domingo, 3 de fevereiro de 2013

Primeiras Impressões da Terra do Gelo

Ah, Islândia! Chegamos já quase no final do dia - nessa época, às 18h já é noite escura. A temperatura até que estava agradável: 4 graus, acima da média e da minha expectativa.
Uma das primeiras coisas que chamam a atenção é a língua, um emaranhado de símbolos e de sons difícil de decifrar (e mesmo de pronunciar). A segunda coisa que chama a atenção é quando se abre uma torneira. Não a água fria, que dizem vir diretamente das geleiras e que é a mais pura da Europa, melhor que muita água mineral; deve até ser. Mas a água quente... Eles dizem que também é potável. Porém, vem diretamente do subsolo vulcânico da ilha, então é bem quente e - principalmente - tem um cheiro de enxofre que impregna todo o ambiente! A sensação de aspirar o ar enquanto se toma um banho de chuveiro é indescritível! Dizem que a gente se acostuma com algumas semanas, mas não teremos tanto tempo.
Uma das iguarias da Islândia é hverabrauð, uma espécie de bolo assado tipicamente em buracos na terra, aproveitando a energia geotérmica. Achamos um supermercado onde compramos coisas para o nosso jantar, incluindo uma bandeja de hverabrauð. O negócio vinha com instruções vagamente incompreensíveis para ser colocado no forno. Resolvi aquecer no microondas, o único forno disponível. Bem, o tal hverabrauð parece ser bem gostoso... quando assado. O que acabamos comendo estava cru! Mas pelo menos sei que preciso dar um jeito de manter os próximos em alguma condição que simule o calor do interior de um vulcão antes de comê-los.

domingo, 18 de novembro de 2012

Puerto Iguazú

E já que a fronteira é tríplice... Como perder a oportunidade de visitar o terceiro país em três dias? A programação, quase implícita, estava feita: tomaríamos um ônibus em Foz que cruzasse o rio Iguaçu e desceríamos na Argentina (um trajeto que duraria, quando muito, uma hora). Então, conheceríamos a cidade de Puerto Iguazú, sem preconceitos nem expectativas.
O que sabíamos de Puerto Iguazú: lá fica o parque argentino das cataratas (porém longe do centro; como não tínhamos tempo e já havíamos estado no lado brasileiro, tomamos a difícil decisão de não visitá-lo) e lá também tem um grande duty free shop, que planejamos visitar na volta.
Rio Paraná separando a Argentina do Paraguai.
E aqui a introdução que ditou o tom pitoresco do dia. A pousada em que estávamos em Foz do Iguaçu era tocada por um casal de argentinos: a Maria, simpática e sorridente (daquelas pessoas que a gente custa a acreditar que podem sorrir tanto, o dia inteiro, e com tanta espontaneidade), e o Luis, sempre solícito, atencioso e cheio de dicas para dar. A questão é que o Luis era atencioso demais e as dicas soavam quase como imposições. De manhã cedo: o que pretendem fazer hoje? Tal coisa. Ah, mas tal coisa não é bem assim, melhor é fazer aquilo outro.
Pois é... É bom ter alguém que conhece o lugar e que tenha alguma informação que economize tempo ou dinheiro, mas eu gosto de escolher por conta própria! Já na primeira noite, pedi algumas sugestões de lugar para jantar, e o Luis falou de uns tantos restaurantes. Perguntei sobre um outro que tínhamos visto cujo preço era um terço das indicações dele. No, no, no, torceu a cara. Um pouco por birra, resolvemos contrariá-lo indo justamente no restaurante barato e, quer saber? não nos arrependemos.
Dessa vez, já quase saindo, o Luis nos perguntou para onde iríamos. Ouvindo que planejávamos visitar Puerto Iguazú, começou o discurso. Que tínhamos escolhido o dia e a hora errada (para não dizer o destino errado). Que, como era domingo, as ruas estão vazias e as lojas fechadas, iríamos encontrar uma cidade-fantasma de faroeste e voltar dizendo que ele tinha razão. Que melhor seria ir ao parque. Ou ir no final do dia, quando há uma feira na cidade, poderíamos ver e comprar coisas, todo mundo vai para lá visitar a feira. Que isso, que aquilo...
Abaixamos a cabeça e não nos demos ao trabalho de explicar que nossa intenção não era comprar coisas, apenas queríamos conhecer a cidade, não é sempre que se pode escolher "em que país vou passar o dia hoje?" apenas cruzando pontes. Lá fomos nós a Puerto Iguazú.
Verdade que a cidade (pelo menos no centro) não é lá muito bonita. Pareceu um tanto empoeirada, com cor de barro. Uma pequena vila esquecida nos confins da república, não uma fervilhante cidade de fronteira (como é o caso de Ciudad del Este, no Paraguai). E, sim, Puerto Iguazú estava tão vazia quanto tinha previsto o Luis: faltava apenas algumas bolas de feno passarem rolando. Brincando, chegamos a cogitar que ele, tal qual os antigos traficantes cariocas, teria dado alguns telefonemas mandando fechar o comércio da cidade, pois estávamos indo para lá... Não demos o braço a torcer e saímos caminhando, a começar pela margem do rio - ou melhor, dos rios, o Iguaçu (fronteira com o Brasil) e o Paraná (fronteira com o Paraguai).
Aos poucos, porém, algumas lojas foram abrindo as portas, encontramos um mercado (lá fui eu angariar mais erva-mate para minha "coleção"), o movimento de gente nas ruas deu um salto gigantesco - onde antes só se viam duas pessoas (nós, os dois brasileiros a perambular por Puerto Iguazú) já devia ter uma meia dúzia, de vez em quando acontecia até a extravagância de um carro passar pela avenida central. Vimos o povo saindo de uma igrejinha e concluímos que as famílias da cidade e dos arredores deviam estar todas reunidas lá.
Quando os ponteiros do meu relógio se aproximaram do meio-dia, quisemos almoçar para depois seguir caminho. Mas os restaurantes que víamos estavam vazios, para não dizer fechados. Ora, como pode? As pessoas também almoçam aos domingos, não? Por fim, achamos um lugar que, embora vazio, tinhas as portas abertas (lá dentro, terminavam de varrer o chão e de arrumar as mesas), entramos e acabamos comendo uma pizza.
Depois, saímos novamente a caminhar, percorrendo os cerca de dois quilômetros que nos separavam da fronteira (nosso único verdadeiro erro: o dia estava muito quente e quase derretemos debaixo do sol!). Cruzamos a alfândega a pé - aqui sim ganhamos carimbos nos passaportes, diferentemente do que aconteceu no Paraguai - com uma sensação bastante curiosa, de novidade para quem está acostumado a visitar países de avião ou, quando muito, de ônibus ou carro. Ainda iríamos caminhar alguns metros até o duty free (não tão grande quanto eu pensava, mas bonito e, o melhor de tudo, com ar condicionado!) e foi então que uma súbita explicação me ocorreu. Ao contrário do Brasil, a Argentina não estava no horário de verão! Tínhamos chegado realmente cedo a Puerto Iguazú, num dia de domingo, e quando procuramos um restaurante ainda não era 11 horas para eles, embora para nós já estivesse perto do meio-dia... Não espanta que tenhamos tido dificuldade para achar um lugar aberto!
Enfim, no final voltamos de ônibus para Foz do Iguaçu. A verdade é que, a despeito de tudo, tínhamos nos divertido. A única coisa que eu não queria, ao chegar da pousada, era topar com a cara de triunfo do Luis a nos perguntar o que tínhamos achado de Puerto Iguazú. Bem, o Luis estava ocupado com algum outro hóspede e mal nos viu entrar. Mas quer saber? Tínhamos aproveitado muito bem o dia.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Ciudad del Este: o passeio da família brasileira

Claro que, estando em Foz do Iguaçu, não perderíamos a oportunidade de cruzar a fronteira com o Paraguai. A famosa Ponte da Amizade! Impossível não lembrar de todas as histórias de gente que ia fazer compras no Paraguai, de gente que fazia encomendas, de gente que ganhava a vida cruzando o rio... e das bugigangas que podiam até ser de qualidade duvidosa, mas eram o máximo num mundo pré-globalizado e pré-compras-pela-Internet. Hoje já não se fala tanto em viagens de compras ao Paraguai, mas basta um pulo em Foz do Iguaçu para perceber que o lado de lá da ponte continua bem concorrido.
O curioso, porém, é que fomos sem estar particularmente interessados em mercadoria alguma. Queríamos conhecer a ponte, a cidade, ver o movimento. O que pensávamos trazer? Carimbos nos passaportes! Para mim, seria o vigésimo-segundo país visitado: uma marca e tanto!
Lá vamos nós diante da ponte, cruzar a fronteira. Vemos gente que vai e vem, sacolas, ônibus, motos. Gente, gente, gente. Entre eles, vamos a pé, e logo descobrimos que essa foi a decisão acertada: deixamos para trás os ônibus e automóveis que se espremem num tedioso, barulhento e enfumaçado congestionamento. Na alfândega do lado brasileiro, ninguém nos para. Tampouco no lado paraguaio. Nada de carimbos nos passaportes! Essa fronteira é, definitivamente, uma bagunça.
Eis Ciudad del Este. Avançamos umas tantas quadras ao longo de uma grande rua de comércio, entre camelôs e lojas populares. Uma espécie de 25 de Março misturada com Uruguaiana. Quando as lojinhas parecem escassear e a cidade de verdade começa, julgamos que chegamos simbolicamente ao Paraguai e, na falta de carimbos da alfândega, brindamos com um aperto de mãos.
Já é tarde e ainda não almoçamos. Como temos fome, resolvemos entrar num shopping para comer. Num shopping principalmente porque ali as chances de aceitarem cartão de crédito são maiores. Eu fora ao Paraguai despreocupado: sem um níquel da moeda local e sem saber sequer a cotação dela. Arriscamos um lugar na praça de alimentação que anuncia asaditos - são uns espetinhos de carne e de queijo. Antes de pedir, pergunto qual o tamanho dos espetinhos, que custam 3 mil guaranis cada um. O atendente responde com uma risada franca dizendo que não são muito grandes, como eu posso perceber pelo preço. Ele não imagina que eu não tenho ideia de quanto vale um guarani. Pergunto quantos asaditos alimentam uma pessoa, ouço que uns três ou quatro. Peço quatro asaditos para duas pessoas, mais uma porção de arroz, outra de salada e outra de batatas fritas. A porção de batatas fritas custa 15 mil guaranis, o que, pela lógica dele, faz supor certo grau de fartura. O menu também oferece sucos Caricia, resolvo experimentar, pergunto de que sabor é o suco e tenho como resposta: ora, é suco Caricia.
Sentamo-nos. A espera demora mais do que se poderia supor. O suco Caricia está em falta, então acabamos trocando o pedido por um refrigerante. O balconista entrou por uma porta e voltou com avental de cozinheiro. Mais adiante, senta outro casal. A comida deles vem antes da nossa. Dali a pouco vem o balconista-cozinheiro-garçom e traz as porções de arroz e de salada e dois espetinhos. Digo que tínhamos pedido quatro, ele pede desculpas e vai correndo conversar com o casal da outra mesa, aparentemente metade do nosso pedido foi parar lá por engano. Vêm os espetos que faltavam e também um outro pedido de desculpas porque as batatas ainda não estão prontas.
Terminamos nosso frugal almoço sem ver a cor das batatas. Levanto-me para pagar, torcendo para que aceitem cartão de crédito. Quando mostro o cartão, o balconista-garçom-cozinheiro-caixa faz cara de quem vê pela primeira vez aquele objeto estranho, dá de ombros e, sem uma palavra, deixa claro que terei de pagar em dinheiro ou lavar pratos. Felizmente trabalham com moeda brasileira. Diante da conta irrisória (11 reais para duas pessoas, bebida incluída), o que comemos já não me parece tão pouco. Saímos, tomamos um café e seguimos a exploração de Ciudad del Este.
Próxima parada, um supermercado (faz parte de meus rituais, a cada lugar diferente, visitar um supermercado). Lá começamos nossa faina de compras no Paraguai - entre outras coisas, erva-mate e (por puro impulso) um pacote do famoso suco Caricia, que afinal nada mais é do que um desses pós para refresco artificial.
Seguimos. Aos poucos, quase sem perceber, somos tomados por uma (quase) inocente febre consumista. Um perfume, cosmético, garrafa de espumante, garrafa de pomelo, cuia de mate. Uma mala, mais do que apropriada para colocar tudo isso dentro. Nada que chegue a comprometer nossa cota ou a nos classificar como muambeiros inveterados. Mas, entre o vaivém de gente com sacolas, descobrimos que as compras no Paraguai fazem parte da diversão de se visitar esse lugar.
O dia vai chegando ao fim, faz calor e estamos empapados de suor, é hora de voltar. Vamos na direção da ponte através do longo camelódromo, é impossível arrastar a mala num lugar assim, então carrego-a na mão. Eis a alfândega paraguaia (adeus Paraguai, adeus esperança de carimbo!), a Ponte da Amizade (não resisto e faço uma foto incorporando todo o meu espírito muambeiro recém adquirido), a alfândega brasileira (uma rápida olhada na mala e nos deixam passar, enquanto os ônibus, carros e motos esperam na fila). Tomamos um ônibus que desce a duas quadras da nossa pousada. Já longe do burburinho, antevendo um bom banho, dou-me ao luxo de largar a mala no chão e começar a arrastá-la. Uns poucos metros e... plof! Uma das rodinhas se solta e vai parar na sarjeta. Incrédulo, não consigo sentir raiva e começo a rir. Ah, a mala paraguaia! Precisava ser assim tão fiel à fama das mercadorias do seu país? Não durou nem uma viagem! Pelo menos nos divertimos. E, para que não tivéssemos dúvidas das lições aprendidas, quando depois, já chegando no Rio, retiramos a mala da esteira de bagagem, ela tinha perdido outra das rodas - nunca mais comprar mala de barbada numa rua do Paraguai, a não ser que esteja com vontade de me sentir numa cena de filme pastelão. Pelo menos demos boas risadas, afinal mais vale uma mala sem rodas que outra sem alças.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Planeta Água

Como assunto para histórias de viagens, as cataratas do Iguaçu são decepcionantes.
Antes que me atirem pedras, eu explico: histórias de viagens se sustentam com causos divertidos, pitorescos, engraçados. Com programas de índio. Com a pequena desgraça alheia ou, melhor ainda, com a pequena desgraça de quem conta o causo. E acontece que não vivi nada disso nas cataratas.
Lugares bonitos, em geral, não rendem boas histórias. Não se fisga leitores ou ouvintes com descrições da natureza ou da arquitetura. Menos mal, para a sobrevivência das cataratas nessas Cartas, que existem as fotos.
As cataratas do Iguaçu são esplêndidas! Não confiem somente em mim; vejam as fotos! Um lugar daqueles talhados à perfeição. Nem é preciso dizer muito. Acrescento apenas, quase à guisa de legenda, que não nos contentamos com vê-las de perto e do chão: fizemos um sobrevoo de helicóptero. Valem ainda mais a pena vistas do alto, e olhem que eu normalmente prefiro ter meus pés na terra (ou no mar).
De perto, molha-se mais do que eu pensava (saímos ensopados). Do alto, sacoleja-se um pouco, mas isso faz parte da emoção do passeio.
No coração do planeta água.
Histórias do passeio? Não muitas, confesso. Mas, para o bem do blogue, elas vieram no dia seguinte, fazendo de um roteiro quase prosaico um dos mais divertidos dos últimos tempos. Conto em breve!
Uma visão quase geral das cataratas, entre Brasil e Argentina.


Garganta do diabo vista do alto!
Um dos muitos quatis que habitam o parque.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

História de bola rolando

Estádio Centenário, Montevidéu
O destino quis que uma das minhas mais divertidas e memoráveis experiências em estádio de futebol fosse no Uruguai.
Eu e a Renata passaríamos uma semana no país vizinho. Tendo tempo e disposição, surgiu a ideia de aproveitarmos a boa fase do futebol uruguaio e a coincidência de que uma partida do Peñarol pela Copa Libertadores estava marcada para aqueles dias.
É bom que a dimensão disso fique clara. O aurinegro Peñarol é time simpático aos nossos anfitriões. Estes são apaixonados por futebol. E o jogo seria no Estádio Centenário, especial por vários motivos: pela própria arquitetura do estádio, que tem mais de 80 anos; por ter sido o privilegiado palco da primeira final de Copa do Mundo (uma vitória do Uruguai sobre a Argentina); e, no plano pessoal, por ter sido aonde, quando criança, eu acompanhara um grande e saudoso amigo uruguaio.
Desta vez, quem nos acompanharia seria o Guillermo, filho daquele amigo, e sua esposa Claudia, simpaticíssimos ambos. Tudo acertado, ingressos comprados com antecedência, combinamos de nos encontrarmos no dia do jogo. Então, logo no começo do grande dia, a Renata vira para mim e fala o que eu talvez já estivesse pensando e não tinha me dado conta: o divertido mesmo é irmos com a camisa do time, não? onde podemos comprá-la?
Dito e feito. Fomos aos arredores do estádio (que fica dentro de um dos belos parques de Montevidéu) e encontramos onde comprar camisas do Peñarol. Mesmo sem conhecer um jogador sequer do time, lá fomos nós orgulhosos com nossas aquisições, que ostentavam o nome Núñez, número 8, nas costas.
Bola da primeira final de Copa do Mundo
Confesso que, ao entrar no estádio, estava feliz como criança que vai ao circo. Eu não guardava praticamente nenhuma lembrança do Centenário - eu era pequeno demais na última vez que tinha estado lá, mas lembrava que o tio Pepe tinha estado do meu lado, e isso bastava para me emocionar. Além disso, percebi no estádio um ar de saudosismo que mexia comigo. Aquela construção antiga e robusta era em tudo diferente dos estádios brasileiros a que eu estava acostumado. Nas arquibancadas em meio a curiosas plantas aqui e ali, no público com mate a tiracolo (cena que também era comum em Porto Alegre há alguns anos, mas hoje proibida do lado de cá da fronteira), na proximidade com o campo. Estávamos na Platea América, colados ao gramado na altura do círculo central: o mesmo local que o tio Pepe costumava frequentar, informa orgulhosamente o Guillermo.
Quando a bola rola, acompanhamos a torcida em sua cantoria: a música, que vai desde uma versão de Ilariê até tímidos palavrões, lembra, como todo o resto, um futebol de outra época. Apenas nos decepcionamos um pouco ao notar na escalação a ausência do Núñez, que estampava nossas camisas. Uma pena, ainda mais que o tal Núñez deve ser realmente querido, porque pelo menos metade do estádio tem camisetas com o nome dele nas costas. Baita desfalque.
Quando o jogo vai para o intervalo, ainda com o placar em branco, eu aproveito para comprar um bom churros uruguaio de um ambulante. A partida recomeça e então é só alegria: gol do Peñarol! O estádio explode, e nós com ele, cantando Y ya verán, ¡la Copa Libertadores vamos a ganar!
Ingressos para a partida e para o museu
O placar fica nisso, o que é suficiente para a torcida aurinegra. Mas nós ainda teremos uma epifania quando a Renata, tão intrigada quanto eu, chama a minha atenção para o fato de que aparentemente todos os jogadores têm Núñez escrito nas costas. Até o goleiro!? Pergunto ao Guillermo: quem é o Núñez? ele está jogando? A resposta óbvia: Núñez é o nome da empresa de ônibus que patrocina o time!
Réplica da Taça Jules Rimet
Mesmo que a experiência futebolística daquela noite tenha sido, na minha opinião, praticamente completa, ainda tivemos mais no dia seguinte. Com a confiança de quem sabe o nome do patrocinador do time e, mais ainda, tendo descoberto que o camisa 8, ídolo do Peñarol, se chama Pacheco, voltamos ao estádio. Não é dia de jogo, mas nosso interesse agora é visitar o museu do futebol que fica lá. E que bela visita! Certo, os "museus do futebol" têm ficado mais comuns, mas não sei se algum outro merece esse nome tanto quanto o do Centenário, em Montevidéu. Lembrem que estamos falando da cidade onde começou a Copa do Mundo. Já na entrada, a pessoa que nos recebe chama a atenção, com um orgulho uruguaio quase ingênuo, para o desenho dos nossos ingressos: são cópia dos ingressos para a famosa primeira Copa. No museu estão bolas de partidas históricas, camisas, troféus originais ou réplicas... E o mesmo ar de saudosismo que eu já tinha experimentado na noite anterior. O passeio se encerra com nova visita às arquibancadas do estádio, desta vez vazio. Mas não completamente: meus ouvidos parecem captar daquelas arquibancadas um eco de muitos anos de sons, gritos, cantos. No meio desse eco está a voz do tio Pepe e, agora mais do que nunca, também a nossa.

sábado, 7 de julho de 2012

O que o Peru e o Maranhão têm em comum?

Refrigerantes!
Quem pisa no Maranhão dificilmente vai embora sem reparar no guaraná Jesus - rosada e dulcíssima instituição local que, dizem, é mais popular que a Coca-Cola naquelas paragens.
Lembrei disso quando ouvi, em Lima, que o refrigerante mais consumido do Peru é a Inca Kola, cor amarelo brilhante, sabor tão doce quanto o similar maranhense... ou quanto um punhado de balas de tutti frutti.
Há quem adore e não consiga viver sem; há quem deteste. Eu, que são sou fanático por refrigerantes, não perdi as oportunidades que tive de provar um e outro, justamente pelo que têm de inusitado. Sabores como esses ajudam a criar histórias, nem que seja por causa das risadas que inevitavelmente provocam quando relembramos aqueles momentos (ah, a cara do garçom orgulhoso da especialidade local enquanto olhávamos para ele mais do que desconfiados daquelas bebidas estranhas!).
Se a Inca Kola é uma refrigerante obviamente industrializado, um outro símbolo peruano que pode ser produzido artesanalmente é a chicha morada - espécie de suco de milho roxo (sim, milho roxo!) com temperos. Claro que também provei dela, mas confesso que foi um pouco mais difícil mandá-la goela abaixo - falta de paladar treinado ou de gosto adquirido, talvez - o que não me impediu de trazer para casa um envelopinho de chicha morada em pó.
Outros lugares também têm os seus sabores marcas-registradas, alguns com evidentes referências (anti?)globalizantes. Nos países da ex-Iugoslávia, é a Cockta, refrigerante de cor escura e rótulo vermelho, que fiquei imaginando que seria uma alternativa nacional à Coca-Cola em tempos de regime comunista. O sabor tem sim um quê de coca-cola, mas com um fundo amargo que me desagradou - mais uma vez faltou, talvez, o tal gosto adquirido.
Na ilha de Malta, provei um dos refrigerantes de sabor mais exótico que conheço: Kinnie, que lembra uma mistura de água tônica e guaraná e tem a cor deste último. Aprovado.
E, claro, no Uruguai experimentei várias vezes os refrigerantes de pomelo, no começo achando-os ácidos e amarguíssimos, depois apaixonado pelas lembranças que eles me evocavam. Gosto adquirido.


sábado, 16 de junho de 2012

Eppur si muove


Esfera armilar
E é gratificante que esteja em movimento - o planeta, a mente, a nossa capacidade de descobrir, criar e ir além.
Uma das boas surpresas que Florença me reservou foi o Museu Galileu (Museo Galileo), prato cheio para qualquer viajante interessado por ciência. Como é o meu caso.
Embora leve apropriadamente o nome de Galileu, o museu vai muito além de ser dedicado apenas ao homem que é considerado um dos criadores do método científico. Verdade que não faltam instrumentos e dispositivos criados ou imaginados por Galileu. Mas, mais do que isso, trata-se de um museu sobre a história da ciência. E eu não me lembro de história mais fascinante que a da evolução do conhecimento humano.
Estando localizado onde está, é claro que a primeira referência teria de ser o próprio Galileu Galilei, filho ilustre da Toscana. Impossível não lembrar que ali perto, em Pisa, foi feito o famoso experimento que demonstrou que objetos em queda têm a mesma aceleração, independente de sua massa. Difícil não se emocionar vendo os próprios telescópios que deram ao homem uma visão mais clara do seu lugar no universo.
E então se vai além: no museu há uma infinidade de engenhosos sistemas mecânicos, químicos e elétricos que permitiram aos primeiros cientistas realizar seus estudos. Esferas armilares (fundamentais à navegação séculos antes do GPS), termômetros, barômetros, relógios, calculadoras manuais... Objetos que nos fazem pensar, tão habituados que estamos a computadores e instrumentos de precisão, no quanto os recursos tecnológicos evoluíram ao longo do tempo. Vivendo numa época em que a maioria das pessoas que eu conheço inverte matrizes algébricas (sem dar por elas!) com a ponta dos dedos num teclado de computador, passei a valorizar mais quem já fazia ciência no século XVII e resolvia problemas de cálculo antes mesmo da invenção do cálculo.
Uma avó da tabela periódica
Em termo de museus, o mais famoso e badalado de Florença é, sem dúvida, a Galleria degli Uffizi, casa de impressionantes pinturas e esculturas renascentistas. Mas eu gostei foi de saber que ali perto, no Museu Galileu, reside um pouco da história da ciência. Que afinal a arte não faz sentido se não andar ao lado da ciência, e vice-versa.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Ler também é uma forma de partir. Ou de chegar.


Viajo nos livros, pelos livros e por livros. Em mais de um sentido, livros me aproximam de pessoas e de lugares.
Viagens são um tema recorrente aos livros. Livros são um tema recorrente aos viajantes.
Minhas leituras influenciaram a escolha de não poucos destinos de viagem. Saramago, de certa forma, aproximou-me de Portugal – seus livros acalentaram meu desejo de conhecer mais a fundo nossos irmãos d’além-mar. Na Espanha, senti-me um pouco Quixote e meu coração pulou quando vi moinhos. Martín Fierro me ensinou o que já era óbvio, que temos mais em comum com os argentinos do que gostam de admitir os contadores de piadas. Visitei cidades, estradas e casas instigado por autores que as descreviam.
E, em visita, colecionei novos livros.
Perdi-me em livrarias chinesas, prometendo mentalmente aprender um dia a desvendar os ideogramas das páginas que levaria na bagagem – promessa temporariamente adormecida, mas absolutamente não abandonada.
Tive um pouco mais de sucesso, ou de persistência, na Croácia e na Bósnia: aos poucos, o idioma daquela parte dos Bálcãs tem deixado de ser incompreensível e já venci mais de um livro trazido de lá.
Não tive tempo nem coragem de ousar a língua turca e, pior, deixei Istambul ao mesmo tempo cativado por Orhan Pamuk e com o coração partido por não incluir na bagagem livro algum dele. Mas sei que ainda haverá tempo para corrigir esta falha.
Librería Ruben, Montevidéu
No Brasil, tão familiar e tão imensamente rico, mergulhei com Monteiro Lobato, Erico Verissimo, Guimarães Rosa, Josué Montello, Ariano Suassuna e tantos outros. Com os cordéis do Ceará. Com os poetas de baixo do MASP, em São Paulo, e dos blogues de todos os cantos. Não canso de descobrir este país que é sempre um pouco maior que o abraço, apenas para nos fazer abrir mais o peito.
De peito aberto, visitei livrarias, sebos, feiras de rua. Em Madri, espantei-me com a velhinha que tomava conta de uma banca de livros. A pobre senhora era tudo, menos vendedora. Tinha um ciso a menos ou um quê de ciúme a mais, ciúme dos seus livros: ela literalmente enxotava aos berros quem quer que se aproximasse da sua banca.
Em Paris, ganhei de presente uma edição linda de Vinte Mil Léguas Submarinas no seu idioma original. Júlio Verne no estado mais puro. O escritor que primeiro me incentivou a ler e que antes de qualquer outro me apresentou ao mundo das “viagens extraordinárias”. Tudo porque, quando criança, descobri meus primeiros Júlio Verne nas prateleiras de certo sebo uruguaio.
Em Montevidéu, revi um antigo endereço mais de vinte anos depois, com as mesma prateleiras de livros empoeirados até o teto. Através dos livros, quando viajo, sempre sou surpreendido por um pouco de mim em alguma parte.

segunda-feira, 19 de março de 2012

Então eu fui comprar alfajores

Yo tengo pintada en la piel
la lagrima de esta ciudad.

Jorge Drexler
Tenho o péssimo hábito de deixar as coisas mais importantes para depois. Vou me dedicando ao que é menor, mais fácil, explico para mim mesmo que se trata de um aquecimento para o que vem depois... E corro o risco de muito tempo ser tempo demais. Na ânsia de fazer perfeito, acabo não fazendo.
Foi assim com minha crônica sobre Montevidéu. Quando se trata de escrever sobre minhas viagens, não faz sentido eu não falar sobre Montevidéu. E, no entanto, até agora a cidade tem passado quase em branco, alvo de uma ou outra referência, mas não das palavras que eu queria e que ela merecia.
Então me dei conta de que já era hora; vamos à crônica, saia ela do jeito que sair. Certa vez, quando eu era pequeno, a tia Nini me deu dinheiro para que eu comprasse alfajores. Sempre amei alfajores, mas naquele dia morri de medo e vergonha: o que ela queria era que eu fosse sozinho até o mercado e pedisse alfajores, numa cidade que, por mais que já começasse a me soar familiar, não falava a minha língua. Quis recusar, mas ela insistiu para que eu fosse, para que eu não tivesse medo de falar com um montevideano desconhecido ou de falar errado. Acabei comprando os alfajores e ela me abraçou, orgulhosa. Aquela foi minha primeira experiência de negócios em língua estrangeira.
Não, a tia Nini não é minha tia de verdade, mas é como se fosse. É daquelas pessoas que a gente não sabe como qualificar, porque seria pouco chamar de amiga. É a tia Nini, e pronto, quem a conhece não precisa de mais para saber o tamanho do coração por trás dessas letras.
Minhas viagens para Montevidéu, quando eu era criança, aconteciam lá e cá - claro que pegar a estrada era especial, mas igualmente especial era receber os amigos uruguaios na nossa casa brasileira. Quando íamos para Montevidéu, muitas vezes no carnaval (nosso maior feriado, afinal de contas), eu virava as noites ao lado do tio Pepe, assistindo à transmissão em espanhol dos desfiles na Sapucaí. Tio Pepe, fã do futebol uruguaio e do carnaval brasileiro, tão tio quanto a Nini. Ele que me havia tomado nos braços num dia em que eu tive medo de morrer e gritei assustado, tudo porque eu era um guri de uns cinco anos que tropeçara e dera com a cabeça numa quina de pedra, sentia o sangue escorrer e meus pais não estavam por perto. Ali nos conhecemos, eu e o tio Pepe. Ficou na testa minha única cicatriz e no peito, mais indelével ainda, uma amizade.
Quando eles vinham ao Brasil, aproveitávamos para visitar os pontos turísticos do meu estado. Gramado, Canela, algumas praias gaúchas, um minicruzeiro pelo Guaíba... Muito do que conheço do Rio Grande do Sul acabou tendo um sotaque uruguaio. Tive a sorte de passar minha infância num Brasil-Uruguai de fronteiras fluidas.
E o lado de lá acabou ficando quase tão familiar quanto o lado de cá – mas não a ponto de perder o encanto. O tempo e a minha mudança para o Rio de Janeiro ameaçaram me afastar do Uruguai mas, no final das contas, só aumentaram a vontade de voltar. Voltei. O mate uruguaio, os parques da infância, o rio que parece mar (ou será o mar que na verdade é um rio?), as feiras de rua, o doce de leite. O Estádio Centenário, as calçadas centenárias, as árvores às centenas. E as risadas, e os sorrisos, sempre os sorrisos. Mais uma vez, voltarei.

domingo, 11 de março de 2012

Little rain cakes

Uma das primeiras coisas que fizemos em Sarajevo, depois de instalados em nossa pousada, foi sair para dar uma volta e procurar um lugar onde comer. Ainda era cedo para o jantar, mas já passara bastante do meio-dia e não tínhamos almoçado.
Encontramos um restaurante pequeno (não mais que quatro ou cinco mesas), aconchegante e vazio (consequência tanto do horário quanto da época do ano). O cardápio oferecia opções que instigavam, eu já sentia água na boca e estava ansioso para provar a culinária bósnia. Concentrei-me naturalmente na página que listava as especialidades locais. Ali, havia uma opção que dizia (em inglês) doughnuts com queijo, achamos que seriam uma boa aposta para entrada ou acompanhamento. Fizemos nosso pedido incluindo os tais doughnuts, mesmo sem saber exatamente como seriam.
Quando chegou a comida, descobrimos que os doughnuts eram uma espécie de versão balcânica dos brasileiríssimos bolinhos de chuva, porém na forma de um aperitivo servido com um tipo de cream cheese. Deliciosos. Os outros pratos também estavam excelentes, assim como o clima do ambiente, mas sem dúvida os doughnuts roubaram a cena. A essa altura, já não tínhamos nas mãos o cardápio, mas ficamos tratando de fazer associações; eu não lembrava do nome bósnio daquele prato, mas sugeri que doughnut poderia ser talvez uma tradução literal. Comentamos casos engraçados em que tínhamos visto isso acontecer (um restaurante carioca que traduzia contrafilé como against-fillet...) e então saiu: "Fosse no Brasil, o nome disso seria rain cake. Aliás, little rain cake". Bolinho de chuva, little rain cake. Perfeito! Rimos um bocado, saciamo-nos, saímos de lá extasiados.
Dias depois, em Mostar, fomos a outro restaurante e lembramos de procurar little rain cakes no cardápio. Não esperávamos que estivessem com o mesmo nome de doughnuts, mas o cardápio tinha fotos dos pratos, o que facilitava nossa vida, e lá estavam eles, os little rain cakes! Em bósnio, uštipci. Pois então: garçom, uštipci! Estavam ainda melhores que os de Sarajevo, e era uma porção bastante farta (dez bolinhos para nós dois, e se tratava apenas da entrada!) com queijo até não poder mais. Foram little rain cakes antológicos (o nome já tinha pegado).
No dia seguinte, de volta a Sarajevo, tínhamos uma ideia fixa: o lugar que escolhêssemos para almoçar teria de servir little rain cakes. Um problema: havíamos, mais uma vez, esquecido o nome bósnio da iguaria. Mas não me fiz de rogado. Num lugar que anunciava algo suspeito de se parecer com os little rain cakes, eu parava e perguntava - mas eram apenas hambúrgueres. Noutro, chegamos a sentar, chamei o garçom e usei toda meu conhecimento linguístico para descrever, em bósnio, os little rain cakes e perguntar se eles tinham algo parecido. O garçom ficou um tanto em dúvida, por esse e por outros motivos (o cardápio de maneira geral não tinha nos agradado) saímos e fomos tentar a sorte noutro lugar. Caminhamos bastante, já tínhamos fome e os restaurantes pareciam se esconder de nós, até que dei de cara com uma placa em que reconheci logo a palavra mágica: uštipci! Entramos, sentamo-nos e fomos direto ao ponto. Desta vez, os bolinhos só não estavam melhores porque a porção era pequena (isto é, menor que a de Mostar). Como a oferta de queijo, neste e nos outros lugares, era sempre farta, brincamos que os bósnios calculavam mal: os bolinhos que traziam eram poucos para aquele tanto de queijo! Mas a verdade é que nos fartávamos, ainda mais quando nos lembrávamos de que, nos botecos do Brasil, não é raro servirem "porções" de apenas duas ou três unidades. O que tínhamos pela frente era little rain cakes para toda uma família! E, sendo só nós dois e só uma entrada, devorávamos todos sem dó.
A essa altura, os restaurantes bósnios devem estar sentindo falta dos gulosos brasileiros. Nós só não sentimos mais falta deles porque, bem, ontem mesmo eu fiz little rain cakes - digo, uštipci - aqui em casa. Ficaram bons, mas é verdade que precisam ser aprimorados. Não tenho muita experiência em fazer bolinhos de chuva, que dirá uštipci. Mas não chega a ser um problema: sempre é bom ter um motivo para praticar este tipo de coisa, não é mesmo?