sábado, 17 de julho de 2010

Chão de Estrelas

Existe, no estado do Rio de Janeiro, divisa com Minas Gerais, um vilarejo que vive de música. Não sei se é o único no Brasil, mas com certeza é um caso digno de nota. De belas notas musicais.
O lugar se chama Conservatória, não chega a ser um município, é pouco mais que um povoado em torno de duas ruas, a “rua que sobe” e a “rua que desce”. Mas é muito mais que isso, porque vive de música.
Poderia dizer que é um lugar parado no tempo, e seria verdade, mas apenas isso não seria motivo de tanto espanto porque, procurando bem, há cidades tão paradas no tempo quanto Conservatória, com arquitetura colonial, jeito de interior, espírito de província. O que espanta, sim, é o modo como tudo gira em torno da música na pequenina Conservatória.
E, já que estamos falando de um lugar parado no tempo, é claro que a música em questão não deve ser nenhum pop moderno, nenhuma corrente pós, ultra, heavy ou trash metal, nem mesmo qualquer das formas de rock ’n’ roll nacional ou importado. Se existe um lugar que nunca ouviu falar de Lady Gaga e outras contemporaneidades, este lugar só pode ser Conservatória. Retrocedamos no tempo. Passemos pelo Tropicalismo, pela Bossa Nova, cheguemos às velhas modinhas que nossos avôs cantavam ouvindo o rádio, nas praças ou nas esquinas, nas noites de luar, ao sereno.
Cheguemos à esquecida tradição das serenatas, que só vemos em filmes. Só em filmes? Em filmes e em Conservatória, reduto último de gente romântica.
Nomes como Pixinguinha, Vicente Celestino, Francisco Alves e Sílvio Caldas são os que continuam vivos nas ruas de Conservatória.
As ruas de Conservatória... É bem provável que, na rua onde moras, ó leitor, as casas e os prédios sejam identificados por números. Nas ruas de Conservatória (a rua que sobe, a que desce e mais alguns fiapos de ruas que ligam uma à outra ou se estendem para fora), as casas não têm números, mas nomes de canções. “Chão de Estrelas”, “Luar do Sertão”, “Carinhoso”, “Maringá”. Imaginem os diálogos possíveis. “Moro no Luar do Sertão”. “Darei um pulo até o Chão de Estrelas”. Uma delícia, não?
Chegamos a Conservatória de ônibus, mas talvez tivesse sido melhor ainda chegar de trem, um trem como o que algum dia foi puxado pela locomotiva conservada orgulhosamente ao lado da estação. Aproveitem a dica, ó fluminenses, e levem o trem novamente até Conservatória. Ou, pensando bem, não sei, não; deixem Conservatória do jeito que está, não mexam naquela caixinha de música.
Quando a noite chegar, façam como todos no vilarejo e se reúnam em torno de uma roda de violões. Façam como fizemos. Relevem a possibilidade de não conhecer quase nenhuma das músicas que serão cantadas, elas se tornarão mais familiares à medida que a noite avançar. Sorriam ante a descoberta de que são, provavelmente, os mais jovens de toda a cidade, crianças entre um bando de adoráveis velhinhos. Encantem-se com a descoberta de que estes velhinhos talvez não sejam o conjunto mais harmônico que já ouviram mas são e serão o conjunto mais apaixonado que viram durante muito tempo. As canções são íntimas deles e eles são eternos namorados. E, quando a serenata terminar, voltem para a cama flanando, quase sem perceber que estão assobiando. Ou cantarolando. Afinal, não importa o tom da voz, importa é o tom do coração.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

O mar de Copacabana

Da sacada do meu apartamento em Copacabana, via-se o mar. O apartamento não era luxuoso nem ficava particularmente perto da praia, mas o prédio era alto e o andar era um dos últimos. Assim, da sacada, via-se não exatamente a praia, mas o mar. Com o seu azul delimitado pelo azul do céu, com os navios de carga, um ou outro veleiro e um punhado de ilhas mais adiante.
Era assim que eu preferia o mar. À distância, podia observá-lo e sonhar com ele à vontade, protegido de olhares indiscretos, de vendedores insistentes, de sal e areia grudados no corpo. Amava o mar, não a praia, se é que me entendem. Nos finais de tarde, eu me colocava, debruçado sobre a cidade, cuia de mate entre as mãos, e namorávamos, eu e o mar.
Já se vão alguns anos. Saí de Copacabana e passo por lá bem menos vezes do que alguém poderia supor. Hoje meu apartamento não tem sacada nem vista para o mar. Apesar disso, eu me acostumei e gosto dele, com suas paredes laranjas, sua rua sossegada, sua vista insuspeitada para o outro lado da cidade. Vivemos, eu e meu apartamento, numa união estável.
Outro dia, recebi uma visita que não conhecia o Rio de Janeiro. Transformado em cicerone, saí a mostrar o que a cidade tem a oferecer. E que, claro está, inclui Copacabana como passagem quase obrigatória. Pois fomos até lá. O bairro esperava por nós como espera, dia após dia, por tantos e diversos visitantes. Copacabana parece não mudar. Estendia em nossa direção o calçadão de pedras portuguesas que é seu vestido de ondas. Oferecia o que quiséssemos petiscar, de biscoito Globo a refeições completas. Abria seu tabuleiro nas esquinas, em artesanatos e feiras de frutas. Impunha-se com seus prédios inumeráveis, suas calçadas abarrotadas. Deixava entrever suas rugas num pedinte do asfalto, num bêbado de banco de praça, numa mulher de vida dita fácil. E a todos oferecia o mar.
Antes do mar, o mar de gente. Que é bom de se ver munido de lupa, atentando para cada gota, cada partícula deste universo que é Copacabana. Atletas de fim de semana. Turistas de camisa florida, sandália e meias coloridas. Senhoras idosas e respectivas enfermeiras. Mães de primeira viagem e filhinhos que são uma graça. Ciclistas. Ciclistas que voam rente a nós. Torcedores de todos os times de futebol, inclusive os mais improváveis. Pescadores. Políticos. Profetas.
Para todos, o mar. Sentemos. Sentamo-nos próximo a ele, sentimos. Reencontrei o sol e o sal, o cheiro do mar que não chegava até mim. De pés no chão e olhos abertos, viajei em silêncio. Senti-me também visita, também parte daquele mar. Em ondas que me chegavam naquela tarde como em tantas tardes. Que me faltava, por que não me aproximei antes deste mar? Quero mais uma vez te namorar, e agora é para valer.

Fotografia: praia de Copacabana vista do alto do Pão de Açúcar.

sábado, 29 de maio de 2010

Suvenires: vinho do Porto

Continuando a falar de suvenires de viagem... Não é que eu seja um inveterado apreciador de bebidas, antes até pelo contrário. Acontece que a marca registrada da cidade do Porto é, sem dúvida, o vinho do Porto. E, estando lá, é quase uma heresia não visitar um armazém ou uma loja de vinhos. Como ir a Roma e não ver o papa.
Saibam, então, que eu visitei, ainda que sem muita expectativa (sou um péssimo conhecedor de vinho, quanto mais de vinho do Porto). Meu faro era o de um viajante curioso. Mas todas as minhas expectativas foram superadas ao ver esta garrafa: Porto... Alegre. Porto Alegre! Ora, não me digam que atravessei o oceano para encontrar esta inusitada referência à minha querida cidade numa garrafa de vinho! Não tive dúvida: peguei a garrafa. Ainda perguntei ao vendedor o que ele me dizia daquela marca. Nada excepcional, mas mais do que razoável pelo preço dela, que aliás era bem acessível. Pois creio que a teria comprado mesmo que ele dissesse que o vinho era uma porcaria. Há coisas que são degustadas apenas com os sentidos, mas outras são degustadas também com o coração, não concordam?

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Mind the gap - ou - Brincando de Interpol

Sempre gostei muito de jogos de tabuleiro. Quando criança, cheguei a passar horas debruçado sobre a mesa, ou mesmo no chão da sala, brincando. Havia os clássicos, como ludo e xadrez. E havia, claro, outro tipo de clássicos: Banco Imobiliário, Jogo da Vida, Detetive, Interpol... Lembram de Interpol? Aquele desafio em que um dos jogadores era o procurado Mister X e os demais tentavam capturá-lo, correndo atrás dele de táxi, ônibus, metrô. O tabuleiro era o mapa de uma cidade. A cidade era Londres.
Daí que os anos passaram – mind the gap – e em 2005, quando a caixa de Interpol já estava guardada há algum tempo, surgiu a oportunidade de uma viagem à Inglaterra. Minha segunda ida à Europa. Descobrir Londres, assim, foi como me aventurar num jogo de Interpol, mas um jogo saboroso em que eu não tinha pressa para fugir de eventuais adversários; a única justificativa para pressa era o tempo escasso de que eu dispunha. Embarquei. E naquele jogo, em que eu andava pelo tabuleiro da Londres real, pipocavam imagens emblemáticas, cenas de filmes e de um inconsciente formado ao longo dos anos. Tudo merecia ser descoberto ou, mais precisamente, redescoberto, pois, ainda que se tratasse de novidades, era um universo familiar: os táxis pretos, os ônibus de dois andares, as cabines telefônicas, os guardas da rainha que sequer piscavam o olho. Sem falar nos cartões-postais, como a ponte sobre o Tâmisa e o Big Ben.
Além disso, não faltaram as histórias menos convencionais. Encontrei uma Londres com um gosto peculiar por mistérios e relatos macabros (uma cidade adequada, portanto, à ambientação de Interpol): Jack, o estripador; Henrique VIII e Ana Bolena; o Museu do Terror; o Dead Man’s Corner (algo como “Beco do Homem Morto”).
E histórias mais amenas, não poucas ambientadas em endereços célebres. Quem nunca sonhou em pisar na faixa de pedestres de Abbey Road, atravessando a rua exatamente como os Beatles fizeram? Pois Abbey Road está lá e, por mais prosaico que seja o gesto, tê-la atravessado é daquelas coisas que merecem serem contadas aos netos. Sim, e que tal ir até o número 221B da Baker Street? Reconhecem o endereço? É a morada de Sherlock Holmes. Lá, fui recebido por seu amigo, Dr. Watson em pessoa, que me levou para conhecer a habitação. Na verdade, é um curiosíssimo museu; mas, no meio de tantas histórias reais que parecem inventadas e outras tantas lendas que parecem reais, quem saberia dizer se eu pisava o tabuleiro de um jogo ou o calçamento de uma cidade?

Fotos: alguns encontros londrinos - um guarda na rua... outro "guarda" na Torre... e Sean Connery, ou melhor, a sua reprodução em cera no museu Madame Tussauds.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Prêmio TopBlog

Alô, gente! As Cartas de Tantas Léguas estão concorrendo ao prêmio TopBlog 2010! Vocês já votaram? O link está aqui ao lado!

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Suvenires: hulusi, a flauta chinesa

Há algum tempo sinto vontade de falar sobre os suvenires de viagem que tenho guardado. Sendo um coisista compulsivo (o termo, até onde sei, é do Neruda, patrono dos coisistas), material não falta. O difícil talvez seja escolher por onde começar; sinto que o assunto rende não uma crônica, mas uma coleção completa delas.
Começo divagando, explicando que não gosto muito da palavra suvenir. No dia-a-dia, costumo falar lembrança, ou mesmo recordação, mas tanto uma quanto outra têm o inconveniente de não deixar claro se nos referimos àqueles objetos que trazemos de determinado lugar ou situação ou da própria sensação que eles nos evocam. Fiquemos, pois, com a palavra suvenir, que é a pequena lembrança material, símbolo daquela outra lembrança maior, imponderável.
Um desafio é trazer suvenires que fujam do óbvio. Verdade que, muitas vezes, os objetos mais prosaicos já me dão um prazer imenso. Mas, ah, aqueles que são originais, seja pela criatividade ou pela história que guardam, são incomparáveis!
Então vamos lá: eis a hulusi, uma espécie de flauta tradicional chinesa praticamente desconhecida no Brasil, mas não muito difícil de encontrar por lá. Tem um som doce e levemente anasalado e não é um instrumento complicado - tanto que até eu, com limitados dotes musicais, consigo me arriscar razoavelmente a tirar alguns sons dela.
Encontrei algumas hulusi em diferentes cidades da China, desde as mais simples, de plástico, para crianças, às mais sofisticadas. E gostei mesmo desta, feita de bambu e porongo entalhado (sim, porongo, quem diria!) com um bocal de osso. Adquiri-la foi toda uma divertida experiência: pus à prova minhas habilidades de pechinchador no mercado de Panjiayuan, em Pequim. Mesmo normalmente não gostando de pechinchar, na China é quase impossível não fazer isso. Pois fiz, e saí orgulhoso com minha compra a um preço razoável depois de muito regatear.
Outro ponto curioso é que qualquer estação de metrô de lá, talvez por causa dos Jogos Olímpicos, tinha uma forte segurança, com detectores de metais e guardas austeros. Que, ao me ver com aquele estojo a tiracolo, invariavelmente ficavam ressabiados e perguntavam o que eu estava levando. Quando respondia que era um instrumento musical, as reações eram divertidas, com a seriedade muitas vezes deixada de lado em troca da deferência a quem, como chegaram a dizer, atravessara meio mundo para levar consigo um pouco daquela cultura.

domingo, 18 de abril de 2010

Conversa de aeroporto

Viagens, mesmo as mais singelas, rendem histórias. Crianças também. Imaginem agora juntar, na mesma cena, uma viagem e uma criança...
Eu estava no aeroporto, já no finger, ou seja, na ponte que leva até o avião. Prestes a embarcar, mais uma vez, para minha querência. Foi quando notei que, também prestes a embarcar, estavam uma mãe e sua filhinha. A guria não parava de correr para lá e para cá. Numa dessas, desvencilhou-se da mãe por uns instantes e veio para o meu lado. Olhamo-nos uns instantes, eu entretido e curioso, ela com olhos brilhantes e talvez mais curiosos ainda. Aproveitei e perguntei:
- Vais para Porto Alegre?
E ela:
- Não. - o que me intrigou, pois eu sabia qual era o destino do avião. Já imaginando alguma conexão incomum, voltei a perguntar:
- Ah, é? Vais para onde?
A menina:
- Para o avião, ora!
Óbvio, não é? Mesmo assim, não me dei por satisfeito:
- E o avião vai para onde?
- Para o céu, voando, não sabia? - respondeu a menina, enquanto voltava a correr para as braços da mãe e me deixava em suspenso, rindo e sorrindo sozinho.