quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Pingos nos is

Esta é a primeira vez que venho a um país sem antes realmente me esforçar para aprender pelo menos um pouco da sua língua. Pudera. Há um limite para minha memória e para minha capacidade de aprendizado! Considerando que nos últimos meses tive de me dedicar a outros estudos e que esta viagem engloba quatro países e quatro línguas diferentes, acabei estabelecendo algumas prioridades. E sempre há o inglês para quebrar o galho quando necessário...
Isso não quer dizer que não tive curiosidade ou não me interessei em saber um pouco de turco. Mergulhar numa outra língua sempre é enriquecedor, ainda mais quando se trata de uma língua e um país tão cheios de história.
Sim, fiquei no básico: olá (o onipresente "merhaba", palavra que serve para quase tudo aqui), bom dia, por favor, muito obrigado, mais aquelas palavras que são figurinha fácil em cardápios, cartazes e avisos. Mas também aprendi coisas curiosas. Por exemplo: até o século passado, o turco era escrito com o alfabeto árabe. Foi Atatürk que, como parte do seu plano de expandir a educação no país, propôs a adoção de uma variante do alfabeto latino. Com dois argumentos: primeiro, que os sons da língua turca seriam de representação mais natural pelo nosso alfabeto que pelo alfabeto árabe; segundo, que a mudança facilitaria o aprendizado, sendo portanto uma maneira de combater o analfabetismo.
Suponho que Atatürk estivesse certo, mas imagino a revolução que isso deve ter causado, ainda mais quando por trás de tudo há a questão religiosa (o árabe, afinal, é o alfabeto "oficial" do Corão). E nós que já sentimos a diferença quando retiraram alguns acentos da nossa gramática!
Ah, os acentos! Ou melhor, os sinais gráficos. O turco está cheio deles: tremas, cedilhas e outros, seja acompanhando vogais ou consoantes. O ç, por aqui, tem um som de tch. O s, ao receber um cedilha (ş), tem seu som modificado para um ch.
Porém, o mais curioso, na minha opinião, é o i, que pode ser com ou sem ponto, tanto maiúsculo quanto minúsculo: i, İ, ı, I. A maior cidade do país, por exemplo, chama-se İstanbul (e não Istanbul) em turco.
Notem que o que usamos na nossa língua é um meio-termo: minúscula com ponto, maiúscula sem ponto. Digitar endereços de Internet num computador turco dá trabalho, o ı (sem ponto) ocupa o lugar onde costumamos encontrar o i (com ponto).
Mas a questão não é só de digitação, é gramatical mesmo. Aquele pinguinho no i, que em português é praticamente só um adereço, pode mudar a pronúncia e o significado de uma palavra em turco. Acaba sendo divertido reparar que em algumas palavras usa-se o ponto e em outras não.
E assim vão-se descobrindo os detalhes mais inesperados... Mas, por ora, "sonra görüşürüz" - ou seja, até logo!

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Sabores da Turquia


A Turquia, sem chegar a ser um país de culinária demasiado exótica para nossos paladares, tem os seus sabores marcantes. Prová-los, como aliás provar a comida de praticamente qualquer país aonde se vá, é uma experiência única.
Em primeiro lugar, o chá. Está em todas as partes, servido em taças que lembram pequenas tulipas. Na maioria das vezes, chá preto, mas também há chá de maçã e de outras variedades de frutas ou flores. O chá acompanha refeições, intermedia negócios, simboliza hospitalidade. É comum ver as pessoas, na rua, com uma taça de chá na mão. Quase como um chimarrão turco.
O café, o famoso café turco, preparado em típicas cafeteiras metálicas, assume às vezes o lugar do chá.
Mas a bebida padrão para acompanhar um lanche, um sanduíche ou um almoço é o ayran. Ayran nada mais é que um iogurte levemente aguado ao qual se adiciona... sal. Costumo gostar de iogurte, mas ainda não me acostumei a uma bebida salgada, então tenho dispensado o ayran.
Para completar a lista de bebidas, o sahlep, que é como se chama o caldo doce e leitoso que vendem nas ruas, principalmente nas noites frias. Descobri que, além de canela, ele leva essência de orquídea! Comprei um litro e vou levar para casa!
Passando para a comida, o primeiro posto não poderia ficar senão com o onipresente kebab. Eu nunca tinha provado um no Brasil, mas aqui é tão prático e barato que é fácil ceder à tentação. O mais comum é o kebab servido em pão turco (pide) e às vezes é bem apimentado.
Além do kebab, há a kafta (köfte), o bolinho de carne (mas que pode ser até mesmo vegetariano), um prato popular no almoço. Sopas também são comuns, e a minha preferida é uma de berinjela que provei em duas ocasiões.
O café da manhã invariavelmente inclui (ao menos nos lugares por onde passei) pão, queijo, ovo, tomate e pepino, além de chá ou café.
Com relação à sobremesa, o povo daqui tem um verdadeiro orgulho do lokum, que chamam de "delícias turcas" e dizem ser mundialmente famosas. Eu não me lembro de ter ouvido falar antes... É uma espécie de caramelo que pode levar diversos sabores diferentes e às vezes é misturado com castanhas, pistache ou outro tipo de semente. A aparência é linda, bem colorida. O gosto é bom, mas está longe de ser meu doce favorito.
Ah, sim, para completar, os sucos que são espremidos na hora e vendidos em todas as esquinas: de romã ou de laranja.
No final das contas, é um cardápio bem variado, não?

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Aventura sobre duas rodas

Hoje me ocorreu alugar uma bicicleta. Vinte liras por uma magrela (para usar uma gíria que não é minha) até as três horas da tarde.
Pareceu - e realmente é - uma boa forma de conhecer um pouco da Capadócia. Os vilarejos estão separados por distâncias de três ou quatro quilômetros. Esse também é o percurso suficiente para que a paisagem mude significativamente. Considerando que as estradas, na maioria das vezes, são razoavelmente planas, é território perfeito para uma bicicleta.
Em Pasabagi, impressionantes estruturas de turfa e basalto. Em Zelve, mais paisagens para deixar meus amigos geólogos babando (ah, os afloramentos!). Em Çavusin, uma simpática vila que contém nada menos que uma cidade antiga e abandonada, feita de vários andares escavados na pedra. Incrível!
Já no caminho de volta, tomo um desvio para visitar mais um dos vales que aparecem no mapa.
É uma estrada de chão batido que passa pelo curioso "Vale do Amor", onde o que se vê são, bem, esculturas naturais de pênis gigantes!
Decido continuar pela estrada de terra, que vai sempre descortinando vistas diferentes e que, segundo o mapa, termina bem perto da cidade onde estou hospedado.
Agora, lembrem que nevou no dia anterior, o que significa que o chão está ou molhado ou coberto por gelo. Além disso, o que era uma estrada de terra vai se transformando numa estreita trilha por onde não passa mais que uma pessoa por vez. Há momentos em que seguir adiante é realmente difícil. Volta e meia dou uma olhada no GPS do iPhone (esse brinquedinho tem valido cada centavo que paguei por ele), até que estou avançando bem. Um dos meus medos era molhar os pés, mas, graças a Deus, minhas botas são melhores do que eu pensava. Então surge o pavor dos exploradores de trilhas: de repente, a trilha some! perde-se num emaranhado de árvores caídas talvez num dos vendavais dos dias anteriores. Olho em redor, porém não há alternativa a não ser voltar. Meu medo passa a ser não conseguir fazer o caminho a tempo, mas ao menos percebo que este medo é exagerado. Embora o vento tenha aumentado, o caminho de volta parece mais fácil, certamente porque agora a trilha vai se alargando à medida que avanço. Chego a Göreme com uns bons minutos de folga e com tempo suficiente para almoçar (estou faminto!) antes de ir para o aeroporto.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Homens das cavernas e caprichos da natureza

Toda a região da Capadócia, no coração da Turquia, é marcada por cânions e por formações rochosas parcialmente erodidas de formatos singulares. Essas formações são de pelo menos três tipos: as relativamente intocadas pelo homem e que compõem a paisagem ao longo dos vales e das estradas; as escavadas e habitadas séculos atrás pelos antigos povos da região, agora abertas como museus; e as escavadas mais recentemente, hoje utilizadas como moradias, lojas etc. Nesse momento, por exemplo, estou hospedado num quarto que é literalmente uma caverna na rocha.
Isso dá à Capadócia um ar pitoresco que é difícil de descrever. Caminho pela cidade e vejo as construções "normais" se misturarem às casas-cones-cavernas. Vou mais além e vejo cavernas que foram habitadas há séculos ou milênios atrás. A Capadócia chegou a ter uma grande comunidade cristã. Isso dá à região um outro atrativo interessantíssimo, que é sentir como os primeiros cristãos viviam, o que não é mais possível em Roma, por exemplo, onde a memória original foi suplantada por basílicas e templos grandiosos. Aqui as igrejas são simples capelas na rocha. Sem contar as cidades subterrâneas - totalmente debaixo da terra, capazes de abrigar milhares de pessoas e, segundo dizem, local onde se esconderam muitos dos cristãos na época em que eram perseguidos.
Só uma coisa poderia tornar todo esse cenário ainda mais inusitado: neve. E não é que nevou? Os campos e as formações rochosas ficaram impressionantes. Não, não consigo descrever mais; deixo-os com uma foto da paisagem.

domingo, 8 de janeiro de 2012

Mustafa

A igreja e o escritório de Mustafa ficam em duas
destas formações rochosas de Göreme, Capadócia.
A Capadócia é cheia de igrejas. Mas não estou falando de igrejas com as que estamos acostumados a ver, aos montes, em nossas cidades. Refiro-me a antigas igrejas bizantinas esculpidas em cavernas areníticas. É difícil descrever. Dizer que são vestígios da época em que S. Paulo, S. Jorge, S. Cosme e S. Damião andaram por aqui aumenta a dramaticidade, mas não é esse o ponto. As antigas igrejas da Capadócia são impressionantes por si só, pelo que têm de história, de arte e de capricho da natureza.
Caminhando hoje de manhã, cerca de um quilômetro fora da cidade, topei com El-Nazar, a primeira das tais igrejas. Fui me aproximando aos poucos (toda esta região merece ser vista com calma). Quando cheguei, um senhor veio ao meu encontro, cumprimentou-me e me indicou uma outra construção esculpida na rocha e identificada como "ticket office". Convidou-me a entrar e entrou logo em seguida. Cheio de mesuras, indicou-me uma cadeira enquanto atiçava o aquecedor a carvão para fazer frente ao gélido inverno da Anatólia. Pôs-se então calmamente a preparar chá, volta e meia me falando alguma coisa.
Notei que ele sabia quase nada de inglês pela maneira como respondia às minhas perguntas com um sorriso ingênuo e repetindo "yes, yes". Reparei que eu também fazia a mesma coisa: balançava a cabeça a cada frase em turco que ele me dirigia e das quais eu entendia muito pouco.
Confesso que minha primeira impressão tinha sido: lá vou eu perder meia hora para comprar o ingresso de algo que verei em no máximo cinco minutos. Mas não foi bem assim.
Aos poucos, pude reparar melhor em meu anfitrião. Mustafa, bigode à turca, terno e gravata, "botton" de Atatürk na lapela, nascido e criado nos arredores, torcedor do Besiktas. Apontou-me no jornal que o Galatasaray, o outro time de Istambul, tinha aplicado uma virada de 4x2 na noite anterior (o que me surpreendeu porque eu havia visto um relance da partida e o Galatasaray perdia por 2x0). Em seguida deixou o jornal de lado, com um gesto e uma frase que só podiam significar "são apenas as mesmas notícias de sempre".
O chá ficou pronto, Mustafa serviu cuidadosamente duas taças (reparei que a minha era um pouco mais fraca que a dele), abriu a gaveta, tirou um pacote de bolachas e me ofereceu uma. Enquanto tomávamos chá, reparei no ambiente, um misto de cozinha, sala e escritório. Além do aquecedor a carvão, uma espécie de fogão a gás; um radinho de pilha que ele sintonizou em alguma estação de música turca; um calendário na parede (são comuns por aqui os velhos calendários com uma folhinha para cada dia do ano); ao fundo, um retrato de Atatürk.
Interior da igreja.
Terminamos de beber e Mustafa ofereceu mais chá, mais bolachas. Recusei e, um tanto constrangido, insinuei: visitar a igreja? Ele sorriu e - ah, sim, a igreja! Sacou um bloquinho de ingressos da gaveta. Paguei e nos levantamos, saímos e ele me acompanhou à igreja. No caminho, um dos muitos cachorros turcos fez graça para Mustafa e ele respondeu. Perguntei se o cachorro era dele e me disse que sim, mas não sei se ele entendeu a pergunta.
A igreja vale a visita, mas vale mais acompanhada por Mustafa. Ele sabe cada detalhe das pinturas nas paredes e é engraçado vê-lo apontar e fazer mímicas: o número 12 com as mãos, e entendo que são os apóstolos; uma sutil agachada e então um salto como quem quer voar, eis a Ascenção. Mustafa me abraça e percorre cada canto da pequena igreja comigo, nenhuma das imagens fica de fora. Pergunto se ele é cristão ou muçulmano e ele responde, orgulhoso, que é muçulmano. Digo que visitei algumas mesquitas em Istambul e ele leva a mão ao peito em sinal de aprovação.
Na saída, penso em dar a ele uma gorjeta e levo a mão ao bolso, mas desisto ao descobrir que só tenho umas moedas insignificantes. Não quero ofendê-lo. E, a julgar pelo sorriso dele ao se afastar, acho que faço certo. De qualquer maneira, muito obrigado, Mustafa Efendi.

sábado, 7 de janeiro de 2012

O chato profissional

Existe um termo na língua inglesa, "tout", cujo equivalente em português eu não conheço, mas acho que poderia muito bem ser "chato profissional".
Quem viaja para certos países da Ásia já se deparou com ele. Pelo que ouvi contar, também é frequentíssimo no norte da África. E, claro, está presente em outros lugares, incluindo o Brasil.
"Tout", o chato profissional, é aquela pessoa que não nos deixa em paz, que insiste em tentar vender alguma coisa ou oferecer um serviço, recomendar uma loja ou um restaurante. Que se acha o máximo, sabe mais que nós sobre nossos próprios desejos. E, claro, é nosso amigo do peito.
No Rio de Janeiro, o chato profissional aparece quando desembarcamos no aeroporto ou na rodoviária e tenta nos empurrar uma corrida de táxi. Também é mais frequente que os urubus ao redor do Corcovado - aos pés do Corcovado, digo, disputando os turistas que lá aparecem. Vergonha para nossa cidade mais turística.
O chato profissional está presente na China e, se deixarem, é capaz de seguir um turista por vários quilômetros da Grande Muralha.
O chato profissional, na Índia, é o sujeito mais persistente que conheci na vida, capaz de oferecer de tudo - de tapetes a chaveiros, de cigarros a mulheres - mas não de atender ao meu único desejo, que era ser deixado em paz.
O chato profissional, na Turquia, é bem mais comedido. Está ausente de alguns bairros, onde consegui a graça de me camuflar no meio da populacão local, mas não deixa de estar presente nas zonas mais turísticas. Infelizmente para ele, já estou razoavelmente treinado na arte de ignorá-lo - a única arma razoavelmente eficiente que conheço nesses casos. Ao menos aqui, costuma dar certo, não cheguei a me incomodar. Embora às vezes seja curioso: hoje, enquanto um chato profissional me abordava ("hello, my friend, what can I do for you, what are you looking for?"), virei o rosto para o outro lado e segui atravessando a rua. Achei que ele tinha desistido, mas não: gritou para um colega do outro lado da rua, que veio, "how can I help you?", com a cara-de-pau característica. O chato profissional tem muitos rostos, todos iguais.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

O Pai dos Turcos

De certas maneira, os turcos possuem duas religiões. Uma é o Islamismo que, claro, convém respeitar. A outra, que também não deve ser contrariada de forma alguma, é o ataturquismo.
Kemal Atatürk. Literalmente: Kemal, o Pai dos Turcos. Foi o fundador da República da Turquia, presidente do país nas décadas de 1920 e 1930 e incentivador de uma série de reformas relevantes no sentido de modernizar o país - incluindo a separação entre religião e estado e a adoção do alfabeto latino como uma das formas de facilitar o aprendizado da escrita.
E daí?
O que acontece é que, mesmo hoje, essa figura progressista e ditatorial, espécie de Getúlio Vargas turco, está por todos os cantos. Ai de quem desrespeitar Atatürk. Seu rosto está em todas as cédulas de dinheiro (cada cédula tem duas efígies: Atatürk de um lado, "um qualquer" do outro). Está em fotos nas paredes de lojas, restaurantes, prédios. Em bandeirinhas empunhadas pelas crianças. Em cartões-postais vendidos nas bancas.
Qualquer turco sabe de cor o exato instante da morte de Atatürk (9h05 de uma manhã de novembro) e, segundo contam, todo ano o país pára nessa data para reverenciar seu herói.
Atatürk está em estátuas nas praças, no nome do principal aeroporto, do maior estádio de futebol e da ponte mais central de Istambul. Uma lei proíbe que se fale mal de Atatürk. Tenho um pouco de medo das unanimidades, mas quem sou eu para contrariar a lei?

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Allahu akbar

Quem nunca esteve numa cidade de maioria islâmica talvez tenha dificuldade para imaginar o chamado dos muezins. Cinco vezes ao dia, a voz deles (ajudada ou não por auto-falantes) enche a cidade convocando para a oração. É muito mais notável que o sino de das nossas igrejas, porque é sincronizado - o chamado está em qualquer lugar e (dizem) também no rádio, não há como não ouvir.
Hoje atendi ao chamado dos muezins e visitei uma mesquita no momento da oração.
É uma experiência interessante, que eu recomendo a todos os que têm mente aberta. Eu já havia entrado em algumas mesquitas para conhecê-las por dentro, mas entrar para acompanhar um pouco do ritual muçulmano é outra coisa.
Primeiro, há uma fonte para as abluções, ou seja, a purificação ritual do corpo com água. Não é muito fácil se molhar assim, ao ar livre, no inverno turco!
É preciso tirar os sapatos. No caso das mulheres, é preciso também cobrir a cabeça, mas os homens estão dispensados disso (não precisam ou não devem cobrir a cabeça? Fiquei em dúvida ao lembrar da quantidade de gente com toucas e chapéus para se proteger do frio. Pois alguns homens cobrem a cabeça na mesquita, mas com uma touca simples de significado religioso.).
Entra-se na mesquita propriamente dita através de uma cortina. Uma das coisas que mais chamam a atenção é a estrita separação: homens na frente, mulheres num nicho à parte. Dependendo da mesquita, um nicho bem escondido, que não as deixa ver nem serem vistas. Mesmo entre os homens, há uma separação que não entendi bem - uns na frente, outros numa área mais ao fundo (onde procurei ficar, o mais discretamente possível). Por toda a volta, pequenas prateleiras de madeira onde os fiéis colocam os sapatos.
De vem em quando, algum atrasado chega apressadamente e se junta aos outros. Lá na frente, um imã faz a oração em voz alta. No meio das suas palavras, reconheço o tempo todo "Allahu akbar" - Deus é grande. É a senha para todos se prostrarem. O tempo todo fica-se ajoelhando, prostrando-se, levantando-se. O imã não está de frente, mas de costas para os fiéis. Todos voltados na direção de Meca, certamente.
Da decoração da mesquita, muita coisa chamou minha atenção. O tapete, quente, cobrindo todo o chão como um consolo aos nossos pés descalços. Ao lado do "mihrab" (o nicho onde se posta o imã), um relógio de pêndulo, desses que estamos acostumados a ver na casa da avó mas não num templo religioso. Mais atrás, ao lado de onde eu estava, uma estante de livros - detalhe simpático, nem sempre os livros ganham a posição de destaque que merecem.
Aliás, a recepção aos não-muçulmanos varia, dependendo de uma série de fatores, da indiferença à simpatia. Não me atrevi a visitar um templo imponente como a famosa Mesquita Azul na hora da oração. Numa mesquita menor, considero que fui mais bem recebido do que esperava, por um senhor que me indicou onde eu deveria ficar e corrigiu uma gafe que quase cometi (ao não saber onde largar os sapatos). Quando saí, agradeci a ele em turco, usando uma das poucas palavras que aprendi nessa língua. Ele sorriu e respondeu também em turco, não entendi nada, mas sorri também.
No final das contas (e de uma cerimônia muito mais curta que uma missa católica), só fiquei com pena das mulheres, separadas sem poder ver nada. Mas suponho que estejam acostumadas e que elas enxerguem algum sentido nisso. Este momento, para os muçulmanos, parece mais uma culto individual que uma cerimônia coletiva em que se vê e é visto, tanto que, ao final, as pessoas vão saindo aos poucos, cada uma no seu momento.
Mas sabe o que foi que eu fiquei pensando? É que todo padre devia entrar em uma mesquita de vez em quando. Assim como todo imã devia entrar em uma igreja.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Um samovar

Quando escrevi a crônica anterior, sobre os bazares, acabei não detalhando o objeto que comprei porque percebi que isso seria toda uma outra história. Pois, um samovar.
Em termos de praticidade de transporte, um samovar é algo assim como um berimbau com uma jaca de brinde. A legitima mala sem alça.
Eis a foto de um samovar. Não é o meu, o meu está envolto em plástico-bolha dentro de uma sacola do tamanho da minha mala.
Um samovar é um utensílio originário da Europa Oriental e da porção ocidental da Ásia, particularmente presente nas culturas russa e turca. A utilidade de um samovar é preparar e servir chá.
Um trambolho desses para fazer chá!
Para fazer do chá um ritual, eu diria. E eu gosto disso. Tenho gostos inusitados, incluindo gosto por "lembranças" um tanto surpreendentes.
Os samovares tradicionais funcionam a carvão. O meu aceita carvão, mas alternativamente pode ser ligado na eletricidade - acabo de lembrar que a voltagem aqui é diferente da do Rio, ou seja, terei de comprar um adaptador assim que chegar, mas isso é o de menos.
Claro que, enquanto negociava o samovar, eu pensava nele decorando minha sala, esquentando o chá que servirei às visitas assim que voltar para casa e até mesmo aquecendo a água do chimarrão. Nessas horas, ninguém pensa nas possíveis dificuldades de se atravessar três continentes com um troço desses a tiracolo. Claro que não pensei nos sete voos, três ônibus e um trem que ainda vou ter de pegar. Vai ser engraçado.
Agora, estou apostando pelo menos na possibilidade de usar um armário alugado no aeroporto de Istambul. Isso me pouparia de carregar o samovar em quatro voos internos, o que já é bastante coisa.
Depois, só vou torcer para que ele chegue inteiro ao Brasil. Alguém aí vai querer chá?

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Uma experiência no Grand Bazaar

Ao que parece, uma imersão na cultura de Istambul, para ser completa, deve incluir uma ida ao Grand Bazaar, o principal (e tradicionalíssimo) local de compras da cidade. Pois lá fui eu, porto-alegrense curtido em anos de visitas ao Brique...
Valeu-me mais meu aprendizado prévio em termos de compras na China e, principalmente, na Índia. Não que o Grand Bazaar seja caótico como a Índia; achei-o até relativamente organizado perto do que eu esperava (mas não se compara com nenhum "shopping center", claro).
O que logo se percebe, no entanto, é que fazer comprar no Grand Bazaar envolve todo um ritual - e por isso não é exagero chamar a ida às compras de experiência. Pois experimentemos, mas com certo método, como convém ao lugar.
Primeiro, um volta como quem não quer nada, tirando fotos e escolhendo discretamente o que comprar.
Ao abordar um vendedor (ou, mais provavelmente, ser abordado por ele), já sei que o ritual teve início. Ele pergunta de onde sou, respondo que do Brasil, ele capricha no português para dizer "oi, tudo bem?" Pergunto quantas línguas ele fala, ele me diz que nove - fora o português, que está recém aprendendo.
O vendedor convida para sentar e oferece chá. Faz parte da experiência, sempre vão oferecer chá, quer eu compre ou não. É curioso, aliás, que o serviço de chá seja terceirizado: o chá não é feito na loja, mas vem trazido de bandeja por alguém chamado discretamente pelo vendedor. Em todo o bazar os entregadores de chá andam para lá e para cá.
Depois de jogar conversa fora, de dar uma olhada no produto e de fazer algumas perguntas sobre ele, vem o momento crítico: pergunto o preço.
Nessa parte, é importante saber pechinchar, o que inclui ter coragem para baixar o preço pedido pela metade. Se ele me diz que custa 200 liras, ofereço 100. Ele diz que a mercadoria vale 500, elogia o material, ressalta que é feito à mão... Ofereço 120 e ressalvo que não pago mais que isso. O vendedor diz que gostou de mim e é meu amigo, que insiste em fazer negócio comigo, sugere 150. Insisto nos 120, e mais, quero pagar com cartão. Ele momentaneamente se vira para receber outro cliente, oferece chá etc., então volta para mim: 150? Eu respondo: 120. Ele faz um gesto com a cabeça, chama um ajudante para ajudar a embalar, passa o cartão, aperta minha mão efusivamente, dizendo que foi um prazer fazer negócio comigo.
Bem, não sei se aquilo valia 100 liras, saio com a forte impressão de ter pago mais caro do que devia... Mas ainda é barato para os padrões brasileiros e, afinal, não tinha mesmo jeito: eles têm uns 2000 anos de experiência na arte de negociar, nós temos 500 anos de experiência na arte de ceder ouro em troca de espelhinhos.
Um pouco depois, vou ao Bazar das Especiarias. Esse, sim, é mais assustador. Os gritos sugerem que logo alguém vai sair esfaqueado, parece uma briga feia, mas trata-se apenas dos pregões dos vendedores.
Se lá no Grand Bazaar se tratava de compras grandes e médias, aqui se trata das coisas menores do dia-a-dia: queijos, peixes, castanhas, tâmaras, pistache, chás, doces, temperos... Especiarias, claro. Não quer dizer que também não haja colares, roupas, utensílios domésticos... Mas quer dizer que há muito mais gente e, principalmente, mais turcos (ou seja, menos turistas). Compro chá. Desta vez não tive tanta paciência para pechinchar, em compensação foi bem mais barato. De qualquer maneira, saio com a impressão de que, se existe um paraíso para compras, ele fica em Istambul. E, se existe um inferno para compras, também fica no mesmíssimo lugar.