quinta-feira, 5 de junho de 2014

Noivos!

Le Louis XV, de Alain Ducasse, é certamente um dos restaurantes mais bem-conceituados do mundo. Um jantar lá seria algo assim como um sonho distante. Até que começamos a planejar a viagem a Mônaco, onde fica o restaurante. Mas coragem para se aventurar no Le Louis XV, e sorte de conseguir uma reserva na semana do Grande Prêmio de Mônaco, também parecia ser algo distante.
Até eu pensar "por que não?" e entrar em contato com eles. De repente, não é que tínhamos uma reserva para Le Louis XV? Então o sonho começou de verdade.
Afinal, seria a ocasião perfeita para oficializar nossa união, não é mesmo?
Nem vou contar como foi escolher um anel de noivado, acertar o tamanho dele e buscá-lo na H.Stern na manhã do próprio dia em que seria a tua defesa de mestrado e também o nosso voo para a Europa. Mas as coisas seguiram dentro do planejado!
De acordo com a etiqueta do restaurante, levei terno e gravata, traje completo para a nossa noite, e passando em Andorra, não foi por acaso que acabei comprando o mais chique dos relógios - eu queria estar impecável em todos os detalhes! Assim como acompanhava a tua expectativa, a tua escolha de roupas e acessórios...
No dia, prontos para sair para o restaurante, testei todos os bolsos que eu tinha para tentar ver em qual deles conseguiria esconder a caixinha com o anel. Parecia-me impossível que não percebesses, ainda mais quando quiseste tirar uma foto nossa a caminho do restaurante! Mas não reparaste no volume que eu tentava esconder...
Antes de sair do Brasil, não sabias que eu tinha telefonado para Mônaco, a princípio para reconfirmar a reserva, mas também para falar sobre um marriage proposal. Acertei tudo, eu deveria procurar um certo Michel e entregar o anel para que ele cuidasse do resto.
Daí que, enquanto saboreávamos cada um dos nossos inesquecíveis pratos - o couvert, o amuse-bouche (ou amansa-bucho, como gostamos de brincar) de vegetais com pequenos peixes (seriam enguias?), a sopa, os aspargos, les jardins de Provence com trufas negras... enquanto saboreávamos cada momento, eu procurava a ocasião de te distrair e chamar um dos garçons. Quando quiseste ir ao banheiro, agradeci intimamente. Tu te levantaste da mesa e eu procurei um garçom com os olhos, mas antes mesmo de conseguir contato visual já havia alguém do meu lado, com toda a elegância e discrição que o momento pedia, e me dizia: "I am Michel, monsieur, do you have anything for me?" Rapidamente passei o anel, juntamente com um bilhete. Ele fez um sinal positivo com a cabeça e saiu discretamente, para ainda voltar duas vezes - na primeira, dizendo que eu ficasse tranquilo, pois estava tudo certo e, na segunda, para me parabenizar e desejar boa sorte.
Voltaste à mesa e seguimos em direção ao grand finale. Os inesquecíveis raviólis com morels. Em seguida viriam as sobremesas que pedíramos.
Então trouxeram uma bandeja coberta com uma redoma de ouro! e a puseram na tua frente. "Un cadeau tout spécial pour le madame!" E, confessaste depois, chegaste a pensar que tua sobremesa estava em falta e estavam trazendo alguma compensação. Eu estava nervoso, admito. Ainda mais porque - indo além do combinado, mas seguindo o roteiro mais tradicional possível - de repente arredaram a mesinha e colocaram uma almofada no chão, ao teu lado. Não tive escolha e não precisei pensar. Num instante estavas descobrindo a bandeja, para achar lá dentro o teu anel envolto em pétalas de rosa e o meu bilhete onde digo para sermos, nós dois, um só. No instante seguinte olhas para o lado, estou de joelhos e seguro tua mão. Rimos e sorrimos. Então nos beijamos e ouvimos as palmas de todo o restaurante.
E que todo o resto da vida tenha esse sabor da mais deliciosa das nossas sobremesas. Te amo, Renata.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Um ginásio nos Pirineus

Prefiro conhecer poucos países de cada vez, acredito que isso me dá mais chances de apreciar a cultura local sem ficar "pingando" de um lado a outro. Apesar disso, planejamos a viagem incluindo cinco (ou seis) países: Espanha, Andorra, França, Mônaco, Dinamarca e Ilhas Faroe. Acontece que, quando se visita lugares pequenos como Andorra, Mônaco e as Ilhas Faroe, é literalmente impossível fazê-lo sem passsar antes por algum outro país.
E o roteiro, no final das contas, foi bem agradável e rendeu até algumas surpresas.
Em Andorra - um micropaís nos Pirineus, entre a Espanha e a França - reparei em cartazes nos postes que anunciavam o IHF Trophy 2014, um torneio de handebol sub-20 que começaria exatamente durante nossa estada. Tive a sorte de lembrar de procurar informações no Google sobre esse torneio (o que não foi tão fácil, pois não havia sequer uma página oficial) e descobri que, dentre as oito seleções participantes, estava a das nossas queridas Ilhas Faroe. Ora, como iríamos visitá-las em seguida, eu e a Renata tínhamos a camisa da seleção e, como se não bastasse, o nosso Puffin "emigrado" de lá! Claro que resolvemos ver o primeiro jogo, que seria contra o Azerbaijão.
A preliminar foi Moldávia e Reino Unido, uma partida veloz que os moldavos venceram com uma moderada vantagem. Prestes a começar a partida seguinte, reparamos que os jogadores faroeses pareciam crianças inocentes perto dos demais, grandes e barbados. Começamos a temer pela sorte deles, e o temor se acentuou ainda mais quando soou o apito inicial e vimos que o toque de bola faroês era bem mais lento que o do jogo anterior.
Nesse meio tempo, estávamos nas arquibancadas eu e a Renata de camisas faroesas, além do Puffin com suas penas faroesas. Acho que os únicos outros presentes eram os membros da seleção técnica e, sendo assim, é claro que acabamos chamando a atenção...
Alguém veio perguntar se éramos faroeses. Respondemos contando rapidamente nossa história. Dali a pouco, veio outro, tirou uma foto nossa, entrevistou-nos, e disse que publicaria a história no Facebook deles. Em seguida, voltou o primeiro, munido de câmera e microfone, e nos entrevistou para a rádio-televisão faroesa. Estávamos gastando com louvor nossos 15 min de fama!
O que poderia ser melhor? Contra nossos temores iniciais, as Ilhas Faroe dominaram a partida e venceram por 43 a 12. Saímos do ginásio exultantes e prometendo torcer por eles até o final (pelo menos à distância, já que não teríamos mais tempo em Andorra para acompanhar o torneio). E não é que os guris foram campeões, vencendo todos os seus cinco jogos? Nossa alegria só não foi maior que a do Puffin, que dava voltas e voltas pelo ar!

sábado, 10 de maio de 2014

Pé na Tábua, a Corrida de Calhambeques


por Eduardo Trindade e Renata Teixeira

Quando queremos dizer “acelera!”, “mais rápido!”, “depressa!”, temos uma expressão bem conhecida: “pé na tábua!” O que poucos imaginam – mas que nós, entusiastas de carros antigos, sabemos bem – é de onde nasceu essa expressão. Afinal, nossos queridos antigos clássicos possuem o assoalho de madeira e, quando queremos ir mais rápido, fazemos exatamente isso: metemos o “pé na tábua”, pressionando o acelerador até o assoalho!
Bem, estamos em 2014 e a maioria dos carros não possui mais o fundo de madeira, mas nós ainda continuamos colocando o pé na tábua de nossas adoradas máquinas. Pelo quarto ano consecutivo, veículos construídos até 1936 se reuniram na cidade de Franca, no interior de São Paulo, para fazer o mais inusitado e divertido evento de carros clássicos do Brasil – talvez de toda a América do Sul? Ou do Hemisfério Sul?
O que torna o evento único é o fato de não ser apenas uma exibição, nem apenas uma parada ou um simples encontro. É uma corrida – a Corrida de Calhambeques Pé na Tábua – disputada em um verdadeiro autódromo, entre verdadeiros carros antigos. Competem diferentes categorias:
· Ford Modelo A, a que tem o maior número de participantes;
· Speed, para carros de corrida com preparação original da época;
· Transplantados, para hot rods;
· Motocicletas, para aqueles em duas rodas;
· Miscelânea, para outros carros construídos até 1936: Ford Modelo T, Ford Modelo B, Chevrolet, Buick, DeSoto, e por aí vai.
Cada categoria tem suas atrações e seus fãs. Entre os corredores da categoria Speed, temos Nelson Piquet, o tricampeão mundial de Fórmula 1. Seu filho compete na categoria Transplantados. Entretanto, a maior diversão talvez não esteja entre os pilotos profissionais, mas com os amadores que esperam o ano inteiro pela oportunidade de entrar na pista. E nós estávamos entre estes, com certeza!
Nosso carro é um Ford Modelo A Tudor de 1931. É um carro de passeio, não apenas de exposições, e tão original quanto possível – temos restituído a sua originalidade desde que o compramos, em 2012. Bem, não somos pilotos profissionais; foi a primeira vez que fomos a um autódromo como competidores em vez de espectadores. E, acreditem, foi um fim de semana incrível!
Na manhã de sábado, assim que o sol saiu, chegamos ao autódromo. Hora de adesivar o carro. Iríamos competir com o número 31, escolhido por ser esse o ano de nosso Fordinho. Adesivos colocados, hora de assumir nossa posição nos boxes. Nesse momento, surge um problema: não conseguimos dar a partida no carro. Mas é apenas um pequeno contratempo que nos mostra o quão amigável é o clima por lá: somos cercados por gente querendo ajudar e pronto! Motor funcionando, fomos para os boxes excitados pela atmosfera de todos aqueles belos carros e, mais que isso, excitados por fazer parte do evento.
Logo a pista é aberta e vamos para nossa volta de reconhecimento. Não importa se a intenção era uma primeira volta lenta e conservadora; ficamos realmente entusiasmados e, quando nos demos conta, ainda na primeira curva, o pensamento era “entramos rápido demais!” Mas nosso Fordinho se comportou bravamente. A cada curva, íamos ficando mais confiantes e o carro ia mais rápido. Pé na tábua! Assim o dia foi dedicado aos treinos livres e classificatórios, com algum tempo livre que aproveitamos para circular, ver os outros carros e conversar com os colegas competidores – muitos deles usando, como nós, o tradicional gorro de couro. Lá estava a Família Gabarra, com três gerações de competidores. Lá estava Ronaldo Topete, que conquistou a pole position da categoria Speed, batendo Nelson Piquet, e quase derrotando o tricampeão na corrida. E lá estava também o entusiasmo de Tiago Songa, organizador do evento, sacudindo a bandeira quadriculada ao final de cada corrida.
E domingo foi o grande dia. É difícil descrever o que sentimos enquanto tomávamos nosso lugar no grid de largada. Estávamos prestes a pilotar nosso Fordinho de 1931 numa corrida de verdade! Medo, felicidade, coragem, tudo misturado. Motores ligados! Os primeiros metros já nos mostraram a emoção que estava por vir. Para sermos sinceros, devemos dizer que não fizemos uma grande largada. Mas logo recuperamos nossa posição ao fazermos uma bela ultrapassagem na segunda curva. E seguimos, cantando pneus, corrida afora! Durou apenas cerca de 10 minutos, mas foram minutos inesquecíveis.
Assim como foram inesquecíveis as pessoas que conhecemos. Depois de nossa corrida, tivemos tempo para interagir e assistir às demais categorias. E o evento não se resumiu apenas às corridas de velocidade. Havia também a categoria de Marcha Lenta, uma tradicional competição em que o vencedor é o competidor mais lento. Nessa categoria, o piloto caminha ao lado do carro, controlando sua velocidade pelo “bigode” – o objetivo é ir tão devagar quanto possível sem deixar o carro morrer.
Ao final do dia, tristes, percebemos que já era hora de voltar para casa. Não é fácil pensar que teremos de esperar todo um ano pela próxima edição. Mas, por outro lado, isso significa que teremos tempo de preparar nosso carro – alguma restauração adicional, algum treino e... 2015, aí vamos nós, pé na tábua!

Originalmente publicado em inglês em: TRINDADE, E.D.; TEIXEIRA, R.C. Behind the wheel: Brazilian jalopy racing. The Restorer, v. 59, n. 1, Maio/Jun., p. 28-30, 2014.

sábado, 14 de dezembro de 2013

O acendedor de lampiões

Esse aí, disse para si o principezinho, ao prosseguir a viagem para mais longe, esse aí seria desprezado por todos os outros, o rei, o vaidoso, o beberrão, o homem de negócios. No entanto, é o único que não me parece ridículo. Talvez porque é o único que se ocupa de outra coisa que não seja ele próprio.

O Pequeno Príncipe, Antoine de Saint-Exupéry



Justamente como se passou com o Pequeno Príncipe, é inevitável que encontremos surpresas inusitadas ao andar por aí. Dar de cara com o inesperado é uma das partes gratificantes de visitar outros lugares.
A minha história aconteceu no centro de Zagreb, capital da Croácia, num final de tarde. Justamente naquela hora do lusco-fusco em que o dia começa a virar noite. Reparei num homem que caminhava decidido com uma espécie de longo bastão nas mãos.  No primeiro momento, não entendi do que se tratava, e por isso mesmo (curioso que sou) aquilo chamou minha atenção. O homem percorria as ruas com passo rápido, ia de um poste a outro com o tal bastão...
De repente me veio o estalo. Mas não pode ser!... Esfreguei os olhos, olhei novamente e não havia mais espaço para dúvida: um acendedor de lampiões.
Aquele homem era um acendedor de lampiões!
E daí foi impossível não lembrar do Pequeno Príncipe.
Ele ia de poste em poste, levava a ponta do bastão ao topo do poste e assim ia acendendo a luz dos lampiões a gás que iluminam o centro da cidade.
Meu primeiro impulso foi conversar  com o acendedor de lampiões. Mas então me ocorreu que eu não sabia bem o que dizer; além disso, o homem estava trabalhando e talvez não gostasse de ser interrompido. E mais ainda: ele caminhava bem rápido!
Apertei o passo decidido, pelo menos, a segui-lo. Eu não queria perder de vista aquela tarefa tão incomum, fadada à extinção no resto do globo. E queria ter a oportunidade de registrar alguma foto.
Bem, fotografá-lo foi mais difícil do que eu gostaria. Não só porque o acendedor de lampiões não parava um instante sequer, mas também porque obviamente a luz do dia já estava indo embora. Isso significou, infelizmente, fotos tremidas. Mas que valem pelo registro.
Claro que, passada a epifania, fui pesquisar. Zagreb é uma das raras (mas não a única) a ter lampiões a gás e respectivos acendedores de lampiões como parte do sistema de iluminação pública. Em Zagreb, são pouco mais de 200 lampiões a gás, todos na parte central da cidade, que duas pessoas levam menos de duas horas para acender (no final da tarde) ou apagar (pela manhã). E que, inegavelmente, dão um pouco mais de charme à capital.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Na Mongólia é assim

É uma tradição mongol, a qual vivenciamos mais de uma vez no acampamento de Hutenxile. Quando oferecem bebida (no caso, uma espécie de aguardente que lembra cachaça com butiá), aceita-se com ambas as mãos. Em seguida, molha-se o dedo anular da mão direita para com ele espargir o ar (oferenda às divindades do céu) e o solo (oferenda às divindades da terra). Finalmente, leva-se o dedo à testa (oferenda aos ancestrais). Só então se bebe - e muito, se depender dos nossos anfitriões.


domingo, 6 de outubro de 2013

Sobre rodas: a capital italiana do automóvel e o GP de Monza

Já comentei a relação particular que os italianos têm com automóveis - relação essa que por vezes atinge ares anedóticos, como numa das cenas do recente (e excelente) filme Rush. Na tela, estão Marlene e Niki Lauda parados à beira de uma estrada. Marlene se dispõe a usar seu charme feminino para conseguir uma carona, mas fica espantada quando para um carro - cantando pneus - e os dois italianos que estão a bordo se dirigem cheios de adoração não a ela, mas ao seu companheiro. Haviam reconhecido Niki Lauda, recém contratado pela Ferrari.
Eduardo Trindade
Museu do Automóvel, Turim
Se non è vero... O fato é é que os automóveis são uma parte integrante do orgulho italiano. E, se a Ferrari figura logicamente no topo dessa idolatria, não é a única a fazer parte do Olimpo: lá estão Alfa Romeo, Maserati, Lamborghini, FIAT. Essa última, cujo nome completo é Fabrica Italiana Automobili Torino, tem a bela capital do Piemonte na certidão de batismo, o que explica pelo menos em parte a ligação indiscutível daquela cidade com a indústria do automóvel.
Toda essa introdução para dizer que, em Turim, à parte a fábrica da FIAT, a vocação "engenheirística" das universidades da região e a tradição em lidar com carros, merece destaque o Museu do Automóvel.
Está tudo lá para que os fanáticos por carros de todos os tipos alimentem sua paixão e para que até os mais insensíveis experimentem um pouco desse fascínio. Réplicas dos precursores: um carro de Leonardo da Vinci, a máquina a vapor de Cugnot. Brilhando como em seus dias de glória, os primeiros automóveis a combustão, alguns mais que centenários com toda a pinta de carruagem-sem-cavalos. As linhas de montagem, o Ford Modelo T. A era dos gângsteres. Primos de Marlúcio, o Ford Modelo A. O design. As Ferraris, claro. O automobilismo. Uma incrível linha do tempo com dezenas de carros de competição, da era pré-Fórmula-1 à Ferrari de Schumacher. O museu virtual vale a visita, mas o indescritível mesmo é estar lá ao vivo.
E sim, claro. Falou-se de Itália e de automóvel, não tem como não lembrar da Ferrari e da Fórmula 1.
Não é por coincidência que, não longe dali, nos arredores de Milão, está o histórico circuito de Monza.
Mas eis que o acaso nos colocou em Milão no fim de semana do GP da Itália! (Juro, foi por acaso mesmo!) Imperdível, não?
Previsível: fomos lá. Ingressos na mão, expectativa no ar desde as primeiras horas de domingo. Uma rápida viagem de trem desde a estação de Milão até o autódromo, para então descobrir que Monza, como belo monumento da Fórmula 1 que é, não se resume a um palco de corridas; é um belo e arborizado parque que, mesmo em qualquer outro dia do ano, vale a visita. Mas como era domingo de grande prêmio, o local estava cheio, e a animação das torcidas é contagiante, talvez a melhor parte de tudo. Impossível esquecer que a Itália é a casa da Ferrari - o que não quer dizer que não se vejam diversas outras cores e bandeiras.
A corrida foi bela - difícil dizer mais que isso, o vídeo abaixo que fizemos não consegue mostrar tudo. De nossos lugares na arquibancada, sentimo-nos privilegiados. A vontade era de que o dia não terminasse. Mas, dado que não temos como fazer o tempo parar, o jeito é comemorar a bandeira quadriculada, não importa quem seja o vencedor. E seguir caminhando pelo mesmo asfalto onde pouco antes os carros estavam voando baixo (na Fórmula 1, esse é um privilégio de quem vai a Monza, onde, depois da corrida, abrem os portões da pista para o público). Para ir sonhando com o próximo grande prêmio.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Turim pelas beiradas

Eduardo Trindade
O motivo de minha ida a Turim foi a participação num congresso - o 5o. Congresso Mundial de Tribologia, no qual apresentaria um trabalho (minha primeira apresentação no exterior, em língua estrangeira!).
Daí que eu tinha uma semana em Turim, mas com a expectativa de pouco tempo livre para conhecer a cidade.
Acabou sendo excelente, a começar pelo congresso. Mas não é dele que quero falar aqui, e sim da minha experiência piemontesa - Turim é a capital da região italiana do Piemonte ("pé do monte"). Uma cidade cercada por picos nevados que já abrigou os Jogos Olímpicos de Inverno. E, sobretudo, uma cidade com muito mais atrações do que eu supunha.
Porém, vamos por partes. Para começar, uma viagem em que, ao invés de estar simplesmente "de férias", tem-se obrigações e horários a cumprir é sempre algo diferente - e interessante. Todo dia de manhã eu saía pontualmente para pegar o bonde que me levaria ao local do evento. E misturar-se com outros tantos que também pegavam o bonde, reparar nas pessoas que acordavam cedo, descobrir o movimento das ruas, transitar por lugares que não estão necessariamente no topo da lista de atrações turísticas... Tudo isso cria uma intimidade, eu e a cidade fomos nos tornando cúmplices de segredos que só os que não têm pressa descobrem. Minha pequena alegria das manhãs era quando o cobrador do bonde, depois de usar o inglês para pedir o bilhete de alguns óbvios estrangeiros, dirigia-se a mim em italiano. Ou quando, na rua, pediam-me alguma informação. Curioso comportamento do ser humano, que luta tanto para se destacar mas, no fundo, adora se misturar.
Eduardo TrindadeE a alegria do final de tarde era se esbaldar com o delicioso sorvete italiano; percorrer as ruas; percorrer principalmente as praças, muitas e tão bonitas elas; descobrir as surpresas da cidade. Assim fui sorvendo Turim pelas beiradas, aos poucos me aproximando do seu coração. É curioso e fascinante que Turim seja a capital por excelência de alguns símbolos italianos: uns quase banais, como os grissini e o gianduia ("pai" da Nutella!), outros grandiosos como o cinema e a indústria automobilística. Sim, a paixão italiana por carros se manifesta em todos os cantos da Bota, mas (Maranello à parte) é em Turim, casa da FIAT, que ela se mostra mais entranhada no espírito da cidade. Que, de quebra, possui um magnífico museu do automóvel... Mas a relação dos italianos com suas máquinas merece um capítulo à parte. O que vale dizer, por ora, é que é uma relação de quem vê o automóvel como objeto de arte, como elemento da família. Algo diferente do que se percebe nos Estados Unidos: se lá o que vale é a potência do motor escondido sob o capô, na Itália o diferencial são as curvas da carroceria. A Itália é um país de design, e isso se percebe em cada uma das marcas de Turim que se confundem quase com a história da cidade, do Cinquecento da Fiat às tradicionais canetas Aurora.
E claro, já que o futebol é tão caro aos italianos, ele também estaria muito bem representado por lá: Turim é a casa da Juventus, um dos times mais vitoriosos e de maior torcida do país. Mas quem acabou ganhando a minha simpatia foi o seu rival, Torino - pelas cores, pela história, pelo fato de eu passar todo dia em frente ao seu estádio e talvez também por um quê de provincianismo que, na minha cabeça, o identifica orgulhosamente com a cidade. Uma cidade da qual comecei a sentir saudades antes mesmo de ir embora.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

A faca mongol

Não é de surpreender que não haja tantas oportunidades de compras na Mongólia Interior quanto em Pequim. Mas eu, que ouvira falar das facas mongóis, queria vê-las e levar alguma para casa.
Há objetos que me fascinam, e entre eles estão as facas - fascínio que é provavelmente consequência da cultura gaúcha e que desde pequeno vi cultivado em casa, pois lembro do orgulho com que meu vô e meu pai exibiam suas lâminas favoritas.
E os mongóis, que em termos de cultura campeira estão para a China como os gaúchos estão para o Brasil, é claro que teriam alguma faca para fazer bonito na minha própria coleção.
Encontrei-a quando eu já não esperava: no acampamento em que estávamos havia uma lojinha, e na lojinha havia algumas facas. A maioria delas, de bainhas coloridas, objeto de decoração para turistas. Algumas, mais autênticas, tinham o cabo em osso, lâminas de qualidade e passavam a segurança de que, mais que para decorar, haviam nascido para serem usadas.
Tomei uma delas na mão e me apaixonei. Perguntei o preço, já me preparando para pagar algo exorbitante. Razoáveis 140 yuans - uma faca de qualidade semelhante no Brasil custaria pelo menos o dobro ou triplo. Controlei-me para não escolher uma segunda faca!
Saí plenamente realizado pela aquisição do meu objeto de desejo: uma faca mongol! Já me imaginava exibindo-a e usando-a no Brasil.
No dia seguinte, fomos à cidade de Baotou, onde pegaríamos o avião para ir da Mongólia Interior até Pequim. Fizemos o check-in, despachamos as malas... Eis que a bagagem é imediatamente inspecionada pelo raio X e me chamam a um canto: há uma faca na minha mala? Sim, mas é uma bagagem despachada! Não importa, não é permitido levar facas no avião para fora da Mongólia Interior. Quem diria!
Imaginem minha frustração. Não adianta discutir, também não adianta pensar em mandar a lâmina pelo correio - dizem-me que não é permitido, e pronto.
Deixei-a com PangPang, a prestativa chinesa que nos acompanhou em nossa visita à Mongólia Interior e que demorou um instante a entender que estava ganhando aquele presente.
E assim foi a história da faca mongol que fez parte da minha coleção durante um dia apenas.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Mongólia

O território da Mongólia histórica é dividido hoje entre a Mongólia Exterior (República da Mongólia), independente, e a Mongólia Interior, uma província autônoma da China. Embora a noção que a maioria de nós tem da Mongólia seja a do país independente, ambos os lados da fronteira compartilham muito da cultura e dos traços étnicos - mal comparando, assim como a cultura gaúcha se estende pelos pampas de Brasil, Uruguai e Argentina.
A língua mongol é falada nas duas Mongólias, embora seja minoria nas cidades do lado chinês. Curiosamente, no país do norte, por influência soviética, ela é escrita com o alfabeto cirílico, mas manteve o alfabeto mongol tradicional na parte chinesa. E só esse incrível alfabeto já é uma atração à parte.
Mas a atração maior é mesmo os campos, o "pampa mongol" onde se encontram famílias vivendo de acordo com os mesmos costumes há milhares de anos (verdade que algumas modernidades foram introduzidas, como motos e caminhões, mas outros aspectos, como o "banheiro natural", continuam surpreendentemente comuns).
Na Mongólia Interior, visitamos um acampamento mongol na região de Hutenxile. A paisagem do lugar é fascinante, mas creio que ainda mais fascinante é o contato com a gente simples que vive lá. Verdade que ficamos num acampamento para turistas (visitado principalmente por chineses, creio que éramos os únicos estrangeiros). Mas a cultura mongol está por toda parte. Somos recebidos, segundo a tradição, por braços que estendem lenços coloridos em sinal de boas-vindas. Oferecem-nos a aguardente local, que é indelicado recusar, e mais indelicado ainda deixar de fazer a pequena cerimônia: colocar o dedo anular na bebida e em seguida agitá-lo, oferecendo as primeiras gotas para divindades do céu, para divindades da terra e para os ancestrais - nessa ordem. Vemos alguns aobao - pilhas de pedras simbólicas do espiritualismo mongol - e adicionamos algumas pedras a eles.
Andamos a cavalo, num passeio pelo campo. O cavalo mongol é provavelmente o orgulho maior desse povo e, treinado à maneira deles, ignora solenemente nossos comandos ocidentais.
Somos levados, pela senhora que nos acompanhou no passeio a cavalo, ao interior da sua casa e recebidos dentro de seu próprio quarto. Comunicamo-nos por mímicas e olhares. Ela nos oferece pedaços de melancia. Aceitamos agradecidos mas, no quarto dela, não sabemos o que fazer com as sementes... É definitivamente insondável a etiqueta das refeições nesse lado do mundo. Na dúvida, engolimos as sementes de melancia, imaginando que esse pode ser um gesto natural mongol - ou que a senhora deve achar incrivelmente estranhos esses ocidentais que comem sementes. Depois, é-nos oferecida uma bebida misteriosa que acaba por ser simplesmente leite (de égua?) com chá.
Ao mesmo tempo em que vivenciamos tudo isso, somos também atração: alguns mongóis e chineses pedem para tirar fotos ao nosso lado; sorrimos e posamos para as câmeras, pedindo apenas fotos com eles em troca. De repente, pedem para ver nosso dinheiro, e em pouco tempo causamos um alvoroço: nossas notas de reais são cobiçadas e disputadas ansiosamente pelos mongóis.
À noite, somos avisados de que haverá uma festa com dança em volta da fogueira. Fico esperando uma apresentação folclórica mas, em vez disso, organizam uma mini-boate ao ar livre, com luzes e música bate-estaca, sob o olhar desconfiado do retrato gigante de Gêngis Khan a um canto. O inusitado chega ao máximo quando, entre as músicas, começam a tocar um funk carioca: "Ui! Adoro quando ela sobe e desce!..." Encolhemo-nos, torcendo para que, em vez de uma homenagem aos visitantes brasileiros, seja apenas uma coincidência e que eles não tenham ideia do que significa aquela letra.
Mas, afinal, a festa não dura muito, e somos liberados para uma noite de sono única numa tenda sob o céu estrelado dos campos mongóis. Noite que parece pequena para assimilar as sensações de um dia como aquele.

por Eduardo Trindade

terça-feira, 10 de setembro de 2013

(Nem sempre) roupa suja se lava em casa

Quando se viaja, é difícil gerenciar o estoque de roupas limpas.
Em férias, acabamos levando peças que duram aproximadamente uma semana; para as semanas seguintes, é necessário lavá-las: no próprio quarto do hotel, ou então em alguma lavanderia. Em geral, considero a primeira opção mais simples e cômoda, mas nem sempre ficamos numa mesma cidade o tempo suficiente para as roupas secarem. Então a lavanderia é mais conveniente.
E acontece que estávamos no verão de Guilin, província chinesa de Guangxi, uma combinação que faz qualquer um empapar em poucas horas na rua. A Renata já estava ficando sem roupas limpas.
Daí, depois de infrutíferas buscas pelas ruas e de perguntar para algumas pessoas, descobrimos que não é tão fácil assim achar uma lavanderia em Guilin.
O que fiz, então, foi procurar uma rede wifi e jogar "laundry" no Google Maps, que então mostrou a "Jiajie Laundry" numa ruazinha a 17 min de caminhada. Decorei a palavra chinesa para lavanderia e gravei no celular os três ideogramas que significam "lavagem de roupas". E lá fomos nós.
O Google nos levou a um endereço que se resumia a um espaço pequeno e atulhado de coisas, que parecia uma oficina mecânica ou loja de ferragens, mas que tinha entre a infinidade de quinquilharias um ferro de passar... e um velhinho chinês com cara de chinês e unhas amareladas que certamente nunca ouvira falar em Google Maps.
Mostrei para ele os ideogramas "lavagem de roupas" na tela do celular e ele assentiu. (Ressalve-se aqui o fato de que mímicas não são universais, gestos que faríamos no Brasil para simbolizar uma lavagem, perguntar o preço ou mesmo indicar os números perdem o sentido na China.) Bem, perguntei o preço (em mandarim) e ele respondeu 50 yuans - bem razoável. Então faltava descobrir a que horas buscar a roupa, mas eu simplesmente esquecera como se dizia isso em mandarim. Arrisquei: "zhenme zhou?" Ele corrigiu: "zhenme dian?" Repeti "zhenme dian?", sem muita convicção. Apontei para o relógio. Ele não entendeu. Insisti. O velhinho falou: "qi dian". Bem, "qi" é sete, deduzi que deveríamos passar lá às sete horas - eu estava quase seguro de que "dian" era a palavra chinesa para "hora". "Quase seguro?" - perguntou a Renata - "Tem certeza de que não são sete dias?" Eu não tinha tanta certeza. Voltei ao relógio, fui contando as horas em chinês e o velhinho sorria da situação, mas não conseguia transmitir segurança.
Então passou um outro chinês na rua. Bilíngue! E nos ajudou, confirmando em inglês que podíamos buscar as roupas às sete horas, afinal. O velhinho da oficina-lavanderia sorriu e, com ingênua cordialidade, ofereceu cigarros que recusamos gentilmente. Saímos deixando as roupas, apesar de que sentíamos certo calafrio a cada vez que víamos varais estendidos pelas ruas.
Voltamos pontualmente às sete. A alguma distância, reconhecemos as roupas no varal - aparentemente limpas! A alegria foi instantânea, banal e contagiante. O velhinho não estava lá, mas da porta ao lado algumas pessoas nos observavam e vieram nos atender. Sorriram, recolheram as roupas, pagamos. Convidaram-nos para entrar e tomar chá. Recusamos como havíamos recusado os cigarros, apesar de que fiquei com uma vontade de aceitar... Se ao menos conseguíssemos manter uma conversa mínima com eles! Bem, pelo menos a missão estava cumprida: roupas aceitavelmente limpas por mais alguns dias.