segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Guatemala, entre colonizados e colonizadores

Antigua Guatemala é uma bela cidade colonial. Com uns cinco séculos de história, a antiga capital do país está convenientemente situada a não muitos quilômetros da Cidade da Guatemala - de tal forma que uma fração grande dos visitantes que desembarcam no aeroporto rumam direto para Antigua, sem sequer passar pela capital.
Caminhar pelas ruas de Antigua é um prazer, assim como provar a boa comida guatemalteca num de seus restaurantes. E aqui vale tanto jantar numa boa mesa, à noite, quanto degustar o café da manhã típico do país - variações em torno de ovos, feijões, banana, queijo e tortillas. Ou quem sabe entregar-se ao autêntico chocolate centro-americano.
É também em Antigua que se encontra o que é certamente um dos principais cartões-postais da Guatemala: a vista do Arco de Santa Catarina com um dos vulcões ao fundo. Uma maravilha chegar a ela caminhando pelas ruas de pedra da cidade.
Tudo bonito demais, na verdade. A questão é que a cidade é carregada de símbolos coloniais adquiridos ao longo de séculos de invasão europeia - isso num país onde 80 % da população, ainda hoje, é de ameríndios e mestiços.
Basta andar um pouco pelo restante do país para perceber que Antigua Guatemala é arrumadinha demais, enfeitada demais, limpa demais, autêntica de menos. Uma joia para turistas que chegam falando inglês e pagando em dólar.
E, apesar disso, de Antigua é possível chegar a Atitlán após um trajeto de três horas em ônibus ou van. Trata-se de um lago realmente bonito, cercado de vulcões impressionantes e ao redor do qual se situam uma série de cidades e vilarejos; entre eles, Panajachel.
As margens do lago, além da beleza natural, chamam a atenção pelo aspecto demográfico. Estamos em uma região com fortes traços indígenas: a população é descendente direta dos maias que viviam na Guatemala quando chegaram os espanhóis. Muitos ainda falam alguma das línguas maias. Vestem-se, comem e criam seus filhos da maneira tradicional.
Acontece que, entre essa pequena cidade maia e o esplendor colonial de Antigua Guatemala há um abismo mais intransponível do que as montanhas guatemaltecas. Antigua é talvez a cidade mais limpa do país, bem como a mais estruturada para receber turistas. Já Panajachel tem um aspecto de caos e, mais que isso, de gente que (embora trabalhadora) é evidentemente pobre. Não se vai muito longe sem cruzar com alguém vendendo frutas e artesanatos a preços ridiculamente baixos - são pessoas sofridas, algumas delas bem idosas, outras são crianças pequenas. De partir o coração, e também para lembrar que o mundo (também) é isso, e não a nossa pequena bolha.
Então me ponho a pensar no quanto fomos cuidadosamente treinados para ignorar as injustiças. No caso da América Central, é chamar de "conquista" a invasão espanhola e as guerras que se seguiram. É sistematicamente agir como se a língua, a religião e a história europeias fossem superiores a suas contrapartes americanas (e ensinar umas e não outras nas escolas). Renomear cidades dando a elas nomes de santos, construir igrejas em cima de antigos templos. Acontece, porém, que, mesmo na porção mais espanhola da Guatemala (como em Antigua), alguns dos aspectos mais atraentes são aqueles ligados às raízes maias. Nossa percepção da cultura deles sem dúvida evoluiu desde a chegada dos primeiros europeus, mas ainda temos um longo caminho pela frente.

domingo, 9 de junho de 2019

Língua e literatura maias

Na semana passada, falei da cultura maia, e logo vem à mente a arquitetura deles - especialmente as pirâmides. Mas disse também que essa cultura ia além. E um dos exemplos mais impressionantes, para mim, está em sua escrita.
Os povos maias têm, na verdade, uma série de línguas distintas, embora aparentadas entre si: somente na Guatemala, 22 delas, de 5 ramos distintos, são reconhecidas como idiomas oficiais. Essa diversidade já existia na época pré-colombiana; então, a rigor, falar de uma língua ou uma literatura "maia" seria tão preciso quanto citar uma língua "europeia". Mas, como esse blogue não tem a pretensão de um trabalho acadêmico, vou me permitir falar sobre alguns aspectos que me chamaram a atenção nesse conjunto mais ou menos homoêngeneo de culturas escritas maias.
Para começo de conversa, os maias foram (até onde se sabe) os primeiros e únicos povos americanos a desenvolverem um sistema de escrita, o qual era baseado em símbolos elegantes e elaborados. Infelizmente, poucos destes textos chegaram até nós, pois a maioria se perdeu com o tempo ou com a conquista espanhola. Mas os que sobreviveram são de encher os olhos! Deem uma olhada nestas páginas coloridas de um dos raros almanaques maias que restaram.
Códice de Madrid

Trabalhos como esse são, a rigor, são mais de interesse linguístico e visual que literário. Obras literárias propriamente ditas chegaram até nós por via oral, e foram posteriormente compiladas em livros. O mais famoso destes é sem dúvida o Popol Vuh, muitas vezes dito ser, a título de comparação, a "Bíblia Maia". Ele é, na verdade, uma narrativa mítica de um dos vários povos maias e contém, entre outras coisas, o mito da criação do mundo.



Numa inusitada transposição de uma forma de arte a outra, tivemos o privilégio de jantar, no restaurante Flor de Lis, um menu totalmente baseado no Popol Vuh. Surpreendente como cada prato recria, de forma absolutamente criativa, alguma das passagens do livro. O próprio mito da criação do Popol Vuh dá uma dica, afinal segundo ele os homens foram feitos de milho (hombres de maíz) - não sem antes algumas tentativas fracassadas com barro e madeira. Ao final, pudemos conversar com o chef Diego Télles, uma pessoa simpática dotada de talento tão grande quanto sua criatividade. Uma joia garimpada à margem do circuito gastronômico internacional.




Finalmente, outra expressão que não é puramente literatura maia, mas que bebe dessa fonte, é a obra do autor guatemalteco Miguel Ángel Astúrias, ganhador do Prêmio Nobel. Seu livro Hombres de Maíz é uma leitura difícil, justamente por incorporar muitos termos e referências da cultura maia e camponesa, mas é de uma criatividade fascinante. Como no próprio Popol Vuh, são histórias encadeadas que, ao final, compõem uma grandiosa tela. Ler qualquer um deles - Hombres de Maíz ou o Popol Vuh - é compreender melhor uma cultura diferente da nossa e aceitar que homens simples, com costumes tão diferentes, têm as mesmas aspirações, dores e desejos que nós mesmos.



terça-feira, 4 de junho de 2019

Mundo Maia

Se, por um lado, a Cidade da Guatemala permite que se tenha um vislumbre do cotidiano e das cores do país, é viajando para o interior que se conhece uma das heranças mais impressionantes de todo o continente: a cultura maia. Uma história riquíssima e complexa, da qual quase não se ouve falar. E, entretanto, cada uma das civilizações mesoamericanas (e americanas de forma geral) não deve nada às suas equivalentes europeias. De ambos os lados do oceano se desenvolveram culturas com aspectos positivos e negativos - nada mais humano. Estamos falando de arquitetura, línguas, passatempos, gastronomia, mas também de guerras, disputas por poder e vidas sofridas. Somos todos humanos, em qualquer parte do globo.
Pois no norte da Guatemala está a pequena cidade de Flores, capital do departamento de Petén. A cidade, localizada numa ilha no lago de Petén Itzá, é pitoresca por si só. Mas é em torno dela, no interior do departamento de Petén, que se localiza uma das joias da América Central: as ruínas das antigas cidades maias. A mais famosa delas é Tikal, mas há outras. São cidades inteiras escondidas na selva: caminha-se no meio do mato e vai-se descobrindo aos poucos cada estrutura. Algumas restauradas e expostas em clareiras, outras escondidas sob a floresta, as mais altas despontando acima da altura da copa das árvores. Ao final do dia, andou-se alguns quilômetros e não se chegou a ver tudo.
É uma perspectiva bem diferente de Teotihuacán, a imponente cidade asteca no atual México. Lá, a ausência de vegetação faz com que se possa ter facilmente uma visão geral das ruínas num passar de olhos. No caso maia, estamos falando de cidades que vão se mostrando aos poucos e que, assim, guarda seguidas surpresas ao visitante.
E se a beleza das construções antigas misturadas à vegetação nativa enche os olhos, também não deixa de impressionar a constatação de quantas pessoas viveram ali, tiraram da terra (e especialmente do milho) o seu sustento, deixaram nela suas alegrias e suas tristezas. O que dá vontade de pesquisar mais, de buscar livros novos e antigos, que por sua vez levam à descoberta de novas belezas. O "Mundo Maia" (que é, apropriadamente, o nome do aeroporto da cidadezinha de Flores) é uma teia de aranha que, como tal, não se pode descrever em poucas palavras.

segunda-feira, 25 de março de 2019

Cidade da Guatemala

Estando assentada em terras vulcânicas, a Guatemala tem uma história pontuada por terremotos. Um dos mais famosos aconteceu em 1773 e atingiu a então capital do país, Santiago de los Caballeros de Guatemala. Esse evento fez com que a povoação fosse transladada a uma nova localização, surgindo assim a cidade de Nova Guatemala - atualmente conhecida como Cidade da Guatemala, enquanto que a anterior é hoje Antigua Guatemala.
Quem visita a metrópole que é atualmente a capital não tem muitas pistas deste passado nômade, assim como não é óbvio que o topônimo Guatemala - que deu nome à(s) cidade(s) muito antes de o país existir - signifique "lugar de muitas árvores" em língua indígena.
Quem vai à Cidade da Guatemala, certamente, não encontra um lugar lotado de turistas. A maioria dos que chegam ao país segue para Antigua Guatemala, que é certamente mais fotogênica e mais preparada, mas também menor e provavelmente menos autêntica.
Um dia na Cidade da Guatemala - Guate para os íntimos - começa cedo: bem antes do nascer do sol, os braços que movem o país já estão de pé e se preparando para mais uma jornada de trabalho. É um povo que acorda cedo para ganhar a vida em serviços diversos, mercados e tortillerías que funcionam los tres tiempos (café da manhã, almoço e jantar). Talvez por isso, e como tudo, no final das contas, gira em torno da comida (o milho era sagrado para os maias: o homem foi feito do milho, o que é muito mais elegante e simbólico que ter sido feito do barro, convenhamos), há uma fartura de lugares vendendo café da manhã pela cidade. Alguns são de grandes redes nacionais (Pollo Campero) ou internacionais, outros são pequenos empreendimentos. A gastronomia tem muitos elementos em comum com a do México, porém combinados de forma ligeiramente diferente. Um café da manhã guatemalteco, conforme aprendemos, tipicamente tem um tamal (massa de milho aparentada da pamonha e normalmente recheada), frijoles (feijão), banana e tortillas. Nossa primeira refeição assim foi um tanto por acaso, e foi interessante provar tanta coisa diferente no café da manhã enquanto o senhor sentado ao nosso lado no balcão conversava e puxava assunto.
O que é outro aspecto da Guatemala: o povo sempre simpático. Têm bastante curiosidade sobre o Brasil, país que, em geral, admiram, mesmo só sabendo de nós o básico: futebol, carnaval, praias. E, claro, sempre querem saber o que já vimos do país deles e qual a nossa impressão.
A verdade é que a Cidade da Guatemala não tem tantas atrações turísticas no sentido tradicional (estas estão espalhadas por outras cidades do país). Há um interessante mercado, dividido em uma parte de comidas e outra com artesanatos - destaque para os belos e coloridos tecidos locais. Há a praça central que, seguindo a tradição hispânica, é o coração da cidade e em torno da qual giram palácio, catedral, biblioteca e feira. Uma rua de comércio ao estilo da Rua da Praia de Porto Alegre. Saindo do centro, alguns museus e um bairro que concentra lojas e restaurantes de luxo. Para se locomover, ônibus coloridos e tuk-tuks. Como boa capital, a Cidade da Guatemala é onde o país é mais diverso. Menos "raiz" e mais cosmopolita, é uma boa antecâmara para o "mundo maia" que aguarda quem se aventura no interior.

quinta-feira, 21 de março de 2019

Guatemala, muito prazer

Ah, Guatemala! País tão pouco conhecido pela maioria dos brasileiros. Tão obscuro, aliás, que até as placas de carros da região indicam, junto com o nome do país, o do continente - Centroamérica. Como se explicassem a quem é de fora onde fica o país. Pois a Guatemala compreende aquela porção terra imediatamente ao sul do México que o separa dos demais países da América Central. Um lugar que figura nos jornais pelas notícias de imigrantes ilegais que tentam chegar aos Estados Unidos e nos livros de história pela civilização maia do passado.
É um país de contrastes, de raízes indígenas e colonização ibérica, em muitos aspectos muito parecido com a nossa familiar república de bananas. Convivem com o mesmo tipo de problemas que nós: de pobreza (exacerbado pela má distribuição de renda), de violência (agravado por um histórico recente de guerra civil e de guerrilhas), de um governo alheio às necessidades da população. A despeito disso, é um daqueles lugares em que as pessoas são genuinamente acolhedoras.
Os guias de viagem falam da violência na Guatemala num tom de meter medo. E não ajuda perceber, logo de cara, que muitas lojas são totalmente gradeadas - atende-se o público por trás das grades, literalmente. Outros estabelecimentos não têm grades mas colocam, eu seu lugar, seguranças armados de ameaçadoras espingardas. Principalmente na capital, Cidade da Guatemala, que aliás a maioria dos turistas parece simplesmente evitar. Num caso e no outro, sutis exageros: a violência certamente existe (todo o aparato não seria à toa), mas não vimos nada e me arrisco a dizer que não é muito diferente do Brasil; quanto à capital, ela não é a parte mais bonita do país, mas como conhecer de verdade a Guatemala sem sequer passar por sua maior cidade?
Deixando-se levar pelo país, vamos descobrindo mais sobre ele. Boa parte dos carros que circulam são trazidos, usados, dos Estados Unidos. Mas topamos também com uma revendedora Maseratti, não por acaso ao lado de uma loja Montblanc. Nosso mundo é mesmo uma terra de contrastes.
Aprendemos que os guatemaltecos têm para si um gentílico informal: são chapines, com muito orgulho. Já a sua moeda é o quetzal, nome tomado emprestado da exuberante ave nacional. O que não falta na Guatemala são palavras interessantes, de dar gosto falar. Algumas delas são de raiz francamente indígena, outras são apenas predileção por uma variante menos popular do espanhol. Línguas de colonizados e de colonizadores - ah, mundo de contrastes. A Guatemala é um dos países americanos com a maior e mais notável população indígena, reconhecível pela fisionomia, pelas roupas e por falar uma das dezenas de línguas maias reconhecidas. Mesmo colonizados e, em grande parte da história, marginalizados, a influência maia vai além, em aspectos como a cultura e a comida.
E como não dizer que a Guatemala, com uma população dez vezes menor que nosso Brasil, deu ao mundo dois prêmios Nobel? Um, de Rigoberta Menchú, justamente em razão da luta pela inclusão dos povos indígenas; o outro, de Miguel Ángel Asturias, escritor que mesclou aspectos de realismo mágico, da cultura maia e de um estilo inovador para fazer uma crítica social incisiva. É minha atual leitura de cabeceira, uma das tantas descobertas que trouxe dessa tal América Central, tão nossa desconhecida.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Guia Puffin de Gastronomia 2019

É chegada a hora de degustar a leitura mais saborosa do ano: o Guia Puffin de Gastronomia! Sempre com o desafio de listar os melhores restaurantes do ano anterior. 
Guia Puffin de Gastronomia distribui entre uma e três enguias para os estabelecimentos que proporcionaram as mais excepcionais experiências gastronômicas - não só a comida, mas também o atendimento, o ambiente, enfim, a experiência completa. Seguindo mesmo o critério das edições anteriores, restaurantes listados nos outros anos (201520162017 e 2018) ficam de fora para, assim, dar mais espaço às novas descobertas.
À primeira vista, 2018 foi um ano triste para o Guia Puffin (assim como foi em outros aspectos): nenhum novo restaurante conseguiu a classificação máxima de 3 enguias, reservada a experiências realmente extraordinárias, e pelo menos duas casas premiadas fecharam suas portas (e cozinhas): Tête à Tête e Oui Oui. Deixarão saudades. Menos mal que, por outro lado, novas descobertas, algumas surpreendentes, vieram se juntar ao mar de enguias. Então vamos lá: com vocês, o novo Guia Puffin de Gastronomia!

360, Toronto (Canadá) - 1 enguia
Trata-se de um restaurante que a princípio atrai, provavelmente, mais pela localização que pelo cardápio. Afinal, ele está situado no alto da CN Tower, uma torre de observação que já foi a estrutura mais alta do mundo e ainda é considerada a mais alta do hemisfério ocidental. Isso posto, é claro que a vista do topo, seja no andar giratório do restaurante ou no andar de observação logo acima, tende a roubar a cena. A comida é boa e bem servida, mas sem ser espetacular. Destaca-se o colorido dos pratos, belamente apresentados e combinando uma boa variedade de ingredientes. Uma pena que, em alguns momentos, a principal vantagem do restaurante seja também sua desvantagem: sendo (ou estando em) uma atração turística, é frequentado por grupos barulhentos que roubam a calma que a ocasião merece e que, noutro lugar, tornaria a experiência realmente inesquecível.


Ino., Rio de Janeiro - 1 enguia
Para quem procura pratos saborosos sem muitas experimentações (ou só algumas, vá lá), o Ino é uma excelente indicação. Serve pratos de inspiração italiana bem elaborados e, assim, consegue agradar facilmente. É um restaurante que entende e atende seu público. Uma pena que alguns pratos dêem a impressão de serem mais bem-servidos que outros (o que pode causar alguma inveja entre os comensais!) e que algumas mesas sejam próximas demais entre si, atrapalhando o clima de quem prefere um ambiente sem ficar ouvindo a conversa de estranhos ao seu redor. Tudo somado, porém, o restaurante cumpre o que promete e convida a voltar uma e mais vezes.


Remanso do Bosque, Belém - 1 enguia
O simples fato de estar situado no Pará, terra em que sobejam ingredientes únicos, já faz com que a expectativa seja alta em torno do Remanso do Bosque. A experiência é recompensada quando se descobre que a riquíssima oferta da Amazônia está presente e tratada com o cuidado que merece, seja em versões clássicas ou em combinações mais inovadoras. Tudo é um convite a mergulhar no cupuaçu, no taperebá, no tucupi, nos peixes amazônicos, nos produtos marajoaras... Paradoxalmente, o desejo é de que os pratos fossem menores, como num menu degustação: a oferta é tanta e tão variada que é uma pena conseguir provar apenas um ou dois deles. A saída é procurar voltar.


Chez Claude, Rio de Janeiro - 1 enguia
A família Troisgros é frequentadora assídua do Guia Puffin, e com mérito. Acontece que, depois que Claude Troisgros passou a cozinha do Olympe para seu filho Thomas, tínhamos ficado todos um pouco órfãos, mesmo que um pouco sem sentido, afinal o Olympe não perdeu qualidade. Mas a chegada do Chez Claude à cena gastronômica resolve isso. É claramente um ambiente e uma apresentação mais simples que na outra casa, mas o cuidado com os pratos e o saber inconfundível estão presentes, assim como a simpatia do chef. De quebra, pode-se reconhecer algumas receitas clássicas do Olympe no cardápio do Chez Claude - um convite tanto a velhos admiradores quanto a novos frequentadores.

Oteque, Rio de Janeiro - 2 enguias
Diretamente das mãos do chef paranaense Alberto Landgraf, o Oteque abriu as portas em 2018 em grande estilo, já de cara conquistando seu lugar no Guia Puffin. Não é para menos, pois sua seleção de ingredientes frescos e de primeira qualidade tratados com esmero é digna de nota, assim como a simpatia dos atendentes e cozinheiros. O excelente menu degustação envereda por diferentes peixes e frutos do mar, mas não se restringe a eles, e a alternativa vegetariana não parece ficar para trás em nenhum aspecto. De quebra, o salão amplo com vista para a cozinha é belíssimo.






Toqué!, Montréal (Canadá) - 2 enguias
Se é que se pode falar de um clássico contemporâneo, essa é uma descrição bem aplicável a este restaurante. Explicando melhor: a gastronomia do Canadá (e particularmente do Québec) que ele representa não tem muitos traços marcantes que a distinguam do padrão geral da cultura ocidental. E, no entanto, ela encontra no Toqué! uma expressão bastante abrangente, elegante e saborosa desta tradição. E com direito, no final das contas, a proporcionar uma delicada imersão na comida canadense: uma cozinha confortável, feita de ingredientes americanos trabalhados com técnicas de origem europeia.



La Yeon, Seul (Coreia do Sul) - 2 enguias
A gastronomia coreana, tão pouco conhecida no Brasil, é incrivelmente saborosa. E nada melhor do que desfrutá-la em grande estilo, num banquete grandioso e com direito a uma ampla vista da capital sul-coreana. Restaurantes em hotéis tendem a ser um tanto impessoais mas, no caso do La Yeon, é impossível não se sentir bem acolhido. Ora as porções se sucedem, ora se sobrepõem elegantemente. Em dado momento, como é típico de não poucas receitas coreanas, os pratos são finalizados à mesa por nós mesmos. Imperdível.



Gastronomia de Pyongyang (Coreia do Norte) - prêmio especial
Sem dúvida a grande surpresa do ano e digna de uma menção especial do Guia Puffin é a comida na Coreia do Norte, aqui representada pela sua capital Pyongyang. São preparações simples, mas de sabor único, que chegam à mesa em sequências que parecem intermináveis. Receber bem, para os coreanos, parece ser sinônimo de fartura à mesa - algo tocante para um povo tão incrivelmente simpático e tão sofrido. Mesmo quando a descrição do prato parece pouco tentadora (uma sopa de macarrão fria, por exemplo, é o prato típico da cidade), o resultado é sempre algo surpreendente. Uma experiência inesquecível e um ótimo exemplo do quanto a (boa) comida pode unir pessoas.

sábado, 15 de setembro de 2018

Fórmula 1: os melhores grandes prêmios para se assistir ao redor do mundo

Quem me conhece sabe que acompanho avidamente automobilismo, e a Fórmula 1 em particular. É um interesse que vem de longe e que já viveu várias fases - o deslumbramento infantil, um quase esquecimento, a redescoberta e até mesmo a dedicação profissional. E o fato é: por que não unir o agradável ao mais agradável? A Fórmula 1 é um evento global e, sendo assim, nada mais natural que pensar em viagens associadas a ela. Nos últimos anos, temos conseguido conciliar as duas coisas, a tal ponto que, hoje, ao planejar férias, costumamos averiguar a possibilidade de compatibilizar a viagem com alguma corrida que possa estar acontecendo no destino escolhido.
Assim, acabamos conjugando a visita a um destino interessante com a Fórmula 1 - que, aliás, não é só a corrida de domingo, mas que envolve toda uma programação de treinos e também de corridas de outras categorias. Apesar disso, por mais que um fim de semana de grande prêmio siga um roteiro aproximadamente comum a todas as etapas, é natural que cada lugar tenha as suas particularidades. Há circuitos de rua (Mônaco sendo o mais famoso deles, naturalmente) e há autódromos construídos especialmente para o automobilismo, alguns em subúrbios e outros bem no meio da cidade. Cada um tem suas vantagens e desvantagens. Assim, por que não fazer uma lista dos melhores GP para se assistir ao vivo no calendário da Fórmula 1? Afinal, listas podem ser subjetivas, mas são divertidas, não é?
Pois então, vamos lá - minha lista das melhores corridas de Fórmula 1 para se assistir, dentre aquelas que já acompanhei, é claro, considerando a experiência como expectador:

7. Brasil (Interlagos)
Corrida e visão da pista: 5/5
Estrutura: 1/5
Localização/acesso: 1/5
Nosso grande prêmio "da casa" é, infelizmente, uma baita decepção quando comparado com outras corridas. Ele teria condições de figurar no topo da lista por ser um traçado clássico que costuma oferecer ótimas disputas (e que tem, principalmente a partir da arquibancada A, uma das melhores vistas de todo o calendário). Sem contar que é o mais acessível para nós, não só por ser em São Paulo mas também por oferecer os ingressos mais baratos. Porém, a estrutura é incrivelmente pobre e pouco funcional. Pior ainda, o público é notoriamente mal-educado (é uma "tradição" consagrada em Interlagos desrespeitar mulheres e ignorar a marcação de assentos, tudo com a conivência da organização).
Nem sequer a localização chega a ser uma grande vantagem, pois, apesar de estar dentro da cidade, o autódromo não tem conexão fácil com o sistema de transporte público e requer uma boa dose de esforço logístico na chegada e principalmente na saída. Tudo somado, as chateações acabam superando o prazer de se presenciar um evento tão empolgante.

6. Itália (Monza)
Corrida e visão da pista: 2/5
Estrutura: 2/5
Localização/acesso: 2/5
Monza é o que se poderia chamar de uma corrida "de raiz". O acesso é razoável, feito por um trem expresso que liga Milão ao autódromo, porém que fica bastante cheio no domingo após a corrida. A estrutura não tem luxos, mas funciona bem. O traçado oferece boas corridas mas, por outro lado, cada arquibancada só permite visão para uma pequena parte do autódromo. A fama da torcida italiana é justificada pela sua empolgação, em certos aspectos até mesmo exagerada... Monza, como outras etapas europeias, também goza de uma vantagem adicional sobre a maioria das corridas disputadas fora da Europa: as categorias de apoio costumam ser mais interessantes, com a presença de Fórmula 2 (ex-GP2) e GP3 (futura Fórmula 3).

5. Canadá (Montréal)
Corrida e visão da pista: 3/5
Estrutura: 2/5
Localização/acesso: 4/5
O circuito Gilles Villeneuve é uma espécie de Interlagos com as arestas aparadas. A visão da pista não é tão ampla quanto em Interlagos e a maioria das arquibancadas é descoberta, mas o público é muito mais educado. A grande vantagem, porém, talvez seja o acesso: o autódromo está localizado num belo parque acessível de metrô, o que faz com que o deslocamento desde o centro de Montréal não dure mais que alguns minutos.

4. Mônaco
Corrida e visão da pista: 3/5
Estrutura: 3/5
Localização/acesso: 4/5
Mônaco divide opiniões: há quem ache o circuito monótono e há quem adore o insano desafio que o principado representa para os pilotos. O fato é que estar em Mônaco durante um grande prêmio é uma experiência que dificilmente se compara a qualquer outra em termos de Fórmula 1. Não é um lugar para se esperar grandes ultrapassagens, mas sim para se impressionar com o cenário surreal da luxuosa cidade cortada pelos carros em alta velocidade. Percorrer o circuito a pé (quando a rua é liberada para o tráfego de pedestres ao final de cada dia de evento) ou de carro (nos dias em que não há evento) também é imperdível. Presenciar um GP em Mônaco sempre será diferente de presenciar um GP em qualquer outro lugar.

3. Bélgica (Spa-Francorchamps)
Corrida e visão da pista: 3/5
Estrutura: 3/5
Localização/acesso: 3/5
Se em Mônaco os carros voam no meio da cidade, a centímetros das fachadas dos prédios, em Spa-Francorchamps eles abrem caminho no meio da floresta numa região praticamente rural da Bélgica. O contraste é impressionante, claro. O fato de ficar numa região afastada significa que a melhor opção é alugar um carro. Uma vez dentro do autódromo, a estrutura é grande e permite uma imersão total no clima da Fórmula 1. Fora dele, o clima é de calma - perfeito para descansar após um dia inteiro de automobilismo. E, claro, a Bélgica é um excelente lugar para se visitar antes ou depois do fim de semana do grande prêmio.

2. Reino Unido (Silverstone)
Corrida e visão da pista: 4/5
Estrutura: 4/5
Localização/acesso: 3/5
Silverstone, sede da primeira prova da história da Fórmula 1, é certamente um dos grandes clássicos do calendário. O autódromo conjuga uma grande estrutura com arquibancadas que permitem boa visão do traçado. A famosa instabilidade do clima britânico pode pregar suas peças para o bem ou para o mal (é bom estar preparado para a chuva mas, se ela vier, aumentam as chances de reviravolta na pista). Assim como Spa-Francorchamps, o autódromo de Silverstone se localiza numa zona rural, mas está a cerca de meia hora de Milton Keynes, uma cidade de tamanho médio que funciona bem como base para o fim de semana.

1. Abu Dhabi
Corrida e visão da pista: 4/5
Estrutura: 5/5
Localização/acesso: 4/5
O circuito de Yas Marina, em Abu Dhabi, é a grande surpresa positiva da lista. A estrutura é imbatível em todos os sentidos - organização, qualidade e conforto das arquibancadas, atividades e eventos paralelos. O público, em boa parte formado por estrangeiros, é bastante educado. Tem-se uma vista razoável da pista. Apesar do traçado estar longe de ser uma unanimidade, o fato de ser a última corrida do calendário abre a possibilidade de disputas particularmente emocionantes. Estando de carro, o acesso ao autódromo é fácil - e alugar um carro é altamente recomendável nos Emirados Árabes, independentemente da Fórmula 1. O país, aliás, é outra agradável surpresa que contribui para a qualidade da experiência como um todo. Tudo isso faz de Abu Dhabi o meu GP preferido, pelo menos por enquanto!

sábado, 1 de setembro de 2018

Nós entre os helvéticos

Lucerna
É fácil se deixar levar por estereótipos ao pensar na Suíça. Afinal, eles são muitos - não é à toa que Asterix entre os helvéticos é um dos livros mais divertidos do guerreiro gaulês. Os relógios, os queijos, o chocolate, Guilherme Tell, as vacas com sinos no pescoço... não faltam imagens icônicas. Isso, de certa forma, cria uma série de expectativas para uma viagem até lá.
No meu caso, eu pensava na Suíça como um país de montanhas nevadas. Claro que não esperava vê-las assim no verão - de fato, não havia neve. Mas as montanhas estavam lá e pelo menos parte da estrutura também chama a atenção no verão: notadamente os teleféricos e os tobogãs.
Mas a memória visual que guardei da Suíça acabou sendo outra que não a dos Alpes. Foi a das cidades suíças, muitas delas parecidas entre si: situadas no meio de um vale, cortadas por um rio de águas claras e salpicadas de casas em estilo enxaimel. Um lugar bonito, limpo e organizado, como aliás convinha a um país famoso por essas qualidades. Caminhar por elas, à toa, era sempre muito gostoso.
Chocolate!
Em termos de comida, fartamo-nos do óbvio: os supermercados têm uma grande e saborosa seleção de queijos e chocolates. Destes últimos, há também várias lojas de marcas artesanais de encher os olhos e esvaziar os bolsos. Mas a grande pedida foi, mesmo, a fábrica e loja da Lindt no cantão de Zurique. Uma tentação - perdição ou salvação, dependendo da crença de cada um. Como somos devotos de São Chocolate, fomos ao paraíso (e voltamos com um bom farnel para nos valer durante a continuação da viagem).
Do doce ao salgado, de um paraíso a outro. A Suíça é também a terra do fondue, afinal de contas. Uma refeição suíça à base de fondue é alegria garantida, ainda mais quando se tem gratas surpresas, como descobrir uma variedade à base de morels (o rei dos cogumelos, na minha opinião). Só este fondue já fez valer a viagem. Mas, ainda no campo queijeiro gastronômico, não dá para esquecer de citar o raclette (queijo derretido) e, para seguir na onda beata, la religieuse (a imperdível casquinha de queijo que se raspa do fundo da panela de fondue).
Monte Pilatus (e a pista do tobogã)
Depois da comida, um pouco de exercício para queimar as calorias. Perdemos um pouco por ir até lá numa época que não era de neve mas, em compensação, tínhamos as montanhas verdes e floridas à nossa disposição. Sobe-se nelas através dos teleféricos, que funcionam tanto no verão quanto no inverno, e lá no alto pode-se aproveitar as trilhas em meio à natureza e a vista em redor. De quebra, descobrimos uma bela diversão alpina: os tobogãs suíços! Para nosso pesar, não pudemos experimentar o maior deles, no monte Pilatus, pois ele estava fechado devido à chuva que tinha caído na noite anterior. Compensamos a falta em Berna, onde outro tobogã, um pouco menor mas bem mais conveniente, por ser perto do centro da cidade, fez a nossa alegria.
Ursos de Berna
Berna, aliás, que tem como curiosidade a sua relação com os ursos. Eles estão no nome e no emblema da cidade. Estão espalhados pelo centro na forma de esculturas diversas que celebram o animal. E ainda, claro, no parque que abriga os ursos de verdade. Mas, se Berna é a cidade dos ursos, é também a cidade dos cachorros, entre eles os são-bernardos - assim como os ursos, encontramos tanto são-bernardos reais quanto de mentira, em esculturas coloridas que formam uma espécie de dog parade.
Leão de Lucerna, de Thorvaldsen
De animal em animal, chegamos ao leão de Lucerna. Este não é um leão de verdade como o são os ursos de Berna; trata-se de uma escultura de Thorvaldsen (artista dinamarquês cujo museu em Copenhague vale a visita). A representação do leão abatido é uma alegoria em homenagem a soldados suíços que teriam morrido de forma heróica no século XVIII - uma história um pouco obscura para nós hoje em dia, o que não torna a escultura menos expressiva. De bater palmas para o artista.
Num país assim tão variado, nem surpreende que se falem diferentes línguas. Ao final, todos se entendem - nem precisaria da ONU quem pode se sentar a uma mesa cheia de queijos suíços.

domingo, 15 de abril de 2018

Deus e o Diabo na Terra dos Kim

Se tem algo na Coreia do Norte que é realmente marcante, diferente de tudo que já vi em outros lugares, é a relação das pessoas com a história/a política/os governantes. Tudo isso, na verdade, se confunde e se mistura de uma forma que é difícil separar, que dirá explicar. Mas aos poucos, conforme vai se convivendo com os norte-coreanos, a gente começa a perceber algumas semelhanças com certos aspectos da vida comuns no Ocidente...
Guia rápido do "quem é quem" no panteão norte-coreano. Kim Il-Sung, o avô, conhecido como o Grande Líder e Eterno Presidente, é considerado o herói da criação da Coreia do Norte - foi ele quem liderou o país na guerra pela independência e também na Guerra da Coreia. Morreu em 1994 e foi sucedido pelo filho, Kim Jong-Il, o Querido Líder. Quando faleceu, em 2011, quem assumiu foi Kim Jong-Un, o Líder Supremo, neto do primeiro Kim e filho do segundo. Notem que estes dois acumulam uma porção de títulos e de cargos, mas não o de presidente, que é exclusivo (e literalmente "eterno") de Kim Il-Sung, o que faz da Coreia do Norte um país que, oficialmente, tem um presidente fantasma.
Mas não se enganem: nada nem ninguém pode estar mais presente na vida dos norte-coreanos quanto o Grande Líder.
Há, claro, os retratos e estátuas que estão por toda a parte (mas, curiosamente, as representações são apenas dos líderes falecidos, nunca do governante atual). E vai mais além: na ideologia Juche (que foi criada e disseminada por Kim Il-Sung), nos jornais e na televisão, nas anedotas que se conta... E sobretudo no tom solene e respeitoso quando se fala de qualquer um dos líderes. Para quem é de fora, como nós, é difícil entender exatamente a motivação desse culto aos líderes - devoção sincera, costume, medo? Talvez um pouco de tudo isso. Fomos ver as estátuas de Kim Il-Sung e Kim Jong-Il em Pyongyang. Chegando lá, em tom de respeito, uns tantos casais de noivos depositavam flores e tiravam fotos - não muito diferente da postura de noivos ocidentais que fossem pedir a bênção a seu santo de devoção.
Reparamos que nossas guias (que de hábito já costumavam andar bem arrumadas), quando o roteiro incluía algum lugar relacionado aos líderes, caprichavam ainda mais na elegância.
Um desses lugares é a Exposição Internacional da Amizade (pausa para absorver o significado desse nome). Trata-se de um grande museu que contém os presentes recebidos por cada um dos líderes ao longo de sua vida. Para quem não sabe, é um costume diplomático que representantes de governos troquem presentes entre si. Nesse museu, tais presentes são exibidos com orgulho. Acontece que a coisa toda acaba parecendo um tanto surreal. Alguns dos itens de maior destaque lá são, claro, doações de países historicamente alinhados com a Coreia do Norte - assim, presentes de "gente boa" como Stalin e Mao Tse Tung são expostos com orgulho. Mas não se enganem, praticamente o mundo inteiro está representado, de presidentes estadunidenses ao embaixador do Brasil em Pyongyang. Os presentes vão desde carros, vagões e aviões inteiros (oferecidos por alguns dos grandes ditadores que nosso planeta já teve) até um quadrinho do Ceará (cortesia do nosso diligente embaixador). E chama a atenção a quantidade de presentes, digamos, politicamente incorretos: peles de ursos, um trono feito de chifres de veados, uma indescritível mesa de apoio na forma de um jacaré empalhado que segura uma bandeja com copos (procurem no Google e encontrarão fotos). A impressão que fica é de que quanto mais notório o ofertante na escala de crimes presumidos contra a humanidade, maior o número de animais mortos na confecção do presente. Saímos da Exposição sem dizer palavra.
Mas nada, nada mesmo, poderia ter nos preparado para a visita ao Palácio do Sol (um jogo de palavras com o próprio nome Il-Sung que, dizem, pode ser traduzido como "o sol"). Este palácio é um prédio incrivelmente imponente que, após a morte do Grande Líder, foi transformado em mausoléu. O lugar hoje abriga os corpos embalsamados de Kim Il-Sung e Kim Jong-Il, que são o ponto focal de uma contínua peregrinação ritual de incontáveis coreanos. O que se vê lá dentro, além dos corpos propriamente ditos, de retratos e de objetos usados pelos líderes quando em vida, são filas e filas de pessoas chorando, com os olhos cheios de lágrimas que só podem ser sinceras (ainda que incompreensíveis para muitos estrangeiros). Como disse nossa impecável guia: "já vim aqui muitas vezes, mas sempre me emociono". De uma certa forma, também saímos profundamente tocados, ainda que por motivos diferentes dos dela. O meu preconceito a respeito da Coreia do Norte tinha me preparado para encontrar um culto à personalidade ímpar, mas não me preparou para testemunhar essa singular forma de religião.

sábado, 7 de abril de 2018

Muito além do kimchi: comida na Coreia

É tentadora a imagem de que a Coreia do Norte e a do Sul são "dois irmãos brigados". Porém, embora razoável até certo ponto, ela me parece uma simplificação perigosa. Eu não diria que há exatamente uma briga entre os coreanos do norte e do sul; em vez disso, o clima lá me pareceu mais de desconfiança, isso sim; de dois irmãos que, por circunstâncias da vida, ficaram anos sem se falar e agora não sabem mais como puxar assunto numa conversa.
Mas o fato é que, apesar disso e dos que dizem o contrário, têm o mesmo sangue e a mesma criação: compartilham a língua, a história, a paisagem, o clima, o tipo de comida. O que nos leva a esse assunto: o que comemos por lá. Confesso que minha expectativa com a comida coreana era bastante baixa: as descrições de pratos que eu achava na Internet não chamavam a atenção e a minha experiência anterior com comida na vizinha China, muito menos.
Acabei me surpreendendo enormemente, a tal ponto que voltei para o Brasil com saudade da comida de lá e voltaria feliz a qualquer um dos restaurantes que visitamos.
Verdade que na Coreia do Sul, a princípio, foi difícil encontrar o caminho das pedras - dos pratos, no caso. A oferta é muita, variada e numa língua pouco amigável. Mas, à medida que ia me familiarizando, descobria que a comida coreana não era nenhum bicho de sete cabeças. Havia opções para praticamente todos os gostos, era em geral menos apimentada que o previsto e, sempre, muito saborosa. De quebra, descobrimos em Seul alguns restaurantes no estilo bufê livre. Uma maneira excelente para provar de uma vez várias das possibilidades da cozinha coreana! De fato, em pelo menos uma ocasião saímos do restaurante rolando de tão cheios.
Kimchi (espécie de acelga em conserva) é onipresente, mas é mais um acompanhamento que um prato propriamente dito. Sopas são comuns. As panquecas coreanas, em suas diferentes variações, são deliciosas. Massas são abundantes e de todos os tipos, não só de trigo. Chás acompanham a maioria das refeições, mas também são feitos de cereais variados e só raramente encontramos um sabor igual aos que estamos acostumados.
Na Coreia do Norte, curiosamente, a alimentação foi bem mais simples. Primeiro porque, já tendo passado por um "estágio" do sul, sabíamos um pouco melhor o que esperar. E principalmente porque nossas guias não mediam esforços para nos proporcionar experiências fantásticas. Em cada uma das nossas refeições norte-coreanas, uma coisa era certa: a quantidade de comida era sempre demasiada. A comida vem à mesa em pequenas vasilhas, cada uma com um preparo; quando se vê, a mesa está cheia de potinhos cada um com com arroz, sopa, kimchi, repolho, ovos, massa, carne, panqueca, tofu ou alguma outra coisa... Às vezes é difícil adivinhar a sequência ou a quantidade de pratos. Mais de uma vez nos saciamos apenas com a entrada, sem saber que outros tantos pratos ainda estavam por vir...
No final das contas, as refeições menos memoráveis foram as que fizemos no restaurante de algum hotel: estas tendiam a ser servidas num ambiente mais nobre, mas ficavam devendo um pouco do sabor e da variedade dos lugares mais simples. Por outro lado, uma dúvida que eu sempre tinha era: o quão parecido estas refeições seriam da comida norte-coreana do dia-a-dia. Meu palpite é que o grau de semelhança é tanto quanto o de um restaurante brasileiro com a nossa comida caseira: um almoço comum no Brasil dificilmente será tão variado ou tão bem apresentado quanto o de um restaurante (digamos, uma churrascaria), mas a ideia dos pratos possíveis em casa é a mesma dos que poderíamos encontrar na rua. O mesmo acho que vale para uma refeição típica de Pyongyang e algumas das comidas que provamos por lá.
Um bônus adicional desses momentos era que se tratava de ocasiões em que conversávamos e interagíamos mais à vontade com nossas guias e nosso motorista. Uma experiência que não tem preço!
Quanto aos pratos propriamente ditos... Eram tantos e tão diferentes que é difícil deter-se explicando todos. Talvez um dos mais emblemáticos, tanto no sul quanto no norte, seja o bibimbap: arroz com legumes, tempero e eventualmente um ovo. A particularidade é que a comida vem toda separada num grande prato e cabe à própria pessoa misturar todos os ingredientes. Aliás, parece que esse tipo de solução, que requer algum "preparo" à mesa, é bastante comum. Outro exemplo é um tipo de hot pot coreano, uma sopa em que os ingredientes todos são cozidos na nossa frente. Para fazer um assado, a mesma coisa: a carne chega crua à mesa e é assada numa grelha ali mesmo. Aliás, esses restaurantes nos proporcionaram risadas impagáveis: certo dia, Lee, a guia, anunciou que o almoço seria num restaurante especializado em frango - chicken. Como a Renata é vegetariana, Lee logo completou: e baby chicken. Por baby chicken, entenda-se ovo de galinha... Não houve como não rir. Noutro dia, haveria pato assado (duck) no jantar; para ela, baby duck...
Outro prato surpreendente é o naengmyeon, que dizem ser típico de Pyongyang. Em inglês: cold noodles. Bem, poucas coisas parecem menos animadoras que um prato de espaguete frio; mas a receita coreana superou todas as minhas expectativas e se mostrou bastante apetitosa, mesmo para um dia de inverno. É uma sopa com uma massa fina e comprida e diferentes vegetais, com um tempero levemente ácido e apimentado. É, como outras, uma comida finalizada pela própria pessoa imediatamente antes de comer, que se encarrega de temperar e misturar os ingredientes no prato.
Pode ser difícil de acreditar, mas não tem como não ficar com água na boca falando disso tudo!