quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Todos os ventos que sopram


Para que eu não pare nesta existência
Tão mal cumprida tão mais comprida
Do que a restinga de Marambaia!...

Manuel Bandeira






Sem falsa modéstia, tenho plena consicência de que poucas pessoas terão uma oportunidade na vida para fazer aventura como a que nos propomos. O plano era sair do Rio de Janeiro ainda de madrugada, eu e meu amigo Arthur, e fazer a travessia marítima até a Ilha Grande no Pandorga, um veleiro de 20 pés, chegando lá perto do entardecer. Ficaríamos por alguns dias e depois retornaríamos. Para tanto, passei as semanas anteriores em preparativos - revisões, estudo da rota, previsões de tempo, provisão de alimentos, bebidas e materiais diversos. Na tarde anterior, embarcamos - dormiríamos a última noite já no barco.
A ansiedade era grande. Vontade foi de partir antes mesmo da hora planejada. Mas procurei dormir, sabendo que umas horas de descanso prévio poderiam ser valiosas mais tarde.
Partimos, pois, no dia 16. Assistimos de camarote ao nascer do sol no mar, um belo espetáculo. Aos poucos o vento foi nos fazendo companhia, um gentil vento de popa que nos permitiu subir a vela-balão - o Pandorga tem uma bela vela-balão farroupilha, nas cores verde, vermelho e amarelo.
Dali para a frente, as praias cariocas iam se descortinando à nossa direita - ou seja, a boreste, já que estamos falando de coisas do mar. Leme, Copacabana, Ipanema, Leblon, São Conrado já haviam ficado para trás. Vem a Barra da Tijuca, vem o Recreio dos Bandeirantes, as praias vão ficando maiores e custam mais a passar. Guaratiba. E então a Restinga Marambaia, mais de 40 km de uma faixa de terra baixa e estreita, tão baixa e estreita que mal se vê do mar. O curioso é uma árvore solitária plantada ali: à distância, com a faixa da Restinga praticamente invisível, o que se enxerga é a árvore como se ela estivesse em pleno mar. Dizem que serve de aviso aos navegantes: há histórias de incautos que, à noite ou sob neblina, aproximavam-se perigosamente de terra e foram salvos pela visão da árvore, legítimo farol natural (que obviamente não aparece na carta náutica).
Da metade para o final da Restinga, o vento começou a apertar. Hora de ficar atento, fazer força e mostrar agilidade nas manobras. Para quem já estava há horas no mar e recém começava a enxergar, ao longe, a Ilha Grande, era um teste de resistência. Brincamos: "Rizar as velas é para os fracos!", ouve-se a bordo, em referência à manobra de diminuir (rizar) a área vélica quando o vento passa da conta. Sanduíches, bolachas, chá gelado, suco e muita água - tudo vale para fornecer energia contra o cansaço. E paciência. Quando pensamos que, ao menos, o vento forte nos empurrará logo para o destino, ele resolve serenar. Praticamente some, obriga-nos a ligar o motor. O sol já está se pondo quando entramos na baía da Ilha Grande. A travessia vai levar mais tempo que o previsto. Mas paciência é virtude de velejadores. Nosso pouso será a Enseada das Palmas. A Ilha já está perto. Sente-se cheiro de terra, cheiro de mato! Os corações se ouriçam, a expectativa cresce em meio ao cansaço. Entramos na enseada. Em meio à escuridão, dois pontos luminosos lá adiante nos guiam para a praia em frente à qual fundearemos. Pronto, chegamos! Solto a âncora. O Pandorga se comportou bem, assim como nossa fibra de marinheiros. Estou aliviado. À noite, parece que temos aquela praia inteira para nós, mas o que interessa agora é verificar se a âncora está bem presa, terminar de baixar a vela, organizar as coisas na cabine e dormir. O sono virá fácil, afinal precisamos dele para chegarmos descansados ao dia seguinte. Ilha Grande nos espera.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Tempo de se lançar ao mar


Mais uma vez de férias, mais uma vez às voltas com planos de viagem. Com a novidade de que, agora, a viagem será inédita como nunca: inédita não pelo destino mas pelo meio. Em outras palavras, vamos velejando do Rio de Janeiro até Ilha Grande.
A perspectiva de fazer esta travessia por via marítima (e usando a força do vento), mais a perspectiva de, chegando lá, dormir no barco, dá um frio na barriga, uma certa ansiedade e, principalmente, uma sensação de contato com a natureza que não sei se já experimentei antes.
Como não poderia deixar de ser, as cartas de tantas léguas se transformarão em cartas de milhas náuticas e eu procurarei publicar aqui a crônica da viagem. Não sei como será a conexão lá, então é possível que eu não atualize o blogue com a frequência que eu gostaria. Mas tratarei de enviar notícias, se não por aqui, pelo menos através do Twitter, no espaço telegráfico que ele permite.
E vamos ao mar, enfim, que, como se sabe, "viver não é preciso"!

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Ilha de Paquetá

Da Moreninha ao Patinho Feio, do Patinho Feio ao cisne na água

A ilha de Paquetá é, de certa forma, o patinho feio do Rio de Janeiro. No interior da baía da Guanabara, Paquetá é lembrada, principalmente, por ser o cenário em que Joaquim Manuel de Macedo ambientou A Moreninha. Acontece que já se passou um bocado de tempo desde a publicação do romance (167 anos, para ser exato) e, para boa parte de nós, A Moreninha não evoca mais que uma vaga curiosidade dos tempos de escola. Na época de Macedo, a ilha deveria ser um encantador refúgio de veraneio, mas hoje, mesmo que se diga que suas praias tenham voltado a ter condições de banho, Paquetá está longe de disputar com outros destinos a preferência dos cariocas.
É justamente o contrário. Paquetá simboliza com precisão um fenômeno particularmente acentuado no Rio de Janeiro: o de que a população local conhece quase nada da sua própria cidade. Pois perguntem a qualquer carioca se ele já foi a Paquetá e ele dirá que não ou, quando muito, dirá que foi uma vez, quando criança, décadas atrás.
Cá entre nós, os cariocas que me perdoem, mas eu prefiro assim. Gosto desta ilha de Paquetá como um patinho feito a quem ninguém dá muita atenção. Afinal, a atração de lá definitivamente não são as praias (embora algumas delas ofereçam paisagens agradáveis). O gostoso de Paquetá é justamente a sensação de que algo parou no tempo e de que não estamos no mesmo ritmo do restante da metrópole. O exemplo mais lembrado é o fato de que não se anda de carro na ilha (pode-se percorrê-la a pé, ou de bicicleta, ou ainda de charrete). Mais ainda, o relativo isolamento insular também se reflete na naturalidade com que os pescadores vendem peixe na praça central, com que as árvores crescem literalmente no meio das ruas de terra (e há até um famoso baobá convertido em ponto turístico) e com que se pode cumprimentar qualquer pessoa que passe ou até mesmo puxar assunto com desconhecidos sem que isto pareça estranho.
Não esperem luxo nos restaurantes. Relevem a aparência antiga, às vezes mal cuidada, de algumas casas. Não é aí que reside o encanto deste patinho feio. Por outro lado, observem as árvores floridas, explorem o coreto, sintam a vista que se descortina do alto da ilha. Deixem o tempo passar como quem não tem pressa.
O meio natural para se chegar a Paquetá é a barca que faz o trajeto entre a ilha e o Centro do Rio de Janeiro em cerca de uma hora. Perfeito para quem quer passar um dia lá, voltando ao final da tarde. Mesmo isso, porém, tem sido um tanto moderno demais para mim: nas últimas vezes, preferi ir à ilha de veleiro e assim, tendo o vento como companhia e sem hora certa para chegar, já se pode entrar no clima de Paquetá logo ao soltar as amarras, ainda do lado de cá. Do lado de lá, os coloridos pedalinhos em forma de cisnes se espalham pela praia que já foi da Moreninha. Nem é preciso andar neles. Basta observá-los, fotografá-los, emoldurar com eles o horizonte e o sol que, com sua imperturbável calma, vai se por naquela direção quando chegar a hora. Apreciemos. Afinal, quem resiste a um pôr-do-sol além do mar?

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Na minha língua ou na tua?

Comprei um guia de conversação da língua croata. Sabendo que meu tempo e minha dedicação seriam limitados para aprender de verdade esta língua (na vida é preciso fazer escolhas, afinal, e o croata não está entre minhas prioridades, apesar do interesse pela Croácia), optei por este guia rápido, um livrinho do Lonely Planet.
Como era de se esperar, o livrinho tem muito pouco de gramática e de “como funciona” a língua, mas em compensação tem uma lista incrivelmente completa de frases feitas. Começa com o básico — oi, bom dia, por favor, obrigado, a sequência dos numerais — e avança, dividido por capítulos, despejando frases úteis em todo tipo de situação. No restaurante: o nome de comidas e utensílios, como escolher o prato, como pedir a conta. No hotel: como perguntar por um quarto. Ao ar livre: palavras relacionadas à praia e até termos náuticos. Praticando esportes: os mais diversos (se eu precisar me referir a uma raquete de tênis, por exemplo, basta dizer reket). Em relações sociais: como se apresentar, agradecer, convidar para um jantar ou para sair à noite...
E aí a coisa vai esquentando. Há um capítulo sobre... sexo. Quando eu disse que o guia é completo, é porque é mesmo completo. Imaginem, por exemplo, que se é virgem, vai-se à Croácia, lá se conhece um/uma croata, surge certa intimidade, vão para a cama... Nesta hora, pode-se querer dizer “é a minha primeira vez”, e então, caprichando no sotaque, basta pronunciar: Ovo mi je prvi put. Muito prático, não? E não precisamos parar por aí: se a temperatura subir de verdade, pode-se começar a repetir O bože!, que (segundo o guia) é o equivalente croata de Oh my God!, clássico dos casais de filmes estadunidenses. Brže, mais rápido. Sporije, mais devagar. Dodirni me tu, toque-me assim. Quem aí já pensou em ter um orgasmo em croata?
Exageros à parte, considero que boa parte do encanto de uma viagem a outro país está em mergulhar na sua língua. Claro que nem sempre é possível ter fluência para grandes conversas. Mas, quanto mais eu souber da língua, mais estarei aprofundando minha experiência — ouvindo histórias, pescando notícias nos jornais, descobrindo o que se vende nos restaurantes e supermercados. Sem contar que há sutilezas da própria língua que dizem muito sobre a cultura local. Os países hispânicos fazem piada sobre galegos como nós brasileiros fazemos sobre os portugueses. Os chineses não têm uma palavra que signifique “sim”. Para os franceses, oitenta se diz “quatro vintes”, como quem tenha aprendido a contar não só com os dedos das mãos, mas dos pés também. Os ingleses não atribuem gênero aos objetos, o que, se pararmos para pensar, é uma diferença marcante com relação à nossa língua, em que tudo é ou masculino ou feminino. E nós temos a palavra saudade, herdada, dizem, da tradição marítima portuguesa, e ausente em boa parte das outras línguas.
Quanto mais fundo se mergulha nestas particularidades, mais marcante se torna a viagem. Muito do fascínio da minha passagem por Portugal se deveu a isso: a língua é familiar e permite todo tipo de conversa ao mesmo tempo em que as diferenças (de sotaque, de vocabulário e mesmo de construção gramatical) são marcantes o suficiente para colorir tudo com um toque deliciosamente exótico. O que me deixa, em bom português, cheio de saudades.
Ou nostalgija, como diria, numa tradução aproximada, meu guia de croata — que também ensina algumas possibilidades para o caso de aquela história ir realmente longe demais: ja mislim da sam trudna (acho que estou grávida) e da li hoćeš udati se za mene (casa comigo)...

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Congonhas e seus profetas

Partindo de Ouro Preto, segui viagem de carro. No roteiro, Congonhas, Tiradentes, São João del Rey.
Primeira parada, Congonhas — não o famigerado aeroporto de São Paulo, claro, mas a cidade a meio caminho do roteiro histórico tradicional de Minas Gerais. Verdade que Congonhas não tem muitos atrativos quando comparada com outras cidades da região, mas já esperava por isto. Por outro lado, havia dois motivos que faziam com que a visita valesse a pena. Primeiro, a localização conveniente: era possível sair de Ouro Preto pela manhã e fazer lá uma parada estratégica, vendo o que há para ser visto, almoçando e seguindo caminho a tempo de alcançar Tiradentes antes do entardecer. Segundo, sem dúvida, os profetas de Aleijadinho, que são talvez a obra mais impressionante da arte barroca mineira.
Não vou me perder em explicações didáticas sobre as estátuas ou sobre a basílica; deixo isto para os guias especializados. Prefiro dividir com vocês as fotos: quem gosta de fotografia pode dedicar um bom tempo em Congonhas a explorar diferentes ângulos, texturas e efeitos em torno dos profetas de Aleijadinho. Quem não faz questão de fotografias, pode simplesmente admirar as estátuas enquanto se desliga da vida. E quem tem fome, como tive, pode apostar que vai encontrar em Congonhas uma boa mostra da inigualável cozinha mineira. Aventurei-me num restaurante ao lado do santuário, praticamente à vista dos profetas. Um casarão amplo em estilo colonial que, talvez pelo horário ou por ser meio de semana, estava quase vazio. Porém, acolhedor: enquanto a comida não vem, é fácil e gostoso conversar com os mineiríssimos donos do restaurante. Quando chega o prato, é difícil lembrar que a gula é um pecado: diante de comida tão abundante e tão saborosa, fartar-se só pode ser um grande prazer. Um dos tantos que se experimenta nestas estradas de Minas.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Você sabe dar nó em gravata?

Com certeza sentou-se a um velho banco,
Um desses velhos bancos lustrosos pelo uso
Que existem em todas as estaçõezinhas pobres do mundo
Contra uma parede nua...
(Poema da Gare de Astapovo, Mario Quintana)
Rodoviária do Rio de Janeiro. Aquele universo confuso de gente de todos os tipos indo para todos os lugares. Uma sexta-feira à noite. Olhares cansados, distraídos, ansiosos, esperando o fim de semana, a volta para casa, a visita à família. Um gichê e uma fila para comprar passagens. Um banco de madeira a um canto da estação, o meu vagar distraído.
Sentado no banco, um senhor de certa idade tem os olhos fixos na minha direção e acena repetidas vezes.
A princípio, não presto atenção. O senhor, acomodado no banco e vestindo paletó, continua acenando, cada vez com mais insistência. Olho para os lados. Ninguém parece reparar. Encaro o senhor, ele me olha fixamente e balança a cabeça. Levo a mão ao peito, como se dissesse "quem, eu?", e ele se agita, responde silenciosamente com a cabeça "sim, sim!" Resolvo me aproximar.
— Você sabe dar nó em gravata? — pergunta, esperançoso, o senhor. E continua a explicar: ele vai a São Paulo, precisa da gravata, está disposto a passar a noite toda engravatado dentro do ônibus para já chegar arrumado ao seu destino, tendo em vista que não sabe dar nó em gravata.
— Olha, faz bastante tempo que não dou um nó em gravata... — esclareço, surpreso e comedido, lembrando ainda que todos os nós que dei foram em mim mesmo, com a gravata no pescoço e em frente ao espelho, e que ajustá-la no pescoço de outra pessoa pode ser mais difícil do que parece. Mas, nisto, o senhor já tirara do bolso, meio amarrotada, uma gravata em tom amarelo-pastel, e me suplicava para ajudá-lo. Tomo a gravata nas mãos e peço licença para, primeiro, ajeitá-la em mim, é a forma que tenho de relembrar como se faz aquela tarefa um tanto distante da minha rotina. Gravata no pescoço, erro o nó, erro a altura, depois finalmente acerto. Desfaço o nó, e não sei por que minhas mãos tremem quando passam a gravata pelo pescoço do homem. Aquele senhor tão mais velho que eu, encolhido no banco, de repente tem um ar de criança indefesa. E eu não sei lidar com crianças. Cabeça baixa, retraído, talvez envergonhado, o senhorzinho dificulta a minha tarefa. Peço que ele erga o pescoço, olhe para a frente. A postura muda, ele resolve puxar assunto, pergunta meu nome, chamo-me Eduardo, é o nome do filho dele, ele não vai esquecer de mim, e por aí a conversa flui. Tento o nó algumas vezes, definitivamente estou enferrujado, mas enfim acerto. Não é o melhor nó que eu já dei numa gravata, mas está bem aceitável e não vai apertá-lo muito quando ele tentar dormir no ônibus até São Paulo.
— Ficou bom? — interrogam-me os olhos do homem, e eu respondo que ele não vai fazer feio. O senhor sorri. Como despedida, pergunta se a mulher que me acompanha é minha esposa. Digo que não, mas retribuo o sorriso. Ele deseja Feliz Natal e me recomenda a Deus, eu respondo e agradeço. Não sei mais se a postura do homem sentado no banco é de idoso ou de criança, as aparências enganam. Resisto à tentação de abraçá-lo, não sei lidar com crianças, mas sinto que valeu a pena tocar com a mão o ombro daquele menino grande que, afinal de contas, vai enfrentar sozinho uma metrópole estranha.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Quartos de hotel

Há qualquer coisa de sobrenatural em alguns hotéis pelo mundo afora. São como antigos castelos encantados.
Deve ser o assombro do desconhecido — uma cidade estranha, um quarto estranho, a noite, que é sempre estranha, e pronto, está montado o palco que intriga nossos sentidos.
Nem falo tanto de algumas pousadas e albergues onde é comum o pessoal ficar pelos cantos até tarde. Nestes casos, pode-se ouvir muitas histórias, algumas extraordinárias, mas todas bastante humanas. Não, o que mais desperta nossa atenção são aqueles quartos absolutamente silenciosos, ou que deveriam ser silenciosos, em que algo inexplicável — um barulho, por exemplo — insiste em testar nossa curiosidade.
Um hotel em Lisboa. Um hotel qualquer, apenas suficiente para passar uma noite. Desde o começo, achei que havia algo de estranho nele, mas demorei a identificar o que era: o quarto não tinha uma única janela. Um caixote onde nos fechamos hermeticamente. Certo, não deve ser o único quarto assim, mas não deixa de ser estranho.
Outro hotel em Lisboa. Escolhido a dedo pela localização e pela praticidade. No mínimo, curioso: a recepção não fica no térreo, mas no segundo andar, e precisamos subir até lá de escada para, então, tomar o elevador que nos leva ao quarto. No quarto, pelo menos, não faltam janelas e uma bela vista para a praça. Quando chega a noite e a cidade se aquieta, minha mãe, que está comigo, ouve um ruído insistente e monótono. Um zumbido. Demoro a perceber, mas acabo também ouvindo. Noite após noite, o zumbido se repete. Elaboramos hipóteses. Ondas nas águas do Tejo, o vento uivando entre as sete colinas? Não faz sentido. Barulho de conversas vindas da rua? Definitivamente não, a essa hora não há ninguém. O som do metrô? É a hipótese mais plausível, mas custo a acreditar que do metrô poderia vir um som tão constante e com aquele timbre. Desistimos de explicar. Agora, tempos depois, minha mãe encontra não uma explicação mas uma semelhança: as vuvuzelas! Pois estas cornetas sul-africanas, este enxame gigante, parecem exatamente o que ouvíamos em Lisboa, à noite.
Mas também há hotéis que nos espantam por motivos, se não prosaicos, pelo menos bastante humanos.
Santiago do Chile. A peculiaridade é que, para chegar ao quarto, que ficava no nível do chão, era preciso subir um lance de escada e em seguida descer outro. Mas nada de ruídos sobrenaturais, o que se ouvia era um casal no quarto ao lado entretido numa atividade bem íntima e definitivamente deste mundo...
Cambará do Sul, interior do Rio Grande do Sul. O hotel é uma casa de fazenda excelente e acolhedora. Os sons que se ouve são ruídos do campo, nada mais (e, sim, o coaxar incessante de um batalhão de sapos). A suíte é enorme, os banheiros também... Sim, os banheiros: o quarto tem dois banheiros, exagero que não sei se chegarei a ver em outro lugar.

Jaipur, na Índia. Um hotel (Umaid Mahal) que espanta pelo luxo (é, literalmente, uma mansão) e ainda mais pelo baixo preço, um achado. Estou no meu quarto, já de noite, tomando banho – há um box moderno e confortável, uma ducha potente e... uma porta. O que faz esta porta dentro do box em que estou me banhando? Abro a porta e descubro que estou numa sacada com vista para a rua, na fachada do hotel! Fecho a porta discretamente e volto ao meu banho...
Londres. Não vou descrever o hotel. Mas sei que eu precisava carregar a bateria de meu celular e a única tomada compatível ficava no banheiro. Liguei, pois, o aparelho na tomada, verifiquei no visor que ele estava carregando, e fui dormir. Na manhã seguinte, espantei-me ao ver que ainda não havia completado a carga. Paciência, deixei o celular na tomada o dia inteiro. Voltei no final do dia... E ele ainda estava carregando a bateria. Nem sei mais quanto tempo levei nisso. Até que, por acaso, descobri um detalhe: a tomada só funcionava enquanto a luz do banheiro estivesse ligada. Sempre que eu apagava a luz, o celular deixava de receber carga, e só voltava exatamente quando eu acendia a luz para verificar o andamento...
Celular carregado, sigo em frente. Na verdade, a lista de curiosidades não começa nem termina aqui. Seleciono recortes ao acaso; assim como falei destes, poderia ter falado de outros. Qual viajante nunca se deparou com alguma situação inusitada na sua hospedagem? Ou melhor: qual foi a tua situação inusitada?

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Mariana


De Ouro Preto, vai-se com relativa facilidade até Mariana. São cidades vizinhas, separadas (ou unidas) por cerca de 10 km de estrada asfaltada ou, melhor ainda, de estrada de ferro. Percorri a distância de carro, mas, para quem puder se programar, o melhor talvez seja fazer o percurso no trem turístico – a partir de Ouro Preto, vai-se de manhã e retorna-se à tarde, ficando lá o tempo justo para um passeio de reconhecimento.
Esta proximidade é, a meu ver, tanto benéfica quanto levemente nociva. Torna as coisas mais fáceis, mas também acaba dando a Mariana uma aparência de simples apêndice de Ouro Preto. E aí a comparação é difícil, pois Ouro Preto é uma cidade maior, mais variada e mais imponente. Curioso, a propósito, lembrar que foi Mariana, e não Ouro Preto, a primeira capital mineira. Bem, pode ser coincidência, mas eu notei uma certa disputa entre as duas cidades e um marianense chegou a me pedir que, na próxima visita, eu me hospedasse em Mariana e não em Ouro Preto. Preocupação talvez justa, embora, de um ponto de vista isento, eu não recomende a troca.
O difícil é visitar Mariana sem ter na mente a ideia de Ouro Preto. Nenhum demérito para qualquer uma delas, acontece apenas que, mais que vizinhas, são irmãs, partilham os mesmos ares e a mesma arquitetura.
Como, então, escapar desta xifopagia e descobrir, em Mariana, as suas particularidades? Primeiro, sem dúvida, caminhando, atentando para os detalhes, entregando-se aos poucos à cidade. Verdade que, durante a visita, fui prejudicado por uma forte chuva que me pegou em plena rua e me fez abreviar o passeio. Mas mesmo isso acaba sendo uma particularidade. Afinal, as cidades, inclusive as históricas, são vivas, e a memória do lugar se mistura inevitavelmente à memória dos momentos passados lá, criando uma figura única que se diferencia de todas as demais. Nem que, no caso, seja uma figura molhada de chuva.
E Mariana também tem pelo menos uma atração que, na minha experiência, distingue-a de Ouro Preto e das demais cidades da região. Saindo do centro (fui de carro), estão lá as Minas da Passagem, que dizem ser a maior mina de ouro atualmente aberta à visitação. É um passeio no tempo e no imaginário construído através de filmes e histórias que começa já no meio de transporte para o interior da mina: um trole. Quem nunca viu, num desenho animado, um destes carrinhos sobre trilhos? Lá, embarcar num trole dá direito a uma viagem entre o pitoresco e o inusitado. Com direito a pensar que, na saída, apesar da chuva, teremos a legítima comida mineira nos esperando para o almoço numa cidade que, além de tudo, tem nome de mulher.

sábado, 23 de outubro de 2010

As fontes de Minas

Sabemos que, há alguns séculos, não se falava em água encanada nas casas, isto seria um luxo inimaginável mesmo para as famílias abastadas. Daí a importância das fontes públicas de água, comuns nas cidades e vilas pelo Brasil afora. O interessante é que, em muitos lugares, ainda hoje pode-se ver algumas destas fontes preservadas e imaginar a rotina daqueles tempos, em que a dona de casa (ou, no mais das vezes, um escravo ou escrava) ia diariamente até a fonte buscar água para a cozinha, para a higiene da família, enfim, para todos os usos. Havia também a figura do aguadeiro, profissão herdada dos ibéricos e já desaparecida, que percorria as ruas oferecendo barris de água. Conta-se que os aguadeiros formavam filas nas fontes ou chafarizes, onde se abasteciam, antes de sair apregoando água fresca para a população.
E quem vai a Minas Gerais tem um prato cheio para se observar as fontes remanescentes desta época, pois muitas foram conservadas e algumas até ainda jorram água. Vale registrar algumas delas.


Chafariz da Glória, em Ouro Preto, com as tradicionais carrancas que jorravam água.














Chafariz do Pilar, também em Ouro Preto, um dos que foram restaurados para voltar a fornecer água como no século XVIII. Detalhe para as flores de jacarandá que formam um belo tapete na primavera.
















Chafariz de São José, na pequena Tiradentes, um dos mais imponentes. Servia para abastecimento da população, para as lavadeiras de roupas e também como bebedouro para animais, principalmente cavalos. Notem que possui até mesmo um oratório no centro.














E este obviamente não é um chafariz histórico de Minas, mas sim uma peça do variado artesanato em pedra-sabão daquele estado. Trouxe-o de Ouro Preto, torcendo para que não se quebrasse na viagem, e hoje ele faz parte da minha galeria de lembranças de viagem.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Rica Vila

Trilha sonora para esta crônica: Oh! Minas Gerais

A imagem pode parecer batida, mas Ouro Preto, a antiga Vila Rica, é uma cidade múltipla, como um diamante de faces brutas e lapidadas que apresentasse a quem olha uma miríade de cores, experiências e sensações. Ou, dizendo melhor ainda, como um altar barroco exuberante de dourado que reflete em cada direção um brilho próprio e único.
Cheguei à cidade na expectativa de conhecer a Ouro Preto (ou Vila Rica) colonial. E talvez esta realmente se sobressaia às demais. Mas não há como não notar que ela se divide em outras (ou a ela se somam outras? sutil diferença...): Ouro Preto dos estudantes, Ouro Preto das igrejas, Ouro Preto de Cecília e de Marília (esta, poética, também é diversa da Ouro Preto dos inconfidentes, mais uma sutil diferença), Ouro Preto mineira do tutu, do angu e do pão de queijo, Ouro Preto dos turistas e, claro, dos anfitriões.
Pois, como em praticamente todos os lugares que me surpreenderam positivamente, o que mais me marcou em Ouro Preto (e no restante das Minas Gerais que conheci depois) foi a receptividade de todos com quem eu conversava.
Claro, a cidade é realmente linda, ainda mais quando emoldurada por um arco-íris como o que tive a sorte de presenciar. As igrejas valem a visita. O Museu da Inconfidência é um dos melhores do Brasil. As ladeiras valem todo o fôlego que exigem. O artesanato de pedra-sabão vale o quanto pesa na bagagem, literalmente. Mas, acima de tudo, o que dá o tempero da viagem são as pessoas. Conversar com elas, deliciar-se com o sotaque, sentir que estão de braços realmente abertos. É um cuidado que os mineiros têm e que, quando se trata de culinária, não poderia resultar em outra coisa que não a típica cozinha mineira. É fato que outras plagas também têm receitas e restaurantes maravilhosos; mas em poucos lugares tive tão forte a impressão de que é “difícil errar” quanto em Minas: em qualquer pequeno restaurante que se entre, tem-se a certeza de que a refeição será saborosa, farta e a um preço bastante razoável.
Terminado o almoço, uma porção de doce de leite caseiro. Mais tarde, antes mesmo de sentir fome, a vontade de um pão de queijo: basta então se guiar pelo aroma que vem da primeira padaria e abastecer-se de uma fornada. Gula? Culpa? Fácil esquecê-las, nem que seja olhando para a próxima ladeira e considerando que será preciso energia para seguir em frente. Afinal, está-se em Minas e o doce esforço, como tudo nesta terra, vale a pena.