sexta-feira, 24 de junho de 2016

E então nos casamos!



No fundo, quando pensávamos em como seria o domingo 19 de junho de 2016, o que vinha à cabeça era algo relativamente simples. Por mais que houvéssemos planejado e sonhado com esse dia, sabíamos que teríamos pouquíssimos convidados (por uma escolha nossa, já que, sendo de dois diferentes estados e morando num terceiro, havíamos escolhido não privilegiar nenhum destes lugares e fazer uma cerimônia à nossa maneira). E, até o dia se aproximar, não sabíamos nem como seria exatamente a recepção destas mesmas pessoas.
Quando amanheceu o domingo, nossas últimas horas de solteiro voaram. Às 11 h, a moça que se oferecera para arrumar a noiva chegou para pegá-la. (Não é tão fácil reservar uma cabeleireira para o domingo nas Ilhas Faroe estando do outro lado do oceano, tanto que cheguei a treinar fazer algumas tranças na Renata, caso fosse preciso eu ajudá-la, e ela mesmo se maquiaria. Mas Vígdis, a filha dos donos da casa em que nos hospedamos, ofereceu-se e acabou fazendo um trabalho magnífico.) Eu fiquei sozinho para me arrumar, vestindo com cuidado cada uma das peças da roupa nacional faroesa que Mirjam nos havia preparado.
Uma meia hora antes das duas da tarde, Tróndur estava esperando do lado de fora da casa, pronto para me levar à igreja em seu carro novíssimo (um de seus orgulhos). Chegamos antes de todo mundo. Na igreja vazia, confesso que eu estava bastante nervoso. Dali a pouco, veio o senhor responsável por abrir as portas e acender as velas. Cumprimentou-me e paramos os três na frente da igreja, que fica em posição elevada, olhando para a rua. O senhor começou a tocar os sinos da igreja e foi incrível, como num sonho ou num conto de fadas. Quase no mesmo instante avistamos os carros subindo a rua, chegaram todos ao mesmo tempo - o padre, os convidados, e Renata, a noiva mais linda que já existiu. Seguindo a tradição faroesa, entramos juntos na igreja (que então já estava bem mais cheia do que poderíamos ter imaginado) pontualmente às duas horas, no exato instante em que os sinos pararam de badalar e o órgão centenário encheu a igreja de Tvøroyri com as notas da marcha nupcial. O padre nos recebeu no altar e conduziu toda a cerimônia em inglês, dava para ver o quanto ele mesmo estava nervoso e feliz pelo momento, certamente depois de ter passado a noite treinando em inglês as palavras que está acostumado a falar em sua língua. Quando convidou os presentes a cantar em feroês, tomou antes o cuidado de nos explicar de que falava cada uma das canções. No pequeno sermão, falou de como a Renata e eu nos conhecemos, e não poderia ter sido mais emocionante.
E veio o momento em que nos aproximamos, recebemos a benção, dissemos o "sim" mais especial de nossas vidas e trocamos alianças. Então nós dois, que estávamos em bancos separados na frente da igreja, sentamos juntos, para não nos separarmos mais. E assim foi de mãos dadas que cruzamos novamente a nave, ao som do órgão que tocava a marcha de Mendelson, caminhando lado a lado rumo à vida inteira que temos pela frente e que juramos escrever juntos, capítulo a capítulo, para fazer de nossa história uma linda história de amor, tão linda quanto o sorriso que reluzias naquele domingo. Te amo, Renata, minha esposa para sempre.


domingo, 19 de junho de 2016

Coisas que acontecem numa ilha distante

O melhor da vida são os encontros. O melhor das viagens, provavelmente, também.
A vida me ofereceu o encontro com a Renata, minha querida companheira, amiga, parceira, amada, namorada e noiva... Mas noiva apenas por mais algumas horas, já que hoje mesmo estaremos entrando na igreja para formalizar tudo o que sentimos um pelo outro e queremos viver juntos. Uma grande responsabilidade e, sobretudo, uma grande felicidade.
Quisemos que este momento fosse especial de todas as formas possíveis, inclusive no lugar escolhido. Antes do inevitável impasse - onde fazer a cerimônia, no Rio, no RS, em MG? - surgiu a semente da ideia de fazer num lugar que fosse bonito e especial para ambos. Incertos da resposta, procuramos contato com o padre, que foi mais que amável em nos acolher. E assim estamos agora em Suðuroy, a ilha que tem provavelmente as pessoas mais amáveis do planeta, prestes a nos casarmos!
O lugar é tão encantador que sua beleza não cabe nas fotos e torna pequenos os melhores superlativos. E as pessoas... Quando chegamos, Tróndur estava lá, sorrindo para nós, de camisa canarinho do Brasil e calça azul (ele de mangas curtas e nós de casaco nos 10 graus do fim de tarde). Levou-nos até o endereço em que ficaríamos hospedados. Lá, sem que esperássemos, o casal dono da casa já havia estacionado um carro para deixar à nossa disposição e foi logo estendendo a chave e falando de um ou outro macete para ligar o carro e passar as marchas.
Tróndur nos mostrou a cidade, levou-nos para jantar, para pescar, abraçou uma grande bandeira do Brasil saída não sei de onde e pediu licença para hasteá-la cerimonialmente hoje.
Jónsvein, o padre, um homem simples que é só sorriso, fez um pequeno treino da cerimônia, que será bilíngue. Mostrou-nos a igreja, contando sua história e a origem de cada peça da decoração.
O irmão de Tróndur, ex-futebolista como ele, apresentou-nos sua casa, onde cultiva um jardim de sonho, pinta quadros e guarda um verdadeiro museu de relíquias, com camisas de times de futebol, troféus, fotos, discos, antigas ferramentas de trabalho do pai e do avô...
Depois, visitamos Einar, que conversou, contou histórias do seu passado de pescador no Atlântico Norte, apresentou-nos sua filha que mora na casa em frente, convidou-nos para um café e chocolates.
Mais tarde, fomos visitados por um repórter do maior jornal das Ilhas que queria nos entrevistar e perguntou se podia ir à igreja tirar algumas fotos da cerimônia. (Todos pedem licença para assistir ao nosso casamento, como se fossem eles os intrusos e não nós.) Ao mesmo tempo, a dona da casa veio nos apresentar sua filha, que se ofereceu para arrumar cabelo e maquiagem de minha noiva, ajudá-la com o vestido e levá-la até igreja. Nisso tudo, quando percebemos, havia sete pessoas (e um puffin) na casa, conversando, contando histórias, rindo. Sim, a vida (como as melhores viagens) é feita de encontros. Havia chance de eu não amar a mulher que vive, sente e pensa tudo isso da mesma forma que eu?


domingo, 5 de junho de 2016

Um livro para viajar e a cidade de Bratislava

Foto: Eduardo Trindade
"A máquina de xadrez", do alemão Robert Löhr, é um livro que eu recomendo. Trata-se de um romance engenhoso, ambientado no século XVIII, que reúne várias das características que me atraem num livro, como o fundo histórico e a narrativa ágil e levemente misteriosa, que prende a gente até a última página. Eu gostaria de falar um pouco mais do livro, mas é difícil fazer isso sem dar com a língua no dentes, então me limito a copiar um pequeno trecho da contracapa: "No século XVIII, o barão Wolfgang von Kempelen encantou o continente europeu com a máquina de xadrez. Um autômato vestido de turco desafiava qualquer humano para uma invencível partida." Isso é estritamente real, está nos anais da história, como vocês podem conferir se tiverem curiosidade. E, a partir desse ponto, o autor escreveu seu livro.
A história se passa em Pressburg - e é aí que ela começa a sair das folhas do livro e da realidade histórica para a nossa realidade. Pressburg é o antigo nome de Bratislava, a atual capital da Eslováquia. A cidade é descrita pelo autor e, mais do que naturalmente, acabou absorvendo parte do meu interesse pelo próprio livro. Acontece: bons livros levam a gente a querer saber mais sobre seus personagens, lugares e segredos! Com "A máquina de xadrez", não foi diferente: demorou um pouco, mas acabei pisando em Bratislava.
Foto: Eduardo Trindade
Que é relativamente pequena para ser capital de um país, mas tem charme de sobra. Bratislava é um típico exemplo de uma cidade nobre do velho império austro-húngaro, tendo assim certos ares em comum com Viena, Praga e Budapeste, mas duma forma, digamos, mais intimista. O rio Danúbio está lá, tocando o centro histórico, que é compacto e muitíssimo bem conservado. Os restaurantes estão por todos os lados. E o que talvez mais chame a atenção são as estátuas bem-humoradas que se espalham por diversos pontos do centro. Estão ali como se quisessem piscar para a gente. Não longe delas, tivemos o privilégio de alugar um pequeno e confortável apartamento - o que acaba sendo mais gostoso do que ficar hospedado num hotel. Quase como se habitássemos as páginas de um livro.

Duas das estátuas de Bratislava


sábado, 28 de maio de 2016

Festa da Bergamota

Uma coisa que não falta no Rio Grande do Sul são festas dedicadas a alguma fruta ou produto típico. É uma tradição bastante antiga (e não exclusiva do estado) a de festas da colheita. Lá, onde que cada cidade é conhecida por um produto (há a cidade do basalto, da maçã, do vinho...), a mais famosa é a Festa da Uva, em Caxias do Sul, mas há também as festas da maçã (em Veranópolis), do morango (em Bom Princípio), dos doces (em Pelotas), do queijo (minha favorita, em Carlos Barbosa)... E, entre várias outras, a Festa da Bergamota, em São Sebastião do Caí, que visitamos nesta semana.
Bergamota é como chamamos a fruta que em outras partes é conhecida por tangerina, mexerica, mandarins, clementina, laranja-cravo, poncã... Essa prosaica fruta sendo, assim, uma das que têm mais nomes diferentes.
Sendo uma fruta de inverno, a bergamota é bem emblemática dos meses frios no Rio Grande do Sul: não há gaúcho que não tenha lagarteado comendo umas bergas no sol.
Quanto à Festa da Bergamota propriamente dita, ela acontece a cerca de uma hora de carro de Porto Alegre. Pode não ser o maior nem o mais badalado destes eventos, mas é bem agradável (até porque nada precisa ser grande ou badalado para valer a pena). Fomos com pouco tempo e o dia estava chuvoso, mas gostaríamos de ter ficado mais. Teríamos aproveitado com calma a bandinha alemã, os jardins floridos, a feira, a exposição de frutas, os doces e, é claro, as bergamotas. Suculentas, saborosas, convidativas e baratas. Resistir? Impossível. Vai uma bergamota aí?

terça-feira, 3 de maio de 2016

Rothenburg ob der Tauber

Foto: Eduardo TrindadeConfesso que a Alemanha nunca foi meu sonho de viagem. Nada contra o país ou seus habitantes, mas os livros e as histórias que cresci ouvindo acabavam sempre me levando a outros lugares. Assim, quando finalmente visitei a Alemanha, foi sem grande ansiedade. E, de certa forma, pude aproveitá-la com um olhar neutro, relativamente isento de preconceitos.
Descobri que por lá, ligadas pelas incríveis auto-estradas alemãs, há uma série de cidades pequenas e adoráveis. Rothenburg ob der Tauber é uma delas. Trata-se de um daqueles lugares que inspiraram todo um imaginário composto de ruas sinuosas e antigas, serpenteando entre casas com estrutura de madeira e cercadas por um muro medieval. A cara da Alemanha clássica. O mérito de Rothenburg é ter se mantido da mesma forma que era há uns mil anos, o que, convenhamos, não é pouca coisa.
Rothenburg tem o charme das melhores cidades históricas. Tivemos o privilégio de conhecê-la da melhor forma, ficando hospedados numa pousada bastante agradável, jantando num restaurante charmoso (e que funciona juntamente com uma interessante loja de vinhos de fabricação própria), e passeando por ela de dia e de noite. Provamos por lá a schneeball, doce típico da região que, para falar a verdade, decepcionou-nos um pouco por ser mais seco do que parecia à primeira vista; ainda assim, valeu pela experiência. Percorremos a muralha do alto e depois visitamos o impressionante (e macabro) Medieval Crime and Justice Museum da cidade, pleno de instrumentos de tortura.
Mas o que chamou mesmo a atenção foi a beleza de Rothenburg. Assim sendo, é natural que as melhores lembranças estejam nas imagens do lugar. Aqui têm, então, algumas das fotos de lá.

Foto: Eduardo Trindade

Foto: Eduardo TrindadeFoto: Eduardo Trindade

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Somos todos iguais, braços dados ou não

 Uma reflexão necessária sobre a situação atual do país, ainda que fuja um pouco ao tema do blogue.
"Quem vive nos Bálcãs acaba passando por pelo menos duas guerras." Um dia, um amigo nascido nos Bálcãs me falou isso, em tom de provérbio iugoslavo. Esse amigo, que tem a mesma idade que eu, morou em quatro países diferentes sem mudar de cidade. Já o pai dele passou por sete países. Melhor dizendo, sete países passaram por ele: é o que acontece quando se fica no mesmo lugar mas as fronteiras oscilam ao sabor das guerras e as nações se juntam e se separam ao sabor dos acordos políticos (aqueles que, como se sabe, são como as salsichas).
Nos últimos cinco anos, visitei três vezes os Bálcãs. Sempre que a discussão pendia para assuntos de economia, política e qualidade de vida, acabávamos concluindo que a situação do Brasil era muito melhor do que a de qualquer país da ex-Iugoslávia e que, dentre vários possíveis motivos para isso, um se destacava: a ausência de guerras no período recente. Era flagrante o quanto o Brasil, a despeito de sua diversidade, tinha um senso de união e de convivência pacífica invejável. Não digo que fosse perfeito, nós sabíamos das dicotomias norte/sul (ou sudeste/nordeste), pretos/brancos, ricos/pobres, mas nada chegava aos pés das sangrentas tensões balcânicas. Meu amigo invejava essa nossa paz, como invejava a pujança econômica, a oferta de empregos, invejava até mesmo nossa Copa do Mundo e nossos Jogos Olímpicos.
Hoje, porém, se saio para a rua em meu país ou faço uma busca rápida na Internet, vejo um ódio que não está tão longe daquele estopim perigoso dos Bálcãs. É algo que nunca vi antes, não no Brasil. Que extrapola enormemente a simples discussão de ideias políticas ou a disputa democrática por poder (por mais que estas já fossem, em seu cerne, menos edificantes do que as palavras podem fazer parecer). O que se vê é uma troca de acusações e ameaças que se distanciou demais dos alegados combate à corrupção, de um lado, e respeito à instituição democrática, de outro. Ora, não me venham dizer que o que está em jogo é a corrupção (até porque sequer é esse o foco do julgamento do impeachment da presidente). Também não venham negar o crescimento econômico do país: para citar um exemplo, eu mesmo vivenciei um momento, há 15 anos, em que engenheiros saíam da universidade mendigando um emprego, e outro momento, há uns três anos, em que empresas iam à universidade disputar a tapa engenheiros que sequer tinham se formado. Não serei ingênuo a ponto de afirmar que é tudo mérito exclusivo de Lula ou Dilma, mas também não me venham dizer que é apenas coincidência ter acontecido durante seus mandatos.
Agora, passado o ápice daquele momento econômico, instaurou-se uma disputa de poder que faz uso de um componente perigoso: o ódio. Na disputa pela cadeira do Palácio do Planalto, alimenta-se a ideia de que o Brasil está dividido entre grupos que seriam, estes sim, irreconciliáveis: honestos e corruptos, o bem e o mal. Com a presidente literalmente impedida de governar, e isso deste o início do mandato, utiliza-se o país como moeda de troca. O velho e anedótico "é dando que se recebe" assume proporções assustadoras. Passageiros e tripulantes do navio se digladiam enquanto este vai a pique, consolando-se com a pobre ilusão de culpar o adversário pelo naufrágio.
Abro o jornal e penso o que aquele meu amigo ex-iugoslavo diria. Nas manchetes, vejo que em Brasília constroem um muro para separar os dois lados do campo de batalha; nas estradas, manifestantes fazem barricadas queimando pneus; novamente em Brasília, um deputado comemora não estar mais na lista de procurados da Interpol (mas era pegadinha do malandro: ele continua com mandato de prisão... e continua deputado). Em meio a tudo isso, em São Paulo, os supostos representantes da nova política brasileira tomam decisões importantes: discutem a participação de uma cópia simplória do Fofão para alegrar a festa do impeachment. E essa é a parte menos pior da história, pois é a que nos permite rir, nem que seja da própria desgraça. Palhaço por palhaço, é difícil não lembrar do Tiririca: "pior do que tá não fica". O nobre deputado, quem diria, era um otimista.

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Mercados do México

Foto: Eduardo Trindade
Ah, mercados. Poucos lugares são tão convidativos para quem gosta de viagens e de gastronomia quanto um bom mercado. E a Cidade do México, com suas paisagens, cores, aromas e sabores razoavelmente exóticos, oferece exatamente isso: uma profusão de mercados e feiras para todos os gostos. Vendem de tudo, e não apenas comida.
Foto: Eduardo TrindadeO ideal seria provavelmente começar pelo Mercado de la Ciudadela. Este é um mercado para turistas, que vende principalmente artesanato. São peças bonitas que remetem ao México: caveiras e esqueletos dançantes, sombreros e chapéus diversos, figurinos de mariachis e caubóis, camisetas e chaveiros com a turma do Chaves, tudo com muita cor. Quando estivemos por lá, havia relativamente pouca gente, o que ajudava a tornar o passeio por entre as bancas bastante agradável.
Depois, o Mercado de San Juán, no centro da cidade. Digamos que esse é exatamente o que se espera de um mercado mexicano autêntico. Os espaços são mais estreitos e mais concorridos. Vende-se de tudo um pouco: utensílios domésticos, ferramentas, flores... Mas principalmente comida, muita comida. Queijos. Carnes. Verduras. Insetos. Pimentas. E frutas, muitas frutas. Com toda a certeza, é o lugar ideal para comprar o que quer que se necessite para um bom jantar - seja uma refeição em casa para os amigos ou um menu profissional num restaurante. No nosso caso, paramos para um suco de laranja. Ah, os sucos do México! Fartos, baratos e espremidos na hora. Em seguida, paramos ainda numa banca com jeito de restaurante - sim, o mercado tem uma praça de alimentação e restaurantes que servem desde a boa comida de rua do México até pratos mais elaborados.
Entre um mercado e outro, e como descanso antes da empreitada seguinte, talvez seja uma boa procurar uma feira de rua - que os mexicanos chamam de tianguis. Na Colonia (bairro) Condesa há uma que é simplesmente uma delícia. Estende-se por algumas quadras, e se parece um pouco com as feiras de rua do Brasil. Com a diferença marcante, claro, de que o que se encontra são os produtos da terra. Variedades inéditas para nós de pimentas, milho, frutas, doces. Passeamos entre as bancas e nos oferecem provas de quase tudo. É impossível resistir. No nosso caso, mesmo sabendo que teríamos de deixar a cidade no dia seguinte, saímos de lá carregados de mamey (uma fruta que é parente do sapoti e do mamão), figos, compota e suco.
Mas eu tinha falado que a passada pela feira era só um entreato antes da jornada seguinte... Visitar o Mercado de Sonora, o "mercado das bruxas"! Esse não é para iniciantes, não mesmo. O Mercado de Sonora é a mais profunda acepção do que alguém poderia chamar de "mercado popular". Gigante. Caótico. Pronto a devorar seus visitantes. Deixai toda a esperança, vós que entrais. Imaginem uma grande quantidade de venda de badulaques comprimida num espaço fechado e apertado. E com a oferta de produtos ainda mais ampla que em todos os outros mercados que percorremos. É como se, de certa forma, qualquer coisa pudesse ser encontrada aqui: brinquedos, roupas, cadernos, panelas, eletrônicos, frutas, peixes, carnes. E, obviamente, ervas. Poções. Incensos. Trata-se do mercado das bruxas. Ou, seja, do esoterismo e das soluções mágicas. Lembra um pouco Belém, mas incrivelmente atulhado e apinhado de gente. Chegamos ao coração do Mercado de Sonora, onde o aroma das ervas é mais intenso. Seguimos caminhando, mas sair de lá não é tão fácil: a região toda é uma espécie de complexo de mercados populares e, mesmo fora do prédio, ainda temos de caminhar um bom trecho serpenteando entre bancas de camelôs e gente indo e vindo. O curioso é que as pessoas parecem completamente à vontade naquela confusão. Não sei bem como mas, de alguma forma, o mercado tem espaço para todos os mexicanos.
Foto: Eduardo Trindade

domingo, 13 de março de 2016

Pirâmides do México

Ao andar pelo México, é impossível não se deparar com referências à cultura pré-colombiana. Na comida. Nos nomes dos logradouros e em várias palavras de uso corrente (vocês sabiam que chapulín é o nome de um tipo de grilo?). Em representações artísticas (de painéis, pinturas e esculturas a jóias e amuletos, são inúmeros os objetos com traços astecas).
Porém, a herança mais palpável dos povos que habitaram o México é, sem dúvida, feita de pedra: as suas pirâmides, templos e cidades. A humanidade, por algum motivo, parece gostar de pirâmides. A eterna vontade de se aproximar do céu, talvez. Ainda hoje, visitar as ruínas dessas pirâmides que fomos deixando ao longo da história é impressionante.
Nos arredores da Cidade do México fica a antiga cidade de Teotihuacán. Acordamos cedo para ir até lá e fomos recompensados: as hordas de turistas ainda demorariam um pouco para chegar e, assim, tínhamos Teotihuacán e suas pirâmides quase que só para nós. Um dia frio, com o sol recém começando a se mostrar; caminhamos pela avenida central, subimos e descemos as pirâmides, enquanto alguns balões passam no horizonte. As ruínas de Teotihuacán tiram o fôlego pela paisagem e pelo esforço de subir todos aqueles degraus.
Um pouco mais longe, já no estado de Puebla, está a pirâmide de Cholula. Que é, esta sim, bastante inusitada para quem chega com a ideia de uma pirâmide clássica. A grande pirâmide de Cholula é considerada a maior do mundo em área e em volume, mas não em altura (a esse respeito, a comparação da Wikipedia é bastante interessante). E tem a particularidade de estar, hoje, quase completamente tomada pela vegetação, a ponto de que  um desavisado poderia chegar ao topo com a impressão de estar subindo um morro, e não escalando uma pirâmide. No alto há uma igreja católica que remonta ao século XVI, o que disfarça ainda mais a pirâmide original. Controverso, talvez, mas não de todo surpreendente: afinal, é o eterno desejo de se aproximar do céu.


quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Paletas mexicanas, as legítimas; recuse imitações

Como tudo mundo sabe (embora alguns pareçam ter esquecido), o que no Brasil se chama uma paleta mexicana é, mais propriamente, um picolé, e brasileiríssimo, visto que fabricado aqui com ingredientes nacionais.
Não que eu seja contra o tal picolé em si, que na maioria das vezes é bom, mas me incomoda a forma um tanto predatória com que essa mania se espalhou, e ainda mais o conceito implícito de que "o que é de fora é melhor".
Isso posto, eu devo dizer que não esperava me deparar algum dia com "paletas mexicanas" (autênticas).
Até que aconteceu. Estávamos no México. Sem que procurássemos, de repente vimos uma sorveteria. E lá estavam elas, as paletas. Mexicanas, definitivamente. Imediatamente exclamei, maravilhado: elas existem!
Assim, tive de morder a língua: as paletas mexicanas existem! No México, é claro.
As sorveterias que vimos no México vendem tanto o sorvete propriamente dito, na casquinha ou no copinho, quanto os picolés (paletas, em espanhol mexicano). Estes são feitos feitos de maneira semi-artesanal, não têm o suposto glamour nem o preço de uma "paleta mexicana" brasileira mas, em compensação, são deliciosos. E com uma vantagem extra: além dos que são fartamente recheados de bombons, pode-se escolher entre vários inspirados em frutas ou doces típicos locais. A variedade é de deixar qualquer um encantado.
Ah, se os mexicanos soubessem das "paletas" brasileiras... iriam (merecidamente) cobrar royalties. E, se os brasileiros soubessem das paletas mexicanas, não iriam mais querer saber de imitações.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Comendo nas ruas do México

O México é o lugar da comida callejera - comida de rua - por excelência, tanto que o tema mereceria não só uma crônica, mas talvez um livro inteiro. Logo ao chegar ao país já é impossível não reparar na oferta de comida nas calçadas, em bancas, carrinhos e tabuleiros que ficam rodeados de gente e exalam cheiros pungentes. Quem sai à rua, no México, é imediatamente inundado por uma mistura de odores característica. O primeiro, onipresente, é o cheiro do milho, muitas vezes somado ao cheiro do óleo de fritura. Em seguida, identifica-se o cheiro de pimenta. Ou melhor, das pimentas, pois elas são muitas: jalapeño, chipotle, chile poblano, chile serrano - em variados tamanhos, cores e graus de picância.
Boa parte do que se come nas ruas é uma variação das tortillas, o pão chato mexicano feito de trigo ou de milho e que pode ainda levar outros ingredientes (desde feijões até cactos) incorporados na massa. Se cortadas em pedaços pequenos e fritas, chamam-se nachos; se recheadas e dobradas, tacos; se elipsoidais, recheadas (muitas vezes com queijo) e dobradas, possivelmente fritas, quesadillas; se de milho, recheadas, enroladas e cobertas de molho, enchiladas; se de trigo, recheadas e enroladas, burritos. E há ainda as gorditas, as infladitas... Confuso? Talvez, mas bastam alguns dias no México para aprender a diferenciar com mínima desenvoltura a maioria destas variantes.
Um aspecto interessante é que, ao contrário do que alguém poderia pensar, em geral essas comidas contém pouquíssimo tempero e nenhuma pimenta; a pimenta está, na verdade, nos molhos que são sempre oferecidos juntamente com o prato. Em alguns casos, as bancas de rua têm longos balcões com pelo menos três molhos de pimenta, além de cebola, feijão, queijo e abacate, para o freguês se servir e incrementar à vontade a sua tortilla.
Eis então que estvamos em Xochimilco, sul da Cidade do México, quando resolvemos atacar uma das bancas de comida de rua. Éramos ainda inexperientes nessa arte, mas as perspectivas se mostravam boas: a banca apresentava convidativas quesadillas fritas na hora. A Renata, rapidamente, escolheu uma de queijo, recusou todos os molhos e se entregou à quesadilla com sofreguidão, aprovando-a imediatamente. Eu pedi uma com carne e aceitei a oferta de molho vermelho, do qual a vendedora pôs logo uma generosa colherada, lambuzando toda a quesadilla.
Só um lapso inexplicável, só uma momentânea inatividade cerebral podem explicar eu ter aceitado o molho. Eu já sabia que a salsa roja (molho vermelho) era a mais apimentada daquelas salsas, e sabia também que os mexicanos não são exatamente parcimoniosos quando se trata de pimenta. Na primeira bocada, percebi que não ia ser fácil. Na segunda, eu estava implorando por um líquido qualquer. Na terceira, eu me municiava de guardanapo e tentava inutilmente retirar o excesso de pimenta que escorria pela quesadilla. Os olhos começaram a lacrimejar. Os lábios pegavam fogo. Eu olhava para as outras pessoas à minha volta, que deviam achar aquela quantidade de pimenta absolutamente normal, e queria agir com naturalidade, mas era impossível. A pele se desprendia do céu da boca e eu sentia que não conseguiria sequer falar direito enquanto continuava comendo, e bebendo, e me preocupando com a possibilidade de o refrigerante terminar antes da comida.
Juro que tentei não fazer feio, mas só a muito custo consegui seguir com a quesadilla. Afinal, terminei, paguei e me levantei correndo, ansioso por procurar algo que me refrescasse. Vinha à minha mente a clássica cena do personagem de desenho animado com a cabeça vermelha, fumaça saindo pelos ouvidos, procurando um tonel de água para se enfiar. Minha salvação acabou sendo um picolé: nunca um picolé foi tão bem-vindo! E a história entrou para o livro de lições aprendidas: em se tratando de pimenta mexicana, nenhum cuidado é exagerado.