domingo, 7 de março de 2010

O Grande M

Ele não é unanimidade, mas está em toda parte. Uns o desprezam, outros não vivem sem ele. Da praia de Copacabana às veneráveis cidades chinesas, de Paris aos Estados Unidos, de Londres a Nova Déli, lá está ele. Cintilante, o Grande M.
McDonald’s.
Não pretendo discorrer sobre o McDonald’s como símbolo de ideologias políticas e econômicas nem sobre o valor nutritivo de um Big Mac. O que interessa a um viajante inveterado, em última análise, é que, seja no centro comercial de uma cidade cosmopolita ou às portas de uma fortaleza medieval, corre-se sério risco de esbarrar com ele.
O Grande M, mais onipresente que o Grande Irmão previsto por Orwell.
Claro que sou fascinado pela oportunidade de desvendar um pouco que seja de culturas diferentes quando viajo. Claro que isso inclui provar a culinária local. Ainda quero escrever mais sobre as experiências sensoriais, entre curiosas e encantadoras, que uma simples refeição pode proporcionar.
Mas confesso que também existem alguns momentos em que precisamos de um certo descanso: seja do bolso, quando os restaurantes convencionais são muito caros, ou do paladar, quando a comida local é exótica ou apimentada demais. Ou simplesmente quando olhamos sem cessar à nossa volta e não encontramos um único lugar que pareça oferecer uma refeição razoável e confiável. É nestas horas que ele nunca decepciona: dobramos a esquina e lá está o Grande M. Vamos a ele com a vantagem de já saber o que pedir, o que esperar e quanto pagar. Aliás, o preço de um Big Mac costuma ser um bom indicativo para quem quer saber se tal cidade é um destino caro ou se tal moeda é mais forte que outra. Já vi até um estudo econômico sobre isso...
Enfim, voltemos. Se não me engano, comecei a dar mais valor ao Grande M durante minha viagem pela Espanha. Nada contra a culinária espanhola, que por sinal é deliciosa. Acontece que os espanhóis almoçam tarde, o que faz com que seja quase impossível encontrar um restaurante aberto antes das três horas da tarde. E como fica a fome no nosso caso, brasileiros pouco habituados a este horário e que, ainda por cima, tinham acordado cedo para aproveitar a cidade? Dê-lhe McDonald’s! O Grande M, mesmo na Espanha, parece estar aberto a qualquer hora e ainda tem a vantagem de oferecer um banheiro muitas vezes providencial. Lembro-me de nós torturados pela fome e pelo sol em Sevilha (lá dizem que a equação E = m.c2 significa España = mucho calor2) balbuciando ao enxergar, quase como uma miragem, o letreiro amarelo brilhante: ah, o Grande M!
Na Índia, o que me levou ao McDonald’s foi uma conjunção de fatores: era, digamos assim, um restaurante confiável (a Índia não é um lugar em que se encontra facilmente um bom restaurante); era um porto seguro contra a comida exótica (por mais que eu tenha gostado da comida indiana, há momentos em que se quer algo mais comum); e era um lugar onde eu poderia satisfazer uma de minhas curiosidades. A saber: seria verdade que, na Índia, não vendem Big Mac? Sim, é verdade. No lugar dele, no cardápio, está o Maharaja Mac, bem parecido, mas feito de carne de frango. Há também um Vegetarian Mac. E, nas paredes, cartazes que dizem algo como: “Este restaurante se orgulha de não servir carne bovina.”
Não é curioso que mesmo o McDonald’s, propalado símbolo do capitalismo e do neoliberalismo, acabe se curvando a algumas particularidades locais?
Agora, o lugar onde eu mais apelei para o Grande M foi mesmo a China. Até me arrependo um pouco de não ter provado certas iguarias chinesas, mas não sei se eu teria aguentado: a comida de lá é mesmo exótica (nenhuma semelhança com a comida chinesa que se vende no Brasil), a ponto de não se ter ideia do que está no prato. Ou, quando se tem ideia, a coisa não parece ser das melhores, como bicos de galinhas e insetos. Sorte minha que, por mais que a China continue se dizendo comunista, já está aberta o suficiente para permitir, em todos os lugares por que passei, a presença ostensiva do Grande M.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Vintém de Cobre e os Fucas Invasores

Era assim no antigamente, naqueles velhos reinos de Goiás.
Cora Coralina
Suponho que nem todos iriam gostar de uma cidade como Pirenópolis. Alguns provavelmente sentiriam falta do agito. Mas, ora bolas, de que serviria a unanimidade, ainda que ela existisse? Melhor deixar como está: Pirenópolis pequenina como um vintém de cobre, Pirenópolis grande como o coração da goiana Cora, autora de Vintém de Cobre.
Pirenópolis é assim: uma daquelas cidadezinhas que dão a impressão de caber na palma da mão mas que, como uma relíquia, guardam lindas surpresas. Adoro esses pedaços de mundo que permitem passeios entre calçamentos pé-de-moleque e paredes coloniais. Adoro as histórias de antigas tradições que estas paredes contam: é como se ouvíssemos o ano inteiro o galope das cavalhadas. Cruzar um batente e confirmar que aquela comida simples do interior é, mesmo, insuperável. Andar um pouco e descobrir que o rio se transforma em cachoeiras. Ah! Não admira que cenários assim inspirem os violeiros: por mais previsíveis que possam ser as rimas, são sinceras as canções.
E, no meio de tudo isso, há, sim, surpresas. Eu comecei a suspeitar quando reparei que, nas ruas e nas fotos, apareciam mais fucas do que seria razoável. Não poderia ser coincidência. Muitos fucas, às vezes vários deles enfileirados ao longo da calçada. Seria uma ilusão? Uma invasão? Por mais que uma cidade nostálgica combine com um carro nostálgico, eu não conseguia entender. E os fuquinhas não paravam de surgir. Bem, o que descobri, depois de me ver cercado deles, é que, por algum motivo, a pequena Pirenópolis é conhecida como a cidade do fusca e sede do Pirifusca - Clube do Fusca de Pirenópolis.
Minha visita já faz mais de um ano e não pude ainda retornar, entre outros motivos porque Pirenópolis, a meio caminho entre Goiânia e Brasília, está um tanto longe de nós do Sul/Sudeste. Mas, quando voltar, já sei com que carro quero entrar na cidade.

Notas
Vintém de Cobre é um dos livros de Cora Coralina, poetisa maior do estado de Goiás e notavelmente da cidade de Goiás, não muito longe de Pirenópolis.
Fuca é como chamamos no Rio Grande do Sul este bólido que em outras partes do Brasil chamam de fusca e que em Portugal chamam de carocha. Por estranho que possa parecer a quem esteja acostumado à palavra fusca, parece que fuca está mais próxima da origem do vocábulo, que seria a corruptela da pronúncia alemã de VW.

sábado, 2 de janeiro de 2010

Uns mais iguais que os outros (será?)

Uma das coisas que mais me fascinou na China foi conversar com as pessoas que eu encontrava lá. Mesmo que eventualmente a língua trouxesse algumas dificuldades, colhi histórias incríveis. Conversei, por exemplo, com uma senhora da Mongólia Interior que vendia suvenires na Grande Muralha e caminhou ao meu lado por um bom pedaço: ela me falou de sua família, de seu pais, de sua língua... Momentos que valeram muito mais que qualquer bugiganga que eu possa ter comprado.
Outra pessoa com quem conversei bastante foi a recepcionista da pousada em que me hospedei em Guilin. Era uma chinesinha tagarela que não perdia oportunidade de falar comigo. Perguntava do meu país e das minhas impressões de viagem e também me dava uma porção de dicas sobre a cidade. Aconteceu, porém, que fiquei lá durante alguns dias e, durante este tempo, fui tendo a impressão de que nem sempre ela me tratava da mesma maneira. Às vezes, falava pelos cotovelos e com um sotaque surpreendentemente claro; noutras vezes, ficava quase calada, como se não soubesse muito bem como se comunicar comigo.
O mistério se esclareceu apenas no último dia. Fiquei um pouco envergonhado, mas também pude rir comigo mesmo ao matar a charada: não só era uma moça, eram duas moças que se revezavam na pousada! E eu tive a sorte de encontrar as duas juntas na recepcção, pois, de outra maneira, não sei quanto tempo levaria para descobrir isso sozinho! E eu já estava ficando orgulhoso da minha habilidade em distinguir rostos orientais, que até então se mostrara bastante satisfatória...
Lembrei na hora do que havia me confessado, dias antes, um outro chinês: ao encontrar alguns ocidentais, ele costumava reparar nas roupas, pois era a melhor forma que conhecia de diferenciar uma pessoa da outra. Afinal, ele me dissera, os ocidentais têm todos a mesma fisionomia!

sábado, 5 de dezembro de 2009

Granada, eco de fantasias

Dale limosna, mujer,
que no hay en la vida nada
como la pena de ser
ciego en Granada.
Francisco Alarcón de Icaza
Granada, Andalucía (ou Andaluzia). Claro que a Espanha é um país de cultura vasta e complexa; mas eu considero Granada como a cidade que que se manifesta mais intensamente a atmosfera espanhola que aprendi a imaginar em casa e na escola. Aquela España de sangre y de sol.
Como tal, não é difícil adivinhar que, a despeito das belezas (e tanto Granada quanto a Andalucía de forma geral são plenas de belezas, sobretudo na arquitetura), a degustação plena desta região passa, principalmente, por um olhar atento à cultura local. Neste ponto, tivemos sorte: já na chegada (de trem, o que, na Europa, é todo um capítulo à parte), dirigimo-nos à nossa hospedagem: nada menos que uma casa andaluza, simples mas completa e bem localizada, alugada para nós por uma irriquieta velhinha. Nenhum hotel ou pousada poderia ser mais pitoresco.
Mas a viagem, na verdade, começara muito tempo antes, nas histórias de família (que vão muito além do Dominguez espanhol que trago no nome) e nos sonhos de conhecer o que havia do outro lado do oceano. A Espanha foi minha primeira e inesquecível viagem desta magnitude. E ofereceu um mosaico (de azulejos andaluzes, talvez) fascinante, juntando porções já imaginadas ou experimentadas por mim (a língua, um pouco da culinária, algumas histórias) com outras inteiramente novas (nada é pleno enquanto não é vivido de fato).
O palácio mouro da Alhambra, talvez a principal joia histórica e arquitetônica da Espanha, fica em Granada, e só ele já compensa a visita à cidade. Não vou me estender sobre outros pontos (o Generalife, a Catedral, o Monastério) que os guias já descrevem com precisão. Mas é encantador chamar a atenção para o que vai além disto tudo, para o clima de mistério que emana de todas estas paredes medievais. Caminhar pelo Albaicín, o labiríntico bairro antigo, é uma experiência única. Lá, assim, como na Alhambra, o visitante acaba envolvido por um clima de Mil e Uma Noites que talvez exista apenas em pouquíssimos outros lugares. A influência mourisca está em toda a parte, e é uma delícia mergulhar nas lendas românticas de Granada. Quase se sente a presença, por exemplo, do rei que, derrotado, chorou ao abandonar a cidade e acabou encantado, dentro de uma montanha, onde está há séculos reorganizando seu exército para a retomada de Granada. E se a escolha é por uma noite ao som do flamenco, poucas coisas se comparam a um espetáculo oferecido por ciganos dentro de uma das cavernas que habitam há séculos. Sente-se, de mistura ao cantar flamenco, o eco de fantasias de todos estes séculos.
Outros aspectos da Espanha estão lá, como em todo o país: as tapas, o jamón, algumas das inúmeras variedades da paella, para ficar só no campo gastronômico. O sol, a sesta. Os laranjais. Convites aos sentidos e à imaginação. Granada, já antes de os espanhóis inaugurarem a história da América, era um reino prenhe de histórias. E assim continua: um lugar onde os ecos do passado se multiplicam, confundindo a lenda e a realidade, para criar lembranças e ilusões maravilhosas em casa novo visitante.

sábado, 14 de novembro de 2009

O Hotel Fantasma

Chegamos à ilha das Flores, no arquipélago dos Açores, ao cair da tarde. Instalamo-nos no hotel e, como de hábito, saímos para dar uma volta a pé pela cidade. O reconhecimento do terreno, digamos assim, aproveitando o que ainda restava de luz do sol. Procurávamos, também, traçar um plano para o jantar: era preciso encontrar uma padaria ou mercado onde comprar coisas que nos permitissem fazer um lanche, assim como tínhamos feito nas outras ilhas por que passamos, ou então encontrar um restaurante ou lancheria agradável.
Os Açores, porém, têm uma particularidade. As lojas fecham e as ruas ficam desertas assim que começa a escurecer. Não há vida noturna, pelo menos nada comparado ao que estamos acostumados. E em Santa Cruz das Flores, vila de 2500 habitantes (a ilha inteira tem 4000 habitantes), realmente não esperávamos muito agito. Apenas um lugar onde comprar um sanduíche e algo para beber...
Não achamos. E voltamos para o hotel, resignados. Então, já no quarto, vendo ao acaso alguns folhetos de propaganda, achei o anúncio de um restaurante tentador. Parecia um ambiente grande, com música ao vivo, onde serviam lanches e refeições completas, que faria bonito em qualquer metrópole. O point. E o melhor: junto ao hotel Ocidental, dizia o folheto. Era precisamente onde estávamos.
Lá vou eu, então, mais uma vez, explorar o lugar. Missão: encontrar o tal restaurante. Eu estava achando estranho que não tivéssemos passado por ele antes, mas bastaria perguntar a alguém. Desci. Não encontrei ninguém na recepção do hotel. Paciência, pensei, e saí a procurar o restaurante. Dei a volta no hotel (que não era pequeno) e não vi nada. Não satisfeito, dei mais uma volta, procurando com mais atenção. Absolutamente nada. Estávamos numa ponta junto ao mar e definitivamente não havia outro prédio em volta. Ainda pensei: será que o restaurante fica dentro do hotel? Voltei, intrigado e disposto a perguntar a alguém no hotel (na rua, não havia mais ninguém). Na recepção, ninguém. Na sala de estar, ninguém. Ninguém em todo o andar térreo. Subi a escada (um cartaz dizia que o restaurante do hotel ficava no andar seguinte). Já não me importava tanto achar aquele restaurante específico, eu queria achar um canto qualquer onde comer, e de quebra queria saber onde estavam as pessoas daquele lugar. Pois o outro andar não só estava deserto como tinha as luzes apagadas. Havia uma porta onde se lia “Restaurante”. A porta estava fechada, estava tudo escuro e só se ouvia o vento e as ondas do mar, lá fora.
Ainda percorri o que pude em busca de nem sei mais o quê (ou quem). Nada. Encontrei, no saguão, uma pequena lojinha de lembranças. Fechada. E só. O hotel estava deserto! Era uma situação inusitada: recém-chegados a uma ilha onde, de repente, não se via mais uma única pessoa, habitávamos um hotel fantasma. Sem escolha, desisti: voltei ao quarto e me deitei cedo, controlando a fome.
Na manhã seguinte, tudo normal: havia pessoas circulando e o café da manhã estava montado naquele mesmo restaurante que antes estava fechado. Servimo-nos, comemos e saímos para a rua, para enfim passear e descobrir o que o povo da ilha das Flores tinha a nos dizer.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Estas cidades do interior...

Há viagens que nos proporcionam emoções deliciosas.
Grandes cidades têm aderido à popularização das viagens turísticas e oferecem atrações dificilmente imbatíveis: city tours, monumentos, museus, sem contar os hotéis de luxo e os grandes navios de cruzeiro. O problema disto tudo é que, se simplesmente nos deixarmos levar, a viagem terá aquele gosto de comida industrializada, congelada e embalada para ser aquecida no microondas.
Para nossa sorte, gravitando em torno destes destinos mais badalados estão as pequenas cidades. Aquelas que nos oferecem o sabor do doce que nossas mães e avós costumavam fazer em casa. Quem prova, leva consigo uma lembrança toda especial deste sabor.
Às vezes, eu me surpreendo com o estilo, ao mesmo tempo familiar e completamente diferente, que têm certas cidades do interior... É um resgate, amplificado e regado com um toque pitoresco, de coisas que marcam uma vida.
As estradas gaúchas estão pontuadas de barracas que vendem os mais diversos itens. Algumas não passam de uma tenda com o produto de determinada região – seja ele pinhão, melancia, morango, laranja, vinho. Outras são grandes vendas de beira de estrada que contam com tudo isso e mais artesanatos, erva-mate e os tradicionais queijos, salames, copas, caldo-de-cana, cucas, chimias, mandolates... Um mundo. Para muitos, cada um destes produtos tem uma história própria e reencontrá-los é voltar a uma época marcante da infância. O caldo-de-cana, assim como os puxa-puxas, lembram-me as frequentes idas ao litoral da minha família, quando eu era criança e a escala numa destas barracas era quase obrigatória. As chimias, compradas ou feitas em casa, estavam sempre na nossa mesa. Os grôstoli ou, em bom gauchês, cuecas-viradas, eram a saborosa marca registrada de nossa divertida e inesquecível tia. Queijos e salames faziam a festa dos adultos: eu confesso que não era particular fã deles, mas passei a ser depois que cresci um pouco mais. E assim fui construindo todo um mosaico...
Que não para, porém, na culinária. Não há como não ser marcado pela atitude das pessoas do interior, tão diferentes nas coisas simples. Não necessariamente melhor ou pior, apenas diferente. Numa destas cidadezinhas, no Natal, gente que eu não conhecia e que era amiga da minha irmã convidou toda a nossa família para um churrasco, de surpresa. E me presentearam com litros do vinho produzido por eles mesmos. Noutra ocasião, também no interior do estado, conheci pessoas interessantíssimas que praticamente só falavam um carregado dialeto italiano – não por afetação, apenas por costume.
Mais recentemente, fui visitar minha irmã em Nova Prata, cidade que não é das menores. Encontramos a praça central com um palco armado para a apresentação de Luiz Marenco, músico nativista. Fomos comer um crepe suíço (certo, não é algo tão natural quanto os citados queijos e chimias, mas para mim é tão nostálgico quanto eles). Puxando assunto com a moça que nos atendeu, disse que minha irmã morava na cidade e que eu tinha vindo do Rio. Ao que a moça replicou:
— Ah, vieste para o show do Luiz Marenco, então?
Minha reação foi sorrir intimamente ao constatar o quanto as referências dela eram diferentes das minhas: a guria achava a coisa mais natural do mundo que eu tivesse saído do Rio de Janeiro para o interior do Rio Grande do Sul por causa de uma apresentação nativista específica! Depois, fiquei pensando que não se trata de este ou aquele músico, esta eu aquela comida, mas de um encontro comigo mesmo, e particularmente com a criança que eu fui e sou. Um encontro que não costuma acontecer nos McDonald’s — lugares que, coincidência ou não, o menino Eduardo frequentava muito menos que as velhas barracas de estrada.

sábado, 17 de outubro de 2009

Os pássaros

A meio caminho entre Porto Alegre e Montevideo, passávamos pelo Taim, e passavam por nós bandos de pássaros voando em V. Para onde iriam aquelas aves que cruzavam nosso céu e nossos sonhos?
Deixavam-me vidrado, colado ao vidro do carro, acompanhando com os olhos aqueles longínquos viajantes. Seriam pássaros uruguaios visitando o Brasil, ou pássaros brasileiros nos acompanhando ao Uruguai, ou talvez visitantes vindos de muito mais longe?
Aquelas aves viajavam em excursões que pareciam tão bem coordenadas! Ninguém se atrasava, ninguém se perdia a olhar lojinhas de quinquilharias, ninguém fechava a cara diante de insossos guias de museus empoeirados!...
Se eu me juntaria a uma excursão destas? Seria uma pena acompanhar o grupo e não poder parar para ver um detalhe da paisagem, ou para conversar com um guri na estrada, lá embaixo... Mas que delícia a companhia daqueles pássaros tão experientes em termos de voos a terras distantes! As tertúlias aéreas que teríamos valeriam, com certeza, por viagens inteiras.
E é por isso que os pássaros, de tempos em tempos, ficam trocando de posição no bando: aposto que estão é passando a cuia de chimarrão de mão em mão... Ou de asa em asa.