sexta-feira, 10 de setembro de 2010

O Explorador de Cidades


Explorar uma nova cidade é como preencher uma página em branco. Dá medo. Às vezes não sabemos por onde começar. E a cidade tem o agravante de não permitir borracha nem rasuras: raras vezes se consegue corrigir falsas primeiras impressões.
Ter um mapa ou guia debaixo do braço ajuda. Um livro lido na semana ou no dia anterior, mais ainda. Mas nada substitui o esquadrinhar das ruas que fazemos com nossos próprios passos. E é aí, no instante em que colocamos o pé na calçada, que surge a primeira hesitação: para lá ou para cá? Esta ou aquela rua? Apela-se para a sugestão de algum conhecido ou do recepcionista do hotel, apela-se para a intuição ou para algum pressentimento, mas é preciso apelar. Não é fácil ser um flâneur, como dizem os franceses.
Mas é preciso, e tão impreciso quanto viver não é preciso.
Sigo meus palpites. Às vezes, sim, apelo. Procuro ter na cabeça uma ideia geral da cidade ou do bairro por onde ando mas, isso posto, não me preocupo com me perder: ignorar momentaneamente o nome da rua por onde passo não vai me causar problema algum. E pode trazer surpresas.
Creio que é por isso que gosto tanto de explorar cidades pequenas. Delas, não sabemos exatamente o que esperar. Hoje em dia, todo mundo já foi a Paris e tem profusão de dicas imperdíveis sobre a cidade, mas quem conhece a Vila do Corvo? Nas cidades pequenas, todos os caminhos são válidos, todas as ruelas parecem nos esperar de braços abertos. Nas grandes metrópoles, a sensação de estar perdendo algo anda sempre à espreita, e alguém nos dirá, na volta: o quê, vocês foram a Paris e não subiram na Torre Eiffel? Ou pior ainda: mas eu avisei que aquele restaurante numa ruela desconhecida do Quartier Latin era imperdível, se vocês não foram até lá, voltaram sem saber nada de gastronomia francesa!
Dispenso os conselhos agourentos. Vou a YangShuo, na província chinesa de GuangXi, ninguém vai me dizer o que devo fazer por lá e poderei me perder à vontade. Principalmente com as placas todas escritas em chinês.
Claro, as cidades grandes também valem a visita, não há como dispensá-las. Nestes casos, a estratégia é diferente, não basta flanar. Sou um sujeito curioso e ansioso, o que significa que já terei de antemão uma lista dos pontos que não quero deixar de conhecer: um Corcovado aqui, uma Torre Eiffel ali, um Taj Mahal acolá. O primeiro dia será dedicado a explorar avidamente as tais atrações imperdíveis (que não coincidem necessariamente com as atrações imperdíveis dos guias de viagens). Mas o segundo dia, e talvez outros mais, deverá ter um tempo generoso dedicado a caminhar por aí, sentir o clima e o som da cidade, descobrir lojinhas e livrarias, ousar petiscos. Que graça teria uma viagem se já soubéssemos de antemão tudo o que nos espera?

sábado, 17 de julho de 2010

Chão de Estrelas

Existe, no estado do Rio de Janeiro, divisa com Minas Gerais, um vilarejo que vive de música. Não sei se é o único no Brasil, mas com certeza é um caso digno de nota. De belas notas musicais.
O lugar se chama Conservatória, não chega a ser um município, é pouco mais que um povoado em torno de duas ruas, a “rua que sobe” e a “rua que desce”. Mas é muito mais que isso, porque vive de música.
Poderia dizer que é um lugar parado no tempo, e seria verdade, mas apenas isso não seria motivo de tanto espanto porque, procurando bem, há cidades tão paradas no tempo quanto Conservatória, com arquitetura colonial, jeito de interior, espírito de província. O que espanta, sim, é o modo como tudo gira em torno da música na pequenina Conservatória.
E, já que estamos falando de um lugar parado no tempo, é claro que a música em questão não deve ser nenhum pop moderno, nenhuma corrente pós, ultra, heavy ou trash metal, nem mesmo qualquer das formas de rock ’n’ roll nacional ou importado. Se existe um lugar que nunca ouviu falar de Lady Gaga e outras contemporaneidades, este lugar só pode ser Conservatória. Retrocedamos no tempo. Passemos pelo Tropicalismo, pela Bossa Nova, cheguemos às velhas modinhas que nossos avôs cantavam ouvindo o rádio, nas praças ou nas esquinas, nas noites de luar, ao sereno.
Cheguemos à esquecida tradição das serenatas, que só vemos em filmes. Só em filmes? Em filmes e em Conservatória, reduto último de gente romântica.
Nomes como Pixinguinha, Vicente Celestino, Francisco Alves e Sílvio Caldas são os que continuam vivos nas ruas de Conservatória.
As ruas de Conservatória... É bem provável que, na rua onde moras, ó leitor, as casas e os prédios sejam identificados por números. Nas ruas de Conservatória (a rua que sobe, a que desce e mais alguns fiapos de ruas que ligam uma à outra ou se estendem para fora), as casas não têm números, mas nomes de canções. “Chão de Estrelas”, “Luar do Sertão”, “Carinhoso”, “Maringá”. Imaginem os diálogos possíveis. “Moro no Luar do Sertão”. “Darei um pulo até o Chão de Estrelas”. Uma delícia, não?
Cheguei a Conservatória de ônibus, mas talvez tivesse sido melhor ainda chegar de trem, um trem como o que algum dia foi puxado pela locomotiva conservada orgulhosamente ao lado da estação. Aproveitem a dica, ó fluminenses, e levem o trem novamente até Conservatória. Ou, pensando bem, não sei, não; deixem Conservatória do jeito que está, não mexam naquela caixinha de música.
Quando a noite chegar, façam como todos no vilarejo e se reúnam em torno de uma roda de violões. Façam como fiz. Relevem a possibilidade de não conhecer quase nenhuma das músicas que serão cantadas, elas se tornarão mais familiares à medida que a noite avançar. Sorriam ante a descoberta de que são, provavelmente, os mais jovens de toda a cidade, crianças entre um bando de adoráveis velhinhos. Encantem-se com a descoberta de que estes velhinhos talvez não sejam o conjunto mais harmônico que já ouviram mas são e serão o conjunto mais apaixonado que viram durante muito tempo. As canções são íntimas deles e eles são eternos namorados. E, quando a serenata terminar, voltem para a cama flanando, quase sem perceber que estão assobiando. Ou cantarolando. Afinal, não importa o tom da voz, importa é o tom do coração.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

O mar de Copacabana

Da sacada do meu apartamento em Copacabana, via-se o mar. O apartamento não era luxuoso nem ficava particularmente perto da praia, mas o prédio era alto e o andar era um dos últimos. Assim, da sacada, via-se não exatamente a praia, mas o mar. Com o seu azul delimitado pelo azul do céu, com os navios de carga, um ou outro veleiro e um punhado de ilhas mais adiante.
Era assim que eu preferia o mar. À distância, podia observá-lo e sonhar com ele à vontade, protegido de olhares indiscretos, de vendedores insistentes, de sal e areia grudados no corpo. Amava o mar, não a praia, se é que me entendem. Nos finais de tarde, eu me colocava, debruçado sobre a cidade, cuia de mate entre as mãos, e namorávamos, eu e o mar.
Já se vão alguns anos. Saí de Copacabana e passo por lá bem menos vezes do que alguém poderia supor. Hoje meu apartamento não tem sacada nem vista para o mar. Apesar disso, eu me acostumei e gosto dele, com suas paredes laranjas, sua rua sossegada, sua vista insuspeitada para o outro lado da cidade. Vivemos, eu e meu apartamento, numa união estável.
Outro dia, recebi uma visita que não conhecia o Rio de Janeiro. Transformado em cicerone, saí a mostrar o que a cidade tem a oferecer. E que, claro está, inclui Copacabana como passagem quase obrigatória. Pois fomos até lá. O bairro esperava por nós como espera, dia após dia, por tantos e diversos visitantes. Copacabana parece não mudar. Estendia em nossa direção o calçadão de pedras portuguesas que é seu vestido de ondas. Oferecia o que quiséssemos petiscar, de biscoito Globo a refeições completas. Abria seu tabuleiro nas esquinas, em artesanatos e feiras de frutas. Impunha-se com seus prédios inumeráveis, suas calçadas abarrotadas. Deixava entrever suas rugas num pedinte do asfalto, num bêbado de banco de praça, numa mulher de vida dita fácil. E a todos oferecia o mar.
Antes do mar, o mar de gente. Que é bom de se ver munido de lupa, atentando para cada gota, cada partícula deste universo que é Copacabana. Atletas de fim de semana. Turistas de camisa florida, sandália e meias coloridas. Senhoras idosas e respectivas enfermeiras. Mães de primeira viagem e filhinhos que são uma graça. Ciclistas. Ciclistas que voam rente a nós. Torcedores de todos os times de futebol, inclusive os mais improváveis. Pescadores. Políticos. Profetas.
Para todos, o mar. Sentemos. Sentamo-nos próximo a ele, sentimos. Reencontrei o sol e o sal, o cheiro do mar que não chegava até mim. De pés no chão e olhos abertos, viajei em silêncio. Senti-me também visita, também parte daquele mar. Em ondas que me chegavam naquela tarde como em tantas tardes. Que me faltava, por que não me aproximei antes deste mar? Quero mais uma vez te namorar, e agora é para valer.

Fotografia: praia de Copacabana vista do alto do Pão de Açúcar.

sábado, 29 de maio de 2010

Suvenires: vinho do Porto

Continuando a falar de suvenires de viagem... Não é que eu seja um inveterado apreciador de bebidas, antes até pelo contrário. Acontece que a marca registrada da cidade do Porto é, sem dúvida, o vinho do Porto. E, estando lá, é quase uma heresia não visitar um armazém ou uma loja de vinhos. Como ir a Roma e não ver o papa.
Saibam, então, que eu visitei, ainda que sem muita expectativa (sou um péssimo conhecedor de vinho, quanto mais de vinho do Porto). Meu faro era o de um viajante curioso. Mas todas as minhas expectativas foram superadas ao ver esta garrafa: Porto... Alegre. Porto Alegre! Ora, não me digam que atravessei o oceano para encontrar esta inusitada referência à minha querida cidade numa garrafa de vinho! Não tive dúvida: peguei a garrafa. Ainda perguntei ao vendedor o que ele me dizia daquela marca. Nada excepcional, mas mais do que razoável pelo preço dela, que aliás era bem acessível. Pois creio que a teria comprado mesmo que ele dissesse que o vinho era uma porcaria. Há coisas que são degustadas apenas com os sentidos, mas outras são degustadas também com o coração, não concordam?

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Mind the gap - ou - Brincando de Interpol

Sempre gostei muito de jogos de tabuleiro. Quando criança, cheguei a passar horas debruçado sobre a mesa, ou mesmo no chão da sala, brincando. Havia os clássicos, como ludo e xadrez. E havia, claro, outro tipo de clássicos: Banco Imobiliário, Jogo da Vida, Detetive, Interpol... Lembram de Interpol? Aquele desafio em que um dos jogadores era o procurado Mister X e os demais tentavam capturá-lo, correndo atrás dele de táxi, ônibus, metrô. O tabuleiro era o mapa de uma cidade. A cidade era Londres.
Daí que os anos passaram – mind the gap – e em 2005, quando a caixa de Interpol já estava guardada há algum tempo, surgiu a oportunidade de uma viagem à Inglaterra. Minha segunda ida à Europa. Descobrir Londres, assim, foi como me aventurar num jogo de Interpol, mas um jogo saboroso em que eu não tinha pressa para fugir de eventuais adversários; a única justificativa para pressa era o tempo escasso de que eu dispunha. Embarquei. E naquele jogo, em que eu andava pelo tabuleiro da Londres real, pipocavam imagens emblemáticas, cenas de filmes e de um inconsciente formado ao longo dos anos. Tudo merecia ser descoberto ou, mais precisamente, redescoberto, pois, ainda que se tratasse de novidades, era um universo familiar: os táxis pretos, os ônibus de dois andares, as cabines telefônicas, os guardas da rainha que sequer piscavam o olho. Sem falar nos cartões-postais, como a ponte sobre o Tâmisa e o Big Ben.
Além disso, não faltaram as histórias menos convencionais. Encontrei uma Londres com um gosto peculiar por mistérios e relatos macabros (uma cidade adequada, portanto, à ambientação de Interpol): Jack, o estripador; Henrique VIII e Ana Bolena; o Museu do Terror; o Dead Man’s Corner (algo como “Beco do Homem Morto”).
E histórias mais amenas, não poucas ambientadas em endereços célebres. Quem nunca sonhou em pisar na faixa de pedestres de Abbey Road, atravessando a rua exatamente como os Beatles fizeram? Pois Abbey Road está lá e, por mais prosaico que seja o gesto, tê-la atravessado é daquelas coisas que merecem serem contadas aos netos. Sim, e que tal ir até o número 221B da Baker Street? Reconhecem o endereço? É a morada de Sherlock Holmes. Lá, fui recebido por seu amigo, Dr. Watson em pessoa, que me levou para conhecer a habitação. Na verdade, é um curiosíssimo museu; mas, no meio de tantas histórias reais que parecem inventadas e outras tantas lendas que parecem reais, quem saberia dizer se eu pisava o tabuleiro de um jogo ou o calçamento de uma cidade?

Fotos: alguns encontros londrinos - um guarda na rua... outro "guarda" na Torre... e Sean Connery, ou melhor, a sua reprodução em cera no museu Madame Tussauds.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Suvenires: hulusi, a flauta chinesa

Há algum tempo sinto vontade de falar sobre os suvenires de viagem que tenho guardado. Sendo um coisista compulsivo (o termo, até onde sei, é do Neruda, patrono dos coisistas), material não falta. O difícil talvez seja escolher por onde começar; sinto que o assunto rende não uma crônica, mas uma coleção completa delas.
Começo divagando, explicando que não gosto muito da palavra suvenir. No dia-a-dia, costumo falar lembrança, ou mesmo recordação, mas tanto uma quanto outra têm o inconveniente de não deixar claro se nos referimos àqueles objetos que trazemos de determinado lugar ou situação ou da própria sensação que eles nos evocam. Fiquemos, pois, com a palavra suvenir, que é a pequena lembrança material, símbolo daquela outra lembrança maior, imponderável.
Um desafio é trazer suvenires que fujam do óbvio. Verdade que, muitas vezes, os objetos mais prosaicos já me dão um prazer imenso. Mas, ah, aqueles que são originais, seja pela criatividade ou pela história que guardam, são incomparáveis!
Então vamos lá: eis a hulusi, uma espécie de flauta tradicional chinesa praticamente desconhecida no Brasil, mas não muito difícil de encontrar por lá. Tem um som doce e levemente anasalado e não é um instrumento complicado - tanto que até eu, com limitados dotes musicais, consigo me arriscar razoavelmente a tirar alguns sons dela.
Encontrei algumas hulusi em diferentes cidades da China, desde as mais simples, de plástico, para crianças, às mais sofisticadas. E gostei mesmo desta, feita de bambu e porongo entalhado (sim, porongo, quem diria!) com um bocal de osso. Adquiri-la foi toda uma divertida experiência: pus à prova minhas habilidades de pechinchador no mercado de Panjiayuan, em Pequim. Mesmo normalmente não gostando de pechinchar, na China é quase impossível não fazer isso. Pois fiz, e saí orgulhoso com minha compra a um preço razoável depois de muito regatear.
Outro ponto curioso é que qualquer estação de metrô de lá, talvez por causa dos Jogos Olímpicos, tinha uma forte segurança, com detectores de metais e guardas austeros. Que, ao me ver com aquele estojo a tiracolo, invariavelmente ficavam ressabiados e perguntavam o que eu estava levando. Quando respondia que era um instrumento musical, as reações eram divertidas, com a seriedade muitas vezes deixada de lado em troca da deferência a quem, como chegaram a dizer, atravessara meio mundo para levar consigo um pouco daquela cultura.

domingo, 18 de abril de 2010

Conversa de aeroporto

Viagens, mesmo as mais singelas, rendem histórias. Crianças também. Imaginem agora juntar, na mesma cena, uma viagem e uma criança...
Eu estava no aeroporto, já no finger, ou seja, na ponte que leva até o avião. Prestes a embarcar, mais uma vez, para minha querência. Foi quando notei que, também prestes a embarcar, estavam uma mãe e sua filhinha. A guria não parava de correr para lá e para cá. Numa dessas, desvencilhou-se da mãe por uns instantes e veio para o meu lado. Olhamo-nos uns instantes, eu entretido e curioso, ela com olhos brilhantes e talvez mais curiosos ainda. Aproveitei e perguntei:
- Vais para Porto Alegre?
E ela:
- Não. - o que me intrigou, pois eu sabia qual era o destino do avião. Já imaginando alguma conexão incomum, voltei a perguntar:
- Ah, é? Vais para onde?
A menina:
- Para o avião, ora!
Óbvio, não é? Mesmo assim, não me dei por satisfeito:
- E o avião vai para onde?
- Para o céu, voando, não sabia? - respondeu a menina, enquanto voltava a correr para os braços da mãe e me deixava em suspenso, rindo e sorrindo sozinho.

sábado, 10 de abril de 2010

Supermercado


Atrás de mim, na fila do caixa do supermercado, estão uma mulher e uma guria que parece ser sua filha ou sobrinha. Ouço-as conversando e reparo que a mocinha está de olho nas minhas siriguelas. Porque eu estou com uma bandeja de siriguelas fresquinhas entre as minhas compras. E elas conversam sobre isso. Acabaram de voltar de um sítio onde há um pé de siriguelas. A visão das frutas, agora, reacende a vontade e faz com que a menina peça à outra que compre, compre, compre siriguela! A mulher vai e volta com uma bandeja quando já estou começando a passar minhas compras pelo caixa. A tempo de eu ouvi-la dizer que já não havia siriguelas bonitas na prateleira, que bonitas mesmo só as deste rapaz (ou seja, eu) que soube escolher bem.
Uma pena eu não ter tido coragem de me intrometer na conversa, mas lá vou pela rua pensando comigo. Primeiro, que sorte da guria que tinha um pé de siriguela à mão. Segundo, quem diria que alguém, algum dia, iria elogiar minha capacidade de escolher siriguelas! Afinal, eu fui ouvir falar desta frutinha pela primeira vez aos 22 anos, só fui vê-la mais tarde e desde então posso contar nos dedos as vezes em que tive a oportunidade de prová-la.
Ah, em tempo: saindo do supermercado, andando pela rua, não fui em direção a casa. Eu não estava no Rio de Janeiro, muito menos em Porto Alegre. Fui ao hotel. Eu estava em Fortaleza e tomaria um voo no dia seguinte.
Acontece que, sempre que estou em um lugar diferente, principalmente se for um país diferente, um supermercado acaba sendo parada obrigatória. Encontram-se coisas curiosas e outras interessantíssimas, e não só na parte de comidas. Mas principalmente entre comidas e bebidas, o que às vezes acaba criando um desafio: como levar tudo isso para casa, e sem estragar?
Como? Às vezes arrisco, simplesmente, colocar tudo entre as roupas. (Com o cuidado básico de sempre ter à mão umas sacolas plásticas para embrulhar as compras e assim evitar desastres.) Se forem roupas de frio e se a viagem for curta, elas já garantem um isolamento térmico razoável. Uma outra técnica interessante é embrulhar os perecíveis em plástico bolha: funciona incrivelmente bem. Agora, se for preciso mais cuidado, o jeito é apelar para um isopor ou bolsa térmica (tenho uma, dobrável, que vai vazia dentro da mala e volta cheia sempre que visito o Nordeste). Já trouxe até sorvete assim.
Sorvete? Sim, porque a oferta de sorvete não é igual em todo lugar. Assim como a oferta de frutas: a tal siriguela, além de cajá (ou taperebá), açaí (ou juçara), cupuaçu, tamarindo, graviola... São frutas que, no Nordeste e ainda mais no Norte, existem numa quantidade inimaginável a alguém do Sul. Em todas as formas possíveis: além da própria fruta, há polpas, doces, sorvetes, bombons, sucos, iogurtes... Ao menos para mim, fica difícil controlar o impulso de sair comprando tudo.
Se a viagem é para São Paulo, os locais de compra podem ser o Mercado Municipal e o bairro da Liberdade. Na última ocasião, trouxe desde doces até cogumelos. Se estamos falando da Europa, são os queijos, presunto e vinhos. Na América do Sul de forma geral, erva-mate. Isso sem contar, claro, as pequenas surpresas, porque nelas é que muitas vezes está a graça. Encontrar coisas que provavelmente não traremos para o Brasil, como caracóis congelados em Lisboa, só isso já rende uma bela história de viagem. Assim como conversas entreouvidas entre carrinhos de compras.

Nota: siriguela é essa fruta da foto, que já encontrei em diferentes cidades do Nordeste e, particularmente, no supermercado que fica atrás do hotel em que costumo me hospedar em Fortaleza. Como eu nunca fotografei uma siriguela, e não tenho nenhuma à mão, tirei a imagem da Internet - no caso, daqui.

domingo, 7 de março de 2010

O Grande M

Ele não é unanimidade, mas está em toda parte. Uns o desprezam, outros não vivem sem ele. Da praia de Copacabana às veneráveis cidades chinesas, de Paris aos Estados Unidos, de Londres a Nova Déli, lá está ele. Cintilante, o Grande M.
McDonald’s.
Não pretendo discorrer sobre o McDonald’s como símbolo de ideologias políticas e econômicas nem sobre o valor nutritivo de um Big Mac. O que interessa a um viajante inveterado, em última análise, é que, seja no centro comercial de uma cidade cosmopolita ou às portas de uma fortaleza medieval, corre-se sério risco de esbarrar com ele.
O Grande M, mais onipresente que o Grande Irmão previsto por Orwell.
Claro que sou fascinado pela oportunidade de desvendar um pouco que seja de culturas diferentes quando viajo. Claro que isso inclui provar a culinária local. Ainda quero escrever mais sobre as experiências sensoriais, entre curiosas e encantadoras, que uma simples refeição pode proporcionar.
Mas confesso que também existem alguns momentos em que precisamos de um certo descanso: seja do bolso, quando os restaurantes convencionais são muito caros, ou do paladar, quando a comida local é exótica ou apimentada demais. Ou simplesmente quando olhamos sem cessar à nossa volta e não encontramos um único lugar que pareça oferecer uma refeição razoável e confiável. É nestas horas que ele nunca decepciona: dobramos a esquina e lá está o Grande M. Vamos a ele com a vantagem de já saber o que pedir, o que esperar e quanto pagar. Aliás, o preço de um Big Mac costuma ser um bom indicativo para quem quer saber se tal cidade é um destino caro ou se tal moeda é mais forte que outra. Já vi até um estudo econômico sobre isso...
Enfim, voltemos. Se não me engano, comecei a dar mais valor ao Grande M durante minha viagem pela Espanha. Nada contra a culinária espanhola, que por sinal é deliciosa. Acontece que os espanhóis almoçam tarde, o que faz com que em algumas cidades seja pouco provável encontrar um restaurante aberto antes das três horas da tarde. E como fica a fome no meu caso, brasileiro pouco habituado a este horário e que, ainda por cima, tinha acordado cedo para aproveitar a cidade? Dê-lhe McDonald’s! O Grande M, mesmo na Espanha, parece estar aberto a qualquer hora e ainda tem a vantagem de oferecer um banheiro muitas vezes providencial. Lembro-me de estar lá, torturado pela fome e pelo sol em Sevilha (camisetas locais dizem que a equação E = m.c2 significa España = mucho calor2), balbuciando ao enxergar, quase como uma miragem, o letreiro amarelo brilhante: ah, o Grande M!
Na Índia, o que me levou ao McDonald’s foi uma conjunção de fatores: era, digamos assim, um restaurante confiável (a Índia não é um lugar em que se encontra facilmente um bom restaurante); era um porto seguro contra a comida exótica (por mais que eu tenha gostado da comida indiana, há momentos em que se quer algo mais comum); e era um lugar onde eu poderia satisfazer uma de minhas curiosidades. A saber: seria verdade que, na Índia, não vendem Big Mac? Sim, é verdade. No lugar dele, no cardápio, está o Maharaja Mac, bem parecido, mas feito de carne de frango. Há também um Vegetarian Mac. E, nas paredes, cartazes que dizem algo como: “Este restaurante se orgulha de não servir carne bovina.”
Não é curioso que mesmo o McDonald’s, propalado símbolo do capitalismo e do neoliberalismo, acabe se curvando a algumas particularidades locais?
Agora, o lugar onde eu mais apelei para o Grande M foi mesmo a China. Até me arrependo um pouco de não ter provado certas iguarias chinesas, mas não sei se eu teria aguentado: a comida de lá é mesmo exótica (nenhuma semelhança com a comida chinesa que se vende no Brasil), a ponto de não se ter ideia do que está no prato. Ou, quando se tem ideia, a coisa não parece ser das melhores, como bicos de galinhas e insetos. Sorte minha que, por mais que a China continue se dizendo comunista, já está aberta o suficiente para permitir, em todos os lugares por que passei, a presença ostensiva do Grande M.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Vintém de Cobre e os Fucas Invasores

Era assim no antigamente, naqueles velhos reinos de Goiás.
Cora Coralina
Suponho que nem todos iriam gostar de uma cidade como Pirenópolis. Alguns provavelmente sentiriam falta do agito. Mas, ora bolas, de que serviria a unanimidade, ainda que ela existisse? Melhor deixar como está: Pirenópolis pequenina como um vintém de cobre, Pirenópolis grande como o coração da goiana Cora, autora de Vintém de Cobre.
Pirenópolis é assim: uma daquelas cidadezinhas que dão a impressão de caber na palma da mão mas que, como uma relíquia, guardam lindas surpresas. Adoro esses pedaços de mundo que permitem passeios entre calçamentos pé-de-moleque e paredes coloniais. Adoro as histórias de antigas tradições que estas paredes contam: é como se ouvíssemos o ano inteiro o galope das cavalhadas. Cruzar um batente e confirmar que aquela comida simples do interior é, mesmo, insuperável. Andar um pouco e descobrir que o rio se transforma em cachoeiras. Ah! Não admira que cenários assim inspirem os violeiros: por mais previsíveis que possam ser as rimas, são sinceras as canções.
E, no meio de tudo isso, há, sim, surpresas. Eu comecei a suspeitar quando reparei que, nas ruas e nas fotos, apareciam mais fucas do que seria razoável. Não poderia ser coincidência. Muitos fucas, às vezes vários deles enfileirados ao longo da calçada. Seria uma ilusão? Uma invasão? Por mais que uma cidade nostálgica combine com um carro nostálgico, eu não conseguia entender. E os fuquinhas não paravam de surgir. Bem, o que descobri, depois de me ver cercado deles, é que, por algum motivo, a pequena Pirenópolis é conhecida como a cidade do fusca e sede do Pirifusca - Clube do Fusca de Pirenópolis.
Minha visita já faz mais de um ano e não pude ainda retornar, entre outros motivos porque Pirenópolis, a meio caminho entre Goiânia e Brasília, está um tanto longe de nós do Sul/Sudeste. Mas, quando voltar, já sei com que carro quero entrar na cidade.

Notas
Vintém de Cobre é um dos livros de Cora Coralina, poetisa maior do estado de Goiás e notavelmente da cidade de Goiás, não muito longe de Pirenópolis.
Fuca é como chamamos no Rio Grande do Sul este bólido que em outras partes do Brasil chamam de fusca e que em Portugal chamam de carocha. Por estranho que possa parecer a quem esteja acostumado à palavra fusca, parece que fuca está mais próxima da origem do vocábulo, que seria a corruptela da pronúncia alemã de VW.