sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Cidade Maravilhosa, Cidade Olímpica


O brasileiro, acima de tudo, é emoção. Isto ficou claro, hoje, na apresentação realizada em Copenhague. Enquanto o discurso das outras candidatas olímpicas apelava para a razão – tecnologia, investimentos em estrutura, condições logísticas – o Rio de Janeiro apelava para o coração. Os argumentos mais fortes foram os menos palpáveis: a ausência de edições anteriores dos jogos na América Latina, a festividade e a nossa fama (justificada ou não) de povo receptivo e simpático.
E então o suspense, a apoteose e o êxtase. Como na apuração dos desfiles de escolas de samba, a leitura do envelope desencadeou reações na cidade inteira e no país inteiro. Reações diversas (o apoio à candidatura foi grande, mas não unânime) com um ponto em comum: a emoção. Uns faziam muxoxo, outros fechavam a cara. Muitos festejaram na praia, gritando, dançando e cantando em diversos ritmos. Outros choraram.
Vejam a cena do presidente Lula chorando copiosamente, rosto afogueado, emoção incontida. Não me lembro de ter visto outro chefe de estado alguma vez numa demonstração tão profunda de emoção. Vejam a cena e digam: este cara pode ter muitos defeitos (e outras tantas qualidades), mas aí está uma reação maravilhosamente autêntica.
E merecida. Sei que ainda se vai falar muito das consequências da escolha do Rio de Janeiro, mas é fato que chegamos a um grau de reconhecimento internacional impensável há não muito tempo.
Não faltam críticas: a cidade tem problemas de transporte, de segurança, de hospedagem. E deveria ter outras prioridades. Bom, eu acho que está mais do que na hora de uma cidade que se pretende turística, e porta de entrada de estrangeiros, investir nisto tudo, e os Jogos Olímpicos são a oportunidade perfeita. Muitos dizem que somos um país corrupto e que o evento será um prato cheio para o desvio de dinheiro público. Eu não discordo, mas penso que não são os Jogos que vão agravar este problema. Se há corruptos, eles independem das Olimpíadas e precisam ser enfrentados com ou sem Jogos. Mais do que isso: se há corrupção e desonestidade, é preciso pensar: não estará ela em todos os níveis? Não somos um país democrático? Os “políticos” são a representação de toda a população. Por que seriam uma classe à parte? Não concordo com a atitude que muitos têm de lavar as mãos, atirando para “os políticos” a responsabilidade de todos os nossos problemas. Se há corrupção, ela é responsabilidade nossa. Pensemos nisto.
Mas não deixemos de pensar, também, que não se chega à toa ao ponto em que chegamos: a cidade e o país aclamados por representantes do mundo inteiro. Merecemos, sim, a festa. Eu, particularmente, adoro receber amigos em casa. Pois que venham, a festa está marcada: Rio de Janeiro, 2016.

4 comentários:

Maggie disse...

Parabéns! Pelo texto e pelas Olimpíadas! Eu chorei a ver o Pelé chorar. O Brasil merece, vocês como povo, positivo e sempre alegre, apesar de todas as dificuldades, tb merecem e a "cidade maravilhosa" tb merece. Pode ser uma forma de melhorar o que de menos bom essa cidade ainda tem. Quanto ao resto, o que escreveste neste teu texto, estando de fora, concordo plenamente contigo. Numa democracia, todos nós somos responsáveis.

Não resisto a terminar com um "Deus é brasileiro!", desta vez foi, embora por vezes esteja um pouco distraído.

Abraço transatlântico!

Mulher na Janela disse...

Caro Eduardo, vivenciamos mesmo um grande momento no Brasil... e apesar de todas as críticas ao complexo espaço que é o Rio de Janeiro, com todas as suas contradições inegáveis, acredito que só temos a ganhar com os investimentos que serão feitos e que, ao final de tudo, ficarão para o usufruto da população.

Bom demais de ler seu texto!

Bom conhecer esse espaço...muito grata pelo generoso comentário lá no B7C!

Beijos...

Juan Sebastian Ruiz Acero disse...

E agora Edu? Qual é teu ponto agora que passaram as Olimpíadas?

Eduardo Trindade disse...

Caro Sebastián, eu vinha mesmo escrevendo sobre isso. Aqui está:
http://cartas.edutrindade.com/2016/09/os-jogos-olimpicos-dentro-de-casa.html
Aliás, já tínhamos conversado. Eu gosto muito do clima desses grandes eventos! São raras as oportunidades que temos de ver tanta gente de tantos lugares diferentes, não é?