sexta-feira, 15 de novembro de 2019

Azerbaijão, esse desconhecido

Há pelo menos um punhado de cidades que alardeiam para si o título de "ponte entre o Ocidente e o Oriente", graças talvez à natureza longa e subjetiva da fronteira geográfica entre a Europa e a Ásia. A mais famosa é, sem dúvida, Istambul, ajudada pelo fato de estar localizada dos dois lados do Bósforo. Porém, é claro que influências culturais são difusas. Há fortes traços orientais (e islâmicos) em cidades firmemente fincadas na Europa, como Sarajevo e Pristina.  E, a leste da Turquia, ares europeus se misturam à atmosfera oriental das cidades banhadas pelo mar Cáspio. Estou falando da ex-república soviética do Azerbaijão.
No começo do romance "Ali e Nino", um dos maiores clássicos da literatura azéri, Kurban Said coloca um professor de escola falando exatamente disso: "Alguns estudiosos olham para a área ao sul das montanhas do Cáucaso como pertencendo à Ásia, enquanto outros, tendo em vista a evolução cultural da Transcaucásia, acreditam que este país deva ser considerado parte da Europa. Assim, pode-se dizer, minhas crianças, que é um pouco responsabilidade sua que nossa cidade pertença à progressiva Europa ou à reacionária Ásia".
O Azerbaijão, e em particular sua capital Baku, é daqueles lugares que nos jogam na cara nossa ignorância do mundo. Tem uma história riquíssima com âncoras em ambos os continentes. Ao longo dos séculos, foi parte da rota da seda; foi local de peregrinação do zoroastrismo (atraído pelo fogo que "emana da terra" na forma de afloramentos de gás natural); foi um dos berços da indústria do petróleo, ainda hoje uma de suas maiores riquezas; como tal, foi a fonte de combustível por excelência da poderosa União Soviética. É um país laico de maioria muçulmana. Tem, assim como seus vizinhos, uma relação controversa com a democracia, tendo convivido com ditaduras (algumas extremas e outras brandas), cultos à personalidade (idem) e guerras recentes.
Visitar um país desses é um privilégio que não se resume ao aprendizado da história. É uma imersão cultural. O Azerbaijão tem traços que lembram a Turquia, como na língua e na comida, mas com suas particularidades. Tendo sido uma das repúblicas nas franjas da União Soviética, a influência russa se encontra aqui e ali, no urbanismo com grandes espaços abertos e principalmente nas prateleiras dos supermercados. Mas o dia-a-dia é distintamente caucasiano. A manhã começa com um típico pão tandir, simples e incrivelmente viciante, e uma taça de café tradicional preparado no cezve.  O dia envolve dividir as ruas com antigos Ladas ou as calçadas com vendedores de suco de romã. Mesquitas? Estão à disposição por toda parte, porém são notavelmente mais discretas que em outros países tanto da Ásia quanto da Europa.
No final, aliás, a maior divisão do Azerbaijão não parece ser entre Oriente e Ocidente; ambas as culturas, lá, estão bastante misturadas. Mais visível é uma diferença entre a capital e o interior ou, mesmo, entre a zona central de Baku e os subúrbios. De um lado, tem-se uma cidade nova, pujante e colorida, esbanjando toda a beleza proporcionada pela (renda proveniente da) exploração do petróleo. Do outro, um país que não é necessariamente pobre, mas que é montanhoso, árido e com firmes raízes no passado. Há talvez um certo orgulho nesse jeito de ser, de se cultivar costumes tradicionais num país que atravessou guerras, fome, turbulência e o vigor econômico do petróleo.
Voltando a "Ali e Nino": ao final daquela exposição do professor, claramente tendencioso a favor dos aspectos europeus (e portanto "civilizados") de Baku, é um dos alunos que levanta a mão para responder ao mestre: "Por favor, senhor, nós preferimos ficar na Ásia."

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