Veneza, cá estou eu no último dia de férias, extraindo prazeres dos pontos que já conheço na cidade e procurando outras joias inéditas para mim. Não é difícil num lugar como Veneza.
Eis que me ocorre visitar a feira de Rialto. Seria uma feira de rua absolutamente comum se não fosse Veneza. O Canal Grande está ali do lado, o leão de São Marcos me observa do alto, os feirantes gritam em italiano-veneziano e estas colunas que sustentam a abóbora carregam o peso de séculos. Com isso tudo, Rialto deve ser, sem grande esforço, a feira de rua mais cara da Europa.
E pensar que há algumas semanas eu percorria os bazares de Istambul. Completo um círculo histórico: as duas cidades estão intimamente ligadas. Veneza foi um império grandioso graças ao comércio com o Oriente, através da Turquia. E Constantinopla/Istambul floresceu graças ao comércio com o Ocidente, representado pelos venezianos. Não por acaso, Veneza entrou em declínio quando os ibéricos passaram a fazer concorrência através de uma rota alternativa. No meio tempo, Veneza aprendeu com Constantinopla e vice-versa. As fachadas em estilo oriental que se veem ao largo dos canais percorridos pelas gôndolas não são acaso. Cortinas chamadas de venezianas ou de persianas (este nome, possivelmente, um equívoco histórico), também não. Marco Polo (que nasceu na Croácia, numa época em que a República de Veneza controlava a região) saiu de Veneza e passou por Constantinopla para chegar ao Oriente. Nada mais conveniente que eu, depois de visitar Istambul, redescubrisse Veneza.
Num lugar qualquer desta minha aventura, li uma frase de Orhan Pamuk, o Prêmio Nobel turco, dizendo que, ao voltarmos de viagem, nunca encontramos um lugar igual ao que deixamos, pois nós mesmos mudamos no caminho. A frase faz sentido e já deve ter sido dita por mais gente antes dele. Voltando para casa, eu poderia dizer: a viagem termina, como começou. Mas virão outras.
sábado, 28 de janeiro de 2012
E a viagem termina como começou
quinta-feira, 26 de janeiro de 2012
Pula
Pula é uma das principais cidades da península da Ístria, no noroeste da Croácia, mas não chega a ser muito grande. Pode-se percorrê-la razoavelmente em um dia - foi o que eu tive, um dia, embora é claro que com mais tempo teria aproveitado melhor a cidade e a região.
Pula, como toda a Ístria, tem uma forte relação histórica e geográfica com a Itália. A região foi literalmente parte da República Italiana até 1947. Antes, havia sido dominada pelos venezianos. Antes ainda, fora parte do Império Romano.
E aí está um dos traços mais notáveis de Pula. A cidade tem mais construções romanas que muitas cidades na Itália. Seu famoso Anfiteatro é apenas um exemplo - mas um grande e belo exemplo. Atualmente ele é utilizado para espetáculos musicais, o que deve ser incrível; eu apenas dei uma volta por ele (sem as hordas de turistas que se costumam ver em atrações desse porte) e adorei.
Boa parte da população da cidade fala italiano. Aliás, até as placas das ruas são bilíngues, em croata e italiano.
E Pula tem o mar, uma bela marina, passeios de barco até o arquipélago que é um parque nacional na sua vizinhança... As cidades ficam mais belas quando têm o mar, mesmo no inverno. Pula também tem ligação direta com Veneza através de "ferry-boat", mas não nesta época do ano: meu próximo destino terá de ser alcançado de ônibus, o que não chega a ser um grande inconveniente.
Pula, como toda a Ístria, tem uma forte relação histórica e geográfica com a Itália. A região foi literalmente parte da República Italiana até 1947. Antes, havia sido dominada pelos venezianos. Antes ainda, fora parte do Império Romano.
E aí está um dos traços mais notáveis de Pula. A cidade tem mais construções romanas que muitas cidades na Itália. Seu famoso Anfiteatro é apenas um exemplo - mas um grande e belo exemplo. Atualmente ele é utilizado para espetáculos musicais, o que deve ser incrível; eu apenas dei uma volta por ele (sem as hordas de turistas que se costumam ver em atrações desse porte) e adorei.
Boa parte da população da cidade fala italiano. Aliás, até as placas das ruas são bilíngues, em croata e italiano.
E Pula tem o mar, uma bela marina, passeios de barco até o arquipélago que é um parque nacional na sua vizinhança... As cidades ficam mais belas quando têm o mar, mesmo no inverno. Pula também tem ligação direta com Veneza através de "ferry-boat", mas não nesta época do ano: meu próximo destino terá de ser alcançado de ônibus, o que não chega a ser um grande inconveniente.
quarta-feira, 25 de janeiro de 2012
Chocolate quente
"Vruća čokolada". Chocolate quente. Eis algo importante de se saber em croata. Entra-se num café ou numa confeitaria e pede-se "vruća čokolada", uma maravilha no inverno daqui. Querendo, pode-se ainda aproveitar para provar uma das tortas típicas da Croácia, ou então um "kroasan" (croissant) ou uma "strudla" (tipo de strüdel).
Mas voltemos à vaca fria, digo, ao chocolate quente. O ponto digno de nota é que ele é diferente do que se costuma fazer no Brasil. O chocolate quente croata é mais grosso, quase como se se estivesse bebendo um chocolate fundido. De fato, quando esfria um pouco, uma "nata" de chocolate chega a se formar. Uma delícia.
E o melhor é que eu aprendi um segredo simples: caixinhas mágicas do Dr. Oetker! Os supermercados vendem, em caixinhas ou em envelopes, o pó para preparar "vruća čokolada". Basta misturar com leite e aquecer. Da primeira vez, olhei com certa desconfiança para aquele pó mágico, mas o resultado é realmente bom.
Difícil vai ser ficar sem "vruća čokolada" no Brasil!
Mas voltemos à vaca fria, digo, ao chocolate quente. O ponto digno de nota é que ele é diferente do que se costuma fazer no Brasil. O chocolate quente croata é mais grosso, quase como se se estivesse bebendo um chocolate fundido. De fato, quando esfria um pouco, uma "nata" de chocolate chega a se formar. Uma delícia.
E o melhor é que eu aprendi um segredo simples: caixinhas mágicas do Dr. Oetker! Os supermercados vendem, em caixinhas ou em envelopes, o pó para preparar "vruća čokolada". Basta misturar com leite e aquecer. Da primeira vez, olhei com certa desconfiança para aquele pó mágico, mas o resultado é realmente bom.
Difícil vai ser ficar sem "vruća čokolada" no Brasil!
segunda-feira, 23 de janeiro de 2012
Como estar em casa na Croácia
Com tantos lugares interessantes para se conhecer mundo afora, não costumo repetir um destino, ao menos não nessas viagens longas. Mas vim pela segunda vez a Rijeka, na Croácia. Ou, mais precisamente, a Matulji, uma pequena cidade perto de Rijeka.
É a primeira vez que repito um destino por essas bandas. E acabou sendo interessante: descobri que ainda havia interessais valiam a pena explorar nos arredores. E havia os lugares de que eu me lembrava e que me deixaram com uma sensação boa de familiaridade, de estar como que em casa.
Rijeka é uma cidade média ou mesmo grande para os padrões locais. Ainda assim, é pequena para um brasileiro acostumado a cidades bem maiores. Ela tem pelo menos três coisas em comum com Porto Alegre: um porto (se não me engano, é o maior da Croácia), uma importante rua para pedestres (a "Rua da Praia" deles se chama Korzo) e uma relativa proximidade com um país vizinho. Rijeka tem muito da Itália no dialeto e nos costumes e chegou mesmo a fazer parte da Itália anos atrás, assim como Porto Alegre guarda similaridades culturais com nossos vizinhos do Prata.
E duas coisas Rijeka (que se chama Fiume em italiano) tem em comum com o Rio de Janeiro. A primeira é o nome, afinal Rijeka (ou Fiume) significa precisamente "rio". Outra é... o carnaval. É ao estilo europeu, diferente do nosso, claro, mas ainda assim é suficiente para encher a cidade de turistas em fevereiro ou março.
O carnaval ainda não chegou, mas a cidade já está decorada com bandeiras e máscaras. As lojas vendem tecidos para fantasias. E eu caminho pela Korzo, reconhecendo os lugares que vi há um ano e descobrindo outros novos. Ou me surpreendendo com a diferença entre o sotaque (ou dialeto?) daqui e o de Zagreb - coisa que eu não tinha percebido antes por estar menos habituado à língua e por não ter estado ainda em Zagreb.
E vou até Matulji, praticamente um subúrbio de Rijeka. Lugar calmo entre o mar e as montanhas, de ruas estreitas e casas com pilhas de lenha acumulada para estes dias de inverno. Em Matulji encontro a razão para voltar a um lugar, razão que me parece tão óbvia: rever bons amigos. Pode haver motivo melhor?
É a primeira vez que repito um destino por essas bandas. E acabou sendo interessante: descobri que ainda havia interessais valiam a pena explorar nos arredores. E havia os lugares de que eu me lembrava e que me deixaram com uma sensação boa de familiaridade, de estar como que em casa.
Rijeka é uma cidade média ou mesmo grande para os padrões locais. Ainda assim, é pequena para um brasileiro acostumado a cidades bem maiores. Ela tem pelo menos três coisas em comum com Porto Alegre: um porto (se não me engano, é o maior da Croácia), uma importante rua para pedestres (a "Rua da Praia" deles se chama Korzo) e uma relativa proximidade com um país vizinho. Rijeka tem muito da Itália no dialeto e nos costumes e chegou mesmo a fazer parte da Itália anos atrás, assim como Porto Alegre guarda similaridades culturais com nossos vizinhos do Prata.
E duas coisas Rijeka (que se chama Fiume em italiano) tem em comum com o Rio de Janeiro. A primeira é o nome, afinal Rijeka (ou Fiume) significa precisamente "rio". Outra é... o carnaval. É ao estilo europeu, diferente do nosso, claro, mas ainda assim é suficiente para encher a cidade de turistas em fevereiro ou março.
O carnaval ainda não chegou, mas a cidade já está decorada com bandeiras e máscaras. As lojas vendem tecidos para fantasias. E eu caminho pela Korzo, reconhecendo os lugares que vi há um ano e descobrindo outros novos. Ou me surpreendendo com a diferença entre o sotaque (ou dialeto?) daqui e o de Zagreb - coisa que eu não tinha percebido antes por estar menos habituado à língua e por não ter estado ainda em Zagreb.
E vou até Matulji, praticamente um subúrbio de Rijeka. Lugar calmo entre o mar e as montanhas, de ruas estreitas e casas com pilhas de lenha acumulada para estes dias de inverno. Em Matulji encontro a razão para voltar a um lugar, razão que me parece tão óbvia: rever bons amigos. Pode haver motivo melhor?
sábado, 21 de janeiro de 2012
Quantas cores cabem numa paisagem?
Embora Dubrovnik deva ser a cidade croata mais conhecida pelos estrangeiros, os croatas dizem que Plitvice é o lugar mais bonito de seu país. Sem desmerecer Dubrovnik ou qualquer outra cidade, é bem possível que eles estejam certos: Plitvice é incrível! Em que outro lugar se vê tantas cores na mesma paisagem quanto aqui?
Trata-se de um parque com uns tantos lagos ligados entre si por quedas d'água e cercados de árvores e montanhas. Como se não bastasse a paisagem ser linda, percebi que ela também muda conforme a época do ano.
Vim no inverno. Não estava nevando, mas os caminhos, as árvores, tudo estava coberto por uma grossa camada de neve. Em alguns pontos, os lagos estavam parcialmente congelados. Claro que isso torna o cenário ainda mais pitoresco para um brasileiro como eu, pouco afeito a neve (na qual, aliás, rapidamente aprendi a caminhar, é um pouco como andar numa praia de areia fofa).
Na maior parte do tempo, o parque estava incrivelmente vazio, não se via ninguém. Ou quase ninguém - lá pelas tantas, encontrei um australiano (alguém tão exótico quanto eu nessas paragens, vindo de um país grande, quente e distante) e seguimos juntos. Praticamente demos a volta no parque enquanto íamos conversando.
Ele iria tomar um ônibus para Zagreb no final da tarde, estava preocupado com o horário quando começamos a voltar. Mas no ponto praticamente oposto à entrada há um cais onde se pode tomar um barco até o outro lado, e chegamos justamente quando o barco (o último do dia) vinha atracando. Agradecemos à nossa sorte e embarcamos. Um barco grande, de cem lugares, todos vazios. Não havia mais nenhum passageiro, chegamos a fazer piada sobe isso. Faltando poucos minutos para o horário do barco partir, chegaram quatro chineses. Meu amigo comentou que os turistas asiáticos sempre andam em bando e que esse ou era bem pequeno ou havia gente perdida por aí. Então vimos, ao longe, na trilha que leva até o cais, algumas pessoas para as quais os chineses começaram a gritar. Eram outros chineses, do mesmo grupo, que chegaram e também embarcaram. Dali a pouco, vieram mais chineses. Depois, mais ainda. Depois, um dos chineses (o guia?) foi falar com o capitão do barco, apontava para uma lista, ainda faltava gente. Ficamos bom tempo esperando a chegada de uma longa fila de chineses que ia aparecendo na trilha e embarcando.
Meia hora depois do horário previsto, embora ainda faltasse gente, o barco soltou as amarras e partiu. Depois de se afastar do cais - adivinhem - mais um chinês apareceu na trilha e - adivinhem! - o barco deu meia-volta para buscá-lo! A essa altura, meu amigo já tinha perdido o ônibus e estávamos procurando a câmera escondida, só podia ser pegadinha. Então o chinês embarcou e pensamos que iríamos finalmente seguir em frente, mas nem nos surpreendemos mais quando apareceram outros tantos chineses que foram entrando calmamente, uns parando para tirar fotos, indiferentes aos tímidos apitos do barco. Até que o último chinês, de bengala, subiu a bordo, e tivemos certeza de que era o último porque não cabia mais ninguém.
A travessia durou 15 minutos, a espera tinha durado uma hora. Vim para o hotel e o australiano conseguiu pegar o próximo ônibus para Zagreb, mas perdeu o avião que tomaria lá em direção a Split.
Trata-se de um parque com uns tantos lagos ligados entre si por quedas d'água e cercados de árvores e montanhas. Como se não bastasse a paisagem ser linda, percebi que ela também muda conforme a época do ano.
Vim no inverno. Não estava nevando, mas os caminhos, as árvores, tudo estava coberto por uma grossa camada de neve. Em alguns pontos, os lagos estavam parcialmente congelados. Claro que isso torna o cenário ainda mais pitoresco para um brasileiro como eu, pouco afeito a neve (na qual, aliás, rapidamente aprendi a caminhar, é um pouco como andar numa praia de areia fofa).
Na maior parte do tempo, o parque estava incrivelmente vazio, não se via ninguém. Ou quase ninguém - lá pelas tantas, encontrei um australiano (alguém tão exótico quanto eu nessas paragens, vindo de um país grande, quente e distante) e seguimos juntos. Praticamente demos a volta no parque enquanto íamos conversando.
Ele iria tomar um ônibus para Zagreb no final da tarde, estava preocupado com o horário quando começamos a voltar. Mas no ponto praticamente oposto à entrada há um cais onde se pode tomar um barco até o outro lado, e chegamos justamente quando o barco (o último do dia) vinha atracando. Agradecemos à nossa sorte e embarcamos. Um barco grande, de cem lugares, todos vazios. Não havia mais nenhum passageiro, chegamos a fazer piada sobe isso. Faltando poucos minutos para o horário do barco partir, chegaram quatro chineses. Meu amigo comentou que os turistas asiáticos sempre andam em bando e que esse ou era bem pequeno ou havia gente perdida por aí. Então vimos, ao longe, na trilha que leva até o cais, algumas pessoas para as quais os chineses começaram a gritar. Eram outros chineses, do mesmo grupo, que chegaram e também embarcaram. Dali a pouco, vieram mais chineses. Depois, mais ainda. Depois, um dos chineses (o guia?) foi falar com o capitão do barco, apontava para uma lista, ainda faltava gente. Ficamos bom tempo esperando a chegada de uma longa fila de chineses que ia aparecendo na trilha e embarcando.
Meia hora depois do horário previsto, embora ainda faltasse gente, o barco soltou as amarras e partiu. Depois de se afastar do cais - adivinhem - mais um chinês apareceu na trilha e - adivinhem! - o barco deu meia-volta para buscá-lo! A essa altura, meu amigo já tinha perdido o ônibus e estávamos procurando a câmera escondida, só podia ser pegadinha. Então o chinês embarcou e pensamos que iríamos finalmente seguir em frente, mas nem nos surpreendemos mais quando apareceram outros tantos chineses que foram entrando calmamente, uns parando para tirar fotos, indiferentes aos tímidos apitos do barco. Até que o último chinês, de bengala, subiu a bordo, e tivemos certeza de que era o último porque não cabia mais ninguém.
A travessia durou 15 minutos, a espera tinha durado uma hora. Vim para o hotel e o australiano conseguiu pegar o próximo ônibus para Zagreb, mas perdeu o avião que tomaria lá em direção a Split.
sexta-feira, 20 de janeiro de 2012
Aprendendo croata
Há um ano, comecei a estudar croata. Comecei aos poucos, dizendo que iria só dar uma espiadinha num livro de bolso, mas depois fui me enfronhando mais. Sempre sozinho, afinal não conheço escola de croata no Brasil. Cheguei a um ponto em que conseguia formar frases simples e entender partes de conversas. E cheguei a minha segunda viagem à Croácia.
Antes de viajar, pensei em aproveitar para procurar alguma escola para estrangeiros, mas me frustei, nada que encontrei funcionaria durante o inverno, época em que eu estaria na Croácia. Até que, já aos 45 do segundo tempo, tentei fazer mais uma busca e consegui contato com uma professora. Ela me daria lições durante uma semana.
Cheguei a Zagreb, começamos as aulas. Passamos algumas horas entre livros, exercícios e taças de "vruća čokolada" (chocolate quente) numa "slastičarnica" (pastelaria-confeitaria). Avancei um pouco no estudo da língua, aprendi palavras novas, descobri em quais pontos devo melhorar minha pronúncia (que, segundo dizem, é bastante boa), mas isso não foi tudo.
Ela, além de professora de croata, é socióloga. Agora lembrem que estamos falando de uma língua eslava na península balcânica, esse caldeirão de culturas, religiões e pólvora. A história dos Bálcãs pede, implora por discussões sociológicas! Imaginem o quão rica pode ser qualquer conversa entre pessoas que têm a mente aberta e se interessam por esses fenômenos, desde conversas de boteco (ou de "kafić", o correspondente aproximado em Zagreb) até esboços de dissertações. Ainda por cima, ela
morou no México, tem um conhecimento e um interesse incríveis sobre a América Latina. Talvez eu tenha falado mais do nosso país que ela do dela, mas não é tudo uma troca?
As aulas tiveram complementos inesperados: fui apresentado a doces típicos em mais de uma "slastičarnica" do centro de Zagreb e fizemos até mesmo uma visita a um supermercado onde ela me indicou alguns produtos autóctones da Croácia.
No final, um "licitar". O "liticar" é um coração vermelho decorado que é a cara de Zagreb. Diz-se que é tradição oferecer um "licitar" como símbolo de amizade. Encontram-se estes coraçõezinhos aos montes nas lojas de suvenires.
Pois o meu "licitar" eu não precisei comprar na loja, entre chaveiros e cartões-postais. O meu "licitar" eu ganhei de presente da minha professora, no último dia de aula, e vocês sabem o quanto é especial ganhar um presente assim.
Muito obrigado, professora, pelas aulas, pela conversa, pela amizade, pelo "licitar". Zagreb fica tendo, para mim, o teu rosto e o rosto de todos que conheci na cidade. Afinal, são as pessoas que dão cor às viagens, aos lugares, à vida.
Antes de viajar, pensei em aproveitar para procurar alguma escola para estrangeiros, mas me frustei, nada que encontrei funcionaria durante o inverno, época em que eu estaria na Croácia. Até que, já aos 45 do segundo tempo, tentei fazer mais uma busca e consegui contato com uma professora. Ela me daria lições durante uma semana.
Cheguei a Zagreb, começamos as aulas. Passamos algumas horas entre livros, exercícios e taças de "vruća čokolada" (chocolate quente) numa "slastičarnica" (pastelaria-confeitaria). Avancei um pouco no estudo da língua, aprendi palavras novas, descobri em quais pontos devo melhorar minha pronúncia (que, segundo dizem, é bastante boa), mas isso não foi tudo.
Ela, além de professora de croata, é socióloga. Agora lembrem que estamos falando de uma língua eslava na península balcânica, esse caldeirão de culturas, religiões e pólvora. A história dos Bálcãs pede, implora por discussões sociológicas! Imaginem o quão rica pode ser qualquer conversa entre pessoas que têm a mente aberta e se interessam por esses fenômenos, desde conversas de boteco (ou de "kafić", o correspondente aproximado em Zagreb) até esboços de dissertações. Ainda por cima, ela
morou no México, tem um conhecimento e um interesse incríveis sobre a América Latina. Talvez eu tenha falado mais do nosso país que ela do dela, mas não é tudo uma troca?
As aulas tiveram complementos inesperados: fui apresentado a doces típicos em mais de uma "slastičarnica" do centro de Zagreb e fizemos até mesmo uma visita a um supermercado onde ela me indicou alguns produtos autóctones da Croácia.
No final, um "licitar". O "liticar" é um coração vermelho decorado que é a cara de Zagreb. Diz-se que é tradição oferecer um "licitar" como símbolo de amizade. Encontram-se estes coraçõezinhos aos montes nas lojas de suvenires.
Pois o meu "licitar" eu não precisei comprar na loja, entre chaveiros e cartões-postais. O meu "licitar" eu ganhei de presente da minha professora, no último dia de aula, e vocês sabem o quanto é especial ganhar um presente assim.
Muito obrigado, professora, pelas aulas, pela conversa, pela amizade, pelo "licitar". Zagreb fica tendo, para mim, o teu rosto e o rosto de todos que conheci na cidade. Afinal, são as pessoas que dão cor às viagens, aos lugares, à vida.
quinta-feira, 19 de janeiro de 2012
Existe vida após um coração partido?
Zagreb é uma cidade de muitos museus. Entre eles, o mais original de que eu já tive notícia: o Muzej Prekinuth Veza ou Museum of Broken Relationships. Isso mesmo, algo como Museu dos Relacionamentos Terminados.
É fantástico. Acho que todo mundo deveria visitar esse museu em alguma fase da sua vida. Faz a gente rir bastante, chorar um pouco e, principalmente, pensar em como cuidamos das nossas relações. Eu só não recomendaria a visita a alguém que esteja emocionalmente muito fragilizado, a não ser que queira usar o museu como rito de passagem.
Muitos dos objetos ali expostos são exatamente isso: símbolos de ritos de passagem. Por exemplo, um machado com que certo alemão foi terapeuticamente destruindo todos os objetos que pertenciam à ex. Violento, eu sei. No museu há todo tipo de coisas, divididas por categorias - emotivas, vingativas, românticas, eróticas, saudosas. São objetos comuns doados por pessoas comuns, sempre com alguma história associada.
Aprende-se que os relacionamentos terminam por uma série de motivos. Incompatibilidade de interesses, distância física, desencontros, morte.
Junto a um dos objetos, a declaração: "tu me falavas de amor, tu me deixavas louca, mas o único que não querias era ir para a cama comigo. Apenas descobri o quanto me amavas depois que morreste de AIDS."
Outro objeto, o que mais me tocou, é a carta inocente escrita por um menino para uma menina que ele recém conhecera - durante a fuga precipitada de uma Sarajevo em chamas. A guerra separou os dois, que nunca mais se viram, e ela nunca pôde devolver as fitas cassetes que o menino havia emprestado (porque, na pressa, a menina não conseguira trazer suas próprias fitas).
Há uma mala ("eu sempre soube que uma pequena mala seria suficiente"), seios postiços (presente dele para ela, delicadamente convidada a usá-los durante as noites de sexo e... está explicado porque a relação terminou), vestido de noiva e livro de casamento, citação de Fernando Pessoa na parede, extratos de um "fora" em tempo real no Twitter, sangue, suor e lágrimas.
Viver é se relacionar, sangrar, suar, chorar. De alegria e de tristeza. Viver é rir e sorrir.
Recomendo.
É fantástico. Acho que todo mundo deveria visitar esse museu em alguma fase da sua vida. Faz a gente rir bastante, chorar um pouco e, principalmente, pensar em como cuidamos das nossas relações. Eu só não recomendaria a visita a alguém que esteja emocionalmente muito fragilizado, a não ser que queira usar o museu como rito de passagem.
Muitos dos objetos ali expostos são exatamente isso: símbolos de ritos de passagem. Por exemplo, um machado com que certo alemão foi terapeuticamente destruindo todos os objetos que pertenciam à ex. Violento, eu sei. No museu há todo tipo de coisas, divididas por categorias - emotivas, vingativas, românticas, eróticas, saudosas. São objetos comuns doados por pessoas comuns, sempre com alguma história associada.
Aprende-se que os relacionamentos terminam por uma série de motivos. Incompatibilidade de interesses, distância física, desencontros, morte.
Junto a um dos objetos, a declaração: "tu me falavas de amor, tu me deixavas louca, mas o único que não querias era ir para a cama comigo. Apenas descobri o quanto me amavas depois que morreste de AIDS."
Outro objeto, o que mais me tocou, é a carta inocente escrita por um menino para uma menina que ele recém conhecera - durante a fuga precipitada de uma Sarajevo em chamas. A guerra separou os dois, que nunca mais se viram, e ela nunca pôde devolver as fitas cassetes que o menino havia emprestado (porque, na pressa, a menina não conseguira trazer suas próprias fitas).
Há uma mala ("eu sempre soube que uma pequena mala seria suficiente"), seios postiços (presente dele para ela, delicadamente convidada a usá-los durante as noites de sexo e... está explicado porque a relação terminou), vestido de noiva e livro de casamento, citação de Fernando Pessoa na parede, extratos de um "fora" em tempo real no Twitter, sangue, suor e lágrimas.
Viver é se relacionar, sangrar, suar, chorar. De alegria e de tristeza. Viver é rir e sorrir.
Recomendo.
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