segunda-feira, 4 de julho de 2016

Na capa do jornal: foi incrível! (2/2)

Aqui vai a continuação da postagem anterior, com a conclusão da matéria de Áki Bertholdsen.

Embora estejam há poucos dias nas Ilhas Faroe, eles já têm ligações com vários faroeses. Os faroeses são hospitaleiros, amistosos e autênticos, diz Eduardo.

O clima não é problema
Muitas vezes, estrangeiros recém-chegados dizem que as Ilhas Faroe são frias demais. Eduardo e Renata discordam:
-No Rio de Janeiro é tão quente que chega a ser desconfortável, preferimos um clima mais ameno, dizem eles.
Contudo, eles gostariam que aqui houvesse um pouco menos de chuva e de vento:
-Realmente há bastante vento e chuva, e o tempo muda constantemente nas Ilhas Faroe.
Outra coisa que os maravilha é haver tantas horas de claridade durante o verão:
-Houve uma noite em que acordei e achei que tinha perdido a hora, e levei um momento até lembrar de olhar para o relógio e descobrir que ainda era madrugada, apesar da claridade lá fora.
Apesar disso, eles dizem que as Ilhas Faroe parecem ser um bom lugar para viver, e imaginam que seriam felizes se morassem aqui.
Eles ainda não tiveram oportunidade de experimentar muitas comidas faroesas mas, nesta viagem, foram a um restaurante perto de Tórshavn onde provaram ræst [carneiro seco].
-É um prato forte, mas bastante saboroso.
Dentre as coisas que ainda não viram mas têm vontade de conhecer, citam o Ólavsøka [Dia de Santo Olavo] e o festival de Gøta.
Eles têm vontade de aprender feroês, mas dizem que isso não é fácil, pois a língua é difícil e não há professor no Brasil. Mesmo assim, compraram um livro e estão se empenhando em ler, começando por algumas frases simples como "hvussu eitur tú", "góðan dagin" e "hvussu góngur".

Eles formavam um casal feliz e sorridente ao sair da igreja após a cerimônia.

Chocados com o grindadráp
Eduardo diz que não há muitas pessoas no Brasil que já ouviram falar nas Ilhas Faroe:
-Então, quando nós mostramos fotos das Ilhas Faroe, as pessoas ficam encantadas. Chegam até a duvidar de que exista um lugar assim.
Ele diz também que, quando as pessoas procuram pelas Ilhas Faroe na Internet, ficam um tanto chocadas com as imagens de grindadráp [caça a baleias-piloto] que aparecem na tela.
-As pessoas se chocam quando veem fotos disso, e comentam, nós mesmos já demos algumas explicações sobre o grindadráp lá.
-Eu mesmo, na primeira vez em que vi fotos de grindadráp, fiquei um tanto chocado. Mas é preciso entender a origem de tudo isso. Com o tempo, passei a entender melhor a questão cultural que há por trás. A maioria das pessoas come muita carne, mas não mata animal algum, então não vê sangue. Não comem baleias, mas comem vacas e porcos. Assim como comem galinhas e outros animais. Aqui nas Ilhas Faroe, o animal que sempre houve, historicamente, é a baleia. Por uma questão de sobrevivência, em cada lugar sempre comeram o que havia disponível, considera Eduardo.
Ele mesmo, entretanto, não provou a carne de baleia.
-Não provei baleia. Nem houve oportunidade, para falar a verdade. Também não presenciamos nenhuma caçada. Mas nossa experiência aqui tem sido tão rica em outros aspectos, e isso é o mais importante, diz ele.

O casal recém-casado. O buquê de Renata é um puffin.

O bem mais valioso
Eduardo e Renata dizem que, quando resolveram se casar nas Ilhas Faroe, não sabiam como a ideia seria recebida. Quando escreveram para Jónsvein Bech, o sacerdote, assim como para alguns outros faroeses, ficaram aliviados com a boa acolhida que tiveram de todos. Da mesma forma, elogiaram a presença de todos na igreja e a forma como cada dificuldade foi sendo resolvida.
-A cerimônia foi perfeita e inesquecível, realmente nunca nos esqueceremos disto. Queremos agradecer a todos vocês, a todas as pessoas que nos ajudaram - com o penteado e maquiagem da noiva, com as roupas faroesas, levando-nos para lá e para cá, e tantas coisas mais.
Eles se mostraram especialmente emocionados com o sacerdote, que celebrou a cerimônia praticamente toda em inglês, desejando-lhes muitas felicidades e expressando o quando todos nós ficamos felizes e agradecidos por terem vindo de tão longe para se casar aqui.
-Isso é o mais valioso. Nós já sabíamos que os faroeses eram simpáticos e hospitaleiros, mas agora descobrimos que o são ainda mais do que podíamos imaginar, dizem Eduardo e Renata.
Eles vão embora das ilhas no final de semana:
-Vamos levar os papéis ao consulado brasileiro em Copenhague, para que possam ser aceitos no Brasil.
Eduardo mantém um blog na Internet onde escreve sobre vários lugares. Ele já escreveu lá sobre suas os outras viagens do casal às Ilhas Faroe. Para os leitores que tenham algum conhecimento de português, o endereço do blog é http://cartas.edutrindade.com
Quem quiser ver mais fotos deste fantástico casamento em Tvøroyri pode ir à página www.in.fo, clicar em Myndasavn e procurar lá pelo álbum [link direto aqui].

Eduardo e Renata disseram ter ficado emocionados no momento em que o padre os declarou marido e mulher.

domingo, 3 de julho de 2016

Na capa do jornal: foi incrível! (1/2)


Pois é! Sabíamos que, no nosso casamento, havia um jornalista falando conosco e tirando fotos. Esperávamos um pequeno parágrafo no jornal, como parece ser o costume quando as pessoas se casam por aqui. Mas, quando fomos à banca no dia seguinte, descobrimos que estávamos na capa do maior jornal das Ilhas Faroe! Há também uma versão na página online, que inclui várias fotos do casamento.
Eu não podia deixar de traduzir a matéria do jornal. Com limitações e bastante improviso, é claro, mas dá para o gasto. Eis aqui a primeira parte:

Do Brasil para as Ilhas Faroe: Isto foi incrível

Ontem aconteceu um casamento totalmente especial na igreja de Tvøroyri, em que um casal veio desde o Brasil até Tvøroyri para se casar, pois não imaginavam lugar melhor para a sua cerimônia que as fantásticas Ilhas Faroe

Foi incrível!
É o que dizem Eduardo Trindade e Renata Teixeira.
Eles são do Brasil, mas percorreram todo o caminho até as Ilhas Faroe com um objetivo especial, o de se casarem, pois não conseguiam imaginar lugar melhor para concretizar sua união.
Eles se casaram na igreja de Tvøroyri ontem à tarde numa cerimônia que, nas próprias palavras dos noivos, foi incrível, melhor ainda do que haviam sonhado.
-A emoção foi muito grande, especialmente quando o padre falou de nós e de como tínhamos nos conhecido, isso foi muito especial, disseram eles.
Um longo tempo pensando nas Ilhas Faroe
O engenheiro químico Eduardo Trindade, de 36 anos, e a bibliotecária Renata Teixeira, de 39 anos, ficaram completamente encantados com a natureza, as pessoas e a cultura das Ilhas Faroe. Eles se mostram positivos até com relação ao clima, tendo pego muito pouca chuva, embora o dia ontem estivesse nublado.
A primeira vez que eles ouviram falar das Ilhas Faroe faz alguns anos. Eduardo havia lido um livro de um famoso aventureiro brasileiro, Amyr Klink, escrito após uma viagem de veleiro em que Klink visitou a Antártica em 1989 e rumou em seguida para o Ártico. A viagem durou um total de 642 dias e, no meio do caminho, o velejador passou pelas Ilhas Faroe.
-No livro, ele escreve que, de todos os lugares que havia visitado naquela viagem, o que mais o havia tocado era as Ilhas Faroe, diz Eduardo.
-Assim surgiu a ideia de que, quando possível, deveríamos vir até aqui e ver com os próprios olhos esse lugar.
A oportunidade de fazer a longa travessia do Brasil para cá surgiu em 2013, quando viajaram para alguns dos países nórdicos.
Antes disso, Eduardo e Renata haviam se conhecido num ônibus no Rio de Janeiro.
Sem saber, eles tomavam todo dia o mesmo ônibus para ir ao trabalho. Até que, certa ocasião, sentaram um ao lado do outro no ônibus e começaram a conversar. Então passaram a se ver mais vezes e foram descobrindo mais afinidades.
E um dia surgiu a oportunidade de passar férias na Escandinávia e de aproveitar para conhecer pessoalmente as Ilhas Faroe. Quando o fizeram, foi no inverno, em fevereiro, como eles contam:
-Ficamos aqui por apenas dois dias, mas foi o suficiente para ficarmos encantados pela paisagem, e tivemos certeza de que precisávamos voltar com mais tempo.
No verão de 2014, então, retornaram às Ilhas Faroe. Nesta ocasião, acabaram ainda mais encantados com o lugar que da primeira vez. Ficaram por cerca de uma semana e, dentre outros lugares, visitaram Suðuroy.
-Nós ficamos encantados com a receptividade das pessoas, em Suðuroy conhecemos pessoas incrivelmente amigas e hospitaleiras.
Não há lugar melhor que as Ilhas Faroe
Eduardo e Renata são cada um de partes diferentes do Brasil e moram no Rio de Janeiro, ou seja, num terceiro estado.
-O Brasil é um país muito grande e seria difícil reunir todas as duas famílias numa cerimônia de casamento. Então resolvemos fazer da nossa maneira, do jeito que seria melhor para nós dois, e para nós não havia lugar melhor que nas Ilhas Faroe.
-As Ilhas Faroe têm um significado muito especial para nós. Desde a primeira vez, ficamos encantados com o quanto o lugar é bonito e o quanto os faroeses são simpáticos, diz Renata.
Eles ficaram realmente encantados com isso, e dizem que os faroeses são incrivelmente hospitaleiros e amistosos.
-Mesmo quando um faroês nos encontra pela primeira vez, é como se já nos conhecesse a vida inteira. A experiência foi tão boa, tão incrível, que resolvemos que deveríamos voltar às ilhas para poder ficar mais tempo.
-No Brasil temos uma reputação de sermos um povo receptivo, mas os faroeses são ainda mais simpáticos e hospitaleiros, e são bastante abertos com os estrangeiros. Quando um faroês fala algo ou faz um convite, mesmo para alguém que acabou de conhecer, percebe-se que é sincero, do coração. As pessoas no Brasil nem sempre são assim, diz Eduardo.

(continua na próxima postagem)

sexta-feira, 24 de junho de 2016

E então nos casamos!

No fundo, quando pensávamos em como seria o domingo 19 de junho de 2016, o que vinha à cabeça era algo relativamente simples. Por mais que houvéssemos planejado e sonhado com esse dia, sabíamos que teríamos pouquíssimos convidados (por uma escolha nossa, já que, sendo de dois diferentes estados e morando num terceiro, havíamos escolhido não privilegiar nenhum destes lugares e fazer uma cerimônia à nossa maneira). E, até o dia se aproximar, não sabíamos nem como seria exatamente a recepção destas mesmas pessoas.
Quando amanheceu o domingo, nossas últimas horas de solteiro voaram. Às 11 h, a moça que se oferecera para arrumar a noiva chegou para pegá-la. (Não é tão fácil reservar uma cabeleireira para o domingo nas Ilhas Faroe estando do outro lado do oceano, tanto que cheguei a treinar fazer algumas tranças na Renata, caso fosse preciso eu ajudá-la, e ela mesmo se maquiaria. Mas Vígdis, a filha dos donos da casa em que nos hospedamos, ofereceu-se e acabou fazendo um trabalho magnífico.) Eu fiquei sozinho para me arrumar, vestindo com cuidado cada uma das peças da roupa nacional faroesa que Mirjam nos havia preparado.
Uma meia hora antes das duas da tarde, Tróndur estava esperando do lado de fora da casa, pronto para me levar à igreja em seu carro novíssimo (um de seus orgulhos). Chegamos antes de todo mundo. Na igreja vazia, confesso que eu estava bastante nervoso. Dali a pouco, veio o senhor responsável por abrir as portas e acender as velas. Cumprimentou-me e paramos os três na frente da igreja, que fica em posição elevada, olhando para a rua. O senhor começou a tocar os sinos da igreja e foi incrível, como num sonho ou num conto de fadas. Quase no mesmo instante avistamos os carros subindo a rua, chegaram todos ao mesmo tempo - o padre, os convidados, e Renata, a noiva mais linda que já existiu. Seguindo a tradição faroesa, entramos juntos na igreja (que então já estava bem mais cheia do que poderíamos ter imaginado) pontualmente às duas horas, no exato instante em que os sinos pararam de badalar e o órgão centenário encheu a igreja de Tvøroyri com as notas da marcha nupcial. O padre nos recebeu no altar e conduziu toda a cerimônia em inglês, dava para ver o quanto ele mesmo estava nervoso e feliz pelo momento, certamente depois de ter passado a noite treinando em inglês as palavras que está acostumado a falar em sua língua. Quando convidou os presentes a cantar em feroês, tomou antes o cuidado de nos explicar de que falava cada uma das canções. No pequeno sermão, falou de como a Renata e eu nos conhecemos, e não poderia ter sido mais emocionante.
E veio o momento em que nos aproximamos, recebemos a benção, dissemos o "sim" mais especial de nossas vidas e trocamos alianças. Então nós dois, que estávamos em bancos separados na frente da igreja, sentamos juntos, para não nos separarmos mais. E assim foi de mãos dadas que cruzamos novamente a nave, ao som do órgão que tocava a marcha de Mendelssohn, caminhando lado a lado rumo à vida inteira que temos pela frente e que juramos escrever juntos, capítulo a capítulo, para fazer de nossa história uma linda história de amor, tão linda quanto o sorriso que reluzias naquele domingo. Te amo, Renata, minha esposa para sempre.

domingo, 19 de junho de 2016

Coisas que acontecem numa ilha distante

O melhor da vida são os encontros. O melhor das viagens, provavelmente, também.
A vida me ofereceu o encontro com a Renata, minha querida companheira, amiga, parceira, amada, namorada e noiva... Mas noiva apenas por mais algumas horas, já que hoje mesmo estaremos entrando na igreja para formalizar tudo o que sentimos um pelo outro e queremos viver juntos. Uma grande responsabilidade e, sobretudo, uma grande felicidade.
Quisemos que este momento fosse especial de todas as formas possíveis, inclusive no lugar escolhido. Antes do inevitável impasse - onde fazer a cerimônia, no Rio, no RS, em MG? - surgiu a semente da ideia de fazer num lugar que fosse bonito e especial para ambos. Incertos da resposta, procuramos contato com o padre, que foi mais que amável em nos acolher. E assim estamos agora em Suðuroy, a ilha que tem provavelmente as pessoas mais amáveis do planeta, prestes a nos casarmos!
O lugar é tão encantador que sua beleza não cabe nas fotos e torna pequenos os melhores superlativos. E as pessoas... Quando chegamos, Tróndur estava lá, sorrindo para nós, de camisa canarinho do Brasil e calça azul (ele de mangas curtas e nós de casaco nos 10 graus do fim de tarde). Levou-nos até o endereço em que ficaríamos hospedados. Lá, sem que esperássemos, o casal dono da casa já havia estacionado um carro para deixar à nossa disposição e foi logo estendendo a chave e falando de um ou outro macete para ligar o carro e passar as marchas.
Tróndur nos mostrou a cidade, levou-nos para jantar, para pescar, abraçou uma grande bandeira do Brasil saída não sei de onde e pediu licença para hasteá-la cerimonialmente hoje.
Jónsvein, o padre, um homem simples que é só sorriso, fez um pequeno treino da cerimônia, que será bilíngue. Mostrou-nos a igreja, contando sua história e a origem de cada peça da decoração.
O irmão de Tróndur, ex-futebolista como ele, apresentou-nos sua casa, onde cultiva um jardim de sonho, pinta quadros e guarda um verdadeiro museu de relíquias, com camisas de times de futebol, troféus, fotos, discos, antigas ferramentas de trabalho do pai e do avô...
Depois, visitamos Einar, que conversou, contou histórias do seu passado de pescador no Atlântico Norte, apresentou-nos sua filha que mora na casa em frente, convidou-nos para um café e chocolates.
Mais tarde, fomos visitados por um repórter do maior jornal das Ilhas que queria nos entrevistar e perguntou se podia ir à igreja tirar algumas fotos da cerimônia. (Todos pedem licença para assistir ao nosso casamento, como se fossem eles os intrusos e não nós.) Ao mesmo tempo, a dona da casa veio nos apresentar sua filha, que se ofereceu para arrumar cabelo e maquiagem de minha noiva, ajudá-la com o vestido e levá-la até igreja. Nisso tudo, quando percebemos, havia sete pessoas (e um puffin) na casa, conversando, contando histórias, rindo. Sim, a vida (como as melhores viagens) é feita de encontros. Havia chance de eu não amar a mulher que vive, sente e pensa tudo isso da mesma forma que eu?

domingo, 5 de junho de 2016

Um livro para viajar e a cidade de Bratislava

Foto: Eduardo Trindade
"A máquina de xadrez", do alemão Robert Löhr, é um livro que eu recomendo. Trata-se de um romance engenhoso, ambientado no século XVIII, que reúne várias das características que me atraem num livro, como o fundo histórico e a narrativa ágil e levemente misteriosa, que prende a gente até a última página. Eu gostaria de falar um pouco mais do livro, mas é difícil fazer isso sem dar com a língua no dentes, então me limito a copiar um pequeno trecho da contracapa: "No século XVIII, o barão Wolfgang von Kempelen encantou o continente europeu com a máquina de xadrez. Um autômato vestido de turco desafiava qualquer humano para uma invencível partida." Isso é estritamente real, está nos anais da história, como vocês podem conferir se tiverem curiosidade. E, a partir desse ponto, o autor escreveu seu livro.
A história se passa em Pressburg - e é aí que ela começa a sair das folhas do livro e da realidade histórica para a nossa realidade. Pressburg é o antigo nome de Bratislava, a atual capital da Eslováquia. A cidade é descrita pelo autor e, mais do que naturalmente, acabou absorvendo parte do meu interesse pelo próprio livro. Acontece: bons livros levam a gente a querer saber mais sobre seus personagens, lugares e segredos! Com "A máquina de xadrez", não foi diferente: demorou um pouco, mas acabei pisando em Bratislava.
Foto: Eduardo Trindade
Que é relativamente pequena para ser capital de um país, mas tem charme de sobra. Bratislava é um típico exemplo de uma cidade nobre do velho império austro-húngaro, tendo assim certos ares em comum com Viena, Praga e Budapeste, mas duma forma, digamos, mais intimista. O rio Danúbio está lá, tocando o centro histórico, que é compacto e muitíssimo bem conservado. Os restaurantes estão por todos os lados. E o que talvez mais chame a atenção são as estátuas bem-humoradas que se espalham por diversos pontos do centro. Estão ali como se quisessem piscar para a gente. Não longe delas, tivemos o privilégio de alugar um pequeno e confortável apartamento - o que acaba sendo mais gostoso do que ficar hospedado num hotel. Quase como se habitássemos as páginas de um livro.

Duas das estátuas de Bratislava


sábado, 28 de maio de 2016

Festa da Bergamota

Uma coisa que não falta no Rio Grande do Sul são festas dedicadas a alguma fruta ou produto típico. É uma tradição bastante antiga (e não exclusiva do estado) a de festas da colheita. Lá, onde que cada cidade é conhecida por um produto (há a cidade do basalto, da maçã, do vinho...), a mais famosa é a Festa da Uva, em Caxias do Sul, mas há também as festas da maçã (em Veranópolis), do morango (em Bom Princípio), dos doces (em Pelotas), do queijo (minha favorita, em Carlos Barbosa)... E, entre várias outras, a Festa da Bergamota, em São Sebastião do Caí, que visitamos nesta semana.
Bergamota é como chamamos a fruta que em outras partes é conhecida por tangerina, mexerica, mandarins, clementina, laranja-cravo, poncã... Essa prosaica fruta sendo, assim, uma das que têm mais nomes diferentes.
Sendo uma fruta de inverno, a bergamota é bem emblemática dos meses frios no Rio Grande do Sul: não há gaúcho que não tenha lagarteado comendo umas bergas no sol.
Quanto à Festa da Bergamota propriamente dita, ela acontece a cerca de uma hora de carro de Porto Alegre. Pode não ser o maior nem o mais badalado destes eventos, mas é bem agradável (até porque nada precisa ser grande ou badalado para valer a pena). Fomos com pouco tempo e o dia estava chuvoso, mas gostaríamos de ter ficado mais. Teríamos aproveitado com calma a bandinha alemã, os jardins floridos, a feira, a exposição de frutas, os doces e, é claro, as bergamotas. Suculentas, saborosas, convidativas e baratas. Resistir? Impossível. Vai uma bergamota aí?

terça-feira, 3 de maio de 2016

Rothenburg ob der Tauber

Foto: Eduardo TrindadeConfesso que a Alemanha nunca foi meu sonho de viagem. Nada contra o país ou seus habitantes, mas os livros e as histórias que cresci ouvindo acabavam sempre me levando a outros lugares. Assim, quando finalmente visitei a Alemanha, foi sem grande ansiedade. E, de certa forma, pude aproveitá-la com um olhar neutro, relativamente isento de preconceitos.
Descobri que por lá, ligadas pelas incríveis auto-estradas alemãs, há uma série de cidades pequenas e adoráveis. Rothenburg ob der Tauber é uma delas. Trata-se de um daqueles lugares que inspiraram todo um imaginário composto de ruas sinuosas e antigas, serpenteando entre casas com estrutura de madeira e cercadas por um muro medieval. A cara da Alemanha clássica. O mérito de Rothenburg é ter se mantido da mesma forma que era há uns mil anos, o que, convenhamos, não é pouca coisa.
Rothenburg tem o charme das melhores cidades históricas. Tivemos o privilégio de conhecê-la da melhor forma, ficando hospedados numa pousada bastante agradável, jantando num restaurante charmoso (e que funciona juntamente com uma interessante loja de vinhos de fabricação própria), e passeando por ela de dia e de noite. Provamos por lá a schneeball, doce típico da região que, para falar a verdade, decepcionou-nos um pouco por ser mais seco do que parecia à primeira vista; ainda assim, valeu pela experiência. Percorremos a muralha do alto e depois visitamos o impressionante (e macabro) Medieval Crime and Justice Museum da cidade, pleno de instrumentos de tortura.
Mas o que chamou mesmo a atenção foi a beleza de Rothenburg. Assim sendo, é natural que as melhores lembranças estejam nas imagens do lugar. Aqui têm, então, algumas das fotos de lá.

Foto: Eduardo Trindade

Foto: Eduardo TrindadeFoto: Eduardo Trindade

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Somos todos iguais, braços dados ou não

 Uma reflexão necessária sobre a situação atual do país, ainda que fuja um pouco ao tema do blogue.
"Quem vive nos Bálcãs acaba passando por pelo menos duas guerras." Um dia, um amigo nascido nos Bálcãs me falou isso, em tom de provérbio iugoslavo. Esse amigo, que tem a mesma idade que eu, morou em quatro países diferentes sem mudar de cidade. Já o pai dele passou por sete países. Melhor dizendo, sete países passaram por ele: é o que acontece quando se fica no mesmo lugar mas as fronteiras oscilam ao sabor das guerras e as nações se juntam e se separam ao sabor dos acordos políticos (aqueles que, como se sabe, são como as salsichas).
Nos últimos cinco anos, visitei três vezes os Bálcãs. Sempre que a discussão pendia para assuntos de economia, política e qualidade de vida, acabávamos concluindo que a situação do Brasil era muito melhor do que a de qualquer país da ex-Iugoslávia e que, dentre vários possíveis motivos para isso, um se destacava: a ausência de guerras no período recente. Era flagrante o quanto o Brasil, a despeito de sua diversidade, tinha um senso de união e de convivência pacífica invejável. Não digo que fosse perfeito, nós sabíamos das dicotomias norte/sul (ou sudeste/nordeste), pretos/brancos, ricos/pobres, mas nada chegava aos pés das sangrentas tensões balcânicas. Meu amigo invejava essa nossa paz, como invejava a pujança econômica, a oferta de empregos, invejava até mesmo nossa Copa do Mundo e nossos Jogos Olímpicos.
Hoje, porém, se saio para a rua em meu país ou faço uma busca rápida na Internet, vejo um ódio que não está tão longe daquele estopim perigoso dos Bálcãs. É algo que nunca vi antes, não no Brasil. Que extrapola enormemente a simples discussão de ideias políticas ou a disputa democrática por poder (por mais que estas já fossem, em seu cerne, menos edificantes do que as palavras podem fazer parecer). O que se vê é uma troca de acusações e ameaças que se distanciou demais dos alegados combate à corrupção, de um lado, e respeito à instituição democrática, de outro. Ora, não me venham dizer que o que está em jogo é a corrupção (até porque sequer é esse o foco do julgamento do impeachment da presidente). Também não venham negar o crescimento econômico do país: para citar um exemplo, eu mesmo vivenciei um momento, há 15 anos, em que engenheiros saíam da universidade mendigando um emprego, e outro momento, há uns três anos, em que empresas iam à universidade disputar a tapa engenheiros que sequer tinham se formado. Não serei ingênuo a ponto de afirmar que é tudo mérito exclusivo de Lula ou Dilma, mas também não me venham dizer que é apenas coincidência ter acontecido durante seus mandatos.
Agora, passado o ápice daquele momento econômico, instaurou-se uma disputa de poder que faz uso de um componente perigoso: o ódio. Na disputa pela cadeira do Palácio do Planalto, alimenta-se a ideia de que o Brasil está dividido entre grupos que seriam, estes sim, irreconciliáveis: honestos e corruptos, o bem e o mal. Com a presidente literalmente impedida de governar, e isso deste o início do mandato, utiliza-se o país como moeda de troca. O velho e anedótico "é dando que se recebe" assume proporções assustadoras. Passageiros e tripulantes do navio se digladiam enquanto este vai a pique, consolando-se com a pobre ilusão de culpar o adversário pelo naufrágio.
Abro o jornal e penso o que aquele meu amigo ex-iugoslavo diria. Nas manchetes, vejo que em Brasília constroem um muro para separar os dois lados do campo de batalha; nas estradas, manifestantes fazem barricadas queimando pneus; novamente em Brasília, um deputado comemora não estar mais na lista de procurados da Interpol (mas era pegadinha do malandro: ele continua com mandato de prisão... e continua deputado). Em meio a tudo isso, em São Paulo, os supostos representantes da nova política brasileira tomam decisões importantes: discutem a participação de uma cópia simplória do Fofão para alegrar a festa do impeachment. E essa é a parte menos pior da história, pois é a que nos permite rir, nem que seja da própria desgraça. Palhaço por palhaço, é difícil não lembrar do Tiririca: "pior do que tá não fica". O nobre deputado, quem diria, era um otimista.

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Mercados do México

Foto: Eduardo Trindade
Ah, mercados. Poucos lugares são tão convidativos para quem gosta de viagens e de gastronomia quanto um bom mercado. E a Cidade do México, com suas paisagens, cores, aromas e sabores razoavelmente exóticos, oferece exatamente isso: uma profusão de mercados e feiras para todos os gostos. Vendem de tudo, e não apenas comida.
Foto: Eduardo TrindadeO ideal seria provavelmente começar pelo Mercado de la Ciudadela. Este é um mercado para turistas, que vende principalmente artesanato. São peças bonitas que remetem ao México: caveiras e esqueletos dançantes, sombreros e chapéus diversos, figurinos de mariachis e caubóis, camisetas e chaveiros com a turma do Chaves, tudo com muita cor. Quando estivemos por lá, havia relativamente pouca gente, o que ajudava a tornar o passeio por entre as bancas bastante agradável.
Depois, o Mercado de San Juán, no centro da cidade. Digamos que esse é exatamente o que se espera de um mercado mexicano autêntico. Os espaços são mais estreitos e mais concorridos. Vende-se de tudo um pouco: utensílios domésticos, ferramentas, flores... Mas principalmente comida, muita comida. Queijos. Carnes. Verduras. Insetos. Pimentas. E frutas, muitas frutas. Com toda a certeza, é o lugar ideal para comprar o que quer que se necessite para um bom jantar - seja uma refeição em casa para os amigos ou um menu profissional num restaurante. No nosso caso, paramos para um suco de laranja. Ah, os sucos do México! Fartos, baratos e espremidos na hora. Em seguida, paramos ainda numa banca com jeito de restaurante - sim, o mercado tem uma praça de alimentação e restaurantes que servem desde a boa comida de rua do México até pratos mais elaborados.
Entre um mercado e outro, e como descanso antes da empreitada seguinte, talvez seja uma boa procurar uma feira de rua - que os mexicanos chamam de tianguis. Na Colonia (bairro) Condesa há uma que é simplesmente uma delícia. Estende-se por algumas quadras, e se parece um pouco com as feiras de rua do Brasil. Com a diferença marcante, claro, de que o que se encontra são os produtos da terra. Variedades inéditas para nós de pimentas, milho, frutas, doces. Passeamos entre as bancas e nos oferecem provas de quase tudo. É impossível resistir. No nosso caso, mesmo sabendo que teríamos de deixar a cidade no dia seguinte, saímos de lá carregados de mamey (uma fruta que é parente do sapoti e do mamão), figos, compota e suco.
Mas eu tinha falado que a passada pela feira era só um entreato antes da jornada seguinte... Visitar o Mercado de Sonora, o "mercado das bruxas"! Esse não é para iniciantes, não mesmo. O Mercado de Sonora é a mais profunda acepção do que alguém poderia chamar de "mercado popular". Gigante. Caótico. Pronto a devorar seus visitantes. Deixai toda a esperança, vós que entrais. Imaginem uma grande quantidade de venda de badulaques comprimida num espaço fechado e apertado. E com a oferta de produtos ainda mais ampla que em todos os outros mercados que percorremos. É como se, de certa forma, qualquer coisa pudesse ser encontrada aqui: brinquedos, roupas, cadernos, panelas, eletrônicos, frutas, peixes, carnes. E, obviamente, ervas. Poções. Incensos. Trata-se do mercado das bruxas. Ou, seja, do esoterismo e das soluções mágicas. Lembra um pouco Belém, mas incrivelmente atulhado e apinhado de gente. Chegamos ao coração do Mercado de Sonora, onde o aroma das ervas é mais intenso. Seguimos caminhando, mas sair de lá não é tão fácil: a região toda é uma espécie de complexo de mercados populares e, mesmo fora do prédio, ainda temos de caminhar um bom trecho serpenteando entre bancas de camelôs e gente indo e vindo. O curioso é que as pessoas parecem completamente à vontade naquela confusão. Não sei bem como mas, de alguma forma, o mercado tem espaço para todos os mexicanos.
Foto: Eduardo Trindade

domingo, 13 de março de 2016

Pirâmides do México

Ao andar pelo México, é impossível não se deparar com referências à cultura pré-colombiana. Na comida. Nos nomes dos logradouros e em várias palavras de uso corrente (vocês sabiam que chapulín é o nome de um tipo de grilo?). Em representações artísticas (de painéis, pinturas e esculturas a jóias e amuletos, são inúmeros os objetos com traços astecas).
Porém, a herança mais palpável dos povos que habitaram o México é, sem dúvida, feita de pedra: as suas pirâmides, templos e cidades. A humanidade, por algum motivo, parece gostar de pirâmides. A eterna vontade de se aproximar do céu, talvez. Ainda hoje, visitar as ruínas dessas pirâmides que fomos deixando ao longo da história é impressionante.
Nos arredores da Cidade do México fica a antiga cidade de Teotihuacán. Acordamos cedo para ir até lá e fomos recompensados: as hordas de turistas ainda demorariam um pouco para chegar e, assim, tínhamos Teotihuacán e suas pirâmides quase que só para nós. Um dia frio, com o sol recém começando a se mostrar; caminhamos pela avenida central, subimos e descemos as pirâmides, enquanto alguns balões passam no horizonte. As ruínas de Teotihuacán tiram o fôlego pela paisagem e pelo esforço de subir todos aqueles degraus.
Um pouco mais longe, já no estado de Puebla, está a pirâmide de Cholula. Que é, esta sim, bastante inusitada para quem chega com a ideia de uma pirâmide clássica. A grande pirâmide de Cholula é considerada a maior do mundo em área e em volume, mas não em altura (a esse respeito, a comparação da Wikipedia é bastante interessante). E tem a particularidade de estar, hoje, quase completamente tomada pela vegetação, a ponto de que  um desavisado poderia chegar ao topo com a impressão de estar subindo um morro, e não escalando uma pirâmide. No alto há uma igreja católica que remonta ao século XVI, o que disfarça ainda mais a pirâmide original. Controverso, talvez, mas não de todo surpreendente: afinal, é o eterno desejo de se aproximar do céu.