quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Allahu akbar

Quem nunca esteve numa cidade de maioria islâmica talvez tenha dificuldade para imaginar o chamado dos muezins. Cinco vezes ao dia, a voz deles (ajudada ou não por auto-falantes) enche a cidade convocando para a oração. É muito mais notável que o sino de das nossas igrejas, porque é sincronizado - o chamado está em qualquer lugar e (dizem) também no rádio, não há como não ouvir.
Hoje atendi ao chamado dos muezins e visitei uma mesquita no momento da oração.
É uma experiência interessante, que eu recomendo a todos os que têm mente aberta. Eu já havia entrado em algumas mesquitas para conhecê-las por dentro, mas entrar para acompanhar um pouco do ritual muçulmano é outra coisa.
Primeiro, há uma fonte para as abluções, ou seja, a purificação ritual do corpo com água. Não é muito fácil se molhar assim, ao ar livre, no inverno turco!
É preciso tirar os sapatos. No caso das mulheres, é preciso também cobrir a cabeça, mas os homens estão dispensados disso (não precisam ou não devem cobrir a cabeça? Fiquei em dúvida ao lembrar da quantidade de gente com toucas e chapéus para se proteger do frio. Pois alguns homens cobrem a cabeça na mesquita, mas com uma touca simples de significado religioso.).
Entra-se na mesquita propriamente dita através de uma cortina. Uma das coisas que mais chamam a atenção é a estrita separação: homens na frente, mulheres num nicho à parte. Dependendo da mesquita, um nicho bem escondido, que não as deixa ver nem serem vistas. Mesmo entre os homens, há uma separação que não entendi bem - uns na frente, outros numa área mais ao fundo (onde procurei ficar, o mais discretamente possível). Por toda a volta, pequenas prateleiras de madeira onde os fiéis colocam os sapatos.
De vem em quando, algum atrasado chega apressadamente e se junta aos outros. Lá na frente, um imã faz a oração em voz alta. No meio das suas palavras, reconheço o tempo todo "Allahu akbar" - Deus é grande. É a senha para todos se prostrarem. O tempo todo fica-se ajoelhando, prostrando-se, levantando-se. O imã não está de frente, mas de costas para os fiéis. Todos voltados na direção de Meca, certamente.
Da decoração da mesquita, muita coisa chamou minha atenção. O tapete, quente, cobrindo todo o chão como um consolo aos nossos pés descalços. Ao lado do "mihrab" (o nicho onde se posta o imã), um relógio de pêndulo, desses que estamos acostumados a ver na casa da avó mas não num templo religioso. Mais atrás, ao lado de onde eu estava, uma estante de livros - detalhe simpático, nem sempre os livros ganham a posição de destaque que merecem.
Aliás, a recepção aos não-muçulmanos varia, dependendo de uma série de fatores, da indiferença à simpatia. Não me atrevi a visitar um templo imponente como a famosa Mesquita Azul na hora da oração. Numa mesquita menor, considero que fui mais bem recebido do que esperava, por um senhor que me indicou onde eu deveria ficar e corrigiu uma gafe que quase cometi (ao não saber onde largar os sapatos). Quando saí, agradeci a ele em turco, usando uma das poucas palavras que aprendi nessa língua. Ele sorriu e respondeu também em turco, não entendi nada, mas sorri também.
No final das contas (e de uma cerimônia muito mais curta que uma missa católica), só fiquei com pena das mulheres, separadas sem poder ver nada. Mas suponho que estejam acostumadas e que elas enxerguem algum sentido nisso. Este momento, para os muçulmanos, parece mais uma culto individual que uma cerimônia coletiva em que se vê e é visto, tanto que, ao final, as pessoas vão saindo aos poucos, cada uma no seu momento.
Mas sabe o que foi que eu fiquei pensando? É que todo padre devia entrar em uma mesquita de vez em quando. Assim como todo imã devia entrar em uma igreja.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Um samovar

Quando escrevi a crônica anterior, sobre os bazares, acabei não detalhando o objeto que comprei porque percebi que isso seria toda uma outra história. Pois, um samovar.
Em termos de praticidade de transporte, um samovar é algo assim como um berimbau com uma jaca de brinde. A legitima mala sem alça.
Eis a foto de um samovar. Não é o meu, o meu está envolto em plástico-bolha dentro de uma sacola do tamanho da minha mala.
Um samovar é um utensílio originário da Europa Oriental e da porção ocidental da Ásia, particularmente presente nas culturas russa e turca. A utilidade de um samovar é preparar e servir chá.
Um trambolho desses para fazer chá!
Para fazer do chá um ritual, eu diria. E eu gosto disso. Tenho gostos inusitados, incluindo gosto por "lembranças" um tanto surpreendentes.
Os samovares tradicionais funcionam a carvão. O meu aceita carvão, mas alternativamente pode ser ligado na eletricidade - acabo de lembrar que a voltagem aqui é diferente da do Rio, ou seja, terei de comprar um adaptador assim que chegar, mas isso é o de menos.
Claro que, enquanto negociava o samovar, eu pensava nele decorando minha sala, esquentando o chá que servirei às visitas assim que voltar para casa e até mesmo aquecendo a água do chimarrão. Nessas horas, ninguém pensa nas possíveis dificuldades de se atravessar três continentes com um troço desses a tiracolo. Claro que não pensei nos sete voos, três ônibus e um trem que ainda vou ter de pegar. Vai ser engraçado.
Agora, estou apostando pelo menos na possibilidade de usar um armário alugado no aeroporto de Istambul. Isso me pouparia de carregar o samovar em quatro voos internos, o que já é bastante coisa.
Depois, só vou torcer para que ele chegue inteiro ao Brasil. Alguém aí vai querer chá?

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Uma experiência no Grand Bazaar

Ao que parece, uma imersão na cultura de Istambul, para ser completa, deve incluir uma ida ao Grand Bazaar, o principal (e tradicionalíssimo) local de compras da cidade. Pois lá fui eu, porto-alegrense curtido em anos de visitas ao Brique...
Valeu-me mais meu aprendizado prévio em termos de compras na China e, principalmente, na Índia. Não que o Grand Bazaar seja caótico como a Índia; achei-o até relativamente organizado perto do que eu esperava (mas não se compara com nenhum "shopping center", claro).
O que logo se percebe, no entanto, é que fazer comprar no Grand Bazaar envolve todo um ritual - e por isso não é exagero chamar a ida às compras de experiência. Pois experimentemos, mas com certo método, como convém ao lugar.
Primeiro, um volta como quem não quer nada, tirando fotos e escolhendo discretamente o que comprar.
Ao abordar um vendedor (ou, mais provavelmente, ser abordado por ele), já sei que o ritual teve início. Ele pergunta de onde sou, respondo que do Brasil, ele capricha no português para dizer "oi, tudo bem?" Pergunto quantas línguas ele fala, ele me diz que nove - fora o português, que está recém aprendendo.
O vendedor convida para sentar e oferece chá. Faz parte da experiência, sempre vão oferecer chá, quer eu compre ou não. É curioso, aliás, que o serviço de chá seja terceirizado: o chá não é feito na loja, mas vem trazido de bandeja por alguém chamado discretamente pelo vendedor. Em todo o bazar os entregadores de chá andam para lá e para cá.
Depois de jogar conversa fora, de dar uma olhada no produto e de fazer algumas perguntas sobre ele, vem o momento crítico: pergunto o preço.
Nessa parte, é importante saber pechinchar, o que inclui ter coragem para baixar o preço pedido pela metade. Se ele me diz que custa 200 liras, ofereço 100. Ele diz que a mercadoria vale 500, elogia o material, ressalta que é feito à mão... Ofereço 120 e ressalvo que não pago mais que isso. O vendedor diz que gostou de mim e é meu amigo, que insiste em fazer negócio comigo, sugere 150. Insisto nos 120, e mais, quero pagar com cartão. Ele momentaneamente se vira para receber outro cliente, oferece chá etc., então volta para mim: 150? Eu respondo: 120. Ele faz um gesto com a cabeça, chama um ajudante para ajudar a embalar, passa o cartão, aperta minha mão efusivamente, dizendo que foi um prazer fazer negócio comigo.
Bem, não sei se aquilo valia 100 liras, saio com a forte impressão de ter pago mais caro do que devia... Mas ainda é barato para os padrões brasileiros e, afinal, não tinha mesmo jeito: eles têm uns 2000 anos de experiência na arte de negociar, nós temos 500 anos de experiência na arte de ceder ouro em troca de espelhinhos.
Um pouco depois, vou ao Bazar das Especiarias. Esse, sim, é mais assustador. Os gritos sugerem que logo alguém vai sair esfaqueado, parece uma briga feia, mas trata-se apenas dos pregões dos vendedores.
Se lá no Grand Bazaar se tratava de compras grandes e médias, aqui se trata das coisas menores do dia-a-dia: queijos, peixes, castanhas, tâmaras, pistache, chás, doces, temperos... Especiarias, claro. Não quer dizer que também não haja colares, roupas, utensílios domésticos... Mas quer dizer que há muito mais gente e, principalmente, mais turcos (ou seja, menos turistas). Compro chá. Desta vez não tive tanta paciência para pechinchar, em compensação foi bem mais barato. De qualquer maneira, saio com a impressão de que, se existe um paraíso para compras, ele fica em Istambul. E, se existe um inferno para compras, também fica no mesmíssimo lugar.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Aromas de Ocidente e Oriente

Nós, seres humanos, não somos preparados para lidar com o desconhecido. Confesso que, quando tomei a decisão de vir para a Turquia, fiquei empolgado, mas também um pouco apreensivo. Apreensão que só crescia quando tomei o avião e quando sobrevoei o Mármara, ali a uma braçada da Ásia, já na aproximação final para o pouso em Istambul.
Pois o pouco que vi da cidade até agora tem me conquistado. Istambul é... difícil impor um veredicto a uma cidade, qualquer que seja ela. Sou tentado a descrever Istambul assim: é uma Roma com aroma de especiarias. Quero dizer, uma cidade que transborda história e que, além disso, possui um tentador toque de exotismo sem, no entanto, passar da conta.
Afinal, quantos países podem se dizer uma democracia laica de maioria muçulmana?
Quantas cidades já mudaram tantas vezes de nome e de tradições, mas sempre tendo papel de protagonista na História?
Quantas cidades podem dizer que abraçam dois continentes, não apenas geográfica, mas também culturalmente?
A primeira coisa que chamou minha atenção foram os minaretes das mesquitas. Depois, o intrincado quebra-cabeças da língua turca (não estou acostumado a viajar para um lugar em que não conheço o idioma). Às 18h, os muezins começaram a chamar para as orações - tão diferente e tão parecido com os sinos das nossas igrejas. Tão, tão parecido.
Nessa hora, escurecia e começava a fazer frio. Descobri duas coisas indispensáveis na noite de Istambul. A primeira é um par de luvas. A segunda é uma bebida vendida em todo canto por duas liras (a lira turca, por uma bondade divina, vale praticamente o mesmo que um real, dispensando cálculos mentais de conversão). Trata-se de algo parecido com um cuscuz branco (não consegui descobrir de que é feito), doce, temperado com canela e servido quente em copos de isopor. Aquece as mãos e queima a língua. Eis Istambul, desafio e convite aos sentidos.

sábado, 31 de dezembro de 2011

Meu reino por uma faca


Em minhas férias de 2011, na Itália e depois na Croácia, entreguei-me a algumas pequenas delícias gastronômicas. Entre elas, sorvete e Nutella. O sorvete italiano é excelente, convidativo e, para minha sorte, estava em praticamente qualquer esquina. Já Nutella... Não chega a ser uma novidade, afinal encontra-se Nutella também na Brasil. Mas se trata de uma marca italiana e é muito mais popular por aquelas bandas que por aqui. Está em potes de todos os tamanhos e em doces de todos os tipos, croissants, crepes, sorvetes... No meu caso, comprei um generoso pote de Nutella e com ele compunha meu café da manhã ou jantar.
Havia, porém, um problema: eu não tinha faca, nem espátula, nem nada parecido. Passar Nutella no pão era uma operação de guerra, e eu usava o que estivesse à mão: desde a própria mão, isto é, os dedos (feito criança gulosa) até um pedaço de uma tampa de plástico qualquer. Ou colocava mesmo um pedaço do pão dentro do pote de Nutella. Pois é, nada prático e menos ainda elegante.
Convenci-me de que eu precisava comprar uma faca mas, por um motivo ou outro, fui adiando a compra. Às vezes eu simplesmente esquecia, e também houve vezes em que procurei e não encontrei. O cúmulo foi quando, já na Croácia, entrei num grande supermercado, fui à seção de utensílios para cozinha e lá estavam elas, as facas. Todas da Tramontina! Cheguei a pegar uma na mão, pensei, pensei e coloquei-a de volta na gôndola: eu não tinha viajado dez mil quilômetros para comprar um talher fabricado em Carlos Barbosa! Segui em frente.
Daí que, falando em gôndola, voltei à Itália. Cidade de Veneza. Enfim comprei o que precisava! Uma espátula. De quebra, não uma espátula qualquer, mas uma de Murano, com o cabo em vidro colorido. Bonita e funcional. Para falar a verdade, só não foi mais funcional porque Veneza era minha última escala, então tive pouco tempo para aproveitar a espátula e meu pote de Nutella...
O pior é que sou teimoso. Fiz outra viagem, desta vez à França, e cometi o mesmo erro, agora de forma totalmente consciente: não resisti a comprar mais um pote de Nutella "para a viagem", mesmo sabendo que não tinha faca. De novo o mesmo malabarismo para espalhar o creme do pão...
Até que me sugeriram uma possibilidade incrivelmente simples: eu deveria guardar, no voo de ida, a faca de plástico que oferecem com o jantar ou com o café da manhã. Voilà! Resolve-se o problema de maneira prática, criativa e à prova de detectores de metais do aeroporto. Já posso voltar à Europa sossegado.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Cuias de chimarrão


Em casa de ferreiro, nem sempre o espeto é de pau. Se eu tivesse de escolher o ponto mais emblemático do meu gauchismo, seria provavelmente o hábito do chimarrão. No trabalho ou em casa, são raros os dias em que não bebo chimarrão. As visitas que recebo, sejam ou não gaúchas, já se acostumaram a serem recebidas por um mate recém cevado. Estudando, assistindo a um filme, velejando, sozinho ou acompanhado, lá estou eu e lá está uma cuia na minha mão.
Minha bagagem sempre volta de Porto Alegre com um pacote de erva-mate. Sou encantado pelo ritual de comprar erva numa das bancas do Mercado Público.
E, se viajo para Uruguai ou Argentina, vou e volto embebido pela cultura do mate que não é só riograndense, mas de todo o Pampa e de todo o Prata.
Assim, aos poucos, fui juntando algumas cuias. Não chega a ser uma coleção, mas são lembranças particulares - não só dos lugares em que foram compradas, mas também dos momentos em que foram utilizadas.
Da esquerda para a direita:
1. Esta cuia veio comigo quando me mudei para o Rio de Janeiro. Durante um bom tempo, levei-a para o trabalho, até substituí-la por uma outra, um pouco menor e que consome menos erva!
2. Do Brique da Redenção. Claro que esta cuia chama a atenção pelo emblema do colorado, mas não é só isso: o porongo parece que foi escolhido a dedo, perfeito para um mate, e o entalhe é de um tipo que eu não conheço igual.
3. Esta é de Montevidéu, comprada em 2004 e, como praticamente tudo de lá, tem um forte laço afetivo comigo. Pequena, é perfeita para um mate à uruguaia.
4. A mais nova, e um pouco menor que a anterior, também é do Uruguai, mas de Colônia. O desenho de veleiro e ondas e o fato de ter sido comprada praticamente às margens do Rio da Prata dizem muito dela e de mim.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

A síndrome da mesa para uma pessoa

Meu maior medo é almoçar sozinho, jantar sozinho e me esforçar em me manter ocupado para não provocar compaixão dos garçons.
Fabrício Carpinejar

Muito já foi escrito sobre viajar sozinho. Sabe-se que tem vantagens e desvantagens. Entre as primeiras, a possibilidade de estar livre para fazer seus próprios planos, sem interferências (afinal, encontrar alguém que queira exatamente o mesmo que nós é possível, mas raro). Entre as desvantagens, o risco de não ter com quem conversar, não ter alguém para contar histórias e trocar impressões. Há quem drible esse risco se hospedando em albergues com quartos coletivos - não é a mesma coisa, mas existe a possibilidade de conhecer gente de outros lugares e com outras vivências, o que pode facilmente se tornar a parte mais gratificante de toda a viagem.
No final, dá-se um jeito e as coisas acabam se compensando umas às outras, às vezes com vantagens. Existe, porém, uma questão crítica com a qual é difícil se acostumar: poucos viajantes solitários escapam incólumes à síndrome da mesa para uma pessoa.
Chega uma hora em que a fome aperta e, seja almoço ou jantar, entra-se num restaurante. Fica-se sem ter com quem dividir este momento, a não ser o garçom, para quem pedimos uma mesa para uma pessoa. Passa-se pelas formalidades - a escolha do menu, a aceitação conformada de que a refeição será possivelmente mais cara ou menos variada do que se estivéssemos acompanhados. Mas viajar sozinho tende mesmo a ser mais caro, já sabemos disso. Então vêm os sintomas da crise: o viajante solitário está ali, mais sozinho do que nunca, esperando seu prato numa mesa em que não há ninguém a não ser ele próprio, num restaurante que, como todos os restaurantes, é um local de confraternização, onde à sua volta as pessoas não só comem como conversam, riem, fazem barulho, celebram datas, fecham negócios, propõem casamentos. É claro que o prato do viajante solitário, nessa ocasião, demora mais que o usual. Ele olha para os lados, para o alto, finge naturalidade. Lê o cardápio, os guardanapos, a parede. Amaldiçoa a bateria do celular que acabou justamente agora ou a conexão wi-fi que insiste em não funcionar. Lança olhares suplicantes a um garçom que, vindo com uma travessa fumegante, passa sem reparar nele. Pensa na vida, na família, na namorada, escreve mentalmente uma carta que nunca vai mandar. Suspira. Boceja. Está em uma linda ilha tropical com cacatuas e coqueiros ao seu redor... Tocam o seu ombro. É o garçom! O viajante solitário acorda, seu pedido chegou.
À sua volta, pessoas brigam, fazem as pazes, contam piadas, trocam presentes. Ele olha para o próprio prato, entretém-se com a salada, brinca com o molho. Por trás da comida, esconde-se do mundo. Na próxima vez, escolherei uma mesa mais no canto, pensa.
Nunca pensa em convidar outra pessoa. Ele se chama o viajante solitário e, no jantar seguinte, outra crise o espera.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Circo de Inverno, Paris

Ah, o circo. Le Cirque d'Hiver. Esse foi uma inesperada surpresa. Eu havia visto os cartazes pela rua anunciando o espetáculo, mas não reparara muito, não chamaram a minha atenção. Outra coisa foi quando, caminhando, topamos com o circo ao vivo, em cores, tijolo e madeira. Estou falando de uma construção grande e linda, num estilo que só pode ser tão eclético quanto o próprio circo. Em Paris, o Circo de Inverno não é uma lona debaixo da qual os artistas se apresentam; é algo que eu não conhecia, um prédio redondo que, na melhor das comparações, lembra a mistura (ou evolução) de um circo tradicional com um charmoso teatro.
Atraídos, passamos pela porta e o ambiente interno acabou de nos conquistar. A bilheteria anunciava ingressos a partir de 10 euros para dali a 10 minutos. Compramos, contagiados por uma excitação infantil.
Sobe-se escadas, tal como num grande teatro. Lá em cima, espantado diante da grandiosidade de tudo, quase exclamei que a vista era bastante boa para ser o lugar mais barato da plateia. Então uma mulher vestida de paquita se apresentou para levar aos nossos verdadeiros lugares, marcados: literalmente as duas cadeiras mais escondidas, ainda mais no alto do que onde estávamos e ao lado de uma espécie de tapume. Mas a paquita disse (ou foi o que entendemos) que poderíamos mudar de lugar depois de começado o espetáculo, e assim fizemos, já que nem todas as cadeiras estavam ocupadas. Lugares confortáveis e bem frontais, embora longe da primeira fila.
O que tinha suas vantagens, pois nos deixava a salvo das brincadeiras dos palhaços. De quebra, bem divertidas - gosto de palhaços. Fazia anos que não ia a um circo e esse me encantou. Não só pela grandiosidade do ambiente. A banda tocava em sintonia com as atrações: tigres, gatos, cavalos e pombos; trapezistas (e meu coração que pulava da boca, eu que tenho certo medo de altura); o mágico; malabaristas, amazonas, dançarinas. Tudo a que se tem direito, inclusive um pequeno intervalo: o espetáculo era em dois atos, lá pelas tantas eu não sabia se estava num circo ou num teatro.
Tão diferente dos circos itinerantes de lona, e tão nostalgicamente parecido. Fiquei paralisado por uns instantes quando terminou a última apresentação. Mas paralisado com um sorriso no rosto: tinha descoberto que sim, ainda se faz circo como antigamente.

domingo, 13 de novembro de 2011

Eu sempre amei Paris

E não sabia.
Ao contrário de outras pessoas, nunca tive Paris como sonho de consumo. Não era minha prioridade, a cidade que eu queria conhecer a todo custo. Antes sonhava com outros lugares no Brasil, na Europa e em terras exóticas.
Apesar disso, Paris me conquistou, em grande parte por ser quase exatamente como eu pensava ou, dizendo melhor, como eu fantasiava que fosse. Sim, porque, sendo uma das cidades mais presentes nos cenários de cinema e nas páginas dos livros, todos nós acabamos imaginando Paris de alguma maneira.
E calhou de eu imaginar uma Paris bem parecida com a que encontrei de verdade. Digo isso no sentido de que me surpreendi com a facilidade com que percorri suas ruas e com a facilidade com que me senti em casa, apesar de falar muito pouco francês. E a forma divertida com que encontrei, a cada esquina, exatamente o tipo de prédio que, com certa ingenuidade, esperava encontrar - milhões de livrarias, outros tantos de cafés e pequenos restaurantes. Verdade que também há as onipresentes lojas de quinquilharias e as multidões de turistas ávidos por elas, mas em compensação há ruas silenciosas, mercados com frutas na calçada e até lojas de artigos náuticos - França, Meca dos velejadores.
Lutécia, a cidade mais prodigiosa do mundo, como dizia Asterix. Isso inclui dizer que não é o lugar mais limpo nem o mais educado, mas deve ser, em compensação, um dos mais vivos. Gosto de imaginar os franceses um tanto cheios de orgulho pela sua língua, suas empresas, seus carros, seus esportistas e artistas. Soa meio preconceituoso da minha parte, talvez, mas sei que não posso generalizar essa imagem e, ainda que eu insista nela, reconhecer um orgulho desse tipo é motivo de sorriso e simpatia para um gaúcho como eu.
Tem mais. Paris tem as árvores coloridas de outono, as pontes para se caminhar de mãos dadas, a proposta que eu mal sabia para uma perfeita lua-de-mel. Mal sabia: imaginava, mas não acreditava.
E não importa se ainda falta muito da cidade para ver e viver ou se algo dela ficar para trás. Acontece que nós sempre teremos Paris.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Na ilha dos ônibus amarelos


Como preguiçoso eventual, gostei de Malta. A ilha, sendo relativamente pequena, é fácil de ser explorada e não requer esforço. Mais fácil ainda é explorar Valletta, a capital, que pode (e deve) ser percorrida toda a pé.
Eis algo de que eu gosto: conhecer uma cidade a pé, a princípio com um mapa na mão, depois deixando-me levar pelo instinto. Gosto particularmente dos centros, pelo que têm de síntese e símbolo. Ora, Valletta, sendo pequena, é toda ela o seu próprio centro. Daí que é uma delícia caminhar por ela, sentir as ruas, especialmente os calçadões em que não passam carros, entrar nas lojas, observar as fachadas. Valletta é rica de uma bela e multicentenária arquitetura mas, não sendo tão internacionalmente famosa quanto outras capitais europeias, conserva um suave ar de desconhecido que lhe dá ainda mais charme.
Entre uma caminhada e outra, deixo-me guiar pelo olfato e procuro umas pastelarias que são pouco mais que um buraco na parede - lá estão os pastizzi, espécie de folheados simples e irresistíveis. Nada mais tipicamente maltês que pastizzi de ricota ou de ervilha, e um par deles, por €0,50 cada, sacia maravilhosamente.
Refeito o estômago, vou além da cidade. Em frente ao portão de Valletta está a praça que é o terminal rodoviário da ilha e é aí que encontrava o que também parecia ter se convertido noutro símbolo maltês: os estilosos ônibus amarelos. Já havia os de desenho mais moderno, mas os que realmente chamavam a atenção eram os antigos, arredondados por fora e parecendo um bonde de madeira por dentro. Andar por Malta nestes ônibus era prático e divertido, além de barato - a maioria dos trajetos saía por €0,47, valor quebrado que me deixou, ao voltar para o Brasil, com um punhado de pequenas moedas no bolso, autêntico certificado de quem percorreu as ruas e estradas de mão inglesa do Mediterrâneo.
Bem, eu preferiria estar escrevendo no tempo presente, e não no passado, mas descobri que os antigos ônibus foram aposentados apenas dois meses depois que deixei Malta. Uma pena. Podiam não ser modernos ou econômicos, mas eram únicos, não é justo condenar espécies raras à extinção.
Lamento não ter dado a volta completa na ilha a bordo de um desses ônibus. A preguiça não permitiu. Em compensação, numa das viagens, fui parar no que parecia a garagem final onde dormiam os veículos. Lá, aproveitando que eu não tinha pressa, esperei pela saída da próxima condução para Valleta instalado num dos bancos de madeira, entre um cochilo e uma conversa com o motorista, que também esperava. Afinal, nem tudo na vida é passageiro.