domingo, 23 de abril de 2017

Montenegro

Montenegro, como os outros países da região, tem uma história bastante conturbada. Já foi ou fez parte de diferentes impérios, reinos, federações. Hoje é uma república relativamente pacífica (paz é um conceito relativo nos Bálcãs).
Em termos de geografia, Montenegro é um país pequeno dividido em duas regiões: o interior é bastante montanhoso e guarda afinidades históricas com a Sérvia; o litoral é onde estão os atrativos turísticos mais famosos do país e, assim como a Croácia, sofreu influência da antiga República de Veneza.
Ficamos hospedados em Podgorica, a capital, uma cidade não muito grande com uma mistura de estilos arquitetônicos onde se destacam as ruelas do antigo bairro otomano e os blocos e avenidas da época iugoslava. Em Podgorica, estávamos a cerca de 50 quilômetros do litoral e nos planejamos para alugar um carro, com o que poderíamos explorar o país no pouco tempo que teríamos por lá.
Saindo da capital em direção ao sudoeste, a estrada passa pelo belo lago Skadar e atravessa um túnel até chegar nas cidades do litoral. É um trecho rápido e agradável, que permite explorar o sul de Montenegro. Lá descobrimos, por exemplo, que entre os séculos XVI e XVIII a cidade de Ulcinj foi uma base de pirataria famosa (e temida). Dizem que foi em Ulcinj que Miguel de Cervantes foi prisioneiro e escravo após a batalha de Lepanto; dizem ainda que o próprio nome de Dulcinea seria uma referência a Dulcinium, o antigo nome latino de Ulcinj. A história é interessante e quase desconhecida fora de Montenegro. Já a cidade em si tem uma atrativa parte antiga, toda murada, que se eleva num promontório com vista para as belas águas do mar Adriático.
Um pouco mais ao norte está Budva, outra cidade litorânea cercada por antigas muralhas que vale a visita. No caminho entre as duas está Sveti Stefan (Santo Estevão), figurinha fácil nos cartões-postais de Montenegro. É uma pequena ilha que foi ligada ao continente por um istmo e que chama a atenção de longe. Eu já vira imagens de lá e tinha muita curiosidade de conhecer o lugar, embora não soubesse nada da sua história. Daí que fomos até lá. Na entrada do istmo havia uma guarita. Eu fui caminhando em direção à ilha enquanto a Renata, inibida pela guarita ou talvez pressentindo algo, parou. Pois foi só eu dar uns passos na elegante passarela que leva à ilha que fui chamado - e impedido de continuar - pelo segurança. A ilha inteira é propriedade privada - é um hotel ou, melhor dizendo, um exclusivo resort de luxo! Tive de recuar com o rabo entre as pernas. Mais tarde, pesquisando, descobri que o lugar era originalmente uma vila fortificada e que, durante o breve Reino da Iugoslávia, foi usado como residência de verão da família real. Com a chegada da república, virou um complexo de luxo - e, mesmo com algumas mudanças de dono, é o que continua sendo até hoje.
Seguindo mais ao norte (e assim terminando nosso recorrido por praticamente todo o litoral montenegrino) está a baía de Kotor, cujo ponto principal é a cidade de mesmo nome. Kotor é mais uma antiga joia veneziana no Adriático e, na minha opinião, a cidade mais bonita que visitamos em Montenegro. As ruas e praças são lindas, assim como o entorno. Kotor tem até um museu dedicado aos gatos! Pena termos ficado pouco tempo lá.
Bem, fizemos esse passeio pelo litoral ao longo de dois dias. Ao final do primeiro dia, seguimos o GPS para voltar a Podgorica. No caminho, ainda nos demos ao luxo de oferecer carona. A estrada subia por um caminho bem mais íngreme e estreito que o da ida - não se trata apenas do nome, Montenegro é um país realmente montanhoso. Mas o pior não era isso: aqui e ali havia obras na estrada que deixavam apenas uma faixa disponível ao tráfego, o que gerava pequenas paradas até que pudéssemos seguir em frente. Em certo ponto, já com mais de metade do caminho percorrido, chegamos a uma estrada grande e razoavelmente plana. Respirei aliviado, achando que o pior já havia passado. Porém: oh, ilusão! Logo adiante nesta mesma estrada havia um bloqueio (certamente mais alguma obra) e uma fila de dezenas de carros esperando, motores desligados, motoristas caminhando e fumando no acostamento... Não tivemos escolha senão esperar uma boa meia hora até que o trânsito começasse a andar - e descobrir que sairíamos da estrada para enfrentar uma íngreme descida de terra até praticamente os subúrbios da capital.
Kotor bay
No dia seguinte, já sabíamos que, não importa o que dissesse o GPS, aquele era um caminho a ser evitado. Assim, para ir até Kotor, no litoral norte, demos toda uma volta pela parte razoavelmente plana do litoral sul. Na volta, não resisti e resolvi pegar outro caminho (mais uma vez recomendado pelo GPS) que passava por Cetinje, a antiga capital. Bem, o asfalto até que era bem conservado, mas a subida era ainda mais acentuada que a do dia anterior e pontuada por dezenas de curvas acentuadas - cotovelos de quase 180 graus. A belíssima vista da baía de Kotor nos consolava, até que, em certo ponto, topamos com mais um bloqueio. Não havia muitos outros carros mas, como o trânsito não andava, resolvi descer e perguntar. A resposta foi breve: "Bum, bum! [fazendo sinal de quem explode algo] Do četiri." Minha interpretação: a obra envolvia dinamitar alguma coisa mais à frente e deveríamos esperar mais quatro (četiri) minutos. Mas se passaram quatro, cinco, dez minutos, e nada. Foi só então que compreendi o que ele literalmente dissera: até as quatro [horas]. Olhei para o relógio e vi que não faltava muito (pudera, já estávamos esperando há algum tempo). Quando andamos, foi para mergulhar num dejà vu: perto de Cetinje, demos novamente carona (desta vez, para uma senhora montenegrina); mais adiante, uma nova bifurcação nos levou à mesma autoestrada do dia anterior. Ou seja, a mesma fila de carros, a mesma espera, o mesmo "atalho" pelo barranco de terra. Foi já bem cansados que chegamos em casa. O país pode ser pequeno, mas tem caminhos que o fazem parecer tão grande!

domingo, 16 de abril de 2017

A histórica Prizren

Eduardo TrindadeDe Pristina, seguimos caminho até Prizren - esta acabou sendo, na minha opinião, a mais bonita das cidades que visitamos no Kosovo. É também, sem dúvida, a cidade em que o passado otomano da região é mais visível.
A espinha dorsal de Prizren é o rio Bistrica, cortado por belas pontes e ladeado por cafés, restaurantes e calçadas de pedestres. Mesquitas (e também algumas igrejas cristãs) pontuam a cidade e suas ruas. Dominando a paisagem, no alto, está a fortaleza de Prizren.
Quando falo do passado otomano, no entanto, não quero dizer hegemonia cultural. Pelo contrário: trata-se dos Bálcãs, do Kosovo... Uma região de muitas misturas. Claro que a influência albanesa, turca e muçulmana está por toda parte - a começar pelas mesquitas cujos minaretes se avistam de longe. Mas, por exemplo, basta sentar num dos cafés na margem esquerda do rio para encontrar doces com uma certa inspiração vienense (a Áustria também já dominou essas terras). Por outro lado, o café em si pode muito bem ser tirado à moda balcânica (ou turca), com um pó grosso decantado num bule de cobre, e não coado. Para matar a fome, quem quiser vai encontrar a universal pizza, mas também pode provar o tradicionalíssimo burek com iogurte ou ayran. Um legítimo burektore é um estabelecimento simples, sem cardápio, que só vende isso mesmo: burek que vem a ser uma espécie de pastel de massa folhada, acompanhado de ayran (iogurte diluído e salgado) ou de iogurte natural puro. Muito barato e saboroso, exceto pelo fato de que não consigo me acostumar à ideia de uma bebida salgada, como é o ayran.
Do outro lado do rio, ruas antigas, estreitas e sinuosas convergem para a čaršija - centro antigo, bazar e rua de comércio (onde, aliás, comprei um belo canivete artesanal do Kosovo).
Afastando-se do centro, há construções mais modernas, como a universidade, um parque para exercícios e um surpreendente supermercado com arquitetura inspirada na Casa Branca (os kosovares realmente amam os Estados Unidos).
No sopé do monte e seus arredores, construções sérvias: capelas e igrejas ortodoxas. Subindo (uma caminhada íngreme, porém curta), chega-se às ruínas do velho forte, de onde se tem uma vista maravilhosa da cidade e de todo o vale. Indo além, pode-se descer pelo outro lado, numa trilha em meio à natureza que aparentemente é bastante utilizada pelas pessoas da cidade em seus exercícios matinais. Como tudo o mais em Prizren, a trilha encontra o rio e segue ao lado dele. A cidade tem alguns museus - notadamente o Museu da Liga Albanesa de Prizren e o Museu Arqueológico - mas, como em outros lugares do Kosovo, o acervo não é grande. Foi só depois, em livros e na Internet, que pude descobrir o que era a Liga Albanesa de Prizren (um movimento que pretendeu lutar pelos direitos e eventual independência da maioria albanesa no século XIX). No Museu Arqueológico, instalado num antigo banho turco, fomos recebidos com simpatia por um funcionário que nos guiou pelas salas quase vazias. No final das contas, a história estava do lado de fora, no rio que corre, no ar cortado pela voz que emana das mesquitas e nas ruas repisadas por pés anônimos.

domingo, 9 de abril de 2017

Da velha Iugoslávia ao jovem Kosovo: Pristina

Sendo a capital e maior cidade do Kosovo, Pristina é também a mais famosa. Assim, havia também uma expectativa para finalmente conhecê-la. Por coincidência, chegamos a Pristina no dia 17 de fevereiro, aniversário da declaração de independência do país - algo bastante significativo para um estado que ainda está tentando se firmar política e economicamente. Encontramos o centro lotado de pessoas marchando, música, crianças com cartazes e as ruas decoradas com bandeiras. Mas foi no dia seguinte, com a cidade mais calma, que pudemos conhecê-la melhor.
Com 200 mil habitantes, a cidade tem um bom tamanho - uma longa e bonita rua de pedestres (a Bulevardi Nënë Tereza), universidade, estádio, shopping center, teatro, restaurantes, monumentos. É, ao mesmo tempo, precária: o estádio (interditado, em obras) oferece uma triste visão; há muito lixo nas ruas; a estação de trem está abandonada; os museus (apesar da boa vontade de quem trabalha lá) contam com exposições um tanto decepcionantes. Sem contar que não há sinal da presença sérvia por lá (a maior igreja ortodoxa do centro está abandonada e em ruínas). Além disso, parece que os serviços públicos são notoriamente pouco confiáveis: dizem que há ou havia falta de energia elétrica (se é verdade, não presenciamos) e de água (isso sim experimentamos onde ficamos hospedados).
Kosovo National LibraryAliás, o apartamento em que nos hospedamos acabou sendo parte importante da nossa experiência em Pristina (e, por que não dizer, no próprio Kosovo). Era um apartamento num velho prédio residencial da época iugoslava a poucos passos do coração da cidade. Exceto pela localização, não podíamos dizer que era luxuoso. Apesar disso, cada detalhe (da programação da televisão aos cortes de água que aconteciam toda madrugada e que, conforme apurei, são uma precária maneira de minimizar o desperdício que ocorre devido a vazamentos nas linhas da cidade) nos deixava com a sensação de ainda estar vivendo em plena época da Guerra Fria - ou da antiga Iugoslávia. Não podíamos ter experiência mais autêntica que essa, e não nos arrependemos por um instante. Sem contar que da nossa própria sacada tínhamos a vista da Biblioteca Nacional - provavelmente o prédio mais chamativo do país. A biblioteca já foi acusada de ser um dos prédios mais feios do mundo mas, a despeito disso, eu realmente a considero de uma beleza peculiar, ainda mais depois de ponderar que suas cúpulas, além de funcionais (permitem a entrada de luz natural) remetem aos típicos chapéus albaneses da região e que o interior é mais bonito ainda que o exterior.
Isso tudo posto, claro está que há também vários pontos da cidade que realmente valem a visita. Há principalmente duas outras instituições chamam a atenção no Kosovo. De um lado, as mesquitas, que, como em outras regiões de população muçulmana, estão por toda parte, com seus minaretes que chamam os fiéis para a oração. De outro lado, o chamado mais mundano das ëmbëltore - as confeitarias locais. Há várias delas, todas oferecendo doces irresistíveis a preços irrisórios. Para acompanhar, outra instituição local: o café, de preferência preparado à moda balcânica (nítida influência turca). Não nos faltaram doces na nossa experiência da capital kosovar.

domingo, 2 de abril de 2017

Primeiros passos no Kosovo: Peja

Entramos no Kosovo vindos de Montenegro, num ônibus que cruza a fronteira montanhosa dos dois países. A expectativa era grande até mesmo para as formalidades de entrada: como o Brasil não reconhece a independência do Kosovo, a situação diplomática de visitantes brasileiros costumava ser nebulosa (aliás, esse foi um fator que nos fez adiar a decisão de visitar a região). Pois bem, apesar da situação ainda confusa, o Kosovo aparentemente tem hoje a política de receber todos (ou pelo menos os não-sérvios) de braços abertos. Assim, empreendemos a travessia sem maiores contratempos que o estado lamentável de sujeira do ônibus em que viajamos.
Curiosamente, havíamos comprado passagem para Peć e chegamos em Peja. Não é que o motorista tenha se equivocado ou mudado de ideia quanto ao destino; Peć é o nome sérvio da cidade, como ela é conhecida em Montenegro e nas demais regiões eslavas; Peja é o nome albanês. Entrando no Kosovo, logo duas coisas ficam claras: que os kosovares são basicamente de etnia albanesa, e que a língua é o principal elemento distintivo desta etnia. (A propósito, o albanês é bem diferente de qualquer outra língua que eu conhecia, mas é interessante como vai-se familiarizando com ela aos poucos).
Peja não é uma cidade opulenta; pelo contrário, já saindo da rodoviária se vê bastante lixo, cães de rua, camelôs e mendigos. Por outro lado, é uma cidade de tamanho médio em que a vida transcorre normalmente. A cidade fez parte do Império Otomano e a influência turca é bem visível nas mesquitas (a absoluta maioria da população é muçulmana), na arquitetura e na força do comércio. Além do tradicional bazar no centro da cidade, há uma profusão de lojas e todas expõem seus produtos na calçada: máquinas, móveis, sapatos, frutas, berços decorados e quinquilharias diversas. Já o bazar, além de roupas coloridas, tem muitas joalherias: os kosovares são historicamente famosos como ourives e conta-se que seu trabalho adornou não poucas coroas europeias.
Peć PatriarchateA cidade tem alguns prédios antigos e bonitos, embora seja preciso sorte para conseguir visitá-los por dentro: mesmo aqueles que supostamente são museus ou espaços públicos ficam fechados e não há indicação sobre horário de abertura ou alguma forma de contato. Mas, quando conseguimos (num centro cultural onde a pessoa responsável nos viu e foi buscar a chave para nos abrir o prédio), fomos tratados com a maior amabilidade possível. Coisa de gente simples e hospitaleira, que mal fala inglês e não sabe onde é o Brasil, mas tem carinho com quem vem de fora. Descobrimos que há uma tentativa incipiente de impulsionar o turismo na cidade, com a criação de um roteiro a pé que permite ver todos os prédios históricos do centro da cidade (mesquitas, um banho turco, um antigo moinho, casas de pedra) - em geral ligados ao passado albanês e turco-otomano de Peja. Significativamente, o ponto mais isolado do roteiro, dois quilômetros fora do centro, é o Patriarcado de Peć. Trata-se do principal ponto de visitação da cidade segundo os guias estrangeiros e um dos maiores pontos de discórdia do conflito sérvio-kosovar. O Patriarcado é a sede espiritual da Igreja Ortodoxa Sérvia, ou seja, guardadas as proporções, Peć/Peja está para os sérvios como o Vaticano para os católicos. Claro que a Sérvia não engoliu bem o fato de a sede do Patriarcado ter ficado em território do Kosovo. A propósito, desde a guerra, o patriarca vive não em Peć mas em Belgrado, numa singular forma de exílio ao contrário.
Para chegar ao Patriarcado, precisamos passar por dois postos de guarda policial (não é fácil ser minoria numa região em litígio), mas a visita é agradável. Não vimos outras pessoas, a não ser umas poucas monjas. Suponho que o local fosse mais frequentado antes de os sérvios terem ido embora (fugido ou expulsos), mas o fato é que agora não há como não sentir a calma e o silêncio que convêm a uma bela igreja medieval.
No final das contas, Peja não seria o que é se também não fosse Peć, e Peć não seria o que é se também não fosse Peja.

terça-feira, 7 de março de 2017

Entendendo o Kosovo

Não espanta que o país mais novo da Europa fique nos Bálcãs, uma região famosa pelos conflitos políticos, militares, econômicos, étnicos, religiosos... Tudo contribui para que que seja difícil entender a história e a geografia deste novo país (aqueles que dizem que "o Brasil não é para principiantes" não devem conhecer os Bálcãs e certamente não andaram visitando o Kosovo).
17 de fevereiro de 2017,
9º aniversário da declaração de independência do Kosovo
Bem, nós visitamos. E, ansiosos por conhecer o ponto de vista deles, perguntamos a um kosovar se ele nos recomendava algum livro a respeito. Recebemos a indicação de "Kosovo: a short history", de Noel Malcolm. Porém, acabamos nos assustando ao descobrir que o livro tinha quase 500 páginas de letras pequenas - se a short history é grande assim, imaginem a versão longa! Enfim, já sabíamos, o tema é mesmo complexo. (No final, acabamos comprando outro livro sobre o Kosovo, quase do mesmo tamanho mas englobando aspectos de geografia e economia, além de "The Balkans: nationalism, war and the great powers", de Misha Glenny, jornalista que, depois de cobrir a queda do comunismo na Europa e as guerras da Iugoslávia, sintetizou a história balcânica em "apenas" 800 páginas).
Na época da Iugoslávia, dizia-se que o país tinha 7 fronteiras, 6 repúblicas, 5 nações, 4 línguas, 3 religiões, 2 alfabetos e 1 dinar (a moeda). Uma mistura, convenhamos, de fazer corar qualquer pretensa diversidade de outros países. Pois bem, o problema do Kosovo é que, embora fizesse parte da Iugoslávia, ele não estava representado nesta anedota (e nem em outros aspectos do país). Iugoslávia significa, literalmente, o "país dos eslavos do sul" (bósnios, croatas, eslovenos, macedônios, montenegrinos e sérvios, todos povos de origem eslava). Já o Kosovo é uma região de população em grande parte albanesa (não-eslava), que fala uma língua completamente diferente das demais. Note-se que é, mais uma vez, uma situação bem diferente do Brasil: para nós, a noção de nacionalidade está ligada basicamente à porção de terra em que se nasce, mas, nesses lugares de fronteiras frágeis e cambiantes, o sentimento de nacionalidade está ligado à família e aos laços étnicos (cultura, língua, religião); o local de nascimento é quase irrelevante. Assim, na maioria dos casos, um kosovar é um albanês em quase todos os aspectos e, andando pelo país, vê-se tantas bandeiras albanesas quanto kosovares.
Durante a existência da Iugoslávia, pode-se dizer que havia uma convivência relativamente pacífica entre as diferentes etnias; com o esfacelamento do país, cada uma das antigas repúblicas (eslavas) foi se separando, em geral à custa de sangue. O território do Kosovo era reclamado pela Sérvia por razões históricas (aquelas foram terras eslavas durante períodos que os sérvios consideram relevantes, e importantes igrejas sérvias se encontram lá), embora a maioria da população fosse kosovar-albanesa.
E aí o xis da questão: culturalmente, os kosovares têm muito mais em comum com os albaneses que com o restante dos ex-iugoslavos. Assim, o Kosovo lutou e conseguiu sua independência - não sem derramar sangue. Porém, é uma soberania relativa: a Sérvia não aceita a independência e continua reclamando seu direito sobre o território. É apoiada pela Rússia, que por sua vez é seguida pelos demais BRICs (incluindo o Brasil) e por alguns outros aliados. Do outro lado, o grande apoiador do Kosovo é os Estados Unidos, que vêm na história toda uma oportunidade de uma base de influência naquela região de confluência entre a Europa e a Ásia. Como os Estados Unidos, naturalmente, são ladeados por países do bloco ocidental (particularmente os da OTAN), pronto: tem-se uma reedição em miniatura da Guerra Fria.
Na prática, ao caminhar pelo Kosovo, não se vê marcas de guerra tão intensas quanto as que ainda estão presentes na Bósnia; por outro lado, vê-se muitos prédios abandonados, em ruínas; vê-se a desconfiança mútua entre sérvios e albaneses (igrejas e bolsões sérvios são cercados e protegidos pela polícia); e vê-se um país que está claramente começando a engatinhar na experiência da independência. Como criança recém-nascida, a precariedade da sua condição e a necessidade de ajuda externa são gritantes. Há muita sujeira nas ruas. E, no entanto, há um orgulho contido, uma vontade de crescer e uma cultura definitivamente rica.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Guia Puffin de Gastronomia 2017

Mais um ano se passou e aqui está ele novamente: o Guia Puffin de Gastronomia! Neste começo de 2017, o Guia Puffin chega à terceira edição, sempre com o mesmo nobre objetivo de listar os melhores restaurantes do ano anterior. 2016 foi movimentado em todos os sentidos - inclusive o gastronômico! E é sempre um prazer para mim e para a Renata relembrarmos algumas das refeições mais especiais que tivemos. A propósito, ela é vegetariana, então quem não come carne pode ficar tranquilo que todos os restaurantes listados aqui atendem às exigências de vegetarianos, carnívoros e onívoros!
Foi mantido o critério de deixar de fora os restaurantes que apareceram nas edições anteriores (2015 e 2016) para, assim destacar as novas descobertas. Também como nos outros anos, o Guia Puffin de Gastronomia distribuiu entre uma e três enguias para os estabelecimentos que proporcionaram as mais excepcionais experiências gastronômicas - não só a comida, mas também o atendimento, o ambiente, enfim, a experiência completa. Desta vez, dois restaurantes tiveram o privilégio de se juntar a OlympeLe Louis XV e Maaemo no seleto grupo dos agraciados com três enguias.
Enfim, rufem os tambores que aqui está ele: o novo Guia Puffin de Gastronomia!

Riso Bistrô, Rio de Janeiro - 1 enguia
Cozinha: João Paulo Frankenfeld
O restaurante tem mesas num pátio interno tranquilo e aconchegante que, de cara, impressiona pela beleza. Como o nome sugere, há risotos, mas o cardápio se expandiu e hoje vai bastante além dos pratos com arroz. Perfeito para um jantar romântico com um leve toque de sofisticação, o Riso Bistrô é daqueles endereços que deixam a gente a vontade de voltar mais uma vez.

Tamboril, Brumadinho - 1 enguia
Cozinha: Dailde Marinho
Tamboril é o nome de uma árvore, de um peixe e também de um dos restaurantes localizados dentro do parque-museu de Inhotim. Este, por si só, já vale a visita e faz com que o ambiente da refeição seja dos mais agradáveis. Além disso, sendo um buffet livre, o Tamborim mostra que nosso guia é eclético, com restaurantes que vão do "sirva-se você mesmo" ao menu degustação. Mas não é só isso, a comida é boa, variada e farta. Ou seja, vale a pena!

Koks, Kirkjubøur - 2 enguias
Cozinha: Paul Andrias Ziska
É, sem dúvida, o restaurante de localização mais espetacular que já visitamos. O ambiente tem janelas amplas que aproveitam o melhor da paisagem das Ilhas Faroe, e o sofisticado menu também é claramente faroês, ou seja, bastante peixe, frutos do mar e carneiro. A pouca variedade de vegetais das ilhas poderia ser um problema para o menu vegetariano, coisa que o restaurante contornou com bastante criatividade, exceto por um pecado capital: o menu vegetariano tem um prato a menos que o menu regular. Isso certamente custou ao Koks uma enguia na avaliação final, mas não desmerece as suas outras qualidades, que incluem uma saborosa harmonização do menu com sucos.

Trindade, Belo Horizonte - 2 enguias
Cozinha: Fred Trindade
O restaurante tem um clima de bar que combina com Belo Horizonte. Mas não se enganem: é um "bar" primoroso, na verdade um restaurante que sabe recriar clássicos mineiros e apresentá-los de forma elegante e saborosa sem ser pedante. Aliás, convenhamos: quem pega a fina flor da cozinha mineira e consegue melhorá-la ainda mais merece crédito!

Floriano Spiess, Porto Alegre - 2 enguias
Cozinha: Floriano Spiess
O restaurante une referências internacionais, especialmente asiáticas, com ingredientes do sul do Brasil. E a aparente mistura, executada com maestria, funciona muito bem. Além disso, toda a seleção do menu teve um cuidado e um carinho dignos de nota. Embora o próprio Floriano Spiess não estivesse lá na noite em que visitamos seu restaurante, fomos recebidos pelo chef executivo que nos apresentou cada prato e ao final ainda reservou um tempo para conversar conosco, o que valorizou ainda mais a noite.

Oro Restaurante, Rio de Janeiro - 2 enguias
Cozinha: Felipe Bronze
Felipe Bronze e o Oro dispensam apresentações. E, após a visita, podemos dizer que a fama é merecida. É visível o cuidado com os detalhes para fazer uma cozinha de vanguarda onde se percebem diferentes influências internacionais. Uma pequena ressalva é que os pratos do menu degustação vieram rápido demais, sem dar tempo suficiente entre um e outro para que os aproveitássemos. Em compensação, nossa sobremesa teve uma explosão de chocolate particularmente saborosa, perfeita para fechar com chave de "oro" a noite de chocólatras como nós.

Tête à Tête, São Paulo - 2 enguias
Cozinha: Gabriel Matteuzzi
Não é pouca coisa que, dentre as inúmeras opções de restaurantes de São Paulo, o Tête à Tête seja o único privilegiado a figurar na edição deste ano do Guia Puffin. Uma casa elegante e contemporânea como o seu menu. O chef foi pessoalmente à nossa mesa apresentar alguns pratos e falar sobre a escolha de certos ingredientes. Pode não parecer muito, mas é o tipo de cuidado atencioso que valorizamos!

Pujol, Cidade do México - 2 enguias
Cozinha: Enrique Olvera
Na terra da comida de rua por excelência, o badalado Enrique Olvera se destaca com versões requintadas (e saborosas) de clássicos mexicanos. Nossa visita ao Pujol foi uma noite de comida farta e saborosa, onde ingredientes e preparações típicas mexicanas se sucediam para encher nossos olhos (e bocas), todas elas com o toque particular de cozinheiros criativos. Destaque para os pratos acompanhados de tortillas e para as inigualáveis versões do mole poblano de Enrique Olvera - preparação esta que é renovada a cada dia e já tinha mais de três anos quando fomos ao restaurante. Um único porém: ambiente um pouco mais barulhento do que o ideal.

Kokkeriet, Copenhague - 3 enguias
Cozinha: David Johansen
Nossa ida ao Kokkeriet foi uma decisão de última hora. E foi uma das decisões mais acertadas de 2016. O restaurante funciona num endereço relativamente simples e discreto, onde somos recebidos por uma das equipes mais simpáticas que já vimos. Pedimos menu degustação harmonizado com sucos (um requinte que sempre conta pontos na nossa avaliação). Então somos agraciados com horas de uma quase interminável sequência que tem como protagonistas alguns dos melhores pratos da cozinha dinamarquesa contemporânea servidos em apresentações de encher os olhos. Tudo perfeito, digno da nota máxima na escala de enguias do Guia Puffin!

Restaurant Gordon Ramsay, Londres - 3 enguias
Cozinha: Gordon Ramsay
o chef Gordon Ramsay é, sem dúvida, a figura mais conhecida dentre os premiados deste ano e este, que é seu restaurante mais emblemático (flagship restaurant, como dizem os britânicos), é também o mais concorrido, exigindo reserva com certa antecedência. Isso faz com que a expectativa (e consequentemente a exigência) sejam maiores. O ponto é: expectativa e exigência, neste caso, são plenamente atendidas. Por fora, o endereço é discreto. Por dentro, é sofisticado sem ser extravagante. Logo fica claro que a estrela, sem sombra de dúvidas, é a comida - impecável, saborosa, inigualável, trazida e servida no ritmo ideal. Os garçons parecem uma orquestra que se move, elegantemente, em torno da sinfonia gastronômica que os comensais têm o privilégio de experimentar. No final, não resta dúvidas: três enguias e a vontade de aplaudir de pé.

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

De carro pela Dinamarca: vídeo

Como dizem que uma imagem vale mil palavras... Aqui vai um vídeo com um pouco do que vimos na Dinamarca e que descrevi nas últimas semanas. Aí está a saída de Copenhague, as estradas dinamarquesas, a ilha de Ærø, o show da Eivør, Den Blå Planet (e os puffins)... Com um fundo de música dinamarquesa, é claro. Aproveitem!



segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Aalborg, Aarhus e a relação dos dinamarqueses com a letra 'a'

Photo: Eduardo Trindade
É verdade: ao sair de Nibe, estávamos (o Puffin, Renata e eu) em êxtase. Tínhamos assistido a um show único, com músicas lindas, e feito novos amigos. O que mais poderíamos esperar daquela viagem?
Também é verdade que tínhamos alterado o roteiro previsto justamente para acomodar o festival de Nibe (e, claro, o show da Eivør) na nossa programação. Foi assim que Aalborg surgiu em nosso caminho, literalmente: como uma cidade próxima a Nibe onde poderíamos passar a noite.
Aalborg lembra um pouco Copenhague, com ruas, avenidas e prédios num estilo parecido. Mas o que mais nos chamou a atenção foi quando nos refugiamos do burburinho urbano no Kildeparken, o parque municipal. Numa área ali dentro encontramos o Parque da Música. É uma tradição de Aalborg que músicos, ao visitarem a cidade, plantem uma árvore no parque. Assim, o lugar contém dezenas de árvores plantadas por nomes diversos, de Bryan Adams a Jhetro Tull e de Shakira ao (agora Prêmio Nobel) Bob Dylan. Mais ainda, ao pé de cada árvore há um pedestal que, além da indicação do artista e da data em que a muda foi plantada, contém um botão. Apertando-se o botão, ouve-se uma canção daquele músico. Ou seja, trata-se de um bosque em que as árvores cantam músicas de alguns dos grandes artistas internacionais! Definitivamente, o norte da Dinamarca ficará marcado em nós como um lugar bem musical!
Seguimos depois para Aarhus, a segunda maior cidade do país (300 mil habitantes). Como já estávamos voltando em direção ao sul, a viagem começava a ter um tom de despedida, de últimos dias. Mesmo assim, acabei gostando bastante de Aarhus, uma cidade bonita e fácil de se conhecer a pé, com uma interessante mistura de áreas urbanas e parques arborizados.
É em Aarhus que está Den Gamle By, uma espécie de museu ao ar livre que é simplesmente fantástico. Den Gamle By ("A Cidade Antiga", literalmente) é um conjunto de dezenas de casas históricas, muitas com séculos de idade, que foram reunidas, restauradas e mobiliadas cuidadosamente. Assim, ao se caminhar pelas ruas do complexo e entrar nas casas, tem-se a impressão de estar vivendo uma época antiga - a rigor, o complexo é dividido em três áreas que retratam períodos diferentes, o primeiro entre os séculos XVI a XIX, o segundo nos anos 1920 e o terceiro nos anos 1970. Ocasionalmente, pessoas perfeitamente caracterizadas de acordo com o ambiente passam por nós - um ferreiro, um cocheiro, um músico de realejo. Infelizmente, em alguns momentos Den Gamle By parece ter visitantes demais, especialmente quando se entra em algumas das casas mais antigas (e apertadas); mas este é um mal comum às grandes atrações.
Photo: Eduardo TrindadeE, enfim, estando em Aarhus vindo de Aalborg e tendo visitado antes Faaborg, não poderia me passar despercebida a relação dos dinamarqueses com a letra a. Ou, mais precisamente, com o dígrafo aa. O curioso é que, desde 1948, a ortografia oficial dinamarquesa estabelece que o encontro de duas letras a seja escrito como å - ou seja, o "a com bolinha" é a versão nórdica da nossa crase. Acontece, entretanto, que, embora este å seja de uso corrente desde então, cidades que historicamente tinham aa como parte do nome não gostaram da ideia da mudança. E se apegaram à grafia antiga!
Bem, depois de nossos dias na terra das letras a, a viagem estava definitivamente chegando ao fim. Só nos restava dirigir diretamente para o aeroporto de Copenhague e esperar pelo nosso voo. E é aqui que acaba entrando a última dica desta viagem, e eu diria que valiosa. Já havíamos passado algumas horas de conexão naquele aeroporto antes e, mesmo ele não sendo pequeno, a espera nunca é agradável. Pois descobri que a cerca de um quilômetro do aeroporto fica Den Blå Planet ("O Planeta Azul", e vejam aqui o å dando as caras). É o maior aquário da Dinamarca e daquela região, com várias espécies de peixes, crustáceos, moluscos e outros animais, incluindo lontras-marinhas e os inconfundíveis puffins. Uma bela maneira de terminar essa viagem de encontros, reencontros, casamento e lua-de-mel.

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Eivør!

Eivør Pálsdóttir é uma cantora faroesa, dona de uma das vozes mais bonitas que já ouvi. Sim, pode ter sido o fato de ter conhecido suas músicas num lugar tão especial, e de tê-las como trilha sonora em alguns dos passeios de carro que fizemos por lá. O fato é que, desde o começo, a música faroesa me conquistou, e Eivør é um dos seus pontos altos.
Aliás, poucos lugares são tão propícios a viagens de carro quanto os países nórdicos, e nada melhor do que viajar ouvindo a música local.
Foi nesse contexto que, lá em Tórshavn, durante as últimas férias, descobri que Eivør faria uma apresentação na Dinamarca. Eu e a Renata somos, no mínimo, bastante preguiçosos no que se refere a ir a shows, temos inclusive anedotas particulares a esse respeito. Mas ambos sabíamos que Eivør era alguém que queríamos muito ver cantando e que dificilmente teríamos outra oportunidade.
Então toca pesquisar, planejar e replanejar. Não seria uma simples apresentação dela, mas sim um grande festival de música - o Nibe Festival, um dos maiores da Dinamarca. Exigiria um desvio de 200 km ao norte de onde pretendíamos ir mas, e daí? Repeti a mim mesmo: dificilmente teríamos outra oportunidade. Compramos ingressos, mudamos a reserva do hotel e, quando saímos de Ribe, nosso destino era o festival.
Acabamos não vendo nada da cidade de Nibe propriamente dita, um lugar pequeno pertencente ao município de Aalborg. Aliás, a Dinamarca andou sabiamente reformando o seu sistema administrativo, reduzindo o número de municípios de 270 para 98. Foi nessa reforma que Nibe perdeu o status de município. Bem diferente do que é comum acontecer no Brasil...
Então, enfim, o festival de Nibe. À primeira vista, não é tão diferente de outros eventos similares no Brasil - e que, tenho de admitir, estão longe de gozar da minha simpatia. Mas aos poucos fomos percebendo algumas diferenças: uma, a quantidade de famílias e crianças; outra, a educação das pessoas. Todas empolgadas com os músicos tocando no palco principal, e que não eram de forma alguma ruins. Quando chegamos, quem tocava era aparentemente algum clássico do pop rock dinamarquês; mas quem nos interessava era uma certa faroesa que iria se apresentar no palco lateral!
Quando Eivør chegou, não havia muita gente, e pudemos ficar bem perto do palco. O show começou pontualmente (mais uma diferença com relação ao Brasil).
E... Eivør é fantástica. O show é lindo, limpo, a sonoridade é absolutamente fiel às gravações. Ela canta em diferentes línguas, o que causa um dilema curioso: embora nós obviamente entendemos muito melhor as letras cantadas em inglês, tínhamos dois motivos para preferir as canções em feroês - além de a própria sonoridade da língua ser um atrativo a mais, eram as músicas que conhecíamos de antemão dos discos comprados nas Ilhas Faroe. Para quem tiver curiosidade de ouvir, é fácil achar vídeos dela no Youtube. Além disso, eu mesmo já usei música da Eivør num dos vídeos que publiquei (aqui tem a nossa canção favorita).
Mas voltando a Nibe... Não parou por aí. No meio da apresentação, um rapaz puxou assunto. Logo descobrimos que se tratava de um faroês que havia nos tomado por conterrâneos seus! Ele acabou ficando maravilhado quando contamos nossa história - modéstia à parte, não é todo dia que ele deve encontrar um casal de estrangeiros que foi até a sua terra para casar à moda faroesa e, de quebra, saiu na capa do jornal. Em poucos minutos, estávamos íntimos dele e dos seus amigos dinamarqueses.
Quando terminou a apresentação, Frode, o faroês, de repente virou para nós e lançou:
- Vocês querem falar com ela? Com a Eivør? Sim, vieram até aqui por causa dela, seria uma pena se não falassem com ela!
Eivør at Nibe FestivalE, dali a pouco, lá tinha ido ele conversar com algum segurança ou organizador do festival, depois com um dos músicos, depois com a própria Eivør, com a naturalidade que a gente mal consegue ter na nossa própria casa. Gesticulava, apontava para nós, logo começou a nos chamar.
Estávamos cara a cara com a Eivør.
Assim, inesperadamente, nem soubemos o que dizer! Pouco mais que o óbvio, apenas, mas consola-nos saber que ela deve ter se sentido prestigiada por ter dois fãs vindos de tão longe.
No final, o dia passou rápido. Quando percebemos, estávamos seguindo até Aalborg, onde iríamos pernoitar, como se tivesse sido tudo um sonho - lá estava a música de Eivør saindo pelo auto-falante do carro, mas o CD estava autografado e tínhamos novos amigos na lembrança e histórias para contar na bagagem.

terça-feira, 20 de setembro de 2016

De carro pela Dinamarca: Ribe e Vejle

Da ilha de Ærø, seguimos para a Jutlândia, a península que concentra a maior parte da Dinamarca em termos de área. A travessia, mais uma vez, fizemos num dos confortáveis ferries dinamarqueses.
Chegamos assim à pequena cidade de Ribe, a mais antiga do país. O centro pode ser facilmente percorrido a pé. Mesmo assim, ficamos com a sensação de não ter dedicado tempo suficiente a Ribe. Sim, andamos pela acolhedora rua principal. Cruzamos uma antiga ponte sobre o rio. Atraídos pela vitrine, entramos numa convidativa padaria. Vimos a grande catedral (a igreja mais antiga de toda a Dinamarca) e as ruínas vikings.
Por outro lado, muito do que vimos foi rapidamente, sem o tempo adequado que cada detalhe pede para apreciá-lo, digeri-lo ou torná-lo familiar. Assim: não vimos o interior da igreja; não visitamos o museu viking da cidade; não fomos ao parque natural de Wadden, que fica perto, mas demandaria tempo para ser explorado.
De Ribe, seguimos para Vejle, no lado oriental da península. Ao contrário de Ribe, Vejle tem ar de cidade grande (embora, com 100 mil habitantes, seja grande apenas para os padrões dinamarqueses) e arquitetura mais moderna. Daí que a passagem por lá acabou sendo interessante como forma de sair um pouco do roteiro de cidades pequenas e pitorescas que vínhamos fazendo há alguns dias. Mas também não tivemos muito tempo em Vejle, apenas o suficiente para caminhar pelo centro e almoçar. Embora viéssemos rodando mais ou menos à toa (como boas férias merecem), tínhamos um objetivo bem especifico de estar no extremo norte do país antes do final do dia. Motivo esse que é assunto para o próximo capítulo!