domingo, 15 de março de 2015

Kofola

A República Tcheca é a terra da cerveja. Ou pelo menos uma das terras da cerveja. Tanto que “pilsen”, que é o nome dado ao tipo mais comum de cerveja de baixa fermentação, nada mais é que uma referência à cidade tcheca - Pilsen - em que este surgiu. Mas, em nossas andanças pela Republica Tcheca e pela Eslováquia, o que nos chamou a atenção foi um refrigerante.
Não é de hoje que temos atentado, em cada lugar que visitamos, para os refrigerantes diferentes que encontramos. Especialmente para aqueles autóctones - exclusivos, muitas vezes típicos. A Inca Cola, no Peru. Sun Cola (refrigerante de cola sem gás, vendido em caixinhas TetraPak com canudo), nas Ilhas Faroe. MezzoMix. Old Style Original Kola. Faxe Kondi. Cockta. E, claro, os brasileiríssimos Guaraná Cruzeiro, Itubaína, Mate Couro e tantos outros.… Alguns dignos de nota, outros francamente decepcionantes, mas sempre, no mínimo, uma pequena diversão garantida.
Na antiga Tchecoslováquia, a marca nacional de refrigerantes era (e ainda é) a Kofola. Ora vejam, até o nome é curioso! Claro que tratamos de provar, e francamente a degustação superou nossas expectativas. Imaginem um refrigerante consideravelmente menos doce que a Coca-Cola. A Kofola tem menos açúcar e, assim, menor valor energético que a Coca-Cola, além de ter também menos sal. Tem, sim, um característico sabor de ervas, algo que lembra funcho, e que parece ser a marca registrada da bebida. Tudo somado, a Kofola nos conquistou. Fomos adiante e descobrimos outras variedades de Kofola - até mesmo com guaraná, além de versões com cereja e com limão. Esta última - Kofola Citrus - elegemos facilmente como a melhor delas, e fortíssima candidata a melhor refrigerante do mundo! O sabor cítrico compensa o de ervas e ambos complementam muito bem a tradicional base de cola.
Então, passamos a procurar Kofola por onde quer que passássemos, e em particular Kofola Citrus. Na Eslováquia, compramos dessa última em garrafas de meio litro perfeitas para carregar durante o dia durante nossos passeios. Chegamos à República Tcheca e, por algum motivo, só conseguimos encontrar Kofola Citrus em garrafas grandes, de dois litros (apenas a Kofola original estava disponível na embalagem menor). E olha que procuramos bastante, vasculhávamos todo mercado que encontrávamos em busca da Kofola Citrus….
Para dizer que não encontramos, houve um dia em que lá estava: numa dessas máquinas de venda automática de refrigerantes, garrafas de Kofola Citrus de meio litro ao nosso alcance. Ou quase. A máquina agarrou nossa moeda e nada de entregar a Kofola! A muito custo consegui reaver nossas coroas, mas fomos obrigados a desistir. Daquela fonte não sairia refrigerante.
No final, acabamos nos contentando com a garrafa grande, o que (ai de nós) só fez aumentar o consumo diário de Kofola. E, claro, demos um jeito de trazer um pouco para casa. Para nossa imensa tristeza, a última garrafa acabou hoje. Diante da iminente crise de abstinência, só resta implorar: se alguém for a Praga, que nos traga alguma garrafa de Kofola. Na falta da Citrus, a original está valendo.

sexta-feira, 6 de março de 2015

Do banheiro no quarto à grama no teto

Não fazemos questão de hospedagens luxuosas quando viajamos. Em geral, tratamos de economizar, procurando uma acomodação tão barata quando possível, desde que bem localizada e com um mínimo de limpeza e de conforto.
Sim, às vezes erramos feio na escolha, como no caso de uma pousada em Franca, interior de São Paulo, que tinha o banheiro no quarto. Não, não estou falando de um quarto com banheiro privativo; era exatamente o oposto de privacidade, pois o chuveiro, o vaso sanitário e a pia ficavam ao lado da cama, separados desta apenas por uma espécie de meia parede que não chegava ao teto e que também não tinha o comprimento minimamente necessário para dividir um ambiente do outro...
Noutras ocasiões, acabamos nos deparando com  situações simplesmente pitorescas: um hotel fantasma; uma pousada labiríntica; uma hospedaria que só fornece toalhas a quem curtir a sua página do Facebook (e lá vamos nós catar o celular, acessar a rede wi-fi, curtir a página na frente da recepcionista, para em seguida descurtir...).
Em compensação, há casos em que é possível dormir em lugares incríveis sem que o preço seja necessariamente estratosférico. Uma pousada na Capadócia em que os quartos são cavernas na pedra é só um dos exemplos possíveis.
Mais recentemente, temos explorado uma outra forma de hospedagem, bastante comum em certas partes da Europa: alugar um apartamento diretamente com o proprietário. Temos conseguido apartamentos bem localizados, maiores e mais bem equipados que os quartos oferecidos pela maioria dos hotéis convencionais, e por preços competitivos. Em geral, há duas desvantagens: enquanto muitos hotéis têm recepção 24 h, nesses apartamentos é preciso informar com antecedência a hora aproximada da chegada (o que, dependendo do planejamento, pode ser um problema); e não é oferecido café da manhã. Em compensação, o apartamento, além de ser mais espaçoso, tem outra vantagem: uma cozinha inteira só nossa! Ir ao supermercado e procurar por produtos típicos do lugar, ou por produtos que não conseguimos com tanta facilidade no Brasil, acaba sendo uma grande diversão. E uma diversão que nos garante comida boa, farta e barata no café da manhã e no jantar. Começamos pouco a pouco... No começo, nem sequer usávamos a cozinha. Depois, aproveitávamos o espaço para preparar alguns sanduíches. Nas últimas vezes, refeições completas (na medida do possível) já estavam saindo do fogo e enchendo o ambiente com o cheiro de comida.
E já não surpreenderá os leitores desse espaço que algumas das nossas mais agradáveis experiências de hospedagem tenham sido nas Ilhas Faroe. À parte a simpatia de todos que encontrávamos, à parte a nossa janela com vista para o fiorde em Tvøroyri, tivemos uma acomodação ímpar em Tórshavn: não um simples apartamento alugado, mas uma legítima casa em estilo nórdico, de paredes de madeira e grama no telhado. Simples por dentro, mas autêntica, tão autêntica que o fogão funcionava a lenha - e cozinhar num fogão a lenha pode ser mais difícil e demorado que num fogão a gás, mas nada combinaria tanto com o ritmo daquelas ilhas. Um rádio para encher a casa com a suave música faroesa. Pássaros e um cachorro que visitava a nossa varanda. O que mais poderíamos querer?

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Helau! - ou: carnaval na Alemanha

Para quem não é de folia, o carnaval é uma oportunidade (quase uma obrigação) de viajar para longe. Assim, temos tratado de aproveitar os últimos feriados de carnaval em outras plagas.
À parte a questão da viagem e dos passeios em si, pensar que é carnaval quando se está no exterior traz duas possibilidades. Uma, a de que os dias passam como quaisquer outros e o carnaval é uma festa desconhecida - como vivemos, por exemplo, na muçulmana Bósnia. Outra possibilidade é a de que existe, sim, carnaval. O que é interessante porque, em qualquer outro país do mundo, o carnaval é provavelmente diferente do que conhecemos no Brasil.
De qualquer forma, o fato é que viajamos sem nos preocuparmos com o carnaval. Fomos para a Alemanha.
Frankfurt, ou Frankfurt am Main, que os lusitanos chamam de Francoforte do Meno, não é uma cidade particularmente turística, mas ainda assim vale a visita. Passeando por lá, descobrimos quase sem querer, entre outras coisas, que o carnaval é um desfile pelas ruas. Carros alegóricos, gente fantasiada e alguns instrumentos musicais - tudo muito bem feito, mas sem o exagero (ou grandiloquência) do Rio de Janeiro. Os carros alegóricos lembram certos trios elétricos, mas às vezes são pouco mais que kombis - embora, na Alemanha, é comum ver uma Mercedes onde esperaríamos uma Kombi.
As pessoas, especialmente as crianças, ocupam as calçadas das ruas por onde vai passar o desfile. Curiosos que somos, imitamos o povo e nos colocamos também à espera dos foliões. Que passam coloridos, lançando ao ar o brado oficial do carnaval alemão - Helau! - e recebendo precisos e incompreensíveis versos alemães como resposta. De quando em quando, jogam doces. Sim! Para alegria das crianças e dos gulosos, na Alemanha os foliões desfilam jogando guloseimas para o público. À nossa volta, os mais precavidos têm sacolas para a coleta. Aos poucos, vamos aprendendo: o grito - Helau! - é prenúncio de uma chuva de balas, chicletes, pirulitos, bolachas, marias-moles... Mãos ansiosas pulam atrás de um quinhão do doce tesouro. O carnaval de Frankfurt nos conquistou.
Seguimos viagem. Lá pelas tantas, fazemos uma breve parada na pequena e típica cidade de Bad Mergentheim. O acaso (ou nem tanto, afinal é carnaval) faz com que encontremos a população em frenesi, é evidente que o desfile acontecerá dali a pouco. Não nos fazemos de rogados: seguimos para a praça, entre as pessoas, e buscamos uma colocação estratégica para ver os blocos, tirar algumas fotos e coletar os doces que pudermos. Quando o desfile começa, tudo é festa. Helau! Helau! Até que somos atingidos por projéteis - balas alemãs - balas de açúcar! Os doces não só são abundantes como são duros. E parecem ser jogados com toda a força pelos sorridentes alemães. Helau! E levamos as mãos ao rosto para nos protegermos, enquanto as balas fazem um ou outro galo em nossas cabeças. Helau! E procuramos juntar rapidamente o que sobrou de balas espalhadas pelo chão para então recuar estrategicamente, buscando um lugar seguro.
A viagem e o carnaval ainda continuaram. Helau! - seguimos ouvindo no dia seguinte, e nosso coração batia, nossos corpos se encolhiam e nossos olhos buscavam identificar o próximo bonachão e insuspeito franco-atirador de doces.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Nas Arábias, ao vivo e a cores

Já que dizem que uma imagem vale mil palavras, aqui vai mais das nossas andanças pelos Emirados Árabes. A música que embala o vídeo é da cantora Yara, exatamente a mesma que serviu de trilha sonora para nossas viagens de carro entre uma cidade e outra por lá.


terça-feira, 20 de janeiro de 2015

GP de Abu Dhabi

Sim, estivemos em Abu Dhabi para o GP e acompanhamos a final do campeonato de Fórmula 1 ao vivo e in loco. Para quem gosta de automobilismo, como nós, foi uma experiência incrível. Ainda mais porque essa foi uma experiência bastante completa mesmo - a organização do evento é realmente muito boa e há muito para se ver e fazer o tempo todo. Tanto que voltávamos para o hotel à noite, cansados e satisfeitos e já esperando pela ação do dia seguinte. Mas, se é para falar do que vimos do GP de Abu Dhabi de 2014, aqui vai um vídeo em primeira pessoa.


domingo, 11 de janeiro de 2015

O Grão-Duque e os Castelos

Qualquer viajante razoável terá visitado repúblicas: países como a Argentina, os Estados Unidos, França, Itália ou Portugal. Sem contar nosso próprio Brasil ou tantos outros lugares por esse planeta afora.
Muitos terão ido além e visitado algum reino. Como o Reino Unido, claro, mas também a Espanha ou o célebre Reino da Dinamarca, além de outras terras nórdicas. Para quem não está acostumado, a proximidade com reis e rainhas não deixa de ser curiosa.
Com sorte ou disposição, o viajante terá pisado num território governado por um príncipe - a começar pelo Principado de Mônaco.
Assim, juntamente com cidades e países, vai-se colecionando formas de governo.
Pois bem, hoje é dia de falar de um lugar que tem um Grão-Duque como chefe de estado. Adivinharam? Trata-se de Luxemburgo.
Afinal, esse pequeno e belíssimo país espremido entre a Bélgica, a França e a Alemanha é um Grão-Ducado. Fotos e imagens alusivas ao grão-duque e à família real - ou seria (grã-)ducal? - são encontradas facilmente nas lojas da capital.
Sei muito pouco sobre o Grão-Duque, mas ele é certamente alguém de sorte, pois não apenas nasceu em berço de ouro, mas num país que é uma verdadeira joia europeia, cenário de contos-de-fadas. E poliglota, se contarmos que um lugar tão pequeno tem três línguas oficiais, incluindo a sua própria (luxemburguês) e que todos por lá também falam inglês.
Mas talvez o mais legal seja mesmo percorrer Luxemburgo em busca de seus castelos. Para início de conversa, como o país é pequeno, não é difícil ir de uma ponta à outra. Saímos da capital, que por si só já vale a visita, e percorremos uma sucessão de vales sinuosos, muito deles pontuados por rios estreitos. E, no alto das colinas, castelos típicos exatamente como imaginamos que devem ser: muralhas de pedra, cercados por fossos e com ponte levadiça, torreões e tudo o mais.
Começamos pelo castelo de Vianden, que corresponde bem à descrição que fazemos mentalmente. O castelo, por dentro e por fora, é lindo, e está repleto de histórias de reis, de grão-duques e de guerra (não esquecer que castelos tinham um fim bélico). Não somente de guerras medievais: o de Vianden chegou a desempenhar papel fundamental na Segunda Guerra, quando foi sitiado pelos nazistas na sua invasão de Luxemburgo.
Em Esch-sur-Sûre, o que chama a atenção é a minúscula cidade cortada por um rio. Dali, subindo uma ladeira não muito longa, chega-se às ruínas de outro castelo. Que se destaca sobretudo pela vista que oferece do vale, do rio e da própria cidade. Dê-lhe encher os olhos e os cartões de memória das câmeras com essa paisagem!
Descendo do castelo até o que parece ser o centro de Esch-sur-Sûre, encontramos um lugar para almoçar.
Seguindo caminho, mais além encontramos o castelo de Bourscheid. Nesse, os muros parecem ainda mais antigos que em Vianden (certamente, a sua última reforma é que é mais antiga).
Depois, o dia já está chegando ao fim, e voltamos à cidade de Luxemburgo, a capital. Onde, para não fugir à regra, não faltam castelos e construções fortificadas - e esses, em geral, conseguimos explorar a pé. Para citar um último, há o Forte Thüngen que, perfeitamente restaurado, guarda um museu de história que tem tudo a ver com o passeio.

domingo, 4 de janeiro de 2015

O Guia Puffin de Gastronomia

À época eu sequer me dei conta, mas um dos momentos marcantes de 2012 foi ter decidido visitar o restaurante Olympe, de Claude Troisgros, no Rio de Janeiro. Há algum tempo eu tinha a ideia de "conhecer um restaurante de alta gastronomia", porém dois ou três preconceitos me impediam: o de que o tamanho das porções francesas seria insuficiente para matar a fome; o de que o preço a pagar seria caro demais para "simples comida"; e talvez que, com "invenções demais", a refeição poderia ser mais estranha que apetitosa.
Bem. Resumindo, a Renata e eu fomos e nos tornamos, cada vez mais, amantes da boa cozinha. Aprendemos que: a sucessão de pratos é mais farta do que parece, e não lembro quando foi a última vez que não saímos saciados de uma boa refeição; não estamos pagando apenas por um prato de comida, mas por uma experiência completa, que evoca sensações e emoções e vale cada centavo, sem exagero; e que num ou noutro caso as combinações podem até parecer inusitadas para um paladar específico, mas confiar no chefe em geral nos abre portas para sabores que até então nunca teríamos sequer imaginado.
E daí...? Esse não é um blogue de gastronomia, como sabem. Mas sabem também que viagens e gastronomia se completam. Daí que eu, a Renata e o Puffin tivemos a ideia de elaborar a lista dos nossos restaurantes preferidos e, assim, acaba de nascer este Guia Puffin de Gastronomia. Da mesma forma que o já um tanto batido Guia Michelin distribui estrelas (até três) aos melhores restaurantes das cidades avaliadas, o nosso Guia Puffin vai conferir enguias para os estabelecimentos que proporcionaram nossas mais excepcionais experiências gastronômicas - incluindo na avaliação não apenas a comida, mas também o ambiente, o serviço, enfim, a experiência completa.
Assim sendo... com vocês, o Guia Puffin de Gastronomia!

Kovacic, Recife - 1 enguia
Sob reserva, o chefe Kovacic nos recebe em sua casa, num endereço escondido da capital pernambucana. O clima intimista fica evidente desde a reserva, num telefonema que o chefe em pessoa atende com forte sotaque croata. O restaurante não tem sequer página na Internet. A proposta é de um menu degustação que muda a cada semana e que, no dia de nossa visita, tinha como inspiração "o nascimento das estrelas". Um exótico, simpático e falante Kovacic nos recebe e apresenta cada prato, deixando perceber que a harmonização não é só da comida com a bebida, mas também com o ambiente e até com a trilha sonora. A refeição é bem cuidada sem ser demasiado sofisticada. Estávamos acompanhados de um casal de ótimos amigos e isso ajudou a fazer com que a noite fosse ainda mais agradável.
Particularidade: o restaurante não trabalha com cartões e Kovacic, em respeito a um costume cigano, não toca no dinheiro.
Data da visita: junho de 2014.

CT Trattorie, Rio de Janeiro - 1 enguia
É a casa de comida italiana - ou melhor, ítalo-francesa - dos chefes Claude e Thomas Troisgros. Tanto o ambiente quanto os pratos são mais simples que no Olympe, mas nem por isso deixam de ser excelentes. O cardápio é extenso e a expectativa de ingredientes tratados com o máximo de cuidado foi plenamente atendida.
Particularidade: o restaurante costuma aparecer no programa Que Marravilha, que Claude Troisgros apresenta no canal GNT.
Data da visita: agosto de 2014.

Järntorgspumpen, Estocolmo (Suécia) - 1 enguia
Uma casa agradável no centro de Estocolmo, com o cardápio à porta. Procurávamos um lugar para um jantar especial na noite de São Valentim (o dia dos namorados europeu) e esse foi o que nos conquistou. Apesar da data, não precisamos fazer reserva nem esperar por uma mesa. O atendimento e a comida estavam excelentes. A Renata lembra particularmente da deliciosa sopa de abóbora que serviram.
Particularidade: o restaurante fica em um prédio histórico que, por si só, já vale a visita.
Data da visita: fevereiro  de 2013.

Roberta Sudbrack, Rio de Janeiro - 2 enguias
A chefe Roberta Sudbrack está em alta entre os críticos gastronômicos e, na nossa opinião, a sua cozinha faz por merecer. Os pratos são contemporâneos com inspiração brasileira - queijos regionais, tucupi, pargo, frutas tropicais e até mandiopã figuram com destaque. É incrível como a chefe leva ao extremo a máxima de que "menos é mais", criando pratos com poucos ingredientes e muito sabor. Na minha opinião, o nível de experimentação é relativamente alto e muito bem sucedido. Apenas achei que o ritual de trazer os pratos à mesa, certamente o momento mais marcante da refeição, poderia ser mais valorizado se os garçons cuidassem de apresentar melhor as criações.
Particularidade: Roberta Sudbrack, é porto-alegrense como eu. Viveu em Brasília e foi a primeira mulher a ser encarregada da cozinha do Palácio da Alvorada, antes de vir para o Rio de Janeiro.
Data da visita: dezembro de 2014.

Indego by Vineet, Dubai (EAU) - 2 enguias
A ideia era comemorarmos quatro anos juntos num bom restaurante de Dubai. O escolhido foi o Indego, de inspiração indiana, e a experiência foi excelente. Uma sucessão de pratos lindos e bem executados, com mais pimenta do que se esperaria no Brasil, mas ainda assim adequada ao nosso paladar (o garçom nos perguntara o nível de picância que queríamos). A Renata teve um menu vegetariano montado sob medida para ela! Entre as surpresas, provamos um sorvete salgado de açafrão, surpreendentemente leve, para preparar o paladar antes do prato principal.
Particularidade: o chefe Vineet Bhatia é o primeiro indiano a receber estrelas Michelin. Agora é também o primeiro indiano a receber enguias do Guia Puffin!
Data da visita: novembro de 2014.

D.O.M., São Paulo - 2 enguias
O restaurante de Alex Atala, eleito sucessivas vezes o melhor do Brasil e um dos melhores do mundo, dispensa apresentações e era um de nossos sonhos de consumo, literalmente. O ambiente é sóbrio e elegante. Provamos um menu degustação (D.O.M.Gustação) contemporâneo que valoriza ingredientes brasileiros com tratamento e apresentação impecáveis. O que faltou, então, para a terceira enguia? Muito pouco! Mas o Puffin é exigente... Basicamente, ele gostaria de um toque mais pessoal, mais intimista. Como aqui vale não só a comida, mas principalmente as sensações e lembranças, quem sabe a terceira enguia vem com nossa próxima visita?
Particularidade: o cardápio têm três opções, todas de degustação: quatro pratos, oito pratos ou vegetariano (Reino Vegetal, de cinco pratos). Como eu escolhi a degustação de quatro pratos e a Renata, o Reino Vegetal, ofereceram-me "de lambuja" um quinto prato para que nossa refeição ficasse sincronizada.
Data da visita: março de 2014.

Olympe, Rio de Janeiro - 3 enguias
A nave-mãe de Claude Troisgros não poderia não figurar no Guia. Foi lá que descobrimos que um restaurante pode ser perfeito em vários aspectos, desde o sabor da comida até a cordialidade de cada pessoa que trabalha lá, passando pelos talheres, pelo nível de ruído do ambiente, pela surpresa que o ritual da comida é capaz de nos proporcionar... E, como se não bastasse a qualidade dos pratos valer demais a visita, não é raro ver o próprio Claude, uma simpatia em pessoa, perambulando entre as mesas, sentando-se ao nosso lado e conversando com cada um dos comensais.
Particularidade: na minha opinião, tem o nome mais perfeito entre os restaurantes que conheço. Olympe é o nome da mãe do chefe Troisgros. E é também, claro, o nome da morada dos deuses, onde se servia ambrosia e néctar.
Última visita: setembro de 2014.

Le Louis XV, Mônaco - 3 enguias
Já li que há restaurantes três-estrelas Michelin e há Le Louis XV. Agora, ainda mais: três-enguias e no topo da exigente lista do Guia Puffin. Tudo lá é perfeito: o atendimento, os sabores, a ambientação. Foi a escolha ideal para nossa noite de noivado; a experiência conseguiu superar nossas altas expectativas, e só não vou me estender mais porque já contei isso aqui. O resto é história, uma das histórias que guardamos com mais carinho.
Particularidade: O livro Nature, do chefe Alain Ducasse, é quase impossível de se encontrar no Brasil, mas é simplesmente fantástico para quem quer se aprofundar nos sabores da cozinha mediterrânea.
Data da visita: maio de 2014.

Como perceberam, essa é a lista, em ordem crescente, dos melhores restaurantes das nossas vidas. Não foram os únicos, claro; para quem quiser ir além (e, quem sabe, para uma possível promoção numa futura edição do Guia), aqui estão outros lugares dignos de nota pelas experiências, sempre personalíssimas, que vivemos:
Artigiano Ristorante, Rio de Janeiro
Emporium Pax BPS, Rio de Janeiro
Glocke, Rothenburg ob der Tauber (Alemanha)
Zazá Bistrô Tropical, Rio de Janeiro
Que outros restaurantes vocês sugeririam ao Puffin?

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Muito além da burca

Talvez se possa dizer que os países árabes, de forma geral, são os que mais são vistos com preconceito no Brasil. Claro que isso tem uma série de motivos, como a relativa distância (física e cultural) desses países, uma deficiência da nossa educação, uma imprensa parcial e (por que não) uma certa preguiça de aprender sobre outras culturas antes de repetir ideias fáceis sobre elas. Uma pena, eu acho... Mas não é minha intenção aqui discutir esses motivos.
O fato é que viajar - e viajar de mente aberta - costuma ser dos melhores antídotos contra preconceitos assim.
É verdade que, nos Emirados (e suponho que na maioria do mundo árabe), aspectos culturais e religiosos se entrelaçam, e nem sempre é fácil distinguir o que é um hábito cultural do que é um preceito islâmico. Apesar disso, eu suponho que, em muitos casos, a questão cultural seja mais forte que a religiosa - exatamente como acontece no Brasil e em outras partes do mundo, onde mesmo quem não é cristão fervoroso, muitas vezes, procura casar na igreja, comemorar o Natal, fazer o sinal da cruz antes de uma cobrança de pênalti ou uma decolagem de avião...
Algumas descobertas. A burca, aquele tecido que cobre completamente o corpo feminino, tristemente famoso no Ocidente por culpa do regime talibã, é a menos comum das vestimentas associadas ao Islamismo. E particularmente nos Emirados Árabes, um país repleto de estrangeiros, é extremamente comum que as mulheres usem simplesmente roupas ocidentais ou ocidentalizadas. À parte isso, o que se vê bastante é o hijab, véu na maioria das vezes preto que cobre os cabelos e é usado juntamente com uma abaya - vestido longo tradicional. Nesse ponto, sei de gente que fala ou falaria coisas como: as muçulmanas não podem sequer mostrar os cabelos! elas são obrigadas a esconder o corpo debaixo daqueles panos pretos! e por aí afora. Bem, eu normalmente tento ao máximo entender qualquer questão cultural antes de criticá-la, e cheguei a algumas conclusões que repito com convicção. Uma, que (ressalvados exageros como os de alguns extremistas) elas não são obrigadas a nada, ou pelo menos não sofrem nenhum constrangimento muito diferente das mulheres no Ocidente - que, se pensarmos um pouco, não podem mostrar o peito da mesma forma que os homens fazem, e são levadas a atitudes "estranhas" como raspar as axilas ou mutilar o corpo, perfurando as orelhas desde a tenra idade para então enfiar nelas pedaços de metal - brincos. É tudo escolhas culturais. Outra conclusão, em geral as mulheres árabes realmente apreciam o que vestem, tanto é que muitos dos trajes típicos são lindos e ricamente elaborados. Elas ostentam uma abaya com o mesmo orgulho que uma ocidental usaria um brinco ou um vestido; exibem um hijab como no Brasil se exibiria um corte de cabelo. Mais ainda, sentiriam-se humilhadas e tolhidas na sua liberdade não pela suposta "obrigação" de usar determinado traje, mas sim se as proibissem disso, da mesma forma que seria vexamoso a uma ocidental se lhe arrancassem parte da roupa.
Mas nem só de teoria sociológica é feita nossa viagem. A verdade é que ficamos fascinados pelas roupas árabes que víamos expostas nas lojas e nos mercados. Num desses, em Dubai, o vendedor acabou vestindo eu e a Renata dos pés à cabeça, explicando como colocar cada peça. Não compramos as roupas; por mais persuasivo que fosse o vendedor, e ele era bastante, não estávamos dispostos a pagar tanto por algo que não voltaríamos a usar. Mas compramos um hijab (véu) para ela e uma ghutra (turbante) para mim, que acabamos usando um pouco durante o restante da viagem. Como estávamos longe de ser especialistas nessas peças, cuja colocação é mais intrincada do que aparenta ser (e que varia de acordo com preferências pessoais, regionais e de moda), baseávamos-nos nas indicações do vendedor, em vídeos do Youtube e em algum improviso.
Pois bem, poucos dias depois de ter comprado a ghutra, estava eu usando-a quando passa por mim um Porsche 911, diminui a velocidade e faz um sinal positivo, apontando para a minha cabeça. A interpretação lógica é a da aprovação de um nativo a um estrangeiro que, de alguma forma, parece demonstrar apreço pela cultura local. Sigo com mais segurança.
Mais alguns dias, estamos noutro lugar e eu novamente com a ghutra na cabeça. Sou abordado e me perguntam, apontando para minha cabeça: quem fez isso? Respondo que eu mesmo. Meu interlocutor é rápido e solícito: vem cá, vou arrumar para ti! Com prática, desfaz minha obra e refaz a colocação do lenço, dizendo ao final que agora sim está da forma como fazem no país... Agradeço e assumo minha ignorância da moda árabe, enquanto a Renata, que há dias reparava na minha incapacidade de acertar a forma correta de colocar um pano sobre a cabeça, não contém a risada...

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Teoria e prática do ilusionismo com tâmaras

por Eduardo TrindadeDe forma geral, dá para dizer que nos demos bem com a comida dos Emirados. Para começar, a oferta é tão variada quanto a quantidade de imigrantes que lá vivem, o que significa diferentes opções de cozinhas ocidentais, árabes, chinesas e sobretudo indianas. Sem contar que tínhamos quartos de hotel amplos e equipados para preparar nós mesmos algum lanche (o primeiro quarto em que ficamos tinha mesmo uma cozinha em estilo americano). Portanto, um prato cheio para exercitarmos a arte de investigar a oferta dos supermercados locais!
A tâmara é a estrela da comida árabe. Está em todos os lugares, de diferentes variedades e com diferentes apresentações - frescas ou secas, inteiras ou com os mais criativos recheios, desde lascas de limão até macadâmias. E as tamareiras são figura fácil na paisagem emiradense, seja nas cidades ou no deserto. Antes mesmo de descobrir tudo isso, descobrimos as tâmaras frescas num supermercado e compramos um punhado - mais precisamente, um cacho - para experimentarmos. À primeira mordida, decepcionamo-nos um pouco: aquelas frutas pequenas têm a consistência aproximada de uma pera, talvez um pouco mais duras, e são extremamente doces. A impressão é quase a de morder um torrão de açúcar, tão doce que chega a ser sem graça.
Indo além, fomos provando outras iguarias, como o falafel (bolinho árabe), o kebab, o samosa (pastel indiano) e até uma autêntica sfiha (esfirra). Eu tinha boas lembranças das culinárias da Turquia e da Índia, e isso me deixou mais confiante para provar comidas da mesma família. Confiante até demais. Num dos lugares em que jantamos, pedi um biryani (prato de arroz indiano) e o dito cujo teria sido uma boa escolha, não fosse a quantidade absurda de pimenta que me fez pensar que era aquilo que serviam em "Como treinar seu dragão". Cuspindo fogo, ataquei meu copo de lassi (iogurte indiano), apostando nele para refrescar a ardência da boca. Mas a coisa só ficou pior, porque o lassi, contrariando as bebidas doces a que estamos acostumados, tinha um bocado de sal e pimenta...
Apesar de tudo, sobrevivi, e sobrevieram experiências melhores. Nos dias seguintes, fui compensando a overdose de pimenta com várias tâmaras recheadas. Já aquelas tâmaras frescas, que havíamos comprado logo no começo da viagem, ficaram meio que esquecidas a um canto do quarto.
Seguimos. De Dubai, o próximo destino era Abu Dhabi. Obviamente levamos conosco as tâmaras, frescas e secas.
Em Abu Dhabi, nós nos hospedamos no hotel de uma cadeia internacional - definitivamente, os Emirados são a terra das grandes franquias de hotéis, não de pequenas pousadas ou de empreendimentos familiares.
Acontece que, ao voltarmos para o quarto depois do primeiro dia de passeio em Abu Dhabi, reparamos que estavam faltando duas frutas no cacho de tâmaras que havia ficado sobre a mesa. O sentimento foi de perplexidade. "Não... Não pode ser...", pensamos.
No outro dia, o número de tâmaras voltou a diminuir. Continuamos incrédulos.
Até que nos restou uma única tâmara presa ao cacho. O jeito foi reagir com ironia: "Será que a camareira vai ter coragem de comer a última tâmara? Mas quem come a última não casa... E se comer, será que vai deixar o galho vazio ou vai jogá-lo fora?"
Mais um dia, a tâmara continuava lá. Chegamos a pensar que ela estava a salvo.
Doce, doce ilusão: no dia seguinte, o cacho e a última tâmara tinham desaparecido sem deixar rastro, tão definitivamente que chegamos a duvidar de que os tínhamos visto alguma vez.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Emirados Árabes

E aconteceu que foram os Emirados Árabes o primeiro país do Oriente Médio a ser visitado por mim.
Chegamos um tanto cheios de cuidados: mesmo sabendo que se trata de um dos países mais tranquilos da região, havia uma série de informações sobre como se portar com "decência", usar as roupas adequadas, não demonstrar afeto em público etc.
Acabamos descobrindo que a regra principal lá (como provavelmente em qualquer lugar do mundo) é o bom senso. As roupas que as mulheres usam, por exemplo, há de todos os tipos, desde o nível prostituta-de-Copacabana até o nível  burca talibã - e fica evidente que o bom senso se localiza no meio do espectro. Aliás, a roupa que se usa nos Emirados merece um capítulo à parte.
Talvez a maior diferença seja mesmo que os casais, quando em público, evitam andar abraçados e trocar beijos. Embora, procurando com atenção, seja possível ver algum par árabe de mãos dadas.
O que chama a atenção é a quantidade de estrangeiros: o país tem mais imigrantes que emiradenses. Na rua, todo mundo pergunta de onde somos e acaba sendo interessante quando perguntamos de volta e descobrimos pessoas de vários lugares da Ásia ou de outras partes do mundo.
Boa parte dos ocidentais, quando pensa nos Emirados, lembra de Dubai e, em menor escala, de Abu Dhabi. Não à toa; são cidades que impressionam. Não me espantaria descobrir que o país tem proporcionalmente uma das populações mais urbanizadas do mundo, afinal a terra por lá é inóspita e viver fora das cidades é um desafio. Ainda assim, é incrível pensar em como essas cidades cresceram e se desenvolveram em tão pouco tempo. O que não tira o fascínio de se passear além dos grandes centros: o interior também tem paisagens e pessoas únicas.
Enfim, viajar aos Emirados é um mergulho cultural daqueles que dificilmente se consegue de outra forma. E o que é melhor: mergulha-se de forma tranquila, sem grandes medos ou sustos. Aprende-se um pouco a cada carona na estrada, a cada prato de comida, a cada barganha no mercado.