terça-feira, 20 de janeiro de 2015

GP de Abu Dhabi

Sim, estivemos em Abu Dhabi para o GP e acompanhamos a final do campeonato de Fórmula 1 ao vivo e in loco. Para quem gosta de automobilismo, como nós, foi uma experiência incrível. Ainda mais porque essa foi uma experiência bastante completa mesmo - a organização do evento é realmente muito boa e há muito para se ver e fazer o tempo todo. Tanto que voltávamos para o hotel à noite, cansados e satisfeitos e já esperando pela ação do dia seguinte. Mas, se é para falar do que vimos do GP de Abu Dhabi de 2014, aqui vai um vídeo em primeira pessoa.


domingo, 11 de janeiro de 2015

O Grão-Duque e os Castelos

Qualquer viajante razoável terá visitado repúblicas: países como a Argentina, os Estados Unidos, França, Itália ou Portugal. Sem contar nosso próprio Brasil ou tantos outros lugares por esse planeta afora.
Muitos terão ido além e visitado algum reino. Como o Reino Unido, claro, mas também a Espanha ou o célebre Reino da Dinamarca, além de outras terras nórdicas. Para quem não está acostumado, a proximidade com reis e rainhas não deixa de ser curiosa.
Com sorte ou disposição, o viajante terá pisado num território governado por um príncipe - a começar pelo Principado de Mônaco.
Assim, juntamente com cidades e países, vai-se colecionando formas de governo.
Pois bem, hoje é dia de falar de um lugar que tem um Grão-Duque como chefe de estado. Adivinharam? Trata-se de Luxemburgo.
Afinal, esse pequeno e belíssimo país espremido entre a Bélgica, a França e a Alemanha é um Grão-Ducado. Fotos e imagens alusivas ao grão-duque e à família real - ou seria (grã-)ducal? - são encontradas facilmente nas lojas da capital.
Sei muito pouco sobre o Grão-Duque, mas ele é certamente alguém de sorte, pois não apenas nasceu em berço de ouro, mas num país que é uma verdadeira joia europeia, cenário de contos-de-fadas. E poliglota, se contarmos que um lugar tão pequeno tem três línguas oficiais, incluindo a sua própria (luxemburguês) e que todos por lá também falam inglês.
Mas talvez o mais legal seja mesmo percorrer Luxemburgo em busca de seus castelos. Para início de conversa, como o país é pequeno, não é difícil ir de uma ponta à outra. Saímos da capital, que por si só já vale a visita, e percorremos uma sucessão de vales sinuosos, muito deles pontuados por rios estreitos. E, no alto das colinas, castelos típicos exatamente como imaginamos que devem ser: muralhas de pedra, cercados por fossos e com ponte levadiça, torreões e tudo o mais.
Começamos pelo castelo de Vianden, que corresponde bem à descrição que fazemos mentalmente. O castelo, por dentro e por fora, é lindo, e está repleto de histórias de reis, de grão-duques e de guerra (não esquecer que castelos tinham um fim bélico). Não somente de guerras medievais: o de Vianden chegou a desempenhar papel fundamental na Segunda Guerra, quando foi sitiado pelos nazistas na sua invasão de Luxemburgo.
Em Esch-sur-Sûre, o que chama a atenção é a minúscula cidade cortada por um rio. Dali, subindo uma ladeira não muito longa, chega-se às ruínas de outro castelo. Que se destaca sobretudo pela vista que oferece do vale, do rio e da própria cidade. Dê-lhe encher os olhos e os cartões de memória das câmeras com essa paisagem!
Descendo do castelo até o que parece ser o centro de Esch-sur-Sûre, encontramos um lugar para almoçar.
Seguindo caminho, mais além encontramos o castelo de Bourscheid. Nesse, os muros parecem ainda mais antigos que em Vianden (certamente, a sua última reforma é que é mais antiga).
Depois, o dia já está chegando ao fim, e voltamos à cidade de Luxemburgo, a capital. Onde, para não fugir à regra, não faltam castelos e construções fortificadas - e esses, em geral, conseguimos explorar a pé. Para citar um último, há o Forte Thüngen que, perfeitamente restaurado, guarda um museu de história que tem tudo a ver com o passeio.

domingo, 4 de janeiro de 2015

O Guia Puffin de Gastronomia

À época eu sequer me dei conta, mas um dos momentos marcantes de 2012 foi ter decidido visitar o restaurante Olympe, de Claude Troisgros, no Rio de Janeiro. Há algum tempo eu tinha a ideia de "conhecer um restaurante de alta gastronomia", porém dois ou três preconceitos me impediam: o de que o tamanho das porções francesas seria insuficiente para matar a fome; o de que o preço a pagar seria caro demais para "simples comida"; e talvez que, com "invenções demais", a refeição poderia ser mais estranha que apetitosa.
Bem. Resumindo, a Renata e eu fomos e nos tornamos, cada vez mais, amantes da boa cozinha. Aprendemos que: a sucessão de pratos é mais farta do que parece, e não lembro quando foi a última vez que não saímos saciados de uma boa refeição; não estamos pagando apenas por um prato de comida, mas por uma experiência completa, que evoca sensações e emoções e vale cada centavo, sem exagero; e que num ou noutro caso as combinações podem até parecer inusitadas para um paladar específico, mas confiar no chefe em geral nos abre portas para sabores que até então nunca teríamos sequer imaginado.
E daí...? Esse não é um blogue de gastronomia, como sabem. Mas sabem também que viagens e gastronomia se completam. Daí que eu, a Renata e o Puffin tivemos a ideia de elaborar a lista dos nossos restaurantes preferidos e, assim, acaba de nascer este Guia Puffin de Gastronomia. Da mesma forma que o já um tanto batido Guia Michelin distribui estrelas (até três) aos melhores restaurantes das cidades avaliadas, o nosso Guia Puffin vai conferir enguias para os estabelecimentos que proporcionaram nossas mais excepcionais experiências gastronômicas - incluindo na avaliação não apenas a comida, mas também o ambiente, o serviço, enfim, a experiência completa.
Assim sendo... com vocês, o Guia Puffin de Gastronomia!

Kovacic, Recife - 1 enguia
Sob reserva, o chefe Kovacic nos recebe em sua casa, num endereço escondido da capital pernambucana. O clima intimista fica evidente desde a reserva, num telefonema que o chefe em pessoa atende com forte sotaque croata. O restaurante não tem sequer página na Internet. A proposta é de um menu degustação que muda a cada semana e que, no dia de nossa visita, tinha como inspiração "o nascimento das estrelas". Um exótico, simpático e falante Kovacic nos recebe e apresenta cada prato, deixando perceber que a harmonização não é só da comida com a bebida, mas também com o ambiente e até com a trilha sonora. A refeição é bem cuidada sem ser demasiado sofisticada. Estávamos acompanhados de um casal de ótimos amigos e isso ajudou a fazer com que a noite fosse ainda mais agradável.
Particularidade: o restaurante não trabalha com cartões e Kovacic, em respeito a um costume cigano, não toca no dinheiro.
Data da visita: junho de 2014.

CT Trattorie, Rio de Janeiro - 1 enguia
É a casa de comida italiana - ou melhor, ítalo-francesa - dos chefes Claude e Thomas Troisgros. Tanto o ambiente quanto os pratos são mais simples que no Olympe, mas nem por isso deixam de ser excelentes. O cardápio é extenso e a expectativa de ingredientes tratados com o máximo de cuidado foi plenamente atendida.
Particularidade: o restaurante costuma aparecer no programa Que Marravilha, que Claude Troisgros apresenta no canal GNT.
Data da visita: agosto de 2014.

Järntorgspumpen, Estocolmo (Suécia) - 1 enguia
Uma casa agradável no centro de Estocolmo, com o cardápio à porta. Procurávamos um lugar para um jantar especial na noite de São Valentim (o dia dos namorados europeu) e esse foi o que nos conquistou. Apesar da data, não precisamos fazer reserva nem esperar por uma mesa. O atendimento e a comida estavam excelentes. A Renata lembra particularmente da deliciosa sopa de abóbora que serviram.
Particularidade: o restaurante fica em um prédio histórico que, por si só, já vale a visita.
Data da visita: fevereiro  de 2013.

Roberta Sudbrack, Rio de Janeiro - 2 enguias
A chefe Roberta Sudbrack está em alta entre os críticos gastronômicos e, na nossa opinião, a sua cozinha faz por merecer. Os pratos são contemporâneos com inspiração brasileira - queijos regionais, tucupi, pargo, frutas tropicais e até mandiopã figuram com destaque. É incrível como a chefe leva ao extremo a máxima de que "menos é mais", criando pratos com poucos ingredientes e muito sabor. Na minha opinião, o nível de experimentação é relativamente alto e muito bem sucedido. Apenas achei que o ritual de trazer os pratos à mesa, certamente o momento mais marcante da refeição, poderia ser mais valorizado se os garçons cuidassem de apresentar melhor as criações.
Particularidade: Roberta Sudbrack, é porto-alegrense como eu. Viveu em Brasília e foi a primeira mulher a ser encarregada da cozinha do Palácio da Alvorada, antes de vir para o Rio de Janeiro.
Data da visita: dezembro de 2014.

Indego by Vineet, Dubai (EAU) - 2 enguias
A ideia era comemorarmos quatro anos juntos num bom restaurante de Dubai. O escolhido foi o Indego, de inspiração indiana, e a experiência foi excelente. Uma sucessão de pratos lindos e bem executados, com mais pimenta do que se esperaria no Brasil, mas ainda assim adequada ao nosso paladar (o garçom nos perguntara o nível de picância que queríamos). A Renata teve um menu vegetariano montado sob medida para ela! Entre as surpresas, provamos um sorvete salgado de açafrão, surpreendentemente leve, para preparar o paladar antes do prato principal.
Particularidade: o chefe Vineet Bhatia é o primeiro indiano a receber estrelas Michelin. Agora é também o primeiro indiano a receber enguias do Guia Puffin!
Data da visita: novembro de 2014.

D.O.M., São Paulo - 2 enguias
O restaurante de Alex Atala, eleito sucessivas vezes o melhor do Brasil e um dos melhores do mundo, dispensa apresentações e era um de nossos sonhos de consumo, literalmente. O ambiente é sóbrio e elegante. Provamos um menu degustação (D.O.M.Gustação) contemporâneo que valoriza ingredientes brasileiros com tratamento e apresentação impecáveis. O que faltou, então, para a terceira enguia? Muito pouco! Mas o Puffin é exigente... Basicamente, ele gostaria de um toque mais pessoal, mais intimista. Como aqui vale não só a comida, mas principalmente as sensações e lembranças, quem sabe a terceira enguia vem com nossa próxima visita?
Particularidade: o cardápio têm três opções, todas de degustação: quatro pratos, oito pratos ou vegetariano (Reino Vegetal, de cinco pratos). Como eu escolhi a degustação de quatro pratos e a Renata, o Reino Vegetal, ofereceram-me "de lambuja" um quinto prato para que nossa refeição ficasse sincronizada.
Data da visita: março de 2014.

Olympe, Rio de Janeiro - 3 enguias
A nave-mãe de Claude Troisgros não poderia não figurar no Guia. Foi lá que descobrimos que um restaurante pode ser perfeito em vários aspectos, desde o sabor da comida até a cordialidade de cada pessoa que trabalha lá, passando pelos talheres, pelo nível de ruído do ambiente, pela surpresa que o ritual da comida é capaz de nos proporcionar... E, como se não bastasse a qualidade dos pratos valer demais a visita, não é raro ver o próprio Claude, uma simpatia em pessoa, perambulando entre as mesas, sentando-se ao nosso lado e conversando com cada um dos comensais.
Particularidade: na minha opinião, tem o nome mais perfeito entre os restaurantes que conheço. Olympe é o nome da mãe do chefe Troisgros. E é também, claro, o nome da morada dos deuses, onde se servia ambrosia e néctar.
Última visita: setembro de 2014.

Le Louis XV, Mônaco - 3 enguias
Já li que há restaurantes três-estrelas Michelin e há Le Louis XV. Agora, ainda mais: três-enguias e no topo da exigente lista do Guia Puffin. Tudo lá é perfeito: o atendimento, os sabores, a ambientação. Foi a escolha ideal para nossa noite de noivado; a experiência conseguiu superar nossas altas expectativas, e só não vou me estender mais porque já contei isso aqui. O resto é história, uma das histórias que guardamos com mais carinho.
Particularidade: O livro Nature, do chefe Alain Ducasse, é quase impossível de se encontrar no Brasil, mas é simplesmente fantástico para quem quer se aprofundar nos sabores da cozinha mediterrânea.
Data da visita: maio de 2014.

Como perceberam, essa é a lista, em ordem crescente, dos melhores restaurantes das nossas vidas. Não foram os únicos, claro; para quem quiser ir além (e, quem sabe, para uma possível promoção numa futura edição do Guia), aqui estão outros lugares dignos de nota pelas experiências, sempre personalíssimas, que vivemos:
Artigiano Ristorante, Rio de Janeiro
Emporium Pax BPS, Rio de Janeiro
Glocke, Rothenburg ob der Tauber (Alemanha)
Zazá Bistrô Tropical, Rio de Janeiro
Que outros restaurantes vocês sugeririam ao Puffin?

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Muito além da burca

Talvez se possa dizer que os países árabes, de forma geral, são os que mais são vistos com preconceito no Brasil. Claro que isso tem uma série de motivos, como a relativa distância (física e cultural) desses países, uma deficiência da nossa educação, uma imprensa parcial e (por que não) uma certa preguiça de aprender sobre outras culturas antes de repetir ideias fáceis sobre elas. Uma pena, eu acho... Mas não é minha intenção aqui discutir esses motivos.
O fato é que viajar - e viajar de mente aberta - costuma ser dos melhores antídotos contra preconceitos assim.
É verdade que, nos Emirados (e suponho que na maioria do mundo árabe), aspectos culturais e religiosos se entrelaçam, e nem sempre é fácil distinguir o que é um hábito cultural do que é um preceito islâmico. Apesar disso, eu suponho que, em muitos casos, a questão cultural seja mais forte que a religiosa - exatamente como acontece no Brasil e em outras partes do mundo, onde mesmo quem não é cristão fervoroso, muitas vezes, procura casar na igreja, comemorar o Natal, fazer o sinal da cruz antes de uma cobrança de pênalti ou uma decolagem de avião...
Algumas descobertas. A burca, aquele tecido que cobre completamente o corpo feminino, tristemente famoso no Ocidente por culpa do regime talibã, é a menos comum das vestimentas associadas ao Islamismo. E particularmente nos Emirados Árabes, um país repleto de estrangeiros, é extremamente comum que as mulheres usem simplesmente roupas ocidentais ou ocidentalizadas. À parte isso, o que se vê bastante é o hijab, véu na maioria das vezes preto que cobre os cabelos e é usado juntamente com uma abaya - vestido longo tradicional. Nesse ponto, sei de gente que fala ou falaria coisas como: as muçulmanas não podem sequer mostrar os cabelos! elas são obrigadas a esconder o corpo debaixo daqueles panos pretos! e por aí afora. Bem, eu normalmente tento ao máximo entender qualquer questão cultural antes de criticá-la, e cheguei a algumas conclusões que repito com convicção. Uma, que (ressalvados exageros como os de alguns extremistas) elas não são obrigadas a nada, ou pelo menos não sofrem nenhum constrangimento muito diferente das mulheres no Ocidente - que, se pensarmos um pouco, não podem mostrar o peito da mesma forma que os homens fazem, e são levadas a atitudes "estranhas" como raspar as axilas ou mutilar o corpo, perfurando as orelhas desde a tenra idade para então enfiar nelas pedaços de metal - brincos. É tudo escolhas culturais. Outra conclusão, em geral as mulheres árabes realmente apreciam o que vestem, tanto é que muitos dos trajes típicos são lindos e ricamente elaborados. Elas ostentam uma abaya com o mesmo orgulho que uma ocidental usaria um brinco ou um vestido; exibem um hijab como no Brasil se exibiria um corte de cabelo. Mais ainda, sentiriam-se humilhadas e tolhidas na sua liberdade não pela suposta "obrigação" de usar determinado traje, mas sim se as proibissem disso, da mesma forma que seria vexamoso a uma ocidental se lhe arrancassem parte da roupa.
Mas nem só de teoria sociológica é feita nossa viagem. A verdade é que ficamos fascinados pelas roupas árabes que víamos expostas nas lojas e nos mercados. Num desses, em Dubai, o vendedor acabou vestindo eu e a Renata dos pés à cabeça, explicando como colocar cada peça. Não compramos as roupas; por mais persuasivo que fosse o vendedor, e ele era bastante, não estávamos dispostos a pagar tanto por algo que não voltaríamos a usar. Mas compramos um hijab (véu) para ela e uma ghutra (turbante) para mim, que acabamos usando um pouco durante o restante da viagem. Como estávamos longe de ser especialistas nessas peças, cuja colocação é mais intrincada do que aparenta ser (e que varia de acordo com preferências pessoais, regionais e de moda), baseávamos-nos nas indicações do vendedor, em vídeos do Youtube e em algum improviso.
Pois bem, poucos dias depois de ter comprado a ghutra, estava eu usando-a quando passa por mim um Porsche 911, diminui a velocidade e faz um sinal positivo, apontando para a minha cabeça. A interpretação lógica é a da aprovação de um nativo a um estrangeiro que, de alguma forma, parece demonstrar apreço pela cultura local. Sigo com mais segurança.
Mais alguns dias, estamos noutro lugar e eu novamente com a ghutra na cabeça. Sou abordado e me perguntam, apontando para minha cabeça: quem fez isso? Respondo que eu mesmo. Meu interlocutor é rápido e solícito: vem cá, vou arrumar para ti! Com prática, desfaz minha obra e refaz a colocação do lenço, dizendo ao final que agora sim está da forma como fazem no país... Agradeço e assumo minha ignorância da moda árabe, enquanto a Renata, que há dias reparava na minha incapacidade de acertar a forma correta de colocar um pano sobre a cabeça, não contém a risada...

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Teoria e prática do ilusionismo com tâmaras

por Eduardo TrindadeDe forma geral, dá para dizer que nos demos bem com a comida dos Emirados. Para começar, a oferta é tão variada quanto a quantidade de imigrantes que lá vivem, o que significa diferentes opções de cozinhas ocidentais, árabes, chinesas e sobretudo indianas. Sem contar que tínhamos quartos de hotel amplos e equipados para preparar nós mesmos algum lanche (o primeiro quarto em que ficamos tinha mesmo uma cozinha em estilo americano). Portanto, um prato cheio para exercitarmos a arte de investigar a oferta dos supermercados locais!
A tâmara é a estrela da comida árabe. Está em todos os lugares, de diferentes variedades e com diferentes apresentações - frescas ou secas, inteiras ou com os mais criativos recheios, desde lascas de limão até macadâmias. E as tamareiras são figura fácil na paisagem emiradense, seja nas cidades ou no deserto. Antes mesmo de descobrir tudo isso, descobrimos as tâmaras frescas num supermercado e compramos um punhado - mais precisamente, um cacho - para experimentarmos. À primeira mordida, decepcionamo-nos um pouco: aquelas frutas pequenas têm a consistência aproximada de uma pera, talvez um pouco mais duras, e são extremamente doces. A impressão é quase a de morder um torrão de açúcar, tão doce que chega a ser sem graça.
Indo além, fomos provando outras iguarias, como o falafel (bolinho árabe), o kebab, o samosa (pastel indiano) e até uma autêntica sfiha (esfirra). Eu tinha boas lembranças das culinárias da Turquia e da Índia, e isso me deixou mais confiante para provar comidas da mesma família. Confiante até demais. Num dos lugares em que jantamos, pedi um biryani (prato de arroz indiano) e o dito cujo teria sido uma boa escolha, não fosse a quantidade absurda de pimenta que me fez pensar que era aquilo que serviam em "Como treinar seu dragão". Cuspindo fogo, ataquei meu copo de lassi (iogurte indiano), apostando nele para refrescar a ardência da boca. Mas a coisa só ficou pior, porque o lassi, contrariando as bebidas doces a que estamos acostumados, tinha um bocado de sal e pimenta...
Apesar de tudo, sobrevivi, e sobrevieram experiências melhores. Nos dias seguintes, fui compensando a overdose de pimenta com várias tâmaras recheadas. Já aquelas tâmaras frescas, que havíamos comprado logo no começo da viagem, ficaram meio que esquecidas a um canto do quarto.
Seguimos. De Dubai, o próximo destino era Abu Dhabi. Obviamente levamos conosco as tâmaras, frescas e secas.
Em Abu Dhabi, nós nos hospedamos no hotel de uma cadeia internacional - definitivamente, os Emirados são a terra das grandes franquias de hotéis, não de pequenas pousadas ou de empreendimentos familiares.
Acontece que, ao voltarmos para o quarto depois do primeiro dia de passeio em Abu Dhabi, reparamos que estavam faltando duas frutas no cacho de tâmaras que havia ficado sobre a mesa. O sentimento foi de perplexidade. "Não... Não pode ser...", pensamos.
No outro dia, o número de tâmaras voltou a diminuir. Continuamos incrédulos.
Até que nos restou uma única tâmara presa ao cacho. O jeito foi reagir com ironia: "Será que a camareira vai ter coragem de comer a última tâmara? Mas quem come a última não casa... E se comer, será que vai deixar o galho vazio ou vai jogá-lo fora?"
Mais um dia, a tâmara continuava lá. Chegamos a pensar que ela estava a salvo.
Doce, doce ilusão: no dia seguinte, o cacho e a última tâmara tinham desaparecido sem deixar rastro, tão definitivamente que chegamos a duvidar de que os tínhamos visto alguma vez.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Emirados Árabes

E aconteceu que foram os Emirados Árabes o primeiro país do Oriente Médio a ser visitado por mim.
Chegamos um tanto cheios de cuidados: mesmo sabendo que se trata de um dos países mais tranquilos da região, havia uma série de informações sobre como se portar com "decência", usar as roupas adequadas, não demonstrar afeto em público etc.
Acabamos descobrindo que a regra principal lá (como provavelmente em qualquer lugar do mundo) é o bom senso. As roupas que as mulheres usam, por exemplo, há de todos os tipos, desde o nível prostituta-de-Copacabana até o nível  burca talibã - e fica evidente que o bom senso se localiza no meio do espectro. Aliás, a roupa que se usa nos Emirados merece um capítulo à parte.
Talvez a maior diferença seja mesmo que os casais, quando em público, evitam andar abraçados e trocar beijos. Embora, procurando com atenção, seja possível ver algum par árabe de mãos dadas.
O que chama a atenção é a quantidade de estrangeiros: o país tem mais imigrantes que emiradenses. Na rua, todo mundo pergunta de onde somos e acaba sendo interessante quando perguntamos de volta e descobrimos pessoas de vários lugares da Ásia ou de outras partes do mundo.
Boa parte dos ocidentais, quando pensa nos Emirados, lembra de Dubai e, em menor escala, de Abu Dhabi. Não à toa; são cidades que impressionam. Não me espantaria descobrir que o país tem proporcionalmente uma das populações mais urbanizadas do mundo, afinal a terra por lá é inóspita e viver fora das cidades é um desafio. Ainda assim, é incrível pensar em como essas cidades cresceram e se desenvolveram em tão pouco tempo. O que não tira o fascínio de se passear além dos grandes centros: o interior também tem paisagens e pessoas únicas.
Enfim, viajar aos Emirados é um mergulho cultural daqueles que dificilmente se consegue de outra forma. E o que é melhor: mergulha-se de forma tranquila, sem grandes medos ou sustos. Aprende-se um pouco a cada carona na estrada, a cada prato de comida, a cada barganha no mercado.

sábado, 25 de outubro de 2014

Na ilha dos puffins

O puffin, ou papagaio-do-mar, é a ave mais cativante que eu já vi. E não seria exagero dizer, como fez a Renata, que essa avezinha de bico laranja e olhos tristes mudou a nossa vida. Já contei um pouco dessa história aqui e ali, nas minhas postagens; assim, um leitor atento sabe que nos apaixonamos pelos puffins, mesmo sem tê-los visto, durante nossas férias nórdicas de 2013. E sabe também que um dos principais motivos para termos voltado às Ilhas Faroe em 2014, além do genuíno encanto pelo lugar como um todo, foi o desejo de ver os puffins.
Foi assim que, de um jeito bem natural, Mykines se tornou um destino de viagem indispensável. Trata-se de uma das menores ilhas faroesas, com uma população permanente de 14 pessoas, que é o paraíso das aves - e particularmente dos puffins.
Há quem vá a Mykines e volte no mesmo dia. Claro que iríamos querer mais do que isso. Com boa antecedência e por telefone (suponho que não haja Internet em Mykines), tratei de reservar um quarto na única pousada da ilha.
Quando chegamos, fomos recebidos no casarão de madeira por uma simpática moça sueca - Greta - que nos orientou a achar nosso quarto, no andar superior. Seguindo o que entendemos das instruções dela, passamos por uma porta, entramos no prédio geminado, subimos as escadas e, já no quarto, largamos nossas coisas. Retornamos. Greta nos perguntou se tínhamos achado o quarto, ao que respondemos que sim. Ela: "mas não ouvi o barulho de vocês na escada!" Descobrimos que tinhamos ido ao lugar errado... Um pouco envergonhados, voltamos lá, buscamos a bagagem e, agora sim, instalados no quarto certo, descemos novamente.
Tomamos um sorvete no andar de baixo da pousada, que também é a única lancheria da cidade. Tomamos apenas sorvete; economizávamos dinheiro por saber que não havia caixa eletrônico nem possibilidade de usar cartão na ilha. Greta conversava conosco e contava histórias. Em seguida saímos, ávidos que estávamos para procurar os puffins.
Para isso, há que se sair do vilarejo e tomar uma trilha subindo uma longa colina. Com a temperatura abaixo de 10 graus, começou a chover. Não desistimos, embora sentíssemos os sapatos e as roupas molhando; a ansiedade era tanta que continuamos subindo. Lá pelas tantas, eis que vemos um puffin! Um único, parado na relva, a meia distância... O bastante para ficarmos observando, admirados. Depois, vimos mais outro... Após algum tempo, saciada a ansiedade - considerando que chovia e que teríamos mais tempo para explorar a ilha no dia seguinte - resolvemos voltar à pousada. Com frio e com as roupas encharcadas (o que era crítico porque quase não tínhamos trazido mudas, deixáramos a maior parte da bagagem em Tórshavn), entramos no quarto. Enquanto eu bolava técnicas de secagem de meias, sapatos e calças, pendurando-os no aquecedor do quarto ou aproximando-os da lâmpada incandescente, a Renata foi tomar banho. Havia um banheiro ao lado do nosso quarto, mas que estava com a placa "Bad". Outra placa, na lancheria do andar de baixo, instruía a não usar aquele banheiro. Deduzimos que a alternativa era o do anexo, o que, apesar de um pouco incômodo, não chegou a nos surpreender. Foi só a observação da Renata após o banho, de que aquele banheiro do anexo "não era usado há muito tempo", que nos deixou com a pulga atrás da orelha... Resolvemos perguntar se podíamos usar o banheiro ao lado do nosso. "Claro!", a resposta. E lá fui eu, tentando esconder as orelhas asininas, afinal "bad", em feroês, na porta de um banheiro, só pode significar "banheiro", e nem em inglês significaria "defeituoso".
O dia seguinte foi dedicado a caminhar pela ilha, percorrendo a trilha que leva até o farol e através de uma curiosa ponte de madeira que, rigorosamente falando, atravessa o Atlântico. No caminho, ovelhas e várias espécies de aves. E principalmente, claro, os puffins! Não um ou dois, mas dezenas, centenas deles! Voando, boiando no mar, espalhados pela grama... Com seus passinhos, seu jeito único de levantar voo e de pousar... Estávamos realmente maravilhados com os puffins e perdemos até a noção do tempo, ali, observando-os. Passamos o dia assim: caminhando pela ilha e admirando as aves. De comida, para economizar, apenas lanchamos: chocolate e besteiras trazidas de Tórshavn. 
por Eduardo Trindade
Mas ainda não tínhamos esgotado nossa cota de "micos". De noite, a moça da pousada veio nos avisar: o café da manhã é servido no andar de baixo e está incluído na diária. O quê? Tínhamos passado as últimas mais de 24 h comendo quase nada, quando tínhamos um café da manhã à nossa disposição? Isso mesmo. Mas, àquela altura, só nos restava irmos dormir, esperando sonhar com puffins e com comida.
O café da manhã realmente valeu a pena (e nos fez sentir um pouco mais tolos por tê-lo perdido no dia anterior). Os puffins... Acho que, depois de tudo, não preciso acrescentar nada. Ainda vamos voltar a Mykines para visitá-los novamente!

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Um relógio de corda

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Admito que minha última crônica não foi muito simpática com os andorranos. Acontece: todos estamos sujeitos a experiências (digamos) desconcertantes e, quando elas se passam num lugar desconhecido, a tendência é associarmos o lugar às experiências. Mas que fique claro que situações marcantes ou constrangedoras não são a regra e que eu teria o maior prazer em voltar a Andorra. Até porque também encontramos gente muito simpática por lá, como os adoráveis donos da pizzaria La Cantina, um lugar agradável e ao pé do nosso hotel. Ou como na creperia Els Teus Sentits. Andorra é um lugar onde se come bem, em ambientes convidativos e bem cuidados.
E é, sim, sobretudo, um lugar de compras. Se contei antes de tentativas frustradas, devo falar que também fui bem sucedido.
Assim que saíamos do hotel, passávamos em frente a uma loja que oferecia uma série de objetos quase que artesanais, e sempre inusitados, bem diferente das outras lojas - de eletrônicos, perfumes ou roupas. Curiosamente, porém, sempre passávamos ali quando a loja estava fechada, ou fechando, ou em horário de almoço, e só olhávamos através da vitrine. Namorávamos um relógio exposto, cada vez mais hipnotizados, até que no último dia fizemos questão de ir à loja num horário em que ela estivesse aberta e lá entrar.
"Hipnotizados" é a palavra certa. Estou falando do relógio que ilustra esse texto e que, claro, acabei comprando.
O que primeiro chama a atenção nele é o movimento do pêndulo, para lá e para cá - só ele já seria bastante original. A construção do mecanismo também é inusitada: aparente e toda em madeira, pode não ser o sistema mais preciso do mundo, mas é realmente muito bonito e inclusive mesmo didático. Um espetáculo de relojoaria. E, enfim, estamos falando de um legítimo relógio de corda. Ou seja, nada de pilhas: o que move o relógio é a gravidade, através da mais literal de todas as formas de se "dar corda" a um mecanismo.
Para completar, cuidava da loja uma senhora que era uma amor de pessoa, detalhou o funcionamento do relógio (de fabricação catalã inspirado em projeto do século XVII, segundo ela), fez a venda e embrulhou cuidadosamente o objeto numa caixa de papelão.
A história poderia terminar aqui. No entanto, de Andorra ainda passaríamos por outros países - faltavam cinco voos de avião antes de voltarmos para casa. A caixa com o relógio foi minha bagagem de mão em cada um desses voos. E, em cada aeroporto, aquela caixa com um mecanismo inusitado (e com os pesos do relógio) suscitava reações diferentes ao passar pela inspeção de raio X. Em todos eles, tive de parar e explicar o que continha a caixa. Então, às vezes a pessoa da segurança, olhando novamente o raio X, subitamente enxergava o objeto, abria um sorriso e fazia perguntas sobre o funcionamento do relógio ou onde eu o havia comprado. Noutras vezes, pediam para abrir a caixa, o que era incômodo pois ela estava envolta em fita adesiva e o relógio, cuidadosamente acomodado dentro dela. Até que, numa dessas, após inspecionar o relógio, o funcionário me fez a gentileza de fechar a caixa com uma fita especial, que dizia "Security OK". Graças a isso, nas inspeções seguintes, não precisei mais abrir a caixa - os funcionários perguntavam de que se tratava, olhavam para o volume lacrado, em seguida para a imagem do raio X, pensavam um pouco e em seguida me deixavam seguir. Nada excepcional, é verdade, mas eu não conseguia deixar de achar graça, especialmente porque aquilo sempre lembrava minha experiência anterior com um samovar.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Às compras em Andorra

Andorra, e Andorra la Vella em particular, é um lugar de comércio e de comerciantes. Mas não propriamente como a Turquia ou outras partes da Ásia, onde todos parece que nasceram para fazer negócios - falam incontáveis línguas, esgrimindo em todas elas uma lábia folclórica.
Em Andorra, pelo contrário, a vocação para os negócios é mais recente e vem de incentivos para instalação de uma zona de comércio livre no país dos Pirineus. Em outras palavras, Andorra la Vella é um grande free shop a céu aberto, algo como uma Rivera ou uma Ciudad del Este chique.
Parêntese. Andorra la Vella é a capital e maior cidade de Andorra. O curioso é que seu nome costuma ser traduzido como Andorra-a-Velha, Andorra-la-Vieja ou Andorra-la-Vieille, quando o significado real em catalão seria Andorra-a-Vila, ou seja, Cidade de Andorra...
Pois bem, a efervescência comercial de Andorra está muito longe de ser velha e, assim, o que tem de bons preços (ao menos para os padrões europeus) e de variedade nem sempre é o que tem de fino trato.
Numa ocasião, estávamos procurando a camisa da seleção de futebol de Andorra. Acabamos concluindo que a seleção é real (até prova em contrário), mas a respectiva camisa, se é que existe, passa longe de qualquer vitrine. Em umas tantas lojas nos disseram que não tinham a tal camisa. Até entrarmos em um estabelecimento grande, de uns três ou quatro andares, talvez uma das redes mais completas do país em termos de artigos esportivos. Um dos andares era dedicado ao futebol e vimos farta exposição de bolas e acessórios, além de camisas de Barcelona, Real Madrid, Manchester United e de várias seleções - a do Brasil em destaque -, mas não de Andorra. Descemos um andar para perguntar  a uma vendedora; a mulher, antes de responder, olhou-nos com uma cara de incrédulo desdém, e então foi taxativa:
- A seção de futebol é no andar de cima.
- Eu sei, mas não há ninguém lá. - tentei contemporizar. - Talvez pudesses saber se a loja tem a camisa da seleção de Andorra.
E ela, com uma firmeza de meter medo:
- Não sei, não trabalho naquele andar. Vai lá e procura.
Afastei-me devagar, pensando (1) que a vendedora deve ter nascido e passado a vida inteira naquele andar, para não saber o que há nos outros e (2) como é diferente na Turquia, país em que ajudar um cliente a encontrar uma compra numa loja rival é uma opção, e deixar um cliente de mãos abanando não é.
Noutro dia, passávamos em frente a uma loja de eletrônicos que anunciava certo modelo de câmera a um preço bem convidativo. Entramos e perguntei pela câmera. O vendedor, não dos mais simpáticos, ofereceu uma pelo dobro do preço. Perguntei:
- E aquela câmera da vitrine?
- Não temos.
O rapaz foi enfático o suficiente para não deixar dúvidas disso, por estranho que parecesse; também tinha um pouco-caso de quem não parecia estar disposto a conversar; e, a exemplo da raposa diante das uvas, eu não queria tanto assim aquela câmera. Saí de fininho o mais rápido que pude.
Na loja ao lado, a vitrine anunciava uma máquina de cortar cabelo (e isso, sim, era algo que eu pensava em comprar, se surgisse a oportunidade) por 10 euros. Entramos e, quando fui pedir informações, um rosto e uma voz familiar ofereceram uma máquina por 30 euros. Só então reparamos que aquela loja era interligada por dentro à anterior e a mesma pessoa atendia lá e cá! Nem nos demos ao trabalho de perguntar pelo produto mais barato: agradecemos e buscamos mais uma vez a porta da rua...
Foi assim que desisti dos eletro-eletrônicos de Andorra.
Mas não das compras, e o próximo alvo era mais singelo. Acontece que Andorra, assim como boa parte da Espanha, tem um clima bastante seco. No meu caso, uma das consequências disso é: lábio seco, com rachaduras, de uma maneira no mínimo incômoda. Eu queria encontrar um protetor para os lábios - fosse no Brasil, eu me contentaria com um pouco de manteiga de cacau. Entramos numa farmácia e achamos o que eu queria, mas na forma de um hidratante labial importado da Noruega com preço mais salgado que o bacalhau daquele país. Hesitei um pouco, pensando no preço, e perguntei à Renata:
- O que achas? Compro?
Nisso, a balconista da farmácia, com os olhos fixos nas fendas ressecadas dos meus lábios, deu uma gargalhada e não resistiu:
- Eu não te digo nada!
Ainda tenho comigo o protetor labial norueguês comprado na velha Andorra la Vella.

sábado, 30 de agosto de 2014

É dia de festa em Tórshavn

Exposição de carros antigos
Uma imagem fácil das Ilhas Faroe seria a de um lugar pouco habitado, onde se vê mais paisagem natural do que gente e onde as opções de convívio social a que estamos acostumados - festas, cinemas, shoppings - são limitadas. Bem, isso pode até ter um fundo de verdade: as ilhas têm mais ovelhas ou pássaros do que pessoas, e muitíssimo mais áreas desertas que habitadas; há um único shopping (modestíssimo para os nossos padrões); e pode até haver cinema, mas os filmes que lá chegam, em geral, não são sequer legendados ou dublados na língua local.
Claro, isso não quer dizer que os faroeses não tenham seus momentos e espaços de convivência e lazer. Ao que parece, alguns desses momentos estão ligados aos tantos festivais anunciados por lá e ligados a certas datas do calendário, na melhor tradição nórdica, como o dia de Santo Olavo, que marca significativamente o auge do verão e a noite do feriado da Ascensão. Tivemos a sorte de nossa viagem coincidir com outra dessas datas, o Dia da Cultura.
Jogadores do B36 com as crianças
Nunca imaginei ver tanta gente reunida nas ruas de Tórshavn, a pacata capital faroesa. Em alguns momentos, ficava até difícil caminhar. Tórshavn organizou uma programação realmente intensa, ao longo de todo o dia, com eventos simultâneos em diversos pontos da cidade. A maior parte do comércio do centro ficou aberta até tarde e com alguma programação especial. A loja de artigos esportivos, por exemplo, contou com a presença dos jogadores do Bóltfelagið 1936 (B36), um dos dois maiores times de futebol do país, posando para fotos, autografando, conversando e jogando fla-flu (totó) com as crianças. A biblioteca tinha uma sequência de palestras e outros eventos; em um deles, um escritor lia uma de suas obras lá na Dinamarca continental, com transmissão direta por Skype. A loja de discos da Tutl, a gravadora local, tinha uma programação de pequenos shows na calçada da rua. Na catedral haveria música sacra. No porto, passeios de barco. E havia ainda caminhadas e visitas guiadas, prédios públicos de portas abertas, exposições de arte e até mesmo um evento de carros antigos - fascinante para nós pois, mesmo que não haja tantos carros antigos num pequeno e remoto arquipélago europeu, eles são quase todos bem diferentes dos que vemos no Brasil.
Desfile de trajes típicos da Marjun Heimá
Havia também um desfile de moda que seria talvez o ponto alto do dia, o primeiro e único desfile de moda que vi até hoje. Mas não como os que poderíamos esperar ver em qualquer lugar. Parece que tudo nas Ilhas Faroe é único, incomum, tudo tem um encanto levemente surpreendente. Na rua principal da cidade, apinhada de gente, montaram um palanque por onde desfilou diante de nós a moda tradicional faroesa. Sim, um desfile de trajes típicos. Ou como queiram, da pilcha faroesa - a roupa usada por eles ao longo de séculos, quando muito com alguns toques de modernidade aqui ali - com vocês, a moda tradicional das Ilhas Faroe, coleção primavera-verão 2014 da grife Marjun Heimá. Roupas típicas para a cidade, para o campo, para uma festa de casamento...
Vejam a expressão da menina de azul à direita!
Além das roupas em si, o mais legal é que as modelos (e os modelos) eram "gente como a gente". Uns jovens, outros de mais idade, outros ainda crianças em idade pré-escolar! Claro que esses últimos foram os que mais chamaram a atenção. Uma menininha toda envergonhada, coitadinha, tapando o rosto com uma mão e guiada pelo coleguinha com a outra mão. Outra menina, pelo contrário, acenava para todo mundo e parecia ter ganho o dia ao subir na passarela. Como não ficar encantado?

Mais crianças da Marjun Heimá