numa subida nevada. Valeu mais a minha inaptidão: sim, estávamos atolados.
Feita a constatação, o próximo passo foi fracassar nas tentativas usuais de sair do atoleiro - eu não conseguia empurrar o carro, nem parecia haver tábuas, galhos ou pedras por perto que pudessem servir de ajuda, e o carro não conseguia tração. Olhávamos em volta e não havia vivalma.
Como nem tudo é desastre, porém, tínhamos tido a (relativa) sorte de parar bem perto do nosso destino. Assim, caminhando um pouco, achamos a Penzión Resla pri Klopačke, onde fomos atendidos por uma senhora que providenciou nosso check-in enquanto explicávamos a situação e pedíamos ajuda. A mulher era solícita, mas falava pouco e com um sotaque quase incompreensível! Entendemos que devíamos esperar ali na recepção. Já era tarde, estávamos cansados e preocupados mas, na falta de alternativa, esperamos. Até que nossa anfitriã reuniu um punhado de gente disposta a ajudar! Fomos até onde estava o carro e, com a ajuda de tantos braços, não foi difícil tirar o carro do atoleiro. Ufa!
Depois de uma noite de descanso no apartamento (gigante) da pousada, hora de descer para o café da manhã. Não havia ninguém na recepção. E nenhuma porta que indicasse uma cozinha ou refeitório. Vasculhei tudo. Esperei que alguém aparecesse. Em vão. Vasculhei mais, tentei alguma porta. Fechada. Toquei a sineta sobre o balcão. Nada. Voltei para o quarto. Esperei. Tornei a descer. Intrigado. Não sei por que, ocorreu-me abrir a porta que dá para a rua. Do lado de fora, no frio, um cartaz enigmático parece apontar para o café da manhã num prédio anexo. Bingo! Assim, aos poucos, íamos aprendendo como fazer para que Banská Štiavnica se deixasse desvendar. Quando saímos, depois de alimentados, descobrimos um pouco mais da pequena e bela cidade: não um, mas dois castelos; os prédios históricos; antigas minas de prata; uma rampa para trenós numa das ruas do centro; e um certo ritmo suave e silencioso que só se encontra nas pequenas cidades nevadas.

por Eduardo Trindade

domingo, 6 de setembro de 2015

Em Macau, patacas

Macau é uma cidade definitivamente curiosa.
Para começar, fica na China e, ao mesmo tempo, fora dela. Tecnicamente Macau é uma Região Administrativa Especial da China, o que significa dizer que possui um grande grau de autonomia, bem diferente do restante do país. Assim, qualquer um que entra ou sai da cidade, incluindo os próprios chineses, precisa mostrar o passaporte e passar pelas formalidades de imigração (turistas têm de tomar cuidado: como a maioria dos vistos para a China permite uma única entrada no país, uma visita a Macau no meio da viagem significa que o retorno à China não será permitido com o mesmo visto).
No nosso caso, chegamos em Macau após uma travessia de barco desde Hong Kong (outra cidade tão chinesa e não-chinesa como Macau, aliás). A primeira impressão de Macau é imponente: uma cidade moderna, de prédios altos e arquitetura arrojada. Após desembarcar, descobrimos que os arranha-céus dividem espaço com velhas ruelas de casas tipicamente chinesas. Ou quase.
Macau foi uma colônia portuguesa durante séculos e só passou oficialmente à China no final de 1999. Então, apesar de a maioria da população ser de etnia chinesa, o português continua sendo a primeira língua oficial. As placas de ruas estão escritas em chinês e em português. Lusófonos como nós não podem deixar de achar graça quando, no ônibus, uma voz gravada anuncia cada parada: primeiro em cantonês, depois num português com sotaque europeu e finalmente em inglês. Assim:
- Beishang de jietou shengmu - rua Nossa Senhora das Dores - Nossa Senhora das Dores street.
Sim, e as ruas têm, quase todas, esses nomes tipicamente portugueses. Infelizmente para nós, parece que hoje em dia pouca gente em Macau ainda é fluente na última flor do Lácio.
Na cidade, é verdade que vimos muito pouco do que os guias dizem ser os principais atrativos de Macau: de um lado, a parte antiga e suas ruínas de igrejas e outras construções portuguesas e, do outro lado, os brilhantes cassinos. São dois lados quase opostos, diga-se. As ruas mais antigas são estreitas, confusas e apinhadas de lojas diversas, lembrando bairros similares em outras partes da China. No lado moderno, Macau tem um quê de Las Vegas do Oriente (ou de Mônaco chinesa, com o Grande Prêmio de Macau percorrendo suas ruas) que deve ser impressionante à noite - mas só a vimos de dia e, de qualquer forma, o giro das roletas não exerce tanto fascínio sobre nós. Em vez disso, reparamos nos detalhes. Lembram da moeda corrente de Patópolis? A pataca? A "moeda número 1" do Tio Patinhas era uma pataca. E a moeda de Macau? A pataca. Pois é. Como não gostar de um lugar onde as coisas são pagas em patacas?

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Com uma lhama na cabeça

Essa história já foi contada outras vezes antes de mim, inclusive pelo Prêmio Nobel Mario Vargas Llosa.
Acontece que uma das praças mais imponentes de Lima, no Peru, é a Plaza San Martín. Seu epicentro é uma estátua equestre do homenageado, considerado figura decisiva nas lutas pela independência do país. O monumento é cheio de alegorias; uma delas é a figura clássica de uma mulher que representa a liberdade. Ela ostenta um elmo e, sobre o elmo, uma lhama.
Uma lhama!
Por mais que lhamas sejam relativamente comuns no Peru, convenhamos que não seria esperada a estátua de uma mulher com uma lhama na cabeça. A história conta que o idealizador do monumento teria passado instruções escritas para o escultor pedindo que colocasse uma chama (llama, em espanhol) simbólica sobre a cabeça da estátua. O pedido teria sido mal interpretado, com a chama virando uma lhama (também llama, em espanhol) na obra executada pelo escultor.
Se non è vero...
Há quem diga que essa história é apenas uma anedota que menospreza excessivamente a capacidade do escultor de entender uma instrução (ou de desconfiar dela e procurar confirmá-la). O que está representado no monumento seriam elementos do escudo de armas do Peru, incluindo a lhama.
Porém, o animal no escudo do Peru é uma vicunha e o representado no monumento é definitivamente uma lhama. Lhamas e vicunhas não deixam de ser parentes, mas são animais diferentes. Assim, parece que nenhuma contorção que se dê à história exime completamente o artista do erro. Mas não importa: o causo é curioso e ajuda a chamar a atenção para a praça que, sem dúvida, fica muito mais divertida com a pequena lhama sentada gaiatamente na cabeça da imponente estátua.

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Queijos e cheiros

Um de meus prazeres quando viajo é andar pelos mercados atrás de produtos diferentes dos que encontro normalmente na minha cidade. Qualquer supermercado é um mundo a ser explorado; e se houver um mercado daqueles bem tradicionais que possa ser visitado, melhor ainda. Algumas descobertas interessantes foram feitas assim. Cogumelos, queijos, presunto, azeite, especiarias, frutas, doces, chás e vinhos são produtos que me chamam a atenção, para dizer o mínimo, Às vezes fico angustiado porque levar muitos desses itens para casa é simplesmente impraticável. O que não me impede de namorar as bancas de mercados e assemelhados!
O mercado da Boqueria, em Barcelona. A Rue Mouffetard, em Paris (aquela de uma foto do Cartier-Bresson). O Ver-o-Peso, em Belém. O Grand Bazaar e o Bazar das Especiarias, em Istambul. São templos clássicos dedicados a compras, especialmente a compras de comidas e seus ingredientes, e parada quase obrigatória para quem visita alguma dessas cidades. E há muitos outros, claro: lembro de comprar figos e trufas na Croácia; queijo e mais trufas na Itália; chás na China; temperos na Índia; e por aí vai...
Bem, acontece que, enquanto alguns itens podem ser transportados e armazenados com relativa facilidade (como pacotes de chá, pimenta ou cogumelos secos), outros têm uma logística mais complicada por pedirem refrigeração ou possuírem um curto prazo de validade - como é especialmente o caso da maioria dos queijos e dos cogumelos frescos. Ó ironia, queijos e cogumelos são dois dos produtos que mais chamam a atenção minha e da Renata em nossas viagens!
O ideal é estar hospedado em algum lugar que tenha uma geladeira e, se possível, cozinha. Dessa forma, podemos nos dar ao luxo de fazer a feira nos mercados e já consumir em seguida os produtos que compramos, quase como se fôssemos locais.
Claro que nem sempre temos uma cozinha à disposição, então acabamos abrindo mão de comprar certas coisas ou simplesmente compramos e guardamos até a próxima ocasião em que será possível aproveitá-las.
O problema é que é relativamente comum estarmos hospedados nalgum lugar que não tenha geladeira nem frigobar... Aí surge o verdadeiro dilema. O sensato seria abrir mão de comprar coisas como queijo e iogurte que não fossem estritamente para consumo imediato - mas quem disse que sou sempre uma pessoa sensata?
Descobri uma vantagem de viajar para lugares como Islândia ou Dinamarca no inverno: com o frio que faz, pode-se simplesmente deixar alguma coisa do lado de fora da janela para se ter uma perfeita refrigeração natural! Prático e funcional, embora às vezes acabássemos colocando um amontoado de coisas na janela, formando uma pequena bagunça na fachada do prédio que terminamos chamando carinhosamente de "nossa favela"...
Então, certa feita, estávamos em Barcelona; visitamos a Boqueria, que é definitivamente um mercado fantástico, e saímos de lá com queijo e uns tantos cogumelos. No dia seguinte, rumamos para Andorra, o pequeno país encravado nos Pirineus. Estávamos contando com uma geladeira no quarto do hotel, mas nada feito! E estávamos na primavera... Por mais que o país seja montanhoso (de fato, estava nevando em algumas partes), na capital a temperatura era amena, o que inviabilizava a "favelinha" na janela. "Azar", pensei, "essas compras precisam durar alguns dias"... Largamo-nas no quarto enquanto andávamos pela cidade. Ao regressar, à noite, minha nossa! O cheiro de queijo era indisfarçável! Abri a janela para que entrasse ar, embrulhei tudo da melhor forma possível e, para o dia seguinte, guardei o queijo na gaveta mais fechada. Mas não houve muito jeito de evitar que aquele cheiro tomasse conta do ambiente... Ficávamos pensando na pena que seria se o queijo não durasse mais uns dias (pois sabíamos com certeza que, mais para a frente, teríamos cozinha e geladeira à disposição) e também imaginávamos a cara que a camareira deveria fazer cada vez que entrava no nosso quarto!
Seguimos caminho, carregando queijo e cogumelos para Nice. Na chegada, mais uma decepção: o novo quarto também não tinha frigobar... Torcíamos para que a temperatura caísse e nos ajudasse a conservar nossas compras... Mas não teve jeito. O queijo (e o quarto) fedia mais do que nunca, e até os cogumelos começavam a mostrar o quanto estavam sofrendo... É terrível admitir, mas acabamos obrigados a descartar boa parte do queijo. Parte dos cogumelos seguiu o mesmo caminho. Pelo menos alguns se salvaram e resistiram até nossa parada seguinte, onde finalmente tínhamos geladeira e cozinha e pudemos degustá-los como mereciam. E como mereciam!