sexta-feira, 15 de abril de 2016

Somos todos iguais, braços dados ou não

 Uma reflexão necessária sobre a situação atual do país, ainda que fuja um pouco ao tema do blogue.
"Quem vive nos Bálcãs acaba passando por pelo menos duas guerras." Um dia, um amigo nascido nos Bálcãs me falou isso, em tom de provérbio iugoslavo. Esse amigo, que tem a mesma idade que eu, morou em quatro países diferentes sem mudar de cidade. Já o pai dele passou por sete países. Melhor dizendo, sete países passaram por ele: é o que acontece quando se fica no mesmo lugar mas as fronteiras oscilam ao sabor das guerras e as nações se juntam e se separam ao sabor dos acordos políticos (aqueles que, como se sabe, são como as salsichas).
Nos últimos cinco anos, visitei três vezes os Bálcãs. Sempre que a discussão pendia para assuntos de economia, política e qualidade de vida, acabávamos concluindo que a situação do Brasil era muito melhor do que a de qualquer país da ex-Iugoslávia e que, dentre vários possíveis motivos para isso, um se destacava: a ausência de guerras no período recente. Era flagrante o quanto o Brasil, a despeito de sua diversidade, tinha um senso de união e de convivência pacífica invejável. Não digo que fosse perfeito, nós sabíamos das dicotomias norte/sul (ou sudeste/nordeste), pretos/brancos, ricos/pobres, mas nada chegava aos pés das sangrentas tensões balcânicas. Meu amigo invejava essa nossa paz, como invejava a pujança econômica, a oferta de empregos, invejava até mesmo nossa Copa do Mundo e nossos Jogos Olímpicos.
Hoje, porém, se saio para a rua em meu país ou faço uma busca rápida na Internet, vejo um ódio que não está tão longe daquele estopim perigoso dos Bálcãs. É algo que nunca vi antes, não no Brasil. Que extrapola enormemente a simples discussão de ideias políticas ou a disputa democrática por poder (por mais que estas já fossem, em seu cerne, menos edificantes do que as palavras podem fazer parecer). O que se vê é uma troca de acusações e ameaças que se distanciou demais dos alegados combate à corrupção, de um lado, e respeito à instituição democrática, de outro. Ora, não me venham dizer que o que está em jogo é a corrupção (até porque sequer é esse o foco do julgamento do impeachment da presidente). Também não venham negar o crescimento econômico do país: para citar um exemplo, eu mesmo vivenciei um momento, há 15 anos, em que engenheiros saíam da universidade mendigando um emprego, e outro momento, há uns três anos, em que empresas iam à universidade disputar a tapa engenheiros que sequer tinham se formado. Não serei ingênuo a ponto de afirmar que é tudo mérito exclusivo de Lula ou Dilma, mas também não me venham dizer que é apenas coincidência ter acontecido durante seus mandatos.
Agora, passado o ápice daquele momento econômico, instaurou-se uma disputa de poder que faz uso de um componente perigoso: o ódio. Na disputa pela cadeira do Palácio do Planalto, alimenta-se a ideia de que o Brasil está dividido entre grupos que seriam, estes sim, irreconciliáveis: honestos e corruptos, o bem e o mal. Com a presidente literalmente impedida de governar, e isso deste o início do mandato, utiliza-se o país como moeda de troca. O velho e anedótico "é dando que se recebe" assume proporções assustadoras. Passageiros e tripulantes do navio se digladiam enquanto este vai a pique, consolando-se com a pobre ilusão de culpar o adversário pelo naufrágio.
Abro o jornal e penso o que aquele meu amigo ex-iugoslavo diria. Nas manchetes, vejo que em Brasília constroem um muro para separar os dois lados do campo de batalha; nas estradas, manifestantes fazem barricadas queimando pneus; novamente em Brasília, um deputado comemora não estar mais na lista de procurados da Interpol (mas era pegadinha do malandro: ele continua com mandato de prisão... e continua deputado). Em meio a tudo isso, em São Paulo, os supostos representantes da nova política brasileira tomam decisões importantes: discutem a participação de uma cópia simplória do Fofão para alegrar a festa do impeachment. E essa é a parte menos pior da história, pois é a que nos permite rir, nem que seja da própria desgraça. Palhaço por palhaço, é difícil não lembrar do Tiririca: "pior do que tá não fica". O nobre deputado, quem diria, era um otimista.

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Mercados do México

Foto: Eduardo Trindade
Ah, mercados. Poucos lugares são tão convidativos para quem gosta de viagens e de gastronomia quanto um bom mercado. E a Cidade do México, com suas paisagens, cores, aromas e sabores razoavelmente exóticos, oferece exatamente isso: uma profusão de mercados e feiras para todos os gostos. Vendem de tudo, e não apenas comida.
Foto: Eduardo TrindadeO ideal seria provavelmente começar pelo Mercado de la Ciudadela. Este é um mercado para turistas, que vende principalmente artesanato. São peças bonitas que remetem ao México: caveiras e esqueletos dançantes, sombreros e chapéus diversos, figurinos de mariachis e caubóis, camisetas e chaveiros com a turma do Chaves, tudo com muita cor. Quando estivemos por lá, havia relativamente pouca gente, o que ajudava a tornar o passeio por entre as bancas bastante agradável.
Depois, o Mercado de San Juán, no centro da cidade. Digamos que esse é exatamente o que se espera de um mercado mexicano autêntico. Os espaços são mais estreitos e mais concorridos. Vende-se de tudo um pouco: utensílios domésticos, ferramentas, flores... Mas principalmente comida, muita comida. Queijos. Carnes. Verduras. Insetos. Pimentas. E frutas, muitas frutas. Com toda a certeza, é o lugar ideal para comprar o que quer que se necessite para um bom jantar - seja uma refeição em casa para os amigos ou um menu profissional num restaurante. No nosso caso, paramos para um suco de laranja. Ah, os sucos do México! Fartos, baratos e espremidos na hora. Em seguida, paramos ainda numa banca com jeito de restaurante - sim, o mercado tem uma praça de alimentação e restaurantes que servem desde a boa comida de rua do México até pratos mais elaborados.
Entre um mercado e outro, e como descanso antes da empreitada seguinte, talvez seja uma boa procurar uma feira de rua - que os mexicanos chamam de tianguis. Na Colonia (bairro) Condesa há uma que é simplesmente uma delícia. Estende-se por algumas quadras, e se parece um pouco com as feiras de rua do Brasil. Com a diferença marcante, claro, de que o que se encontra são os produtos da terra. Variedades inéditas para nós de pimentas, milho, frutas, doces. Passeamos entre as bancas e nos oferecem provas de quase tudo. É impossível resistir. No nosso caso, mesmo sabendo que teríamos de deixar a cidade no dia seguinte, saímos de lá carregados de mamey (uma fruta que é parente do sapoti e do mamão), figos, compota e suco.
Mas eu tinha falado que a passada pela feira era só um entreato antes da jornada seguinte... Visitar o Mercado de Sonora, o "mercado das bruxas"! Esse não é para iniciantes, não mesmo. O Mercado de Sonora é a mais profunda acepção do que alguém poderia chamar de "mercado popular". Gigante. Caótico. Pronto a devorar seus visitantes. Deixai toda a esperança, vós que entrais. Imaginem uma grande quantidade de venda de badulaques comprimida num espaço fechado e apertado. E com a oferta de produtos ainda mais ampla que em todos os outros mercados que percorremos. É como se, de certa forma, qualquer coisa pudesse ser encontrada aqui: brinquedos, roupas, cadernos, panelas, eletrônicos, frutas, peixes, carnes. E, obviamente, ervas. Poções. Incensos. Trata-se do mercado das bruxas. Ou, seja, do esoterismo e das soluções mágicas. Lembra um pouco Belém, mas incrivelmente atulhado e apinhado de gente. Chegamos ao coração do Mercado de Sonora, onde o aroma das ervas é mais intenso. Seguimos caminhando, mas sair de lá não é tão fácil: a região toda é uma espécie de complexo de mercados populares e, mesmo fora do prédio, ainda temos de caminhar um bom trecho serpenteando entre bancas de camelôs e gente indo e vindo. O curioso é que as pessoas parecem completamente à vontade naquela confusão. Não sei bem como mas, de alguma forma, o mercado tem espaço para todos os mexicanos.
Foto: Eduardo Trindade

domingo, 13 de março de 2016

Pirâmides do México

Ao andar pelo México, é impossível não se deparar com referências à cultura pré-colombiana. Na comida. Nos nomes dos logradouros e em várias palavras de uso corrente (vocês sabiam que chapulín é o nome de um tipo de grilo?). Em representações artísticas (de painéis, pinturas e esculturas a jóias e amuletos, são inúmeros os objetos com traços astecas).
Porém, a herança mais palpável dos povos que habitaram o México é, sem dúvida, feita de pedra: as suas pirâmides, templos e cidades. A humanidade, por algum motivo, parece gostar de pirâmides. A eterna vontade de se aproximar do céu, talvez. Ainda hoje, visitar as ruínas dessas pirâmides que fomos deixando ao longo da história é impressionante.
Nos arredores da Cidade do México fica a antiga cidade de Teotihuacán. Acordamos cedo para ir até lá e fomos recompensados: as hordas de turistas ainda demorariam um pouco para chegar e, assim, tínhamos Teotihuacán e suas pirâmides quase que só para nós. Um dia frio, com o sol recém começando a se mostrar; caminhamos pela avenida central, subimos e descemos as pirâmides, enquanto alguns balões passam no horizonte. As ruínas de Teotihuacán tiram o fôlego pela paisagem e pelo esforço de subir todos aqueles degraus.
Um pouco mais longe, já no estado de Puebla, está a pirâmide de Cholula. Que é, esta sim, bastante inusitada para quem chega com a ideia de uma pirâmide clássica. A grande pirâmide de Cholula é considerada a maior do mundo em área e em volume, mas não em altura (a esse respeito, a comparação da Wikipedia é bastante interessante). E tem a particularidade de estar, hoje, quase completamente tomada pela vegetação, a ponto de que  um desavisado poderia chegar ao topo com a impressão de estar subindo um morro, e não escalando uma pirâmide. No alto há uma igreja católica que remonta ao século XVI, o que disfarça ainda mais a pirâmide original. Controverso, talvez, mas não de todo surpreendente: afinal, é o eterno desejo de se aproximar do céu.


quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Paletas mexicanas, as legítimas; recuse imitações

Como tudo mundo sabe (embora alguns pareçam ter esquecido), o que no Brasil se chama uma paleta mexicana é, mais propriamente, um picolé, e brasileiríssimo, visto que fabricado aqui com ingredientes nacionais.
Não que eu seja contra o tal picolé em si, que na maioria das vezes é bom, mas me incomoda a forma um tanto predatória com que essa mania se espalhou, e ainda mais o conceito implícito de que "o que é de fora é melhor".
Isso posto, eu devo dizer que não esperava me deparar algum dia com "paletas mexicanas" (autênticas).
Até que aconteceu. Estávamos no México. Sem que procurássemos, de repente vimos uma sorveteria. E lá estavam elas, as paletas. Mexicanas, definitivamente. Imediatamente exclamei, maravilhado: elas existem!
Assim, tive de morder a língua: as paletas mexicanas existem! No México, é claro.
As sorveterias que vimos no México vendem tanto o sorvete propriamente dito, na casquinha ou no copinho, quanto os picolés (paletas, em espanhol mexicano). Estes são feitos feitos de maneira semi-artesanal, não têm o suposto glamour nem o preço de uma "paleta mexicana" brasileira mas, em compensação, são deliciosos. E com uma vantagem extra: além dos que são fartamente recheados de bombons, pode-se escolher entre vários inspirados em frutas ou doces típicos locais. A variedade é de deixar qualquer um encantado.
Ah, se os mexicanos soubessem das "paletas" brasileiras... iriam (merecidamente) cobrar royalties. E, se os brasileiros soubessem das paletas mexicanas, não iriam mais querer saber de imitações.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Comendo nas ruas do México

O México é o lugar da comida callejera - comida de rua - por excelência, tanto que o tema mereceria não só uma crônica, mas talvez um livro inteiro. Logo ao chegar ao país já é impossível não reparar na oferta de comida nas calçadas, em bancas, carrinhos e tabuleiros que ficam rodeados de gente e exalam cheiros pungentes. Quem sai à rua, no México, é imediatamente inundado por uma mistura de odores característica. O primeiro, onipresente, é o cheiro do milho, muitas vezes somado ao cheiro do óleo de fritura. Em seguida, identifica-se o cheiro de pimenta. Ou melhor, das pimentas, pois elas são muitas: jalapeño, chipotle, chile poblano, chile serrano - em variados tamanhos, cores e graus de picância.
Boa parte do que se come nas ruas é uma variação das tortillas, o pão chato mexicano feito de trigo ou de milho e que pode ainda levar outros ingredientes (desde feijões até cactos) incorporados na massa. Se cortadas em pedaços pequenos e fritas, chamam-se nachos; se recheadas e dobradas, tacos; se elipsoidais, recheadas (muitas vezes com queijo) e dobradas, possivelmente fritas, quesadillas; se de milho, recheadas, enroladas e cobertas de molho, enchiladas; se de trigo, recheadas e enroladas, burritos. E há ainda as gorditas, as infladitas... Confuso? Talvez, mas bastam alguns dias no México para aprender a diferenciar com mínima desenvoltura a maioria destas variantes.
Um aspecto interessante é que, ao contrário do que alguém poderia pensar, em geral essas comidas contém pouquíssimo tempero e nenhuma pimenta; a pimenta está, na verdade, nos molhos que são sempre oferecidos juntamente com o prato. Em alguns casos, as bancas de rua têm longos balcões com pelo menos três molhos de pimenta, além de cebola, feijão, queijo e abacate, para o freguês se servir e incrementar à vontade a sua tortilla.
Eis então que estvamos em Xochimilco, sul da Cidade do México, quando resolvemos atacar uma das bancas de comida de rua. Éramos ainda inexperientes nessa arte, mas as perspectivas se mostravam boas: a banca apresentava convidativas quesadillas fritas na hora. A Renata, rapidamente, escolheu uma de queijo, recusou todos os molhos e se entregou à quesadilla com sofreguidão, aprovando-a imediatamente. Eu pedi uma com carne e aceitei a oferta de molho vermelho, do qual a vendedora pôs logo uma generosa colherada, lambuzando toda a quesadilla.
Só um lapso inexplicável, só uma momentânea inatividade cerebral podem explicar eu ter aceitado o molho. Eu já sabia que a salsa roja (molho vermelho) era a mais apimentada daquelas salsas, e sabia também que os mexicanos não são exatamente parcimoniosos quando se trata de pimenta. Na primeira bocada, percebi que não ia ser fácil. Na segunda, eu estava implorando por um líquido qualquer. Na terceira, eu me municiava de guardanapo e tentava inutilmente retirar o excesso de pimenta que escorria pela quesadilla. Os olhos começaram a lacrimejar. Os lábios pegavam fogo. Eu olhava para as outras pessoas à minha volta, que deviam achar aquela quantidade de pimenta absolutamente normal, e queria agir com naturalidade, mas era impossível. A pele se desprendia do céu da boca e eu sentia que não conseguiria sequer falar direito enquanto continuava comendo, e bebendo, e me preocupando com a possibilidade de o refrigerante terminar antes da comida.
Juro que tentei não fazer feio, mas só a muito custo consegui seguir com a quesadilla. Afinal, terminei, paguei e me levantei correndo, ansioso por procurar algo que me refrescasse. Vinha à minha mente a clássica cena do personagem de desenho animado com a cabeça vermelha, fumaça saindo pelos ouvidos, procurando um tonel de água para se enfiar. Minha salvação acabou sendo um picolé: nunca um picolé foi tão bem-vindo! E a história entrou para o livro de lições aprendidas: em se tratando de pimenta mexicana, nenhum cuidado é exagerado.

sábado, 30 de janeiro de 2016

Viagens Extraordinárias e livros que incentivam a rodar o mundo

Descobri Júlio Verne quando criança, num sebo aonde fora levado por minha mãe. De Verne foram os primeiros "livros de adulto" (ou seja, livros com mais texto que ilustrações) que me lembro de ter lido.
A verdade é que, embora hoje algumas das suas previsões mais ousadas estejam, digamos, ultrapassadas, são obras que não perderam o brilho. Ao contrário, têm se renovado. Afinal, continuam sendo lançadas novas edições e adaptações para A Volta ao Mundo em 80 Dias, Viagem ao Centro da Terra, Vinte Mil Léguas Submarinas e outros tantos.
Júlio Verne não foi só um escritor de sucesso, foi também um autor bastante prolífico: ao longo de mais de quarenta anos, publicou dezenas de Viagens Extraordinárias - esse era o título da série de livros que lhe deu fama.
O interessante, aqui, é que esses livros tinham todos os ingredientes básicos para atrair uma criança como a que era eu. Ou, de outra forma, é possível encontrar neles sementes que ajudaram a moldar meus gostos (e não falo só do gosto por livros) e meu caráter. As Viagens Extraordinárias tratam basicamente de aventuras (talvez uma das formas mais infalíveis de se prender o leitor), ciência (não à toa, Júlio Verne é considerado um precursor da ficção científica) e viagens (lugares longínquos, descrições geográficas, históricas e antropológicas). E sempre com tiradas de humor e de romance. Cada história se passa num lugar diferente - seja a África, a Rússia, o céu ou o fundo do mar. Os personagens costumam ser de nacionalidades diferentes, e com características quase sempre aderentes à nacionalidade (de forma um pouco estereotipada para um crítico dos dias de hoje, mas ainda assim válida) - o inglês é metódico e preciso, o francês perto dele é irreverente e despreocupado, o estadunidense é empreendedor, o nórdico é de poucas palavras e absolutamente leal. E, claro, as referências ao desenvolvimento científico e tecnológico são marcantes - a ida à Lua, o submarino, cálculos físicos e análises geológicas estão todos lá.
 Se não propriamente um aventureiro, cresci meio cientista e viajante. Cheguei à conclusão de que toda viagem pode ser extraordinária. E apreciador de livros, incluindo os de Júlio Verne.
Daí que, visitando Paris, a Renata me presenteou com algo realmente fantástico: uma edição especial de Vinte Mil Léguas Submarinas em seu idioma original. Eu já teria adorado ganhar a mais humilde das edições; pois essa é recheada com todo tipo de maravilha relativa ao romance: a planta do Nautilus, o mapa da viagem, fac-símiles das ilustrações originais e de manuscritos do autor. E tudo isso das mãos da mulher que eu amo cada vez mais, minha mais completa viagem extraordinária.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Krtek, a toupeirinha

Krtek - literalmente a Toupeira - é um personagem de desenho animado tchecoslovaco ou, mais precisamente, tcheco (seu criador é tcheco e e ela nasceu em Praga mas, na época, o que existia era a Tchecoslováquia e os dois atuais países da região eram ainda mais ligados do que hoje). Trata-se de um desenho singelo, simpático, voltado para crianças mas fácil de cativar gente grande como nós. No final das contas, mesmo sem nunca termos visto a Toupeirinha quando pequenos (a Guerra Fria contribuiu para deixar muitas coisas longe de nós por muito tempo, e mais coisas ainda longe do lado oriental), não há como não se afeiçoar a ela. O clima do desenho lembra um pouco o de alguns desenhos da nossa própria infância, porém sem a maldade que havia (e nem sempre percebíamos) num Pica-Pau ou num Tom & Jerry.
Hoje já é bem mais fácil transitar entre os dois lados da ex-Cortina de Ferro, e assim a Toupeirinha não só viajou o mundo como já virou até astronauta, numa das missões do ônibus espacial Endeavour! Infelizmente ainda não é fácil achar vídeos dela no Youtube, mas alguns dos desenhos animados estão disponíveis na Internet e o que coloquei abaixo é um bom exemplo.
Enfim, no nosso caso, conhecemos a Toupeirinha enquanto andávamos por terras tchecas e eslovacas. Ela está na televisão dos dois países, assim como está nas livrarias e em referências diversas (camisetas, bonecos, bonés) das cidades de lá. A Toupeirinha é um tanto atrapalhada, mas tem bom coração. Sua curiosidade às vezes a coloca em confusão; em compensação, sempre há algum amigo disposto a ajudá-la.
Foi amor à primeira vista, claro. Como resultado, nós a trouxemos para casa, onde ela imediatamente faz amizade com o Puffin. Hoje, onde um vai, vai o outro junto! Aliás, quando soube que eu estava escrevendo sobre a Toupeirinha, o Puffin fez questão de deixar uma mensagem para ela. Aqui vai: próóóóóó!!!

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Guia Puffin de Gastronomia 2016

Depois do sucesso da primeira edição do Guia Puffin de Gastronomia, chegou a hora de apresentar os melhores restaurantes do ano que se passou! 2015 teve grandes viagens e mesas dignas de nota. E, assim, a Renata e eu não poderíamos nos furtar à difícil (e agradabilíssima) tarefa de listar os restaurantes que mais nos encantaram. A seleção deste ano teve até cédula de votação preenchida pelos jurados!
Foi adotado o critério de que as casas que apareceram na edição anterior não entrariam na lista desse ano para, assim, dar oportunidade às nossas novas descobertas. Então, relembrando, o Guia Puffin de Gastronomia distribui entre uma e três enguias para os estabelecimentos que proporcionaram as mais excepcionais experiências gastronômicas - incluindo na avaliação a comida, o ambiente, o serviço, enfim, a experiência completa. Na lista passada, o Olympe, no Rio de Janeiro, e Le Louis XV, em Mônaco, foram os agraciados com três enguias.
Enfim, sem mais delongas... a edição 2016 do Guia Puffin de Gastronomia!

Oui Oui, Rio de Janeiro - 1 enguia
Cozinha: Roberta Ciasca
É um restaurante acolhedor e relativamente simples, com cara de bistrô. Os pratos escolhidos no menu podem ou não ser compartilhados. A proposta é que, como os itens em geral não são grandes, é possível montar uma pequena degustação combinando algumas das diversas opções oferecidas.
Particularidade: a chef também comanda outro restaurante, o Miam Miam, no mesmo bairro (Botafogo).

CT Brasserie Fashion Mall, Rio de Janeiro - 1 enguia
Cozinha: Claude e Thomas Troisgros - chef convidado: Batista
A família Troisgros aparentemente comanda alguns dos melhores lugares para se comer bem no Rio de Janeiro (sim, o Guia Puffin é fã da sua cozinha, afinal este é o terceiro restaurante Troisgros listado!). O CT Brasserie é um restaurante de shopping (na verdade, são dois restaurantes, cada um num shopping da cidade), e isso faz com que ele seja relativamente informal, sem deixar de ser muito agradável.
Particularidade: conforme entreguei aí acima, quem comandou a cozinha na noite de nossa visita foi o Batista, o simpático braço-direito de Claude Troisgros. Era a estreia dele no controle do cardápio, que ganhou um sotaque tão nordestino quanto o próprio Batista - e ganhou também nossa total aprovação.

Manu, Curitiba - 2 enguias
Cozinha: Manoella Buffara
Que haja um restaurante do nível do Manu fora do eixo Rio-SP é uma bela notícia. Uma cozinha autoral bastante criativa, com uma sequência de pratos bem-elaborada, que nos conquistou desde o primeiro bocado. Saímos de lá mais que satisfeitos e, ao mesmo tempo, com vontade de recomeçar.
Particularidade: a chef comanda pessoalmente a cozinha e, ao final do serviço, veio conversar pessoalmente conosco. Este tipo de atenção, na opinião do Guia Puffin, faz toda a diferença!

Eleven, Rio de Janeiro - 2 enguias
Cozinha: Joachim Koerper
Eleven é um premiado restaurante português que abriu em 2015, no Rio de Janeiro, sua primeira filial. O cardápio tem alguns toques portugueses, mas é essencialmente contemporâneo. O atendimento que tivemos foi particularmente notável.
Particularidade: o chef é alemão, casado com uma brasileira, e comanda a matriz do restaurante em Lisboa. Com uma mistura dessas, não surpreende que tenha aterrissado no Rio de Janeiro!.

Tegui, Buenos Aires (Argentina) - 2 enguias
Cozinha: Germán Martitegui
Ultrapassando a entrada discreta, chega-se a um salão amplo e elegante onde provamos um cardápio repleto de ingredientes naturais típicos da culinária argentina preparado com um olhar inovador. Apenas para dar uma ideia: pão de erva-mate no couvert, mollejas como eu nunca tinha provado antes, a melhor cremona de nossas vidas... Até a alface era indescritível.
Particularidade: o chef Germán Martitegui é um dos jurados do Masterchef Argentina (que, diga-se de passagem, está muito acima da versão brasileira do programa). Ao chegar à mesa, um cartão dizendo que "o que acontece no Tegui fica no Tegui" pede que se evitem fotos.

Lasai, Rio de Janeiro - 2 enguias
Cozinha: Rafa Costa e Silva
Quando poderíamos sonhar com uma comida desse nível tão perto de casa que se pode ir a pé! O restaurante funciona num casarão amplo e o cardápio consiste numa maravilhosa sequência de degustação, daquelas que não saem facilmente da cabeça. A apresentação de cada prato é particularmente bonita e criativa.
Particularidade: ao chegar, somos convidados a subir para o terraço, ao ar livre, onde servem os primeiros aperitivos. Depois, passamos para nossa mesa no salão. Entre o terraço e o salão, passamos pela cozinha, impecável!

La Degustation Bohême Bourgeoise, Praga (Rep. Tcheca) - 2 enguias
Cozinha: Oldřich Sahajdák
No centro da bela cidade de Praga, o restaurante se esmera na criação de um menu a partir de produtos tchecos. Oferece, assim, versões elevadas de pratos que são, de certa forma, típicos da região: ingredientes nobres da culinária internacional estão presentes mas, muitas vezes, quem brilha mesmo é a beterraba ou o salsão.
Particularidade: provamos o menu degustação harmonizado com sucos, o que acrescentou ainda mais sabor à experiência.

Maaemo, Oslo (Noruega) - 3 enguias
Cozinha: Esben Holmboe
Este restaurante é certamente uma experiência inesquecível. Elegante e impecável em cada detalhe. Perdemos a noção do tempo (nossa refeição começou à tarde e foi terminar já de noite, sempre sob a luz do sol noturno escandinavo), mas sabíamos que estávamos em boas mãos, com o ritmo dos pratos se sucedendo à perfeição, harmonizados com sucos igualmente perfeitos. O cuidado no atendimento e na apresentação dos pratos é dos melhores que já vi. Cada preparação (sempre com ingredientes frescos) tem uma motivo e uma história que nos é contada com paixão. Mesmo sofisticado, o restaurante consegue mostrar raízes bem definidas na comida norueguesa tradicional.
Particularidade: como o restaurante fica num segundo andar, um pouco escondido de quem passa, ainda no meio da rua fomos surpreendidos pelo recepcionista que nos esperava chamando pelo nome. Depois, no meio da sequência de degustação, num intervalo providencial, somos convidados a visitar a cozinha e conhecer cada um dos responsáveis pelos pratos daquele dia.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Buenos Aires e o tango

Buenos Aires é certamente uma das cidades estrangeiras mais visitadas por brasileiros. Nós mesmos já havíamos estado lá antes, assim que voltar a visitá-la, agora, foi mais um reencontro que um grande ineditismo. Não importa; o centro, San Telmo, a Recoleta, La Boca, sempre valem a pena.
O fato é que os reencontros permitem que a gente repare no que havia passado despercebido na primeira ocasião. Os olhos e a mente trabalham num ritmo diferente. Num compasso de dois por quatro. Ou seja, tango.
O tango não é exclusividade argentina mas, aparentemente, nenhuma outra cidade tem tanto a cara de um tango quanto Buenos Aires. E, da mesma forma, nenhum outro estilo musical tem tanto a cara de Buenos Aires. Senão, vejamos. Um estilo multifacetado: é música, é canção, é dança. De origem humilde, mas aparência aristocrática (e capaz de unir classes sociais). É um clássico: antigo, sim, mas nunca antiquado. E suscita paixões ardentes, para o bem e para o mal.
O tango é orgulhoso. Nasceu pobre, nos arrabaldes de Buenos Aires e de Montevidéu; fez sucesso em Paris, depois em Hollywood; e hoje ostenta um olhar altivo e um figurino emblemático, do chapéu escuro aos sapatos de couro. Mas também dispensa qualquer figurino quando surge numa milonga, numa esquina ou na praça de um shopping. Como a alma argentina, que não esmorece diante de políticas fracassadas e crises econômicas e segue adiante, embalada pela arquitetura imponente dos prédios antigos (mas não antiquados) da capital portenha. Há alguns anos, em minha primeira passagem por Buenos Aires, encontrei inúmeras pechinchas de CDs nas lojas de música. A economia do país não passava por um bom momento e, como uma das consequências, todas as maiores vozes do universo latinoamericano e mundial eram oferecidas quase de graça. Todas, exceto as que cantavam tango: o ritmo nacional não entrava em promoção, ninguém rebaixava a voz de Gardel. O tango era a derradeira resistência na montanha-russa da economia argentina.
Foto: Renata TeixeiraSe alguém quiser uma discussão acalorada, basta ir a Buenos Aires e sustentar, diante de um apreciador de tango, que Carlos Gardel era uruguaio. Pode ou não ser verdade e, por irrelevante que pareça, a controvérsia tenderá a ser tão acalorada quanto uma disputa entre River e Boca. Parece que, em Buenos Aires, as maiores paixões começam ou terminam em tango ou futebol.
Fomos ao Abasto, região tanguera de Buenos Aires. Lá, entre outras coisas, está o Museo Casa Carlos Gardel, onde viveu o célebre cantor. É um espaço relativamente pequeno, simples, mas que vale a visita. Gardel personificou o tango e sua trajetória foi espetacular, do nascimento misterioso à morte trágica. O tango nem sempre é fácil (ao contrário do que Al Pacino nos quis fazer acreditar) e pode ser brilhante, mas também triste. Como um quê de Buenos Aires.

sábado, 7 de novembro de 2015

Histórias da neve

Eduardo TrindadeEnquanto, no Brasil, já estamos sob horário de verão e nos preparamos para o calor, o inverno se aproxima no Hemisfério Norte. Um inverno completamente diferente daquele a que estamos acostumados.
Para começar, não estamos preparados para lidar com o frio rigoroso. Quase não temos sistemas de aquecimento nos ambientes. Na maior parte do país, sequer temos roupas apropriadas. E, sobretudo, não temos a prática de conviver com baixas temperaturas.
Em compensação, temos uma curiosidade natural por conhecer neve. Morando em Porto Alegre, vi nevar sobre minha cidade em duas ocasiões num espaço de pelo menos dez anos. Em ambas, foram apenas flocos tímidos, que em nada lembravam os filmes que vemos no cinema, mas tecnicamente era neve. Anos depois, num mês de fevereiro, estive em Londres e fui surpreendido por uma neve fina, ainda insuficiente para formar montanhas brancas, mas bastante para fascinar um brasileiro como eu.
Eduardo TrindadeMais tarde, noutra viagem, tive a chance de ver neve abundante. Telhados e ruas cobertos por mantos brancos e fofos. Sem distinguir o meio-fio, sem ver onde termina o asfalto e onde começa a calçada, caminhar (sobretudo transportando malas) era um desafio trabalhoso, apenas recompensado pela vista deslumbrante de montanhas brancas, lagos e rios congelados.
Claro que, apenas via oportunidade, eu não resistia à tentação de brincar como criança, afundando os pés na neve fofa e (até então) imaculada. Na primeira ocasião, moldei um boneco de neve e o batizei de Josip - nome balcânico por excelência, já que eu estava na Croácia. Depois, ao seguir viagem, tive pena ao abandonar meu novo amigo, mas me consolei pensando que Josip se adaptaria melhor que eu àquele clima frio.
foto: Renata TeixeiraEm Helsinque, vi o mar congelado pela primeira vez, e fiquei genuinamente espantado. No mesmo dia, andei por mais caminhos nevados. Naquele ambiente, a Renata e eu nos municiávamos de bolas de neve e as jogávamos um no outro, brincando como crianças. Lá pelas tantas, apareceu um menino que também brincava de guerra de bolas de neve; na minha empolgação, resolvi desafiá-lo. Oh, céus! O guri era ágil, sofri uma derrota avassaladora! Eu, legítimo Napoleão entre os russos, tive dificuldade em negociar um armistício, mas aprendi com meu pequeno oponente que a experiência na neve é algo que se conquista aos poucos. Um brasileiro como eu não poderia impunemente medir forças com um finlandês.
Dias depois, tínhamos ido a Estocolmo, onde a neve era apenas um pouco menos abundante, e caminhávamos pela cidade. Em certo ponto, resolvemos descer um longo lance de escada a céu aberto para alcançar nosso destino. A escada estava inteiramente coberta de branco, quase soterrada, e só fomos por ela porque a alternativa envolvia um longo desvio por um caminho que nem sequer sabíamos onde passaria. Os degraus, cheios de neve, eram traiçoeiros e escorregadios. Agarramo-nos ao corrimão, mas esse mal acompanhava os primeiros metros e logo sumia, deixando-nos entregues à nossa própria desenvoltura (perspectiva nada animadora, dada a recente experiência com bolas de neve) numa escada que era mais um barranco amplo, gelado, molhado e escorregadio. Fazendo menção de voltar, a Renata perguntou: "não é perigoso ir por aqui?" Eu, sem vontade de dar a volta, olhando para o trecho com corrimão que deixaríamos para trás e para a sua continuação tão ou mais íngreme abaixo de nós, não resisti e lancei a ironia: "se o corrimão só vem até aqui, é porque só existe perigo até esse ponto!..." Bem, o fato é que devagar, com o cuidado de um gato escaldado (ou melhor, congelado), chegamos com sucesso ao final da escada.