sexta-feira, 13 de maio de 2011

Questão de tamanho

Malta tem todas as características de um pequeno-grande lugar. Deem uma olhada no mapa. Achem este ponto quase imperceptível e reparem na sua localização: entre a Europa e a África, a meio caminho entre Gibraltar e a Turquia - ponto focal, portanto, de algumas das mais influentes civilizações da história. (E, apesar de ter menos de 50 anos como nação independente, as mais antigas construções pré-históricas do mundo estão em Malta.)
Mais que servir de recheio para enciclopédias, isto ajuda a dar ao país um ar tão fascinante. A mistura cultural começa pela língua: o maltês é intrigante, tem uma sonoridade vagamente árabe entremeada de palavras latinas e anglossaxônicas. A comida também é uma mistura - das massas e dos pastéis à carne de caça, desta ao queijo. A arquitetura é de uma grandiosidade que espanta numa ilha tão pequena - reflexos talvez de uma história conturbada.
Um país lapidado pelos séculos. Assim como seus habitantes, cientes e orgulhosos de tudo o que já se viveu nesta terra arenosa. Alberto Caeiro, quando falava de sua aldeia, bem parecia estar falando como maltês: "porque eu sou do tamanho do que vejo/ e não do tamanho da minha altura".

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Primeiras impressões de Malta

Cheguei a Malta ontem e, em um dia e meio, já posso dizer que o país me surpeendeu positivamente. Aliás, é fácil se surpreender aqui, as cidades são lindas e sutilmente exóticas, de um exotismo que deleita os olhos.
O país... Ando descobrindo que gosto mesmo de lugares assim, pequenos, quase escondidos, (talvez por isso) cheios de uma cultura particular. Ao mesmo tempo em que eu levaria tempo para conhecer toda a história, cultura ou língua daqui, com muito pouco seria possível dizer que percorri todo o país, tal a sua pequena dimensão.
Já numa das primeiras conversas, um senhor, ao saber que eu era brasileiro, começou a falar de futebol e do Pelé. Até aí, nenhuma novidade; curioso foi quando ele perguntou, como se fosse natural, se eu era amigo do Pelé. Para alguém acostumado a uma pequena ilha, deve ser difícil até mesmo imaginar um país das dimensões do nosso!
Não por acaso, dizem que a regra dos seis graus de separação não vale na ilha: aqui são dois graus, ou seja, um maltês pode não conhecer diretamente outro maltês tomado ao acaso, mas muito provavelmente conhece algum amigo em comum...

sábado, 7 de maio de 2011

Da Ilha Grande ao Rio de Janeiro


No dia seguinte, mais um nascer do sol primoroso - o Saco do Céu realmente guarda imagens lindas. O nosso coração é que, a esta altura, vivia emoções contraditórias: seguiríamos viagem, mas em direção ao leste, ou seja, já no rumo de volta. Aos poucos, deixaríamos a Ilha Grande para trás e, mais do que isso, enfrentaríamos novamente a desgastante travessia até a cidade do Rio de Janeiro.
Mas uma coisa de cada vez. Ainda tínhamos mais um dia para aproveitar na ilha e o plano era retornar à Enseada das Palmas, passando o dia numa das praias de lá que ainda não havíamos explorado. Foi o que fizemos, e foram momentos agradáveis - a velejada tranquila, a ancoragem nas proximidades da praia, banho de mar, caminhada na areia, almoço num pequeno e pitoresco restaurante-balsa. No final do dia, seguimos para outro ponto no extremo nordeste, já pensando na travessia. Acomodamo-nos, procuramos descansar o máximo durante o tempo que ainda nos restava... e, antes do sol nascer, estávamos novamente navegando, agora voltando para casa. O vento ajudou ainda menos que na ida: no começo praticamente não nos apareceu, obrigando-nos a apelar para o motor. Em compensação, fomos brindados por mais um belo nascer-do-sol no mar.
Quando o vento apareceu, foi pela proa (vento contra), o que nos permitia avançar mas da maneira mais trabalhosa e demorada. Enfim, com um bocado de paciência e tempo mais que suficiente para todo tipo de divagações, aos poucos a paisagem do Rio se descortinava. Na Marambaia, ouvíamos repetidos estrondos - trata-se de uma área militar. Na Barra da Tijuca, via-se a tradicional multidão de guardassóis tomanco conta da praia. Ansiávamos por chegar em casa, mas estávamos mais uma vez sendo pegos pela noite durante a travessia - e ainda mais cansados que na ida. Optamos então por uma parada intermediária: ancoramos entre as ilhas Cagarras, já bem perto da barra da Guanabara, e passamos ali a noite. Acordamos com o sol, um pouco mais descansados, mas cada vez mais ansiosos com a vista de casa (e o vento, fraquíssimo, que não nos ajudava!). Enfim, seguimos. E chegamos. Desembarcamos mais cansados do que esperávamos, mas com todas as marcas indeléveis de férias ricas e intensas. Mil garrafas ao mar não dariam conta do que aqueles dias de mar e sal me acrescentaram.

sábado, 2 de abril de 2011

Susto e recompensa


Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

Fernando Pessoa












Logo cedo, conforme planejado, fiz o reparo do leme. Tudo pronto, hora de levantar âncora da Vila do Abraão. Rumamos para noroeste, com a intenção de explorar um pouco das famosas ilhas da baía - iríamos até as ilhas Botinas e talvez, dependendo do tempo, até a ilha da Gipoia. A velejada começou tranquila, avançávamos ajudados por um vento de popa. Bem, uma das coisas que aprendi é que as coisas mudam, e isto é particularmente verdade quando se trata de condições do tempo. Aos poucos, o vento foi aumentando e o mar foi ficando mais agitado - nada que nos assustasse, mas sim que exigia atenção e cuidados redobrados. Rizamos (diminuímos) as velas e seguimos em frente. Então aconteceu: subitamente o barco começou a responder de forma estranha... Um dos lemes não respondia! De alguma maneira, o conserto não havia dado certo. Tensão! Após uma rápida avaliação da situação, concluí que não havia o que fazer a não ser usar todos os meios possíveis para chegar ao primeiro porto disponível. No caso, acabou sendo a marina Portogalo, aonde chegamos assustados e cansados, mas em segurança. Na contabilidade dos prejuízos, além do leme quebrado, problemas na costura da buja (vela da proa), que se soltara enquanto tentávamos controlar o barco. O lado bom é que estávamos no continente, numa marina com estrutura muito melhor que a de qualquer ponto da ilha. Procurei a oficina da marina, providenciei novo conserto (desta vez com material mais reforçado) e preparamos o Pandorga para pernoitar ali - não sem antes uma boa ducha e um esperado jantar.
O dia seguinte amanheceu com tempo bom, mas havia uma decisão difícil a ser tomada. A princípio, não se havia perdido muita coisa, basicamente foram danos materiais já reparados, mas havia sim sido perdido algo importante: a nossa confiança no barco para fazer uma travessia como a planejada. E então? Optamos por uma leve mudança ns planos: não iríamos mais até as ilhas Botinas, em vez disso rumaríamos para a Lagoa Azul, que ficava mais perto, e iríamos aos poucos testando o barco para garantir que ele não nos traria mais surpresas. Dito e feito. A tal Lagoa Azul não é uma lagoa, mas uma enseada de águas rasas e claras excelente para snorkelling. Não por acaso, é o ponto alto da maioria dos passeios turísticos que saem do Abraão. Quanto a nós, fomos até lá sem mais contratempos e tivemos recompensada a insistência. Que pedaço de mar encantador! Seria um crime fazer uma viagem como a nossa e não passar por lá.
Otimismo renovado... Seguimos em frente. Próxima parada: Saco do Céu, uma das enseadas mais protegidas de toda a ilha, o que faz com que seja também um concorrido ponto de pernoite de embarcações. Na ida até lá, pegamos um vento razoável pela proa e o Pandorga se comportou bem, o que fez aumentar novamente a confiança nele. A chegada no Saco do Céu foi das melhores possíveis: paisagem linda (como em toda a ilha), águas calmíssimas (perfeitas para o pernoite do barco) e um restaurante com um cais que foi a primeira coisa que procuramos, porque nossos estômagos àquela hora estavam ansiosos por uma boa refeição! Após, ainda tivemos tempo para aproveitar e descansar. Mais mergulhos, mais conversas, mais observação do que tínhamos à volta. Como havia tempo (e não havia tevê por perto), chegamos até a arriscar umas divertidas partidas de gamão. Sim, gamão! O Pandorga é o único veleiro que conheço que já foi palco de partidas de gamão na Ilha Grande... Enfim, nosso humor estava de volta e ansioso por mais.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Enfim, a Ilha Grande











___ trilha por terra (Palmas - Lopes Mendes - Palmas)
___ trajeto marítimo (Palmas - Abraão)





Desembarcar em terra, depois de tantas horas no barco (tinham sido duas noites a bordo e mais um dia de travessia), é no mínimo emocionante. No meu caso, assim que o dia amanheceu, pulei na água e literalmente nadei até meus pés encontrarem a areia da praia. A vontade era de gritar pela chegada ao destino e pelo dever cumprido de ter trazido o Pandorga em segurança. Contentei-me com uma primeira caminhada. Em seguida, uma ducha de água doce que havia ali perto. Logo desembarcou também o Arthur.
Estávamos na Praia Grande de Palmas, aproximadamente a meio caminho entre a Vila do Abraão (o "centro" da ilha) e a famosa Praia de Lopes Mendes. Sabendo que bastava uma caminhada através de uma trilha na mata para chegar a esta última, que eu não conhecia, resolvi ir até lá. São cerca de 40 min leves e bastante agradáveis. Volta e meia, descobre-se uma vista exuberante entre o mato. O tempo todo se cruza com turistas, muitos deles estrangeiros - esta é provavelmente a trilha mais movimentada da ilha. E Lopes Mendes. A praia é, sim, muito bonita. Mas... ouso dizer que não tão mais bonita que outras da ilha. E com a desvantagem de ser relativamente cheia: a quantidade de gente tomando sol na areia, jogando frescobol, surfando, faz lembrar mais uma concorrida praia do continente que um isolado recanto de uma ilha cuja principal virtude, na minha opinião, é ser ainda pouco explorada. Em outras palavras: pode ser uma praia bonita, mas não é por causa dela que eu faria toda essa travessia... Olhei, explorei, tirei fotos e retornei. No caminho, ainda conversei bastante com quem fazia a trilha comigo: um dos muitos cachorros da ilha e um grupo de curitibanos que estavam lá de visita.
De volta à Enseada de Palmas, embarcamos rumo à próxima parada: Abraão. Este é o único lugar em toda a ilha que se parece com uma cidade, isto é, tem ruas, restaurantes, comércio variado e bastante gente circulando. Pelo mesmo motivo de Lopes Mendes, o Abraão sozinho não é o lugar que faz uma ida a Ilha Grande valer a pena. Mas, para quem pretendia, como nós, ficar todos estes dias explorando a baía e suas praias e enseadas, é o lugar perfeito para ter um descanso, almoçar num restaurante médio, provar um açaí e reabastecer o barco com comida, água e gelo.
O dia não passou sem um inconveniente: percebi que um dos dois lemes do Pandorga estava com uma folga maior do que seria normal, fui verificar e descobri que um parafuso havia saído da posição. Pior: o parafuso estava retorcido de tal maneira que eu não conseguia recolocá-lo no lugar nem retirá-lo completamente. A solução, pensei comigo, seria limar o parafuso para conseguir retirá-lo e substituí-lo por outro. Daria um pouco de trabalho, mas não seria nada de mais. Porém, apesar de ter uma caixa de ferramentas relativamente completa, eu havia esquecido de trazer uma lima! Paciência, pensei comigo. Melhor não se preocupar com isso àquela altura (já anoitecia). No dia seguinte, eu acordaria cedo, desembarcaria, procuraria uma ferragem e, munido de lima e parafusos, faria o conserto. Ninguém disse que nossa aventura seria fácil ou que estaria livre de imprevistos! Mesmo assim, continuava a valer a pena.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Mensagem na garrafa

El mar es un azar
¡Qué tentación echar una botella al mar!
*

Era um desejo de infância. Quando pequeno, nas praias que eu frequentava, sonhava em topar com uma garrafa trazida pelas ondas até a areia, uma garrafa que traria mensagens de terras longínquas. Lembro de ouvir contar que minha tia, certa vez, encontrou uma garrafa com uma mensagem de alguém que estudava correntes marítimas. Esta história me fascinava. Sobretudo, fazia com que eu imaginasse encontrar também minha própria mensagem.
Há algumas semanas, folheando um livro do Amyr Klink que me chegara às mãos, deparei-me com uma passagem em que ele conta ter lançado ao mar, no Atlântico Norte, um vidro de Nescafé com um bilhete e uma pedrinha colhida na Antártida. Amyr tinha na cabeça que, segundo estatísticas, só uma em cada vinte mensagens jogadas assim eram recuperadas, mas apostou e recebeu uma resposta, sete meses depois, com a foto de um menino norueguês de dez anos que achara o seu vidro de Nescafé.
Na mesma noite em que li o trecho do livro, eu havia oferecido um jantar aqui em casa para uns amigos. Abrira uma garrafa de vinho que já estava há bastante tempo esperando a ocasião e alguém comentou que a garrafa era muito bonita. Guardei-a vazia, mesmo sem saber o que fazer com ela - um vaso de flores, talvez?
Às vésperas de partir para Ilha Grande, então, estava eu envolvido com o planejamento da travessia quando tudo voltou à minha memória - meu sonho de infância, a história da minha tia, a pedrinha do Amyr que foi parar na Noruega - no instante em que olhei para a garrafa vazia descansando pacientemente em cima da pia da cozinha e esperando seu destino. Não hesitei. Busquei papel e caneta, sentei-me e escrevi. Anotei, depois de consultar a carta náutica, a posição mais propícia para lançar a mensagem (na preamar, quando passássemos entre a Barra da Tijuca e o Recreio dos Bandeirantes). Sabia que era um pouco de pretensão querer que a mensagem chegasse longe, mas quem consegue me impedir de sonhar? Tampei a garrafa, lacrei e guardei-a cuidadosamente entre os objetos que seriam levados a bordo do Pandorga...
Então, quando chegou o momento, durante a travessia, a garrafa voou da minha mão para as águas de um mar sereno. Porque viagem alguma se completa sem que se alimente o sonho ingênuo e infantil que guardamos conosco.

Pongo estos seis versos en mi botella al mar
con el secreto designio de que algún día
llegue a una playa casi desierta
y un niño la encuentre y la destape
y en lugar de versos extraiga piedritas
y socorros y alertas y caracoles.
*

* Citações do uruguaio Mario Benedetti.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Todos os ventos que sopram


Para que eu não pare nesta existência
Tão mal cumprida tão mais comprida
Do que a restinga de Marambaia!...

Manuel Bandeira






Sem falsa modéstia, tenho plena consicência de que poucas pessoas terão uma oportunidade na vida para fazer aventura como a que nos propomos. O plano era sair do Rio de Janeiro ainda de madrugada, eu e meu amigo Arthur, e fazer a travessia marítima até a Ilha Grande no Pandorga, um veleiro de 20 pés, chegando lá perto do entardecer. Ficaríamos por alguns dias e depois retornaríamos. Para tanto, passei as semanas anteriores em preparativos - revisões, estudo da rota, previsões de tempo, provisão de alimentos, bebidas e materiais diversos. Na tarde anterior, embarcamos - dormiríamos a última noite já no barco.
A ansiedade era grande. Vontade foi de partir antes mesmo da hora planejada. Mas procurei dormir, sabendo que umas horas de descanso prévio poderiam ser valiosas mais tarde.
Partimos, pois, no dia 16. Assistimos de camarote ao nascer do sol no mar, um belo espetáculo. Aos poucos o vento foi nos fazendo companhia, um gentil vento de popa que nos permitiu subir a vela-balão - o Pandorga tem uma bela vela-balão farroupilha, nas cores verde, vermelho e amarelo.
Dali para a frente, as praias cariocas iam se descortinando à nossa direita - ou seja, a boreste, já que estamos falando de coisas do mar. Leme, Copacabana, Ipanema, Leblon, São Conrado já haviam ficado para trás. Vem a Barra da Tijuca, vem o Recreio dos Bandeirantes, as praias vão ficando maiores e custam mais a passar. Guaratiba. E então a Restinga Marambaia, mais de 40 km de uma faixa de terra baixa e estreita, tão baixa e estreita que mal se vê do mar. O curioso é uma árvore solitária plantada ali: à distância, com a faixa da Restinga praticamente invisível, o que se enxerga é a árvore como se ela estivesse em pleno mar. Dizem que serve de aviso aos navegantes: há histórias de incautos que, à noite ou sob neblina, aproximavam-se perigosamente de terra e foram salvos pela visão da árvore, legítimo farol natural (que obviamente não aparece na carta náutica).
Da metade para o final da Restinga, o vento começou a apertar. Hora de ficar atento, fazer força e mostrar agilidade nas manobras. Para quem já estava há horas no mar e recém começava a enxergar, ao longe, a Ilha Grande, era um teste de resistência. Brincamos: "Rizar as velas é para os fracos!", ouve-se a bordo, em referência à manobra de diminuir (rizar) a área vélica quando o vento passa da conta. Sanduíches, bolachas, chá gelado, suco e muita água - tudo vale para fornecer energia contra o cansaço. E paciência. Quando pensamos que, ao menos, o vento forte nos empurrará logo para o destino, ele resolve serenar. Praticamente some, obriga-nos a ligar o motor. O sol já está se pondo quando entramos na baía da Ilha Grande. A travessia vai levar mais tempo que o previsto. Mas paciência é virtude de velejadores. Nosso pouso será a Enseada das Palmas. A Ilha já está perto. Sente-se cheiro de terra, cheiro de mato! Os corações se ouriçam, a expectativa cresce em meio ao cansaço. Entramos na enseada. Em meio à escuridão, dois pontos luminosos lá adiante nos guiam para a praia em frente à qual fundearemos. Pronto, chegamos! Solto a âncora. O Pandorga se comportou bem, assim como nossa fibra de marinheiros. Estou aliviado. À noite, parece que temos aquela praia inteira para nós, mas o que interessa agora é verificar se a âncora está bem presa, terminar de baixar a vela, organizar as coisas na cabine e dormir. O sono virá fácil, afinal precisamos dele para chegarmos descansados ao dia seguinte. Ilha Grande nos espera.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Tempo de se lançar ao mar


Mais uma vez de férias, mais uma vez às voltas com planos de viagem. Com a novidade de que, agora, a viagem será inédita como nunca: inédita não pelo destino mas pelo meio. Em outras palavras, vamos velejando do Rio de Janeiro até Ilha Grande.
A perspectiva de fazer esta travessia por via marítima (e usando a força do vento), mais a perspectiva de, chegando lá, dormir no barco, dá um frio na barriga, uma certa ansiedade e, principalmente, uma sensação de contato com a natureza que não sei se já experimentei antes.
Como não poderia deixar de ser, as cartas de tantas léguas se transformarão em cartas de milhas náuticas e eu procurarei publicar aqui a crônica da viagem. Não sei como será a conexão lá, então é possível que eu não atualize o blogue com a frequência que eu gostaria. Mas tratarei de enviar notícias, se não por aqui, pelo menos através do Twitter, no espaço telegráfico que ele permite.
E vamos ao mar, enfim, que, como se sabe, "viver não é preciso"!

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Ilha de Paquetá

Da Moreninha ao Patinho Feio, do Patinho Feio ao cisne na água

A ilha de Paquetá é, de certa forma, o patinho feio do Rio de Janeiro. No interior da baía da Guanabara, Paquetá é lembrada, principalmente, por ser o cenário em que Joaquim Manuel de Macedo ambientou A Moreninha. Acontece que já se passou um bocado de tempo desde a publicação do romance (167 anos, para ser exato) e, para boa parte de nós, A Moreninha não evoca mais que uma vaga curiosidade dos tempos de escola. Na época de Macedo, a ilha deveria ser um encantador refúgio de veraneio, mas hoje, mesmo que se diga que suas praias tenham voltado a ter condições de banho, Paquetá está longe de disputar com outros destinos a preferência dos cariocas.
É justamente o contrário. Paquetá simboliza com precisão um fenômeno particularmente acentuado no Rio de Janeiro: o de que a população local conhece quase nada da sua própria cidade. Pois perguntem a qualquer carioca se ele já foi a Paquetá e ele dirá que não ou, quando muito, dirá que foi uma vez, quando criança, décadas atrás.
Cá entre nós, os cariocas que me perdoem, mas eu prefiro assim. Gosto desta ilha de Paquetá como um patinho feito a quem ninguém dá muita atenção. Afinal, a atração de lá definitivamente não são as praias (embora algumas delas ofereçam paisagens agradáveis). O gostoso de Paquetá é justamente a sensação de que algo parou no tempo e de que não estamos no mesmo ritmo do restante da metrópole. O exemplo mais lembrado é o fato de que não se anda de carro na ilha (pode-se percorrê-la a pé, ou de bicicleta, ou ainda de charrete). Mais ainda, o relativo isolamento insular também se reflete na naturalidade com que os pescadores vendem peixe na praça central, com que as árvores crescem literalmente no meio das ruas de terra (e há até um famoso baobá convertido em ponto turístico) e com que se pode cumprimentar qualquer pessoa que passe ou até mesmo puxar assunto com desconhecidos sem que isto pareça estranho.
Não esperem luxo nos restaurantes. Relevem a aparência antiga, às vezes mal cuidada, de algumas casas. Não é aí que reside o encanto deste patinho feio. Por outro lado, observem as árvores floridas, explorem o coreto, sintam a vista que se descortina do alto da ilha. Deixem o tempo passar como quem não tem pressa.
O meio natural para se chegar a Paquetá é a barca que faz o trajeto entre a ilha e o Centro do Rio de Janeiro em cerca de uma hora. Perfeito para quem quer passar um dia lá, voltando ao final da tarde. Mesmo isso, porém, tem sido um tanto moderno demais para mim: nas últimas vezes, preferi ir à ilha de veleiro e assim, tendo o vento como companhia e sem hora certa para chegar, já se pode entrar no clima de Paquetá logo ao soltar as amarras, ainda do lado de cá. Do lado de lá, os coloridos pedalinhos em forma de cisnes se espalham pela praia que já foi da Moreninha. Nem é preciso andar neles. Basta observá-los, fotografá-los, emoldurar com eles o horizonte e o sol que, com sua imperturbável calma, vai se por naquela direção quando chegar a hora. Apreciemos. Afinal, quem resiste a um pôr-do-sol além do mar?

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Na minha língua ou na tua?

Comprei um guia de conversação da língua croata. Sabendo que meu tempo e minha dedicação seriam limitados para aprender de verdade esta língua (na vida é preciso fazer escolhas, afinal, e o croata não está entre minhas prioridades, apesar do interesse pela Croácia), optei por este guia rápido, um livrinho do Lonely Planet.
Como era de se esperar, o livrinho tem muito pouco de gramática e de “como funciona” a língua, mas em compensação tem uma lista incrivelmente completa de frases feitas. Começa com o básico — oi, bom dia, por favor, obrigado, a sequência dos numerais — e avança, dividido por capítulos, despejando frases úteis em todo tipo de situação. No restaurante: o nome de comidas e utensílios, como escolher o prato, como pedir a conta. No hotel: como perguntar por um quarto. Ao ar livre: palavras relacionadas à praia e até termos náuticos. Praticando esportes: os mais diversos (se eu precisar me referir a uma raquete de tênis, por exemplo, basta dizer reket). Em relações sociais: como se apresentar, agradecer, convidar para um jantar ou para sair à noite...
E aí a coisa vai esquentando. Há um capítulo sobre... sexo. Quando eu disse que o guia é completo, é porque é mesmo completo. Imaginem, por exemplo, que se é virgem, vai-se à Croácia, lá se conhece um/uma croata, surge certa intimidade, vão para a cama... Nesta hora, pode-se querer dizer “é a minha primeira vez”, e então, caprichando no sotaque, basta pronunciar: Ovo mi je prvi put. Muito prático, não? E não precisamos parar por aí: se a temperatura subir de verdade, pode-se começar a repetir O bože!, que (segundo o guia) é o equivalente croata de Oh my God!, clássico dos casais de filmes estadunidenses. Brže, mais rápido. Sporije, mais devagar. Dodirni me tu, toque-me assim. Quem aí já pensou em ter um orgasmo em croata?
Exageros à parte, considero que boa parte do encanto de uma viagem a outro país está em mergulhar na sua língua. Claro que nem sempre é possível ter fluência para grandes conversas. Mas, quanto mais eu souber da língua, mais estarei aprofundando minha experiência — ouvindo histórias, pescando notícias nos jornais, descobrindo o que se vende nos restaurantes e supermercados. Sem contar que há sutilezas da própria língua que dizem muito sobre a cultura local. Os países hispânicos fazem piada sobre galegos como nós brasileiros fazemos sobre os portugueses. Os chineses não têm uma palavra que signifique “sim”. Para os franceses, oitenta se diz “quatro vintes”, como quem tenha aprendido a contar não só com os dedos das mãos, mas dos pés também. Os ingleses não atribuem gênero aos objetos, o que, se pararmos para pensar, é uma diferença marcante com relação à nossa língua, em que tudo é ou masculino ou feminino. E nós temos a palavra saudade, herdada, dizem, da tradição marítima portuguesa, e ausente em boa parte das outras línguas.
Quanto mais fundo se mergulha nestas particularidades, mais marcante se torna a viagem. Muito do fascínio da minha passagem por Portugal se deveu a isso: a língua é familiar e permite todo tipo de conversa ao mesmo tempo em que as diferenças (de sotaque, de vocabulário e mesmo de construção gramatical) são marcantes o suficiente para colorir tudo com um toque deliciosamente exótico. O que me deixa, em bom português, cheio de saudades.
Ou nostalgija, como diria, numa tradução aproximada, meu guia de croata — que também ensina algumas possibilidades para o caso de aquela história ir realmente longe demais: ja mislim da sam trudna (acho que estou grávida) e da li hoćeš udati se za mene (casa comigo)...