quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Tacuarembó, o tango e a pátria gaúcha


http://cartas.edutrindade.com
A História está cheia de pequenas ironias. Uma delas é que o tango, tido em boa parte do planeta como um ritmo tipicamente argentino, teve sua mais famosa dupla de compositores formada por... um uruguaio e um brasileiro.
Não toquem no assunto quando estiverem de passagem por Buenos Aires, sob pena de terem de sustentar uma discussão acalorada com seu interlocutor. Mas lembrem-se disso se depois cruzarem o Rio da Prata para pisar em terras uruguaias - a devoção dos uruguaios pelo tango não perde em nada para a dos argentinos.
Enfim, voltando à dupla de compositores... Eu estava falando do paulista Alfredo Le Pera e do arquifamoso Carlos Gardel, uruguaio. Dizem os argentinos que só por acaso ambos nasceram fora do país deles, mas o fato é que, enquanto um era brasileiro, o outro era uruguaio da pequena Tacuarembó. E Gardel acabou se tornando a principal referência dessa cidade a 100 km da fronteira com o Brasil. Cidade que, depois de termos ido a Rivera, não perdemos a oportunidade de visitar.
http://cartas.edutrindade.comAlém de Gardel, a outra referência que os uruguaios têm de Tacuarembó é que se trata da capital de la patria gaucha - encravada no pampa e local de um importante festival campesino.
Para quem a visita sem pretensão, Tacuarembó supera as expectativas. Ruas simples e bonitas de casas baixas, praças agradáveis, mais museus do que se poderia imaginar numa cidade desse porte. Sem contar, claro, a irresistível comida uruguaia e a simpatia das pessoas que nos cumprimentam quando passamos.
Como não podia ser tudo perfeito, tivemos o azar de que nossa visita caiu num domingo e, assim, a cidade estava um tanto vazia, com o comércio e os museus fechados. Mas isso não chegou a tirar a graça do passeio, emoldurado na ida e na volta pela paisagem do pampa.
Ah, sim, e ainda a propósito da controvérsia do tango, para que não digam que os locais de nascimento de Gardel e Le Pera foram só casualidade: saibam também que o primeiro disco de tango da história foi gravado em Porto Alegre! E La Cumparsita, que é provavelmente o tango mais famoso do mundo, foi composta por Gerardo Matos Rodríguez, que era, também ele, tão uruguaio quanto o dulce de leche Conaprole!
Implicâncias à parte, o bom da música é que ela é universal, então fiquemos com o que Gardel e Le Pera sabiam fazer bem, ou seja, música. No caso, com vocês, Volver:

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Um pé lá e outro cá: a fronteira

Regiões de fronteira proporcionam casos inusitados. O estado do Rio Grande do Sul como um todo compartilha muito da paisagem, da comida, do vocabulário e do jeito de viver com os vizinhos do Prata. E, claro, esse compartilhamento fica mais intenso à medida que se aproxima da fronteira.
A paisagem quase não muda: saindo de Porto Alegre, enveredamos por estradas de retas sem fim - a verdadeira Infinita Highway - que cortam campos pontuados de coxilhas até a chegada em Santana do Livramento. Dali até o Uruguai, nem se percebe a travessia: basta atravessar a rua e se chega a Rivera. Numa calçada o Brasil e na outra o Uruguai, simples assim.
É quase decepcionante: estamos num país estrangeiro, mas ninguém pediu nossos passaportes, todos falam português e aceitam reais, e nossos celulares continuam funcionando. Por outro lado, pensando bem, o Uruguai nunca me será um país estrangeiro, não no sentido de estranho. É fantástico. Sentamos num lugar qualquer e temos a oportunidade de provar doces e salgados deliciosos. Alfajores. Dulce de leche. Sem dúvida, eis o Uruguai.
Agora, quem vem a Rivera normalmente é porque quer fazer compras. Não sei se somos exatamente normais (quem o é, afinal?), mas não há como resistir: vamos às compras! Para começar, é claro, alfajores. Caixas e caixas! E doce de leite. E erva-mate. Quando percebo, comprei até o que não pretendia, mas que me caiu bem - no caso, um tênis e a promessa de, com ele, voltar a correr.
Entre uma compra e outra, não poderia ser diferente - comida! Em Rivera, as tentações gastronômicas estão por toda parte, é difícil manter a boca fechada. Nada mais uruguaio. Almoço um chivito, jantamos uma parrilla, e acordamos mais que dispostos para enfrentar um café da manhã de medialunas con dulce de leche. O astral é dos melhores, parece que tudo é motivo para uma conversa, uma piada, um sorriso. Ainda mais que estamos em época de visita de Francisco ao Brasil, é impossível não lembrar dO Banheiro do Papa - filme uruguaio recomendado para qualquer um e indispensável aos visitantes da fronteira.
Acontece que, não importa quantas vezes cruzemos a fronteira (a rua) de Livramento a Rivera, estamos (voltamos) em terras uruguaias. Que, hospitaleiras que são, chamam-nos a um passeio pelo interior do país. Mas isso já é história para outra carta.

domingo, 21 de julho de 2013

Participação especial no "Rodando pelo mundo"


Nesta última semana, "foi ao ar" uma contribuição minha no blogue Rodando pelo mundo - dessa vez, escrevi algumas impressões sobre a Islândia. Quem ainda não viu, passa ! E, para quem quer mais sobre a "terra do gelo", lembrem que também publiquei sobre a Islândia aqui no Cartas de Tantas Léguas!

sábado, 6 de julho de 2013

As 10 melhores cidades pequenas do mundo

Começou quando vi uma outra lista: as "top 10" pequenas cidades. Pena que a tal lista, elaborada por um estadunidense, só tinha cidades estadunidenses. Comentei isso com uma amiga e ela me retornou o desafio: como seria um ranking brasileiro ou mesmo mundial?
Topei o desafio, e aqui está. Primeiro, é preciso esclarecer que minha lista, como todas desse tipo, é subjetiva, baseada em gostos e experiências pessoais. É claro que não esgoto o assunto e se, daqui a um ano, tiver de refazer a lista, ela provavelmente sairá diferente. Mas listas são divertidas de se escrever e de se ler, então o exercício é válido!
Mas um mínimo de critérios. Uma cidade, para figurar na minha lista, precisa:
- ser agradável, com tudo de vago que essa palavra abrange;
- ter menos de 50 mil habitantes;
- ser um lugar que eu tenha visitado (isso exclui aqueles lugar com que a gente sonha ou só ouviu falar);
- que não houvesse outra cidade do mesmo país na lista, sendo o Brasil, com duas cidades, uma exceção a essa regra, afinal é obviamente o país que eu conheço melhor.
Dos quatro primeiros colocados, curiosamente três são insulares, o que demonstra minha predileção particular por ilhas. Outras três cidades da lista são litorâneas, e quatro são interiores.

10. Antônio Prado (RS), Brasil - 12.800 hab.
 A lista começa com uma cidade da serra gaúcha, representante da zona de colonização italiana. Poderia ser outra, visto que a serra é farta de pequenas e belas cidades, mas escolhi Antônio Prado. Sim, minha ligação com a região é sentimental e eu sou suspeito para dizer qualquer coisa, mas a lista é minha e coloco nela o que eu quiser. Isso posto, acreditem: Antônio Prado é uma joia, um lugar daqueles que, quando se visita, não se quer deixar para trás.


9. El Quisco, Chile - 9.500 hab.
É lá que fica a Isla Negra, que não é uma ilha de verdade, mas um belo balneário famoso por ser o endereço da mais fascinante das casas de Pablo Neruda. A casa hoje é um museu que vale a visita. E o lugar, perfeito para contemplar o Pacífico, é prova de que o poeta tinha bom gosto.

8. Colonia de Sacramento, Uruguai - 26.200 hab.
Não parece, mas é a maior cidade da lista. Colonia, que antes de ser uruguaia já foi portuguesa, espanhola e brasileira, é rica em história. Assim como é rica em arquitetura, comida e pitorescos carros antigos. A localização é estratégica, de frente para Buenos Aires. E, como se não bastasse tudo isso, é a terra do divino queijo colônia.




7. Cortona, Itália - 23.000 hab.
A Toscana não poderia ficar de fora da lista. Para representá-la, escolhi essa cidade encantadora, que pode não ser tão famosa quanto outras dos arredores, como Florença ou Pisa, mas que não perde nada por isso. Cortona fica no alto de uma colina e tem tudo o que eu gosto numa cidade pequena: ruas e casas centenárias, belas vistas para a paisagem em torno, pequenos comércios, boa comida e, ainda, um surpreendente museu.


6. Bled, Eslovênia - 5.300 hab.
É daqueles lugares que a gente, mesmo antes de conhecer, imagina que devem se parecer com o paraíso. A cidade de Bled fica ao redor de um lago na região alpina. As montanhas em volta têm os picos nevados. No meio do lago há uma ilhota com uma antiga igreja, aonde se chega de barco. E, do lado do lago, um morro com um castelo medieval que domina o cenário. Quando se percorre as ruas que levam ao castelo, vai-se pensando: impossível não ser feliz num cenário desses.


5. Tiradentes (MG), Brasil - 6.400 hab.
O estado de Minas Gerais como um todo é um lugar de boa comida, gente simpática e belas paisagens. A cidade de Tiradentes, para mim, sintetiza isso tudo que o estado tem de melhor, e mais: repleta do casario colonial que me encanta na região. Fico quase querendo que a cidade seja um pouco maior, só para poder descobrir mais uma senhorinha fazendo pão de queijo além da última esquina.



4. Valletta, Malta - 7.000 hab.
É uma das menores cidades da lista, mas é também capital de país. Isso dá a ela uma posição interessante, ao mesmo tempo pequena e cosmopolita, onde todos falam duas ou três línguas, sem contar que possui uma arquitetura histórica de encher os olhos. Valletta, por si só, é pouco mais que um grande bairro, mas tem a vantagem adicional de estar perto das demais cidades maltesas, das quais a minha preferida é Mdina - outro lugar que poderia facilmente figurar aqui.


3. Angra do Heroísmo (Açores), Portugal - 12.100 hab.
Mais de uma cidade açoriana poderia entrar na lista. A remota e minúscula Vila do Corvo, por exemplo. Acontece que o Corvo é tão peculiar que mal poderia ser considerado uma cidade. Angra, por outro lado, é definitivamente uma cidade. Talvez uma das mais variadas dos Açores em termos de paisagem, gastronomia e opções de lazer. Angra do Heroísmo é o lugar para se provar os típicos pastéis de D. Amélia. D. Amélia é a imperatriz, esposa do nosso D. Pedro I, e Angra também é um bom lugar para se aprender sobre eles. Como o é para passear num parque, em ruas históricas, ou procurar os acordes da tradicionalíssima viola de doze cordas.


2. Rovinj, Croácia - 14.300 hab.
Uma pitoresca península no mar Adriático, cortada por ruas de pedra que adquirem uma luz mágica sob o por-do-sol. Rovinj tem tudo para ser uma cidade turística, e de fato é; mas o legal é que a cidade mantém uma personalidade autêntica, há um clima que é, sem dúvida, muito mais de vilarejo de antigamente que de mega-balneário. Em Rovinj, fiquei hospedado na casa de uma família (parece que todos por lá têm um ou dois quartos para alugar) e para chegar ao meu quarto eu passava pela sala onde a família assistia TV. Em Rovinj, comprei um sorvete (delicioso como os italianos) e o vendedor me ofereceu porção dupla como símbolo de amizade de quem recebe um estrangeiro. Difícil não se sentir em casa assim.


1. Tórshavn, Ilhas Faroe - 19.700 hab.
Estou convencido de que cada uma da Ilhas Faroe mereceria facilmente um título de beleza. Tórshavn, a capital e maior cidade do arquipélago, é a personificação do encanto feroês em sua forma urbana. Muito do atrativo de Tórshavn está, na verdade, fora da cidade: as montanhas verdes e com picos nevados, as pontes e túneis sobre e sob o Atlântico, o azul insuperável do mar. Mas a cidade em si já é simpática: as casas com vegetação no telhado, os barcos no cais, a vendedora de crepe da esquina, a lojinha que vende CDs de música feroesa. Tórshavn também concentra comodidades que em outros lugares pareceriam banais mas que, lá, chegam a ser pitorescos: o único shopping das Ilhas Faroe, a única universidade, o estádio nacional de futebol (casa da persistente seleção local). Difícil é escolher um lugar preferido na cidade, mas eu fico com o banco da praça em frente ao mar, de onde vejo o mundo e o movimento do porto.

sábado, 23 de março de 2013

Pauliceia


Este texto é uma declaração de amor a uma cidade que eu já odiei.
Sim, eu já detestei São Paulo. Já caminhei por suas ruas chutando pedras, já chorei sozinho, baixinho, no meio da multidão. Nas primeiras vezes, estive em São Paulo a trabalho. Durante um tempo, ia quase todo mês – passava um ou dois dias na cidade em intensas reuniões onde eu, via de regra, tinha de defender as ideias em que acreditava diante de uma audiência hostil. Coisas da vida adulta. Isso também foi numa época em que eu definitivamente não vivia um bom momento pessoal, tinha os nervos em frangalhos. Saía das reuniões e não sabia onde me refugiar, caminhava a esmo pela Av. Paulista, lamentava-me por passar sempre em frente ao MASP quando ele estava já fechado, depois me escondia no hotel. Isso quando não ficava simplesmente preso no trânsito.
Não sei explicar como foi que, aos poucos, superei aquele ódio. Talvez por eu mesmo ter superado a má fase (inclusive tendo algum sucesso nas famigeradas reuniões) ou porque, já que estar em São Paulo era inevitável, decidi dar uma chance à cidade. O fato é que, de alguma forma, ela foi se mostrando mais agradável. As atrações da Pauliceia não estão escancaradas; pelo contrário, são uma galeria que se descobre por acaso, um sebo, uma padaria, um museu, um restaurante, bem como a imponderável vantagem de uma cidade que se orgulha de poder oferecer tudo (ou quase tudo) ao visitante, a qualquer hora.
Daí que me descobri particularmente vítima de uma paixão desvairada por dois insuspeitos pedaços de concreto e asfalto dessa cidade. Lugares onde, por mais improvável que pudesse parecer, acabei me sentindo em casa.
O primeiro foi a esquina das avenidas Paulista e Consolação e seus arredores. Percorri inúmeras vezes aquelas calçadas entre o MASP e o finado Cine Belas Artes. Comi milho verde na rua, peguei ônibus, metrô, e até corri por ali durante uma inesquecível São Silvestre. Passei pela Consolação a caminho de uma noite de futebol no estádio. A panorâmica da Paulista acabou virando, nos insondáveis caminhos da memória afetiva, meu símbolo de São Paulo. E, sobretudo, eu ria da ironia que fazia com que a estação de metrô da Paulista se chamasse Consolação e a da Consolação, Paulista.
Depois, a Escola Politécnica da USP virou destino frequente por causa do mestrado que acabei cursando. E meu coração se mudou do binômio Paulista-Consolação para a Cidade Universitária, meu outro canto favorito na Pauliceia. De tudo que eu poderia falar da USP, um ponto acima de tudo foi que me conquistou: as pessoas. Lá fiz bons amigos. Do medo que eu tinha, de o mestrado me deixar bitolado (afinal, eu não queria me especializar tanto a ponto de ser um “especialista em nada”), aconteceu o contrário: pude abrir minha mente. E isso especialmente por causa das pessoas – de lugares diferentes, com formações, experiências e vivências diferentes.
Daí que, no final das contas, tudo se resume à fórmula de sempre: a mágica do lugar está nos seus habitantes. Eu não costumo recomendar São Paulo a visitantes estrangeiros, porque eles simplesmente não costumam ter tempo para ir além do superficial. Mas também não deixo de dizer: essa São Paulo é uma cidade fantástica para quem tem coragem de se entregar a ela.

segunda-feira, 11 de março de 2013

O chamego e o pedala-robinho

Quem viaja de avião conhece as indefectíveis intervenções ao microfone de comandantes e comissários de bordo. Apresentando os procedimentos de segurança, informando a temperatura no destino e a duração estimada do voo, anunciando a chegada e pedindo permaneçam sentados até a parada total da aeronave etc.
A finada WebJet tinha uma tripulação (deve estar na Gol agora) que se destacava justamente por fugir dessas convenções. Surpreendia. Tem alguns registros no YouTube, vale a pena dar uma olhada no que eu garimpei para colocar aqui em cima.
No nosso caso, foi num voo de Foz do Iguaçu para o Rio de Janeiro - um voo que já seria divertido pelo astral em que estávamos e pelo estudo de sociologia popular que é ver as pessoas alteradas, com sacolas e mais sacolas de muambas. Além disso, tivemos as gracinhas do comissário de bordo a cada vez que ele pegava o microfone. Quando chegamos e o avião tocou o solo, ele exultou: "isso não foi um pouso, foi um chamego no chão!" Um pouco depois, já parados, quando nos preparávamos para sair do avião: "passageiros com destino a Nova Iorque, favor continuar a bordo!"
Tempo depois, ainda lembramos daquele voo e, toda vez que a aeronave faz alguma aterrissagem particularmente suave, é impossível não brincar: um chamego no chão! Acontece que, nas últimas férias, em plena Escandinávia, num certo voo aconteceu justo o contrário - o pouso foi tudo, menos suave, a impressão era de que o piloto tinha jogado o avião violentamente contra a pista. Entreolhamo-nos e não foi preciso nenhum comissário como o da WebJet para que eu concordasse com a observação da Renata:
- Um pedala-robinho no chão!

domingo, 3 de março de 2013

Uma faca viking

Não resisti quando encontrei essa faca em Reiquejavique. Gosto de facas e gosto de trazer, das minhas viagens, lembranças com alguma particularidade. Essa é um primor que evoca diretamente os vikings, antigos colonizadores das terras islandesas. A lâmina é de aço tipo damasco - feita com sucessivas e finíssimas camadas de dois aços diferentes. De quebra, pude usá-la por lá mesmo, pois dispúnhamos de uma cozinha onde preparar o jantar.


segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Na estrada, nas Ilhas Faroe

Fugindo um pouco do habitual, a postagem de hoje é em forma de vídeo - tentativa de registrar nosso passeio pelos belos e surpreendentes caminhos das Ilhas Faroe.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

A viagem do Puffin

Ao planejar as férias, uma das primeiras coisas que procurei saber foi se seria possível, nessa época do ano, ver algum puffin (papagaio-do-mar em português, lundi em islandês e em feroês), a simpática ave símbolo das ilhas do norte. Já a conhecia do Oceanário de Lisboa, mas vê-la por aqui seria outra coisa... Disseram-me que não, que a essa altura, inverno, os puffins estariam todos longe e só voltariam na próxima temporada.
Mas acabamos vendo e trazendo o Puffin da foto. Ele é uma criança meio tagarela e comilona, divertidíssima. Tem tudo a ver com a cara da viagem e ficou simplesmente encantado quando percorreu conosco, de carro, três das 18 Ilhas Faroe. Maravilhou-se tanto quanto a gente com a paisagem dessas ilhas, com os túneis gigantescos por baixo do mar que ligam uma à outra, com as ovelhas nas encostas das montanhas, com poder cumprimentar cada pessoa que passa com um sorriso e um aceno - e ser correspondido. Balançou as asinhas ao som de Teitur, o astro musical das Ilhas Faroe. Embora a sua praia seja peixe, o Puffin também adorou o espesso e saboroso iogurte de laranja feroês.
Depois, viemos para as cidades grandes do continente e ele nos fez prometer que voltaríamos às Faroe no verão para conhecer os outros puffins. Disse que nos ensinaria mais palavras em feroês e nos levaria às ilhas mais distantes. Bem... Nem precisaria pedir duas vezes.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Quando o peixe não é fresco

Esqueçam o conceito de que a China, com seus espetinhos de baratas, aranhas e lacraias, teria a comida mais exótica do planeta.
E vocês sabem aquelas dicas que todo mundo já ouviu alguma vez na vida sobre como escolher peixe, como saber se o peixe do mercado está fresco? Esqueçam isso também.
Ao que tudo indica, os islandeses são um povo que passou muita fome. Hoje, nem tanto mais (é impressionante ver como cultivam vegetais em estufas totalmente aquecidas enquanto lá fora não há sol e a temperatura é congelante). Mas fato é que, do passado de dificuldades, dizem ter guardado algumas "saborosas" receitas: cabeça de bode (inteira), pudim de sangue de ovelha ou testículos de bode cozidos em leite azedo. Tudo isso faz parte do Þorramatur, um "mistão" servido tradicionalmente no mês de fevereiro.
Mas ainda não é nada comparado com outra especialidade islandesa, o hákarl. O que nos leva de volta à inutilidade dos métodos de se determinar se um peixe é fresco ou não; pois hákarl é simplesmente peixe podre, em toda a extensão de significado (e cheiro, e sabor) que a expressão "peixe podre" pode abranger.
Pega-se carne de tubarão; coloca-se a carne para fermentar (literalmente, apodrecer) durante dois ou três meses; deixa-se secando ao relento por mais um meio ano; pica-se o resultado disso em cubinhos, coloca-se em potes e a mais inesquecível experiência islandesa está no ponto para ser vendida em supermercados.
Comprei um potinho de hákarl. Não tive coragem de consumi-lo de imediato. Todas as descrições que eu tinha encontrado eram altamente desencorajadoras. A aparência é de cubinhos com uma gosma escorrendo. E o pote estava estufado (outro conselho inútil: o de que embalagens estufadas indicam alimentos que passaram do ponto).
Só fui abrir o pote dois dias depois, numa aldeia a quilômetros de qualquer centro urbano. E... Minha nossa! Imaginem um cheiro forte de peixe misturado a um cheiro mais forte ainda de amônia e de urina. De dar náuseas, literalmente. A mais nojenta de todas as coisas nojentas que já vi sendo oferecidas como alimento. A impressão é de que aquilo empestearia qualquer ambiente. Aliás, só de abrir o pote, eu mesmo fiquei com o cheiro impregnado no corpo a ponto de precisar apelar para um vidro de perfume que disfarçasse um pouco o fedor. Comer aquilo? Desculpem, não havia a menor possibilidade e não imagino como alguém pode conseguir (eu tinha perguntado ao caixa do supermercado se ele gostava e a resposta fora afirmativa, mas que mesmo ele não conseguia comer mais de três cubinhos por causa do "sabor muito forte").
Com aquele pote aberto, não pude pensar em outra coisa que não fosse procurar uma lixeira. Enquanto me desfazia do hákarl (não, não dá para imaginar aquilo como comida), eu ia juntando as ideias: lembrei que uma particularidade da Islândia é ser um dos poucos países do mundo que não têm exército. Também, pudera: sabendo que eles dispõem de uma arma de destruição em massa como essa, quem se atreveria a ameaçá-los?