domingo, 15 de abril de 2018

Deus e o Diabo na Terra dos Kim

Se tem algo na Coreia do Norte que é realmente marcante, diferente de tudo que já vi em outros lugares, é a relação das pessoas com a história/a política/os governantes. Tudo isso, na verdade, se confunde e se mistura de uma forma que é difícil separar, que dirá explicar. Mas aos poucos, conforme vai se convivendo com os norte-coreanos, a gente começa a perceber algumas semelhanças com certos aspectos da vida comuns no Ocidente...
Guia rápido do "quem é quem" no panteão norte-coreano. Kim Il-Sung, o avô, conhecido como o Grande Líder e Eterno Presidente, é considerado o herói da criação da Coreia do Norte - foi ele quem liderou o país na guerra pela independência e também na Guerra da Coreia. Morreu em 1994 e foi sucedido pelo filho, Kim Jong-Il, o Querido Líder. Quando faleceu, em 2011, quem assumiu foi Kim Jong-Un, o Líder Supremo, neto do primeiro Kim e filho do segundo. Notem que estes dois acumulam uma porção de títulos e de cargos, mas não o de presidente, que é exclusivo (e literalmente "eterno") de Kim Il-Sung, o que faz da Coreia do Norte um país que, oficialmente, tem um presidente fantasma.
Mas não se enganem: nada nem ninguém pode estar mais presente na vida dos norte-coreanos quanto o Grande Líder.
Há, claro, os retratos e estátuas que estão por toda a parte (mas, curiosamente, as representações são apenas dos líderes falecidos, nunca do governante atual). E vai mais além: na ideologia Juche (que foi criada e disseminada por Kim Il-Sung), nos jornais e na televisão, nas anedotas que se conta... E sobretudo no tom solene e respeitoso quando se fala de qualquer um dos líderes. Para quem é de fora, como nós, é difícil entender exatamente a motivação desse culto aos líderes - devoção sincera, costume, medo? Talvez um pouco de tudo isso. Fomos ver as estátuas de Kim Il-Sung e Kim Jong-Il em Pyongyang. Chegando lá, em tom de respeito, uns tantos casais de noivos depositavam flores e tiravam fotos - não muito diferente da postura de noivos ocidentais que fossem pedir a bênção a seu santo de devoção.
Reparamos que nossas guias (que de hábito já costumavam andar bem arrumadas), quando o roteiro incluía algum lugar relacionado aos líderes, caprichavam ainda mais na elegância.
Um desses lugares é a Exposição Internacional da Amizade (pausa para absorver o significado desse nome). Trata-se de um grande museu que contém os presentes recebidos por cada um dos líderes ao longo de sua vida. Para quem não sabe, é um costume diplomático que representantes de governos troquem presentes entre si. Nesse museu, tais presentes são exibidos com orgulho. Acontece que a coisa toda acaba parecendo um tanto surreal. Alguns dos itens de maior destaque lá são, claro, doações de países historicamente alinhados com a Coreia do Norte - assim, presentes de "gente boa" como Stalin e Mao Tse Tung são expostos com orgulho. Mas não se enganem, praticamente o mundo inteiro está representado, de presidentes estadunidenses ao embaixador do Brasil em Pyongyang. Os presentes vão desde carros, vagões e aviões inteiros (oferecidos por alguns dos grandes ditadores que nosso planeta já teve) até um quadrinho do Ceará (cortesia do nosso diligente embaixador). E chama a atenção a quantidade de presentes, digamos, politicamente incorretos: peles de ursos, um trono feito de chifres de veados, uma indescritível mesa de apoio na forma de um jacaré empalhado que segura uma bandeja com copos (procurem no Google e encontrarão fotos). A impressão que fica é de que quanto mais notório o ofertante na escala de crimes presumidos contra a humanidade, maior o número de animais mortos na confecção do presente. Saímos da Exposição sem dizer palavra.
Mas nada, nada mesmo, poderia ter nos preparado para a visita ao Palácio do Sol (um jogo de palavras com o próprio nome Il-Sung que, dizem, pode ser traduzido como "o sol"). Este palácio é um prédio incrivelmente imponente que, após a morte do Grande Líder, foi transformado em mausoléu. O lugar hoje abriga os corpos embalsamados de Kim Il-Sung e Kim Jong-Il, que são o ponto focal de uma contínua peregrinação ritual de incontáveis coreanos. O que se vê lá dentro, além dos corpos propriamente ditos, de retratos e de objetos usados pelos líderes quando em vida, são filas e filas de pessoas chorando, com os olhos cheios de lágrimas que só podem ser sinceras (ainda que incompreensíveis para muitos estrangeiros). Como disse nossa impecável guia: "já vim aqui muitas vezes, mas sempre me emociono". De uma certa forma, também saímos profundamente tocados, ainda que por motivos diferentes dos dela. O meu preconceito a respeito da Coreia do Norte tinha me preparado para encontrar um culto à personalidade ímpar, mas não me preparou para testemunhar essa singular forma de religião.

sábado, 7 de abril de 2018

Muito além do kimchi: comida na Coreia

É tentadora a imagem de que a Coreia do Norte e a do Sul são "dois irmãos brigados". Porém, embora razoável até certo ponto, ela me parece uma simplificação perigosa. Eu não diria que há exatamente uma briga entre os coreanos do norte e do sul; em vez disso, o clima lá me pareceu mais de desconfiança, isso sim; de dois irmãos que, por circunstâncias da vida, ficaram anos sem se falar e agora não sabem mais como puxar assunto numa conversa.
Mas o fato é que, apesar disso e dos que dizem o contrário, têm o mesmo sangue e a mesma criação: compartilham a língua, a história, a paisagem, o clima, o tipo de comida. O que nos leva a esse assunto: o que comemos por lá. Confesso que minha expectativa com a comida coreana era bastante baixa: as descrições de pratos que eu achava na Internet não chamavam a atenção e a minha experiência anterior com comida na vizinha China, muito menos.
Acabei me surpreendendo enormemente, a tal ponto que voltei para o Brasil com saudade da comida de lá e voltaria feliz a qualquer um dos restaurantes que visitamos.
Verdade que na Coreia do Sul, a princípio, foi difícil encontrar o caminho das pedras - dos pratos, no caso. A oferta é muita, variada e numa língua pouco amigável. Mas, à medida que ia me familiarizando, descobria que a comida coreana não era nenhum bicho de sete cabeças. Havia opções para praticamente todos os gostos, era em geral menos apimentada que o previsto e, sempre, muito saborosa. De quebra, descobrimos em Seul alguns restaurantes no estilo bufê livre. Uma maneira excelente para provar de uma vez várias das possibilidades da cozinha coreana! De fato, em pelo menos uma ocasião saímos do restaurante rolando de tão cheios.
Kimchi (espécie de acelga em conserva) é onipresente, mas é mais um acompanhamento que um prato propriamente dito. Sopas são comuns. As panquecas coreanas, em suas diferentes variações, são deliciosas. Massas são abundantes e de todos os tipos, não só de trigo. Chás acompanham a maioria das refeições, mas também são feitos de cereais variados e só raramente encontramos um sabor igual aos que estamos acostumados.
Na Coreia do Norte, curiosamente, a alimentação foi bem mais simples. Primeiro porque, já tendo passado por um "estágio" do sul, sabíamos um pouco melhor o que esperar. E principalmente porque nossas guias não mediam esforços para nos proporcionar experiências fantásticas. Em cada uma das nossas refeições norte-coreanas, uma coisa era certa: a quantidade de comida era sempre demasiada. A comida vem à mesa em pequenas vasilhas, cada uma com um preparo; quando se vê, a mesa está cheia de potinhos cada um com com arroz, sopa, kimchi, repolho, ovos, massa, carne, panqueca, tofu ou alguma outra coisa... Às vezes é difícil adivinhar a sequência ou a quantidade de pratos. Mais de uma vez nos saciamos apenas com a entrada, sem saber que outros tantos pratos ainda estavam por vir...
No final das contas, as refeições menos memoráveis foram as que fizemos no restaurante de algum hotel: estas tendiam a ser servidas num ambiente mais nobre, mas ficavam devendo um pouco do sabor e da variedade dos lugares mais simples. Por outro lado, uma dúvida que eu sempre tinha era: o quão parecido estas refeições seriam da comida norte-coreana do dia-a-dia. Meu palpite é que o grau de semelhança é tanto quanto o de um restaurante brasileiro com a nossa comida caseira: um almoço comum no Brasil dificilmente será tão variado ou tão bem apresentado quanto o de um restaurante (digamos, uma churrascaria), mas a ideia dos pratos possíveis em casa é a mesma dos que poderíamos encontrar na rua. O mesmo acho que vale para uma refeição típica de Pyongyang e algumas das comidas que provamos por lá.
Um bônus adicional desses momentos era que se tratava de ocasiões em que conversávamos e interagíamos mais à vontade com nossas guias e nosso motorista. Uma experiência que não tem preço!
Quanto aos pratos propriamente ditos... Eram tantos e tão diferentes que é difícil deter-se explicando todos. Talvez um dos mais emblemáticos, tanto no sul quanto no norte, seja o bibimbap: arroz com legumes, tempero e eventualmente um ovo. A particularidade é que a comida vem toda separada num grande prato e cabe à própria pessoa misturar todos os ingredientes. Aliás, parece que esse tipo de solução, que requer algum "preparo" à mesa, é bastante comum. Outro exemplo é um tipo de hot pot coreano, uma sopa em que os ingredientes todos são cozidos na nossa frente. Para fazer um assado, a mesma coisa: a carne chega crua à mesa e é assada numa grelha ali mesmo. Aliás, esses restaurantes nos proporcionaram risadas impagáveis: certo dia, Lee, a guia, anunciou que o almoço seria num restaurante especializado em frango - chicken. Como a Renata é vegetariana, Lee logo completou: e baby chicken. Por baby chicken, entenda-se ovo de galinha... Não houve como não rir. Noutro dia, haveria pato assado (duck) no jantar; para ela, baby duck...
Outro prato surpreendente é o naengmyeon, que dizem ser típico de Pyongyang. Em inglês: cold noodles. Bem, poucas coisas parecem menos animadoras que um prato de espaguete frio; mas a receita coreana superou todas as minhas expectativas e se mostrou bastante apetitosa, mesmo para um dia de inverno. É uma sopa com uma massa fina e comprida e diferentes vegetais, com um tempero levemente ácido e apimentado. É, como outras, uma comida finalizada pela própria pessoa imediatamente antes de comer, que se encarrega de temperar e misturar os ingredientes no prato.
Pode ser difícil de acreditar, mas não tem como não ficar com água na boca falando disso tudo!




quarta-feira, 4 de abril de 2018

Tão perto e tão longe: a fronteira entre as duas Coreias

A península da Coreia é cheia de contradições, e talvez a maior delas seja exatamente a fronteira que a divide ao meio.
Monumento à Reunificação da Coreia
Quando a Guerra da Coreia terminou, com a assinatura de um cessar-fogo em 1953, a península ficou dividida por uma faixa de quatro quilômetros de largura nas proximidades do paralelo 38. Na tentativa de evitar futuros conflitos, acordou-se que armas não seriam permitidas nessa região, que passou a ser chamada de Zona Desmilitarizada.
A questão é que o entorno dessa região pode ser qualquer coisa, menos desmilitarizado. Nunca estive num lugar que exalasse tanta tensão, medo e guerra. Ao mesmo tempo, há ali um silêncio, uma calma, uma natureza surreal. Bicho estranho é o ser humano.
Apesar da atmosfera gritantemente bélica, visitas à Zona Desmilitarizada de alguma forma se tornaram passeios turísticos acessíveis dos dois lados da fronteira. De quebra, cada lado aproveita para contar sua versão da história - uma radicalmente diferente da outra. Tentar conhecer ambos os lados e encontrar um meio termo é um exercício bastante esclarecedor. Por exemplo: os números variam, mas é quase certo que o contingente militar dos Estados Unidos na Guerra foi maior do que o das forças tanto norte- quanto sul-coreanas. Ou seja, fica claro que não se tratava simplesmente de uma briga entre os coreanos dos dois lados. Ainda hoje, a propósito, os Estados Unidos mantém uma força nada desprezível na Coreia do Sul. O que faz pensar que o negócio da guerra (e do medo) deve ser bastante lucrativo para eles (tivemos contato com um desses soldados estadunidenses na Coreia do Sul, que aliás nos passou a perna, induzindo-nos a pagar por uma corrida de táxi que deveria ter sido dividida).
Bem, nós visitamos a Zona Desmilitarizada pelo norte, saindo de Pyongyang. Na estrada que leva à fronteira fica o Monumento à Reunificação da Coreia. Por mais que a questão da unificação seja explorada de forma política por todos os envolvidos e intrometidos, o monumento em si é muito bonito, assim como a causa por trás dele. Afinal, embora nenhuma união se faça facilmente, como sabem todos os casais, é confortante que alguém pense em reunificação enquanto tanta gente no mundo pensa em separatismo.
À medida que a estrada (chamada Estrada da Reunificação, que tem placas marcando a distância até Seul) se aproxima da fronteira, começam a surgir postos de controle militar. Chegando ao limite da Zona Desmilitarizada, o clima é de um quartel em prontidão. Um militar norte-coreano sobe na van onde estamos eu, a Renata, as duas guias norte-coreanas e o motorista. Não consigo achar agradável esse clima, e a apreensão disputa espaço com o fascínio por estar nesse lugar exclusivo.
Interior da Zona Desmilitarizada
A van segue por uma pista estreita entre fortes muros e barreiras antitanques até o interior da Zona Desmilitarizada - vamos em direção ao local onde foram feitas as negociações de paz durante a Guerra e que é, hoje, o único ponto onde as Coreias do Norte e do Sul "se tocam" de fato - ou quase isso. No caminho, o soldado começa a falar sobre a Zona Desmilitarizada, contar histórias e conversar. Vamos facilmente nos afeiçoando a ele - por baixo da solenidade do uniforme há com certeza uma rapaz simples, de sorriso largo e cheio de curiosidade sobre o mundo exterior. Ao chegar, ele nos apresenta o local onde foi assinado o armistício e que é hoje um museu no lado norte-coreano. 
"You are not machines (...), you have the love of
humanity in your hearts." (The Great Ditactor, Chaplin)
Logo adiante está a fronteira propriamente dita, marcada por uma linha de tijolos na metade da Zona Desmilitarizada. Há alguns barracões colocados precisamente sobre esta linha. Do lado de cá, soldados norte-coreanos montam guarda; do lado de lá, soldados estadunidenses e sul-coreanos montam guarda. Do lado de cá, um prédio norte-coreano virado para o sul; do lado de lá, um prédio sul-coreano virado para o norte. Tudo em simetria.
Ainda iríamos andar por uns bons minutos, até um posto de observação no alto de uma colina a alguns quilômetros dali. Desse posto, com a ajuda de binóculos, avista-se o muro, construído no lado sul, que ajuda a separar a península. A Estrada da Reunificação obviamente não atravessa a fronteira. O ser humano é um bicho estranho.
No final, o militar sorridente que nos acompanhou se ofereceu para tirar fotos conosco. Abraçamo-nos. Naquele lugar carregado, parece que de alguma forma o uniforme não pesava mais. Aquele olhar e aquele sorriso me impressionaram mais que os muros e as cercas. Ah, o ser humano.

sábado, 31 de março de 2018

Um dia como outro qualquer em Pyongyang

Uma das primeiras coisas que chamam a atenção na capital da Coreia do Norte é o quanto a vida ali é surpreendentemente normal. Chega a ser estranho dizer isso, não? Mas o fato é que sabemos tão pouco sobre os norte-coreanos que desembarcamos no país cheios de curiosidade sobre as coisas mais básicas.
Um passeio em Pyongyang pode começar pela Praça Kim Il Sung, o coração da cidade e um dos muitos logradouros nomeados em honra do Grande Líder e Eterno Presidente da Coreia do Norte. Bem perto dali fica uma das estações do metrô. Sim, Pyongyang tem metrô - são duas linhas e um total de 16 estações. Dizem que é o metrô mais profundo do mundo (de fato, é uma longa descida em escada-rolante) e que isso daria a ele a qualidade adicional de abrigo contra um eventual ataque aéreo. Os trens são relativamente antigos, mas bonitos e perfeitamente funcionais. Agora, o que chama a atenção mesmo são as estações: decoradas com esmero, são simplesmente lindas. Em geral, têm grandes murais com imagens celebrando algum aspecto da história do país ou da vida dos líderes (nem sempre é possível separar essas duas coisas na concepção oficial norte-coreana). São notáveis também os elaborados lustres, estátuas dos líderes e, na plataforma de cada estação, exemplares do jornal do dia à disposição de quem passa.
Do outro lado da mesma praça fica a Grande Casa de Estudos do Povo - uma biblioteca não menos imponente que o seu nome. Ao visitá-la, fomos recebidos com um grau de atenção quase inimaginável. Uma mocinha, que devia estar tão curiosa a nosso respeito quanto nós estávamos dela, percorreu conosco várias salas, explicando o propósito de cada uma e nos apresentando parte do acervo em português da biblioteca - alguns livros editados em Portugal e um CD de música brasileira. O lugar é, na verdade, mais do que uma biblioteca. Tem um grande auditório, espaços de trabalho e salas de aula onde são ministradas lições de línguas estrangeiras - durante nossa visita, pudemos presenciar uma aula de inglês e outra de chinês.
Saindo da biblioteca e andando pela rua, pode-se observar melhor a cidade. E ela é realmente bonita. Os espaços são amplos e os prédios são atraentes e coloridos. Vê-se sempre muita gente caminhando nas calçadas, algumas pessoas nas paradas de ônibus ou trólebus, outras de bicicleta. Aliás, como outras cidades ao redor do mundo, Pyongyang possui um sistema de compartilhamento de bicicletas.
Nas ruas, o que se destaca são os murais e cartazes de propaganda. Propaganda há em praticamente todos os lugares do mundo, óbvio.  A da Coreia do Norte, porém, possui algumas particularidades. Em primeiro lugar, claro, a inconfundível estética do realismo socialista. Em segundo lugar, os temas: excetuando-se um único outdoor de propaganda da marca de carros norte-coreana (Pyeonghwa), todos os cartazes que vi tratavam de exaltar as realizações do povo coreano, conquistas militares, mensagens ideológicas ou o carisma dos líderes. Além disso, chegando mais perto, percebe-se um terceiro ponto: a maioria dessas obras não são simples cartazes impressos como os que estamos acostumados a ver. São grandes mosaicos de azulejos ou pinturas feitas a mão, verdadeiras obras de arte. Fascinante. Numa ocasião, encontramos por acaso um artista a pintar um destes cartazes. O trabalho, lindo, já estava avançado, e naturalmente eu quis tirar uma foto. Apesar de os norte-coreanos serem normalmente bem tranquilos quanto a fotos, o rapaz (para minha tristeza) pediu que eu não fotografasse o trabalho inacabado. Acrescentou que não haveria problema em registrar a obra depois de pronta - mas eu não teria essa oportunidade.
E assim segue a vida em Pyongyang. A cidade também não está alheia ao comércio do dia-a-dia, embora o consumismo desenfreado (ainda bem) seja algo distante. Nossas guias faziam uso frequente do telefone celular, da mesma forma que pessoas de qualquer outro país. Nas ruas, veem-se alguns quiosques de comida e bebida. Aqui e ali, alguma loja. E tivemos a oportunidade de entrar em um grande supermercado, tão parecido com os nossos quanto se pode esperar de um supermercado asiático. Nas prateleiras, produtos norte-coreanos e alguns importados da China e de outros lugares da Ásia. Pessoas fazendo compras e pagando em dinheiro ou em cartão. Nesse gesto, aliás, desfaziam sem saber outra concepção equivocada que tínhamos: não é verdade que não haja cartão de crédito na Coreia do Norte, como não é verdade que não haja celulares ou internet; acontece é que eles usam sistemas diferentes dos nossos. Pensando bem, não era mesmo de se esperar que as bandeiras estadunidenses Visa ou Mastercard circulassem por lá. Tudo bem, pagamos em dinheiro mesmo e saímos com nossas compras: itens como chás, chocolates e uma lata de bolachas que, como tudo o mais, ajudaria a compor o mosaico desse país que, para nós, passava a ser cada vez menos misterioso e cada vez mais fascinante.

sexta-feira, 30 de março de 2018

Coreia do Norte à vista!

Uma cena que veríamos muitas vezes ao longo dos próximos dias
Ah, a Coreia do Norte! Poucas viagens poderiam ser marcadas por mais expectativa do que essa. Não é para menos: por mais que se pesquise, há pouca informação disponível sobre esse país. Pior ainda: muito do que se ouve e do que se lê são notícias tendenciosas publicadas por terceiros. Coisa rara, raríssima, é ter contato em primeira-mão com a Coreia do Norte.
Assim, está explicado um dos motivos por que decidimos ir até lá: muito mais do que qualquer outra país que já visitei, a Coreia do Norte é um lugar que só se pode conhecer e entender (pelo menos um pouco) estando lá pessoalmente.
E há, sim, muito preconceito. As pessoas torcem o nariz quando se fala em visitar a Coreia do Norte apontando diversos motivos: porque é uma ditadura, porque tem armas nucleares, porque é um país socialista... Bem, se a preocupação fosse mesmo com o armamento, ninguém visitaria o país que mais  tem gastos (ou investimentos) militares e que mais se envolve em conflitos bélicos - um tal de Estados Unidos, terra do Mickey e da liberdade... Assim como a questão política, que é virtualmente impossível de se dissociar da Coreia, não é motivo para não visitá-la: além de adicionar uma dimensão única à viagem, de fazer a gente abrir os olhos sobre muita coisa (e não só sobre a Coreia, as ditaduras ou o socialismo), é preciso lembrar que o país tem um único líder e dezenas de milhões de habitantes. Como qualquer lugar do mundo, a Coreia do Norte é feita pelas pessoas, todas elas, e encontrá-las é fascinante.
Aviões da Air Koryo em Pyongyang
"Ah, mas se o povo sofre, por que não faz nada? Não se revoltam?" - foi o que ouvi de alguns sobre a Coreia do Norte. Respondo com o que a norte-coreana Lee nos perguntou quando contamos a ela sobre alguns dos casos de corrupção no Brasil: "Mas por que o povo não faz nada? Vocês não protestam?" Digam-me qual dos dois países, Coreia do Norte ou Brasil, é considerado uma democracia, com livre acesso a informação e direito de opinião e manifestação; então respondam à pergunta dela e ganhem de brinde a resposta da pergunta sobre os coreanos. Ah, citar revoltas de Facebook não conta.
Bem, voltando a falar da viagem propriamente dita. Mais do que qual quer outra, ela começa antes, lendo, buscando informações e fazendo contatos. Só se pode entrar na Coreia do Norte através de uma agência de turismo, e sabendo que se vai andar o tempo todo na companhia de guias coreanos. Apesar de parecer que isso restringe a liberdade, no nosso caso foi super tranquilo. Nossas duas guias eram uns amores de pessoas e o roteiro (que na verdade foi montado com base nas coisas que pedimos para ver e fazer) não era tão rígido assim. A verdade é que isso facilita muito e permite acesso a muita informação e a conversas que não teríamos se estivéssemos por conta própria. Sim, acaba encarecendo o passeio mas, mesmo assim, quando penso no tanto de coisas que vimos, na qualidade das refeições e dos hotéis e no fato de termos guias e transporte à nossa disposição, dou-me conta de que o custo realmente não é tão caro assim.
Refeição de bordo
Agora, o difícil mesmo é descrever a expectativa que toma conta da gente no início da viagem. Em Pequim (parada quase que obrigatória, já que não há como ir diretamente da Coreia do Sul para a do Norte), seguindo a orientação de alguns sites da Internet, tivemos a precaução de largar o que tínhamos de livros e de artigos sul-coreanos. Mais tarde, teríamos a impressão de que o cuidado foi exagerado: uma das primeiras coisas que vimos quando chegamos em Pyongyang foi gente vestindo coisa alusiva aos Jogos Olímpicos que estavam acontecendo no vizinho do sul. Antes disso, ainda na hora de fazer o check-in, o coração já estava pulando forte. O voo foi bem mais cheio do que esperávamos e cada norte-coreano que estava ali levava caixas e caixas de bagagem. Certamente aproveitavam a viagem para comprar o máximo de coisas que podiam, dado que os embargos dos Estados Unidos e das Nações Unidas não permitem que uma série de produtos entre no país.
O voo em si, num Tupolev russo bem razoável, foi tranquilo. A televisão de bordo passava belas apresentações de cantoras coreanas; a comida, um curioso hambúrguer acompanhado de refrigerante fluorescente, era razoável e mais farta que a de muitos voos.
Aeroporto de Pyongyang
Ao desembarcar, a passagem pela imigração e pela aduana foi mais tranquila ainda. Ao contrário do que estávamos esperando, ninguém olhou nossas bagagens e passamos diretamente. Ao chegar no saguão do aeroporto, demorou uns minutos até que duas moças se adiantassem e se apresentassem como nossas guias, Lee e Choi. Achamos essa demora ligeiramente estranha, porque acreditávamos que elas estariam já esperando por nós e não seria difícil reconhecer dois estrangeiros como nós ali. Mais tarde, Lee esclareceu que estava esperando dois brasileiros e, portanto, duas pessoas negras; não imaginava que pudéssemos ser branquelos daquele jeito!
Enfim, a viagem estava começando. A terra dos Kim se abria para nós!


Mais sobre a Coreia do Norte: Um dia como outro qualquer em Pyongyang

sábado, 24 de março de 2018

Gangneung, a Olimpíada no gelo

Parte 2/2 da crônica sobre os jogos de PyeongChang 2018. Primeira parte aqui.
Gangneung, cidade litorânea vizinha a PyeongChang, foi a sede das competições de gelo em estádio fechado - como hóquei, patinação e curling. Ao contrário de PyeongChang propriamente dita, onde os eventos eram mais dispersos e de difícil acesso (por conta da própria natureza dos esportes disputados lá), em Gangneung a maioria das competições ficou concentrada num belo parque olímpico. De quebra, estávamos hospedados a apenas um quilômetro desse parque olímpico, de tal forma que era fácil ir e voltar a pé. Perfeito para nós, que queríamos aproveitar a oportunidade de presenciar diferentes modalidades.

Hóquei no gelo. De todos os esportes que vimos, era o único que já tínhamos assistido a uma partida antes. Ainda assim, Olimpíada é Olimpíada, e hóquei no gelo é um esporte simplesmente impressionante. Afinal, pessoas normais como nós teriam dificuldade em fazer qualquer uma das seguintes coisas separadamente, que dirá ao mesmo tempo: patinar com desenvoltura, incluindo mudanças bruscas de velocidade e direção; tacar com precisão um disco a 150 km/h; defender esse mesmo disco; resistir a trombadas e empurrões violentos e levantar-se/recuperar-se deles rapidamente.

Patinação de velocidade. Aqui a história parece um pouco mais fácil, mas só parece, porque quando se tem noção da velocidade que os patinadores atingem, a coisa fica mesmo impressionante. Além disso, algo que descobrimos é que os coreanos têm verdadeira paixão por patins. Nas ruas e parques das duas Coreias vemos crianças e jovens patinando. E, durante as Olimpíadas, o que mais a televisão mostrava eram as competições de patinação, as quais, provavelmente não por acaso, também eram o ponto forte dos competidores coreanos.

Patinação artística. Se a patinação de velocidade parece um balé, com seus movimentos ritmados e precisos, a patinação artística é um primor de dança no mais alto nível. Para ela, vale algo parecido ao que escrevi sobre o hóquei: se para quem tem dois pés esquerdos, como eu, qualquer passo de dança já é um desafio, fazer movimentos coreografados em cima de patins, e em duplas, é incrível. E belo.

Curling. Ah, curling, o jogo da vassourinha! Não é que adoramos e nos divertimos muito? O jogo envolve estratégia e precisão e consegue se manter emocionante até o último ponto. Além disso, é curioso descobrir que o curling atrai não somente curiosos como nós, mas verdadeiros fãs que acompanham o esporte e assistem às partidas paramentados a caráter!

No final das contas, os dias lá passaram tão rápido! É o tipo de evento que deixa saudades quando acaba. Ainda bem que ainda tinha muita coisa para acontecer em nossa viagem.

quinta-feira, 22 de março de 2018

PyeongChang 2018: no frio também tem Jogos Olímpicos, sim, senhor!

Biatlo
O calor reinante em jogos como os do Rio 2016 faz até com que a gente esqueça que as Olimpíadas também têm uma versão de inverno a cada quatro anos. Pois têm e, embora sejam menos grandiosos que os Jogos Olímpicos de Verão (até porque esportes de inverno são naturalmente menos universais que os de verão), são fantásticos. E com uma vantagem, ao menos para nós, brasileiros: são uma excelente oportunidade de acompanhar de perto esportes com os quais normalmente não temos contato.
Assim a ideia de um dia, se houvesse oportunidade, presenciar os Jogos de Inverno foi se tornando um plano concreto. PyeongChang, 2018, estava cada vez se aproximando mais! Verdade que não se tratava de uma viagem fácil de planejar - era um lugar distante, sobre o qual se tinha pouca informação, e que não falava a nossa língua... 
Interior de um "discreto" ônibus entre Gangneung e PyeongChang
Mas deu tudo certo, e foram Jogos fantásticos. A única grande dificuldade, a meu ver, foi o transporte. O problema é que os eventos se dividiam entre dois grandes centros: em PyeongChang propriamente dita ficava a parte de neve, na região montanhosa; a 50 km dali, em Gangneung, ocorriam os eventos de gelo, em ginásios fechados. Foi colocado um batalhão de linhas de ônibus circulando entre os diversos pontos e também entre as cidades vizinhas. Mas o que era para funcionar bem tinha alguns problemas básicos de organização. Algumas linhas demoravam demais para passar, enquanto outros ônibus se acumulavam no pátio. E os próprios itinerários pareciam não ter sido pensados de forma otimizada, sendo necessários três ônibus diferentes para se locomover entre os dois principais centros de Gangneung e PyeongChang, quando o lógico seria ter um ônibus direto nesse trajeto.
A diversão já começou antes, pesquisando sobre as modalidades e decidindo o que iríamos querer ver.   Algumas escolhas já sabíamos bem, outras tiveram de ser mais pensadas. Acontece que há eventos que são melhores para se assistir ao vivo, outros eu acho que são melhor acompanhados pela televisão. Escolhemos entre os primeiros, claro. Por isso, competições como o bobsled acabaram ficando de fora da nossa lista.
Esqui cross-country
Os dois primeiros dias dedicamos aos esportes de neve. Começamos pelo esqui cross-country, uma modalidade à qual terminei me afeiçoando. E acabou sendo muito bom, ainda mais porque se tratava de uma das competições mais democráticas dos Jogos de Inverno. Sim, eu falei aí em cima que são Jogos menos universais que os de verão; nem todo mundo tem invernos rigorosos, neve ou mesmo dinheiro para comprar equipamentos. Mas o esqui cross-country acaba sendo um dos esportes de inverno mais acessíveis para quem não tem... inverno. Assim, pudemos ver atletas de lugares tão diversos e improváveis como Groenlândia, Andorra e Liechtenstein (que têm neve, mas não têm tanta tradição); Mongólia e Coreia do Norte (que vemos raramente, qualquer que seja o evento); Tailândia e Bermudas (que têm clima tropical); e, especialmente, o Brasil. Nossa pátria de chuteiras, digo, de esquis foi representada (muito bem) pelo jovem Victor Santos, e simplesmente torcer por ele já nos valeu o ingresso.
Vimos também o biatlo, que, como competição, é ainda mais dinâmico: trata-se de esqui cross-country combinado com tiro. Errar ou acertar cada alvo pode fazer a diferença no resultado final. Muita coisa acontece ao mesmo tempo e é difícil acompanhar toda a movimentação mas, justamente por isso, não falta ação. Incrível!
Agora, se tem uma coisa que foi difícil saber a exata dimensão com antecedência, essa coisa foi o frio. E como faz falta umas boas botas e um bom par de meias! Havia uma espécie de abrigo, um salão fechado cheio de aquecedores elétricos. Entre uma competição e outra, ia todo mundo para dentro do abrigo, tentando se esquentar ao máximo na frente dos aquecedores antes de sair novamente para o frio! Menos mal que nos dias seguintes veríamos competições em ginásios fechados, portanto relativamente bem mais quentes. Mas o frio, apesar de exagerado, foi, de certa forma, parte da história. Afinal, não se fazem Jogos de Inverno sem ele.
Continuação da crônica sobre os Jogos de PyeongChang aqui.

sábado, 17 de março de 2018

Seul, porta de entrada para a Coreia

Acho que ouvi falar pela primeira vez de Seul quando eu ainda era criança e a cidade sediou os Jogos Olímpicos (a primeira vez em que tive alguma consciência do que eram jogos olímpicos). Mas, por um motivo ou outro, Seul nunca tinha estado na minha lista de prioridades de viagem. Até que outra olimpíada, os jogos de PyeongChang, acabaram dando um incentivo, e eis que pousei na capital sul-coreana.
Trata-se de uma cidade menos exuberante que Pequim, embora esta não me pareça uma comparação totalmente justa, dadas as diferenças históricas e econômicas entre a China e a Coreia. Por outro lado, Seul sai ganhando em pelo menos um ponto: a comida coreana é fantástica (assunto para um próximo capítulo!).
Seul é uma mistura interessante de construções e culturas novas e antigas. Em alguns momentos parece que o novo prevalece, como quando se nota a profusão de arranha-céus por quase toda a parte central da cidade; mas então surge um bairro inteiro de casas em estilo tradicional. Isso para não citar os antigos palácios, templos budistas e portões. Em aspectos mais intangíveis, o contraste é ainda mais marcante: jovens usando as roupas tradicionais (hanbok), preocupados com a família e respeitando todas as normas de etiqueta convivem com a obsessão pelo k-pop (música pop sul-coreana), pelos telefones celulares e por maquiagem e cosméticos. Também nos banheiros, há sempre uma expectativa sobre o que se vai encontrar: o tradicional "buraco no chão" asiático ou moderníssimos vasos sanitários com luz interna e diferentes jatos de água e ar com temperatura regulável...
A despeito da dificuldade com a língua e apesar de todas as diferenças que costumamos experimentar quando viajamos ao Extremo Oriente, acabou sendo relativamente fácil se localizar e sentir-se em casa em Seul. Pelo menos a partir do momento em que comecei a entender o peculiar sistema de numeração dos prédios nas ruas coreanas! Tivemos a sorte de nos hospedarmos num excelente albergue, confortável e muito bem-localizado, o que ajudou bastante. Claro que a Coreia do Sul tem seu quinhão de curiosidades asiáticas. Por exemplo: uma comida extremamente popular é o Spam, uma marca de carne enlatada que entrou no país trazida por soldados estadunidenses durante a Guerra da Coreia. No Ano Novo Lunar, uma das principais datas comemorativas, as pessoas se presenteiam com caixas enormes e bem-decoradas cheias de latas de Spam. Chá também é bastante popular; mas, ao contrário da China e de outros lugares onde se consome chá preto, verde e outras variações da mesma planta, na Coreia predominam infusões de cereais - cevada, trigo sarraceno, arroz...
SeoulNo Centro, perto da prefeitura, encontramos uma pista de patinação no gelo e dividimos espaço com os coreanos. Em outros lugares, telões, lojas e exposições lembravam que o país vivia o clima olímpico. Seul, apesar de não ser sede dos jogos, é de longe a maior cidade do país e fica a duas horas dos locais de disputa. E assim, aos poucos, fomos encontrando e ficando íntimos de Soohorang e Bandabi, os mascotes dos Jogos de Pyeongchang. Quando chegamos às competições propriamente ditas, já estávamos ambientados - ressalvado apenas o frio, que não deixava esquecer que era inverno com todas as letras!

domingo, 4 de fevereiro de 2018

Guia Puffin de Gastronomia 2018

Com um pequeno atraso, é verdade, mas aqui está: a nova edição do Guia Puffin de Gastronomia! Mais uma vez, com o árduo e saboroso desafio de listar os melhores restaurantes do ano anterior. 
Só para lembrar: restaurantes que apareceram nas edições anteriores (20152016 e 2017) ficam de fora para, assim, dar mais espaço às novas descobertas. Como das outras vezes, o Guia Puffin de Gastronomia distribui entre uma e três enguias para os estabelecimentos que proporcionaram as mais excepcionais experiências gastronômicas - não só a comida, mas também o atendimento, o ambiente, enfim, a experiência completa. Neste ano, mais um restaurante vem se juntar a OlympeLe Louis XVMaaemo, Kokkeriet e Gordon Ramsay no exclusivo clube dos agraciados com três enguias. Querem saber qual é ele? Pois que então que rufem os tambores... Com vocês: o novo Guia Puffin de Gastronomia!

Miam Miam, Rio de Janeiro - 1 enguia
É um restaurante cômodo: um casarão antigo, com um ambiente intimista, uma decoração bem-cuidada e longe de ser extravagante, o Miam Miam convida quem vai lá a se sentir em casa. E a comida vai pelo mesmo caminho: saborosa, bem-preparada e sem fugir muito do clássico.



Irajá Gastrô, Rio de Janeiro - 1 enguia
Restaurante comandado pelo chef Pedro de Artagão (e que não fica no bairro de Irajá, mas na rua Conde de Irajá). A comida, saborosa, é servida num salão agradável cheio de plantas. Um "senão": quando fomos, a casa trabalhava com duas versões de menu degustação, uma maior e a outra menor, mas somente a menor tinha opção vegetariana. Uma falha que provavelmente custou uma enguia ao chef, pois a qualidade dos pratos merecia mais.



Liburnia, Pristina - 1 enguia
Esta é uma daquelas agradáveis surpresas que o Guia Puffin revela. Quem diria que o Kosovo abrigaria uma enguia? Pois o Liburnia faz por merecer ao cumprir com mérito a proposta de um menu recheado de opções típicas da cozinha kosovar-albanesa com um leve toque de sofisticação. É uma culinária bem temperada, farta e que não perde o ar de comida caseira. Cozinha que aproveita o melhor da terra e que dá ideia para fazermos o mesmo em casa. De quebra, é provavelmente um dos restaurantes mais baratos que já apareceram no guia, o que faz dele um excelente custo-benefício.


Glouton, Belo Horizonte - 2 enguias
Comida mineira em uma de suas melhores roupagens. Simples assim. Quem é de lá vai reconhecer, nos pratos criados pelo chef Leo Paixão, a influência e os ingredientes da comida caseira tradicional. Quem não é, vai descobri-los e fazer associações com sua própria infância. Tudo com um toque levemente contemporâneo de quem sabe o que está fazendo. Em nossa visita, pudemos saborear um menu degustação ao qual não faltou nada - nem mesmo a alternativa vegetariana, que foi aprovadíssima!

Boragó, Santiago de Chile - 2 enguias
Não menos do que o lápis-lazúli, este restaurante é uma legítima joia chilena. O menu do Boragó é grandioso (e extenso), um verdadeiro banquete que se propõe à tarefa hercúlea de fazer um apanhado de toda a tradição culinária do país. E estamos falando de um país diverso, com altitudes e latitudes bastante diferentes. O chef Rodolfo Guzmán parece ir à raiz destas tradições para buscar o que elas tem de melhor e de mais autêntico - no caminho, chega a parecer quase hermético, para em seguida se revelar em sabores tão variados que seriam difíceis de prever.


Hof van Cleve, Kruishoutem (Bélgica) - 2 enguias
Esta é a casa do chef Peter Goossens, alguém que realmente sabe o que faz - e sabe que faz bem. Para começar o restaurante fica num lugar quase isolado nos arredores de Gante. Não é o tipo de lugar a que se vai por acaso (pelo contrário, merece figurar nos melhores sonhos e listas de restaurantes a se visitar). Já ao chegar, estacionando nosso humilde carrinho alugado entre os Porsches e Ferraris, ele se impõe. Mas, ao entrar, pouco a pouco, vamos ficando à vontade. Comida e serviço meticulosos, sabores que explodem e se sucedem, o prazer e a certeza: comer bem é um luxo, talvez o melhor deles.

Maison Troisgros (Le bois sans feuilles), Roanne/Ouches (França) - 3 enguias

Este restaurante figurava na nossa lista dos sonhos desde a primeira edição do Guia Puffin. Chegar até ele exigiu um cuidadoso planejamento de viagem - que foi plenamente justificado. Para quem não sabe, é a casa de Michel Troisgros, irmão de Claude Troisgros (que já é habitué do nosso guia), herdeiros ambos do sobrenome que figura entre os criadores de nada menos que a nouvelle cuisine francesa. E assim a Maison Troisgros entrega com folga o que se espera dela: uma aula magistral sobre o que de melhor a gastronomia do país de Asterix já produziu. Num lugar incrível, em plena zona rural no centro da França, somos levados ao êxtase - não há outra palavra que possa ser utilizada. De quebra, ainda saímos de lá com a certeza de que Michel Troisgros (assim como seu filho César) não só é um mestre como é uma simpatia de pessoa. A incrível amabilidade e simplicidade que se encontra nos verdadeiros gênios.

domingo, 21 de janeiro de 2018

Liechtenstein: os príncipes e nós

Eduardo Trindade
Castelo de Vaduz, residência do príncipe e de sua família
Países pequenos exercem sobre mim um certo fascínio. Talvez devido ao antagonismo de alguém como eu, vindo de um país tão grande e diverso, encontrar uma nação que seja justamente o oposto disso. Talvez pela satisfação levemente preguiçosa (e eventualmente traiçoeira) de achar que se consegue conhecer um país inteiro andando pouco. Talvez simplesmente porque esses países - Luxemburgo, Andorra, Mônaco, agora Liechtenstein... - são realmente bonitos, além de não serem lugares congestionados de turistas.
Liechtenstein é um pequeno país entre a Suíça e a Áustria e possui uma curiosa história com reminiscências medievais, como o fato de ser uma monarquia: mais precisamente, um principado em que o monarca possui um papel político ativo, muito mais do que decorativo.
Dia de festa em Liechtenstein
Assim sendo, tivemos a feliz coincidência de estar em Liechtenstein no aniversário do príncipe, uma ocasião que (não por acaso) é dia de festa nacional. Os jardins do castelo são abertos aos súditos que, neste dia, podem desfrutar de um almoço literalmente principesco. Os próprios príncipes e sua família (aliás, uma das mais ricas da Europa) desfilam no meio do povo. Há um pronunciamento ao qual aparentemente o país inteiro assiste espalhado pelo gramado em volta do castelo, num clima que mistura piquenique familiar com conto de fadas. A banda toca. Depois descem todos para o centro da cidade, onde há uma feira com barracas de comidas, música ao vivo nas praças e museus abertos com entrada franca. À noite, uma queima de fogos encerra a festa.
Liechtenstein do lado de cá, Suíça do lado de lá
No dia seguinte, aproveitamos para explorar o país, o que não é difícil dada a sua pequena dimensão. Liechtenstein possui 11 municípios, com uma média de 3 mil habitantes em cada um deles. Ou seja, o que se vê são pequenos vilarejos alpinos aqui e ali. Mesmo a capital, Vaduz, tem um certo ar de província. A geografia do país é bem dividida em duas partes: a oeste, Liechtenstein ocupa metade de um vale (no meio do vale está o rio Reno e, do outro lado, a Suíça); a leste, montanhas que formam parte da cadeia dos Alpes e a fronteira com a Áustria. Na parte baixa, campos para pastagem de gado leiteiro; na parte alta (de onde, aliás, tem-se uma bela vista de quase todo o país), estradas sinuosas e uma estação de esqui que, no inverno, é o principal destino turístico do país. Aqui e ali, castelos, alguns em ruínas, outros conservados e erguendo-se imponentes, como aquele de Vaduz, em que vive a família do príncipe. Os caminhos cruzam as duas fronteiras o tempo todo: a única autoestrada digna do nome fica do lado suíço, de tal forma que, para ir rapidamente de uma ponta à outra de Liechtenstein, é preciso atravessar para o país vizinho e voltar. Mas tem horas em que simplesmente vale mais a pena fazer o caminho lento, atravessando os campos. É preciso tempo para assimilar os tons de verde desse vale.