sábado, 14 de dezembro de 2013

O acendedor de lampiões

Esse aí, disse para si o principezinho, ao prosseguir a viagem para mais longe, esse aí seria desprezado por todos os outros, o rei, o vaidoso, o beberrão, o homem de negócios. No entanto, é o único que não me parece ridículo. Talvez porque é o único que se ocupa de outra coisa que não seja ele próprio.

O Pequeno Príncipe, Antoine de Saint-Exupéry



Justamente como se passou com o Pequeno Príncipe, é inevitável que encontremos surpresas inusitadas ao andar por aí. Dar de cara com o inesperado é uma das partes gratificantes de visitar outros lugares.
A minha história aconteceu no centro de Zagreb, capital da Croácia, num final de tarde. Justamente naquela hora do lusco-fusco em que o dia começa a virar noite. Reparei num homem que caminhava decidido com uma espécie de longo bastão nas mãos.  No primeiro momento, não entendi do que se tratava, e por isso mesmo (curioso que sou) aquilo chamou minha atenção. O homem percorria as ruas com passo rápido, ia de um poste a outro com o tal bastão...
De repente me veio o estalo. Mas não pode ser!... Esfreguei os olhos, olhei novamente e não havia mais espaço para dúvida: um acendedor de lampiões.
Aquele homem era um acendedor de lampiões!
E daí foi impossível não lembrar do Pequeno Príncipe.
Ele ia de poste em poste, levava a ponta do bastão ao topo do poste e assim ia acendendo a luz dos lampiões a gás que iluminam o centro da cidade.
Meu primeiro impulso foi conversar  com o acendedor de lampiões. Mas então me ocorreu que eu não sabia bem o que dizer; além disso, o homem estava trabalhando e talvez não gostasse de ser interrompido. E mais ainda: ele caminhava bem rápido!
Apertei o passo decidido, pelo menos, a segui-lo. Eu não queria perder de vista aquela tarefa tão incomum, fadada à extinção no resto do globo. E queria ter a oportunidade de registrar alguma foto.
Bem, fotografá-lo foi mais difícil do que eu gostaria. Não só porque o acendedor de lampiões não parava um instante sequer, mas também porque obviamente a luz do dia já estava indo embora. Isso significou, infelizmente, fotos tremidas. Mas que valem pelo registro.
Claro que, passada a epifania, fui pesquisar. Zagreb é uma das raras (mas não a única) a ter lampiões a gás e respectivos acendedores de lampiões como parte do sistema de iluminação pública. Em Zagreb, são pouco mais de 200 lampiões a gás, todos na parte central da cidade, que duas pessoas levam menos de duas horas para acender (no final da tarde) ou apagar (pela manhã). E que, inegavelmente, dão um pouco mais de charme à capital.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Na Mongólia é assim

É uma tradição mongol, a qual vivenciamos mais de uma vez no acampamento de Hutenxile. Quando oferecem bebida (no caso, uma espécie de aguardente que lembra cachaça com butiá), aceita-se com ambas as mãos. Em seguida, molha-se o dedo anular da mão direita para com ele espargir o ar (oferenda às divindades do céu) e o solo (oferenda às divindades da terra). Finalmente, leva-se o dedo à testa (oferenda aos ancestrais). Só então se bebe - e muito, se depender dos nossos anfitriões.


domingo, 6 de outubro de 2013

Sobre rodas: a capital italiana do automóvel e o GP de Monza

Já comentei a relação particular que os italianos têm com automóveis - relação essa que por vezes atinge ares anedóticos, como numa das cenas do recente (e excelente) filme Rush. Na tela, estão Marlene e Niki Lauda parados à beira de uma estrada. Marlene se dispõe a usar seu charme feminino para conseguir uma carona, mas fica espantada quando para um carro - cantando pneus - e os dois italianos que estão a bordo se dirigem cheios de adoração não a ela, mas ao seu companheiro. Haviam reconhecido Niki Lauda, recém contratado pela Ferrari.
Eduardo Trindade
Museu do Automóvel, Turim
Se non è vero... O fato é é que os automóveis são uma parte integrante do orgulho italiano. E, se a Ferrari figura logicamente no topo dessa idolatria, não é a única a fazer parte do Olimpo: lá estão Alfa Romeo, Maserati, Lamborghini, FIAT. Essa última, cujo nome completo é Fabrica Italiana Automobili Torino, tem a bela capital do Piemonte na certidão de batismo, o que explica pelo menos em parte a ligação indiscutível daquela cidade com a indústria do automóvel.
Toda essa introdução para dizer que, em Turim, à parte a fábrica da FIAT, a vocação "engenheirística" das universidades da região e a tradição em lidar com carros, merece destaque o Museu do Automóvel.
Está tudo lá para que os fanáticos por carros de todos os tipos alimentem sua paixão e para que até os mais insensíveis experimentem um pouco desse fascínio. Réplicas dos precursores: um carro de Leonardo da Vinci, a máquina a vapor de Cugnot. Brilhando como em seus dias de glória, os primeiros automóveis a combustão, alguns mais que centenários com toda a pinta de carruagem-sem-cavalos. As linhas de montagem, o Ford Modelo T. A era dos gângsteres. Primos de Marlúcio, o Ford Modelo A. O design. As Ferraris, claro. O automobilismo. Uma incrível linha do tempo com dezenas de carros de competição, da era pré-Fórmula-1 à Ferrari de Schumacher. O museu virtual vale a visita, mas o indescritível mesmo é estar lá ao vivo.
E sim, claro. Falou-se de Itália e de automóvel, não tem como não lembrar da Ferrari e da Fórmula 1.
Não é por coincidência que, não longe dali, nos arredores de Milão, está o histórico circuito de Monza.
Mas ei que o acaso nos colocou em Milão no fim de semana do GP da Itália! (Juro, foi por acaso mesmo!) Imperdível, não?
Previsível: fomos lá. Ingressos na mão, expectativa no ar desde as primeiras horas de domingo. Uma rápida viagem de trem desde a estação de Milão até o autódromo, para então descobrir que Monza, como belo monumento da Fórmula 1 que é, não se resume a um palco de corridas; é um belo e arborizado parque que, mesmo em qualquer outro dia do ano, vale a visita. Mas como era domingo de grande prêmio, o local estava cheio, e a animação das torcidas é contagiante, talvez a melhor parte de tudo. Impossível esquecer que a Itália é a casa da Ferrari - o que não quer dizer que não se vejam diversas outras cores e bandeiras.
A corrida foi bela - difícil dizer mais que isso, o vídeo abaixo que fizemos não consegue mostrar tudo. De nossos lugares na arquibancada, sentimo-nos privilegiados. A vontade era de que o dia não terminasse. Mas, dado que não temos como fazer o tempo parar, o jeito é comemorar a bandeira quadriculada, não importa quem seja o vencedor. E seguir caminhando pelo mesmo asfalto onde pouco antes os carros estavam voando baixo (na Fórmula 1, esse é um privilégio de quem vai a Monza, onde, depois da corrida, abrem os portões da pista para o público). Para ir sonhando com o próximo grande prêmio.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Turim pelas beiradas

Eduardo Trindade
O motivo de minha ida a a Turim foi a participação num congresso - o 5o. Congresso Mundial de Tribologia, no qual apresentaria um trabalho (minha primeira apresentação no exterior, em língua estrangeira!).
Daí que eu tinha uma semana em Turim, mas com a expectativa de pouco tempo livre para conhecer a cidade.
Acabou sendo excelente, a começar pelo congresso. Mas não é dele que quero falar aqui, e sim da minha experiência piemontesa - Turim é a capital da região italiana do Piemonte ("pé do monte"). Uma cidade cercada por picos nevados que já abrigou os Jogos Olímpicos de Inverno. E, sobretudo, uma cidade com muito mais atrações do que eu supunha.
Porém, vamos por partes. Para começar, uma viagem em que, ao invés de estar simplesmente "de férias", tem-se obrigações e horários a cumprir é sempre algo diferente - e interessante. Todo dia de manhã eu saía pontualmente para pegar o bonde que me levaria ao local do evento. E misturar-se com outros tantos que também pegavam o bonde, reparar nas pessoas que acordavam cedo, descobrir o movimento das ruas, transitar por lugares que não estão necessariamente no topo da lista de atrações turísticas... Tudo isso cria uma intimidade, eu e a cidade fomos nos tornando cúmplices de segredos que só os que não têm pressa descobrem. Minha pequena alegria das manhãs era quando o cobrador do bonde, depois de usar o inglês para pedir o bilhete de alguns óbvios estrangeiros, dirigia-se a mim em italiano. Ou quando, na rua, pediam-me alguma informação. Curioso comportamento do ser humano, que luta tanto para se destacar mas, no fundo, adora se misturar.
Eduardo TrindadeE a alegria do final de tarde era se esbaldar com o delicioso sorvete italiano; percorrer as ruas; percorrer principalmente as praças, muitas e tão bonitas elas; descobrir as surpresas da cidade. Assim fui sorvendo Turim pelas beiradas, aos poucos me aproximando do seu coração. É curioso e fascinante que Turim seja a capital por excelência de alguns símbolos italianos: uns quase banais, como os grissini e o gianduia ("pai" da Nutella!), outros grandiosos como o cinema e a indústria automobilística. Sim, a paixão italiana por carros se manifesta em todos os cantos da Bota, mas (Maranello à parte) é em Turim, casa da FIAT, que ela se mostra mais entranhada no espírito da cidade. Que, de quebra, possui um magnífico museu do automóvel... Mas a relação dos italianos com suas máquinas merece um capítulo à parte. O que vale dizer, por ora, é que é uma relação de quem vê o automóvel como objeto de arte, como elemento da família. Algo diferente do que se percebe nos Estados Unidos: se lá o que vale é a potência do motor escondido sob o capô, na Itália o diferencial são as curvas da carroceria. A Itália é um país de design, e isso se percebe em cada uma das marcas de Turim que se confundem quase com a história da cidade, do Cinquecento da Fiat às tradicionais canetas Aurora.
E claro, já que o futebol é tão caro aos italianos, ele também estaria muito bem representado por lá: Turim é a casa da Juventus, um dos times mais vitoriosos e de maior torcida do país. Mas quem acabou ganhando a minha simpatia foi o seu rival, Torino - pelas cores, pela história, pelo fato de eu passar todo dia em frente ao seu estádio e talvez também por um quê de provincianismo que, na minha cabeça, o identifica orgulhosamente com a cidade. Uma cidade da qual comecei a sentir saudades antes mesmo de ir embora.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

A faca mongol

Não é de surpreender que não haja tantas oportunidades de compras na Mongólia Interior quanto em Pequim. Mas eu, que ouvira falar das facas mongóis, queria vê-las e levar alguma para casa.
Há objetos que me fascinam, e entre eles estão as facas - fascínio que é provavelmente consequência da cultura gaúcha e que desde pequeno vi cultivado em casa, pois lembro do orgulho com que meu vô e meu pai exibiam suas lâminas favoritas.
E os mongóis, que em termos de cultura campeira estão para a China como os gaúchos estão para o Brasil, é claro que teriam alguma faca para fazer bonito na minha própria coleção.
Encontrei-a quando eu já não esperava: no acampamento em que estávamos havia uma lojinha, e na lojinha havia algumas facas. A maioria delas, de bainhas coloridas, objeto de decoração para turistas. Algumas, mais autênticas, tinham o cabo em osso, lâminas de qualidade e passavam a segurança de que, mais que para decorar, haviam nascido para serem usadas.
Tomei uma delas na mão e me apaixonei. Perguntei o preço, já me preparando para pagar algo exorbitante. Razoáveis 140 yuans - uma faca de qualidade semelhante no Brasil custaria pelo menos o dobro ou triplo. Controlei-me para não escolher uma segunda faca!
Saí plenamente realizado pela aquisição do meu objeto de desejo: uma faca mongol! Já me imaginava exibindo-a e usando-a no Brasil.
No dia seguinte, fomos à cidade de Baotou, onde pegaríamos o avião para ir da Mongólia Interior até Pequim. Fizemos o check-in, despachamos as malas... Eis que a bagagem é imediatamente inspecionada pelo raio X e me chamam a um canto: há uma faca na minha mala? Sim, mas é uma bagagem despachada! Não importa, não é permitido levar facas no avião para fora da Mongólia Interior. Quem diria!
Imaginem minha frustração. Não adianta discutir, também não adianta pensar em mandar a lâmina pelo correio - dizem-me que não é permitido, e pronto.
Deixei-a com PangPang, a prestativa chinesa que nos acompanhou em nossa visita à Mongólia Interior e que demorou um instante a entender que estava ganhando aquele presente.
E assim foi a história da faca mongol que fez parte da minha coleção durante um dia apenas.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Mongólia

O território da Mongólia histórica é dividido hoje entre a Mongólia Exterior (República da Mongólia), independente, e a Mongólia Interior, uma província autônoma da China. Embora a noção que a maioria de nós tem da Mongólia seja a do país independente, ambos os lados da fronteira compartilham muito da cultura e dos traços étnicos - mal comparando, assim como a cultura gaúcha se estende pelos pampas de Brasil, Uruguai e Argentina.
A língua mongol é falada nas duas Mongólias, embora seja minoria nas cidades do lado chinês. Curiosamente, no país do norte, por influência soviética, ela é escrita com o alfabeto cirílico, mas manteve o alfabeto mongol tradicional na parte chinesa. E só esse incrível alfabeto já é uma atração à parte.
Mas a atração maior são mesmo os campos, o "pampa mongol" onde se encontram famílias vivendo de acordo com os mesmos costumes há milhares de anos (verdade que algumas modernidades foram introduzidas, como motos e caminhões, mas outros aspectos, como o "banheiro natural", continuam surpreendentemente comuns).
Na Mongólia Interior, visitamos um acampamento mongol na região de Hutenxile. A paisagem do lugar é fascinante, mas creio que ainda mais fascinante é o contato com a gente simples que vive lá. Verdade que ficamos num acampamento para turistas (visitado principalmente por chineses, creio que éramos os únicos estrangeiros). Mas a cultura mongol está por toda parte. Somos recebidos, segundo a tradição, por braços que estendem lenços coloridos em sinal de boas-vindas. Oferecem-nos a aguardente local, que é indelicado recusar, e mais indelicado ainda deixar de fazer a pequena cerimônia: colocar o dedo anular na bebida e em seguida agitá-lo, oferecendo as primeiras gotas para divindades do céu, para divindades da terra e para os ancestrais. Vemos alguns aobao - pilhas de pedras simbólicas do espiritualismo mongol - e adicionamos algumas pedras a eles.
Andamos a cavalo, num passeio pelo campo. O cavalo mongol é provavelmente o orgulho maior desse povo e, treinado à maneira deles, ignora solenemente nossos comandos ocidentais.
Somos levados, pela senhora que nos acompanhou no passeio a cavalo, ao interior da sua casa e recebidos dentro de seu próprio quarto. Comunicamo-nos por mímicas e olhares. Ela nos oferece pedaços de melancia. Aceitamos agradecidos mas, no quarto dela, não sabemos o que fazer com as sementes... É definitivamente insondável a etiqueta das refeições nesse lado do mundo. Na dúvida, engolimos as sementes de melancia, imaginando que esse pode ser um gesto natural mongol - ou que a senhora deve achar incrivelmente estranhos esses ocidentais que comem sementes. Depois, é-nos oferecida uma bebida insondável que acaba por ser simplesmente leite (de égua?) com chá.
Ao mesmo tempo em que vivenciamos tudo isso, somos também atração: alguns mongóis e chineses pedem para tirar fotos ao nosso lado; sorrimos e posamos para as câmeras, pedindo apenas fotos com eles em troca. De repente, pedem para ver nosso dinheiro, e em pouco tempo causamos um alvoroço: nossas notas de reais são cobiçadas e disputadas ansiosamente pelos mongóis.
À noite, somos avisados de que haverá uma festa com dança em volta da fogueira. Fico esperando uma apresentação folclórica mas, em vez disso, organizam uma mini-boate ao ar livre, com luzes e música bate-estaca, sob o olhar desconfiado do retrato gigante de Gêngis Khan a um canto. O inusitado chega ao máximo quando, entre as músicas, começam a tocar um funk carioca: "Ui! Adoro quando ela sobe e desce!..." Encolhemo-nos, torcendo para que, em vez de uma homenagem aos visitantes brasileiros, seja apenas uma coincidência e que eles não tenham ideia do que significa aquela letra.
Mas, afinal, a festa não dura muito, e somos liberados para uma noite de sono única numa tenda sob o céu estrelado dos campos mongóis. Noite que parece pequena para assimilar as sensações de um dia como aquele.

por Eduardo Trindade

terça-feira, 10 de setembro de 2013

(Nem sempre) roupa suja se lava em casa

Quando se viaja, é difícil gerenciar o estoque de roupas limpas.
Em férias, acabamos levando peças que duram aproximadamente uma semana; para as semanas seguintes, é necessário lavá-las: no próprio quarto do hotel, ou então em alguma lavanderia. Em geral, considero a primeira opção mais simples e cômoda, mas nem sempre ficamos numa mesma cidade o tempo suficiente para as roupas secarem. Então a lavanderia é mais conveniente.
E acontece que estávamos no verão de Guilin, província chinesa de Guangxi, uma combinação que faz qualquer um empapar em poucas horas na rua. A Renata já estava ficando sem roupas limpas.
Daí, depois de infrutíferas buscas pelas ruas e de perguntar para algumas pessoas, descobrimos que não é tão fácil assim achar uma lavanderia em Guilin.
O que fiz, então, foi procurar uma rede wifi e jogar "laundry" no Google Maps, que então mostrou a "Jiajie Laundry" numa ruazinha a 17 min de caminhada. Decorei a palavra chinesa para lavanderia  e gravei no celular os três ideogramas que significam "lavagem de roupas". E lá fomos nós.
O Google nos levou a um endereço que se resumia a um espaço pequeno e atulhado de coisas, que parecia uma oficina mecânica ou loja de ferragens, mas que tinha entre a infinidade de quinquilharias um ferro de passar... e um velhinho chinês com cara de chinês e unhas amareladas que certamente nunca ouvira falar em Google Maps.
Mostrei para ele os ideogramas "lavagem de roupas" na tela do celular e ele assentiu. (Ressalve-se aqui o fato de que mímicas não são universais, gestos que faríamos no Brasil para simbolizar uma lavagem, perguntar o preço ou mesmo indicar os números perdem o sentido na China.) Bem, perguntei o preço (em mandarim) e ele respondeu 50 yuans - bem razoável. Então faltava descobrir a que horas buscar a roupa, mas eu simplesmente esquecera como se dizia isso em mandarim. Arrisquei: "zhenme zhou?" Ele corrigiu: "zhenme dian?" Repeti "zhenme dian?", sem muita convicção. Apontei para o relógio. Ele não entendeu. Insisti. O velhinho falou: "qi dian". Bem, "qi" é sete, deduzi que deveríamos passar lá às sete horas - eu estava quase seguro de que "dian" era a palavra chinesa para "hora". "Quase seguro?" - perguntou a Renata - "Tem certeza de que não são sete dias?" Eu não tinha tanta certeza. Voltei ao relógio, fui contando as horas em chinês e o velhinho sorria da situação, mas não conseguia transmitir segurança.
Então passou um outro chinês na rua. Bilíngue! E nos ajudou, confirmando em inglês que podíamos buscar as roupas às sete horas, afinal. O velhinho da oficina-lavanderia sorriu e, com ingênua cordialidade, ofereceu cigarros que recusamos gentilmente. Saímos deixando as roupas, apesar de que sentíamos certo calafrio a cada vez que víamos varais estendidos pelas ruas.
Voltamos pontualmente às sete. A alguma distância, reconhecemos as roupas no varal - aparentemente limpas! A alegria foi instantânea, banal e contagiante. O velhinho não estava lá, mas da porta ao lado algumas pessoas nos observavam e vieram nos atender. Sorriram, recolheram as roupas, pagamos. Convidaram-nos para entrar e tomar chá. Recusamos como havíamos recusado os cigarros, apesar de que fiquei com uma vontade de aceitar... Se ao menos conseguíssemos manter uma conversa mínima com eles! Bem, pelo menos a missão estava cumprida: roupas aceitavelmente limpas por mais alguns dias.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Tacuarembó, o tango e a pátria gaúcha


http://cartas.edutrindade.com
A História está cheia de pequenas ironias. Uma delas é que o tango, tido em boa parte do planeta como um ritmo tipicamente argentino, teve sua mais famosa dupla de compositores formada por... um uruguaio e um brasileiro.
Não toquem no assunto quando estiverem de passagem por Buenos Aires, sob pena de terem de sustentar uma discussão acalorada com seu interlocutor. Mas lembrem-se disso se depois cruzarem o Rio da Prata para pisar em terras uruguaias - a devoção dos uruguaios pelo tango não perde em nada para a dos argentinos.
Enfim, voltando à dupla de compositores... Eu estava falando do paulista Alfredo Le Pera e do arquifamoso Carlos Gardel, uruguaio. Dizem os argentinos que só por acaso ambos nasceram fora do país deles, mas o fato é que, enquanto um era brasileiro, o outro era uruguaio da pequena Tacuarembó. E Gardel acabou se tornando a principal referência dessa cidade a 100 km da fronteira com o Brasil. Cidade que, depois de termos ido a Rivera, não perdemos a oportunidade de visitar.
http://cartas.edutrindade.comAlém de Gardel, a outra referência que os uruguaios têm de Tacuarembó é que se trata da capital de la patria gaucha - encravada no pampa e local de um importante festival campesino.
Para quem a visita sem pretensão, Tacuarembó supera as expectativas. Ruas simples e bonitas de casas baixas, praças agradáveis, mais museus do que se poderia imaginar numa cidade desse porte. Sem contar, claro, a irresistível comida uruguaia e a simpatia das pessoas que nos cumprimentam quando passamos.
Como não podia ser tudo perfeito, tivemos o azar de que nossa visita caiu num domingo e, assim, a cidade estava um tanto vazia, com o comércio e os museus fechados. Mas isso não chegou a tirar a graça do passeio, emoldurado na ida e na volta pela paisagem do pampa.
Ah, sim, e ainda a propósito da controvérsia do tango, para que não digam que os locais de nascimento de Gardel e Le Pera foram só casualidade: saibam também que o primeiro disco de tango da história foi gravado em Porto Alegre! E La Cumparsita, que é provavelmente o tango mais famoso do mundo, foi composta por Gerardo Matos Rodríguez, que era, também ele, tão uruguaio quanto o dulce de leche Conaprole!
Implicâncias à parte, o bom da música é que ela é universal, então fiquemos com o que Gardel e Le Pera sabiam fazer bem, ou seja, música. No caso, com vocês, Volver:

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Um pé lá e outro cá: a fronteira

Regiões de fronteira proporcionam casos inusitados. O estado do Rio Grande do Sul como um todo compartilha muito da paisagem, da comida, do vocabulário e do jeito de viver com os vizinhos do Prata. E, claro, esse compartilhamento fica mais intenso à medida que se aproxima da fronteira.
A paisagem quase não muda: saindo de Porto Alegre, enveredamos por estradas de retas sem fim - a verdadeira Infinita Highway - que cortam campos pontuados de coxilhas até a chegada em Santana do Livramento. Dali até o Uruguai, nem se percebe a travessia: basta atravessar a rua e se chega a Rivera. Numa calçada o Brasil e na outra o Uruguai, simples assim.
É quase decepcionante: estamos num país estrangeiro, mas ninguém pediu nossos passaportes, todos falam português e aceitam reais, e nossos celulares continuam funcionando. Por outro lado, pensando bem, o Uruguai nunca me será um país estrangeiro, não no sentido de estranho. É fantástico. Sentamos num lugar qualquer e temos a oportunidade de provar doces e salgados deliciosos. Alfajores. Dulce de leche. Sem dúvida, eis o Uruguai.
Agora, quem vem a Rivera normalmente é porque quer fazer compras. Não sei se somos exatamente normais (quem o é, afinal?), mas não há como resistir: vamos às compras! Para começar, é claro, alfajores. Caixas e caixas! E doce de leite. E erva-mate. Quando percebo, comprei até o que não pretendia, mas que me caiu bem - no caso, um tênis e a promessa de, com ele, voltar a correr.
Entre uma compra e outra, não poderia ser diferente - comida! Em Rivera, as tentações gastronômicas estão por toda parte, é difícil manter a boca fechada. Nada mais uruguaio. Almoço um chivito, jantamos uma parrilla, e acordamos mais que dispostos para enfrentar um café da manhã de medialunas con dulce de leche. O astral é dos melhores, parece que tudo é motivo para uma conversa, uma piada, um sorriso. Ainda mais que estamos em época de visita de Francisco ao Brasil, é impossível não lembrar dO Banheiro do Papa - filme uruguaio recomendado para qualquer um e indispensável aos visitantes da fronteira.
Acontece que, não importa quantas vezes cruzemos a fronteira (a rua) de Livramento a Rivera, estamos (voltamos) em terras uruguaias. Que, hospitaleiras que são, chamam-nos a um passeio pelo interior do país. Mas isso já é história para outra carta.

domingo, 21 de julho de 2013

Participação especial no "Rodando pelo mundo"


Nesta última semana, "foi ao ar" uma contribuição minha no blogue Rodando pelo mundo - dessa vez, escrevi algumas impressões sobre a Islândia. Quem ainda não viu, passa ! E, para quem quer mais sobre a "terra do gelo", lembrem que também publiquei sobre a Islândia aqui no Cartas de Tantas Léguas!