sábado, 14 de novembro de 2009

O Hotel Fantasma

Chegamos à ilha das Flores, no arquipélago dos Açores, ao cair da tarde. Instalamo-nos no hotel e, como de hábito, saímos para dar uma volta a pé pela cidade. O reconhecimento do terreno, digamos assim, aproveitando o que ainda restava de luz do sol. Procurávamos, também, traçar um plano para o jantar: era preciso encontrar uma padaria ou mercado onde comprar coisas que nos permitissem fazer um lanche, assim como tínhamos feito nas outras ilhas por que passamos, ou então encontrar um restaurante ou lancheria agradável.
Os Açores, porém, têm uma particularidade. As lojas fecham e as ruas ficam desertas assim que começa a escurecer. Não há vida noturna, pelo menos nada comparado ao que estamos acostumados. E em Santa Cruz das Flores, vila de 2500 habitantes (a ilha inteira tem 4000 habitantes), realmente não esperávamos muito agito. Apenas um lugar onde comprar um sanduíche e algo para beber...
Não achamos. E voltamos para o hotel, resignados. Então, já no quarto, vendo ao acaso alguns folhetos de propaganda, achei o anúncio de um restaurante tentador. Parecia um ambiente grande, com música ao vivo, onde serviam lanches e refeições completas, que faria bonito em qualquer metrópole. O point. E o melhor: junto ao hotel Ocidental, dizia o folheto. Era precisamente onde estávamos.
Lá vou eu, então, mais uma vez, explorar o lugar. Missão: encontrar o tal restaurante. Eu estava achando estranho que não tivéssemos passado por ele antes, mas bastaria perguntar a alguém. Desci. Não encontrei ninguém na recepção do hotel. Paciência, pensei, e saí a procurar o restaurante. Dei a volta no hotel (que não era pequeno) e não vi nada. Não satisfeito, dei mais uma volta, procurando com mais atenção. Absolutamente nada. Estávamos numa ponta junto ao mar e definitivamente não havia outro prédio em volta. Ainda pensei: será que o restaurante fica dentro do hotel? Voltei, intrigado e disposto a perguntar a alguém no hotel (na rua, não havia mais ninguém). Na recepção, ninguém. Na sala de estar, ninguém. Ninguém em todo o andar térreo. Subi a escada (um cartaz dizia que o restaurante do hotel ficava no andar seguinte). Já não me importava tanto achar aquele restaurante específico, eu queria achar um canto qualquer onde comer, e de quebra queria saber onde estavam as pessoas daquele lugar. Pois o outro andar não só estava deserto como tinha as luzes apagadas. Havia uma porta onde se lia “Restaurante”. A porta estava fechada, estava tudo escuro e só se ouvia o vento e as ondas do mar, lá fora.
Ainda percorri o que pude em busca de nem sei mais o quê (ou quem). Nada. Encontrei, no saguão, uma pequena lojinha de lembranças. Fechada. E só. O hotel estava deserto! Era uma situação inusitada: recém-chegados a uma ilha onde, de repente, não se via mais uma única pessoa, habitávamos um hotel fantasma. Sem escolha, desisti: voltei ao quarto e me deitei cedo, controlando a fome.
Na manhã seguinte, tudo normal: havia pessoas circulando e o café da manhã estava montado naquele mesmo restaurante que antes estava fechado. Servimo-nos, comemos e saímos para a rua, para enfim passear e descobrir o que o povo da ilha das Flores tinha a nos dizer.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Estas cidades do interior...

Há viagens que nos proporcionam emoções deliciosas.
Grandes cidades têm aderido à popularização das viagens turísticas e oferecem atrações dificilmente imbatíveis: city tours, monumentos, museus, sem contar os hotéis de luxo e os grandes navios de cruzeiro. O problema disto tudo é que, se simplesmente nos deixarmos levar, a viagem terá aquele gosto de comida industrializada, congelada e embalada para ser aquecida no microondas.
Para nossa sorte, gravitando em torno destes destinos mais badalados estão as pequenas cidades. Aquelas que nos oferecem o sabor do doce que nossas mães e avós costumavam fazer em casa. Quem prova, leva consigo uma lembrança toda especial deste sabor.
Às vezes, eu me surpreendo com o estilo, ao mesmo tempo familiar e completamente diferente, que têm certas cidades do interior... É um resgate, amplificado e regado com um toque pitoresco, de coisas que marcam uma vida.
As estradas gaúchas estão pontuadas de barracas que vendem os mais diversos itens. Algumas não passam de uma tenda com o produto de determinada região – seja ele pinhão, melancia, morango, laranja, vinho. Outras são grandes vendas de beira de estrada que contam com tudo isso e mais artesanatos, erva-mate e os tradicionais queijos, salames, copas, caldo-de-cana, cucas, chimias, mandolates... Um mundo. Para muitos, cada um destes produtos tem uma história própria e reencontrá-los é voltar a uma época marcante da infância. O caldo-de-cana, assim como os puxa-puxas, lembram-me as frequentes idas ao litoral da minha família, quando eu era criança e a escala numa destas barracas era quase obrigatória. As chimias, compradas ou feitas em casa, estavam sempre na nossa mesa. Os grôstoli ou, em bom gauchês, cuecas-viradas, eram a saborosa marca registrada de nossa divertida e inesquecível tia. Queijos e salames faziam a festa dos adultos: eu confesso que não era particular fã deles, mas passei a ser depois que cresci um pouco mais. E assim fui construindo todo um mosaico...
Que não para, porém, na culinária. Não há como não ser marcado pela atitude das pessoas do interior, tão diferentes nas coisas simples. Não necessariamente melhor ou pior, apenas diferente. Numa destas cidadezinhas, no Natal, gente que eu não conhecia e que era amiga da minha irmã convidou toda a nossa família para um churrasco, de surpresa. E me presentearam com litros do vinho produzido por eles mesmos. Noutra ocasião, também no interior do estado, conheci pessoas interessantíssimas que praticamente só falavam um carregado dialeto italiano – não por afetação, apenas por costume.
Mais recentemente, fui visitar minha irmã em Nova Prata, cidade que não é das menores. Encontramos a praça central com um palco armado para a apresentação de Luiz Marenco, músico nativista. Fomos comer um crepe suíço (certo, não é algo tão natural quanto os citados queijos e chimias, mas para mim é tão nostálgico quanto eles). Puxando assunto com a moça que nos atendeu, disse que minha irmã morava na cidade e que eu tinha vindo do Rio. Ao que a moça replicou:
— Ah, vieste para o show do Luiz Marenco, então?
Minha reação foi sorrir intimamente ao constatar o quanto as referências dela eram diferentes das minhas: a guria achava a coisa mais natural do mundo que eu tivesse saído do Rio de Janeiro para o interior do Rio Grande do Sul por causa de uma apresentação nativista específica! Depois, fiquei pensando que não se trata de este ou aquele músico, esta eu aquela comida, mas de um encontro comigo mesmo, e particularmente com a criança que eu fui e sou. Um encontro que não costuma acontecer nos McDonald’s — lugares que, coincidência ou não, o menino Eduardo frequentava muito menos que as velhas barracas de estrada.

sábado, 17 de outubro de 2009

Os pássaros

A meio caminho entre Porto Alegre e Montevideo, passávamos pelo Taim, e passavam por nós bandos de pássaros voando em V. Para onde iriam aquelas aves que cruzavam nosso céu e nossos sonhos?
Deixavam-me vidrado, colado ao vidro do carro, acompanhando com os olhos aqueles longínquos viajantes. Seriam pássaros uruguaios visitando o Brasil, ou pássaros brasileiros nos acompanhando ao Uruguai, ou talvez visitantes vindos de muito mais longe?
Aquelas aves viajavam em excursões que pareciam tão bem coordenadas! Ninguém se atrasava, ninguém se perdia a olhar lojinhas de quinquilharias, ninguém fechava a cara diante de insossos guias de museus empoeirados!...
Se eu me juntaria a uma excursão destas? Seria uma pena acompanhar o grupo e não poder parar para ver um detalhe da paisagem, ou para conversar com um guri na estrada, lá embaixo... Mas que delícia a companhia daqueles pássaros tão experientes em termos de voos a terras distantes! As tertúlias aéreas que teríamos valeriam, com certeza, por viagens inteiras.
E é por isso que os pássaros, de tempos em tempos, ficam trocando de posição no bando: aposto que estão é passando a cuia de chimarrão de mão em mão... Ou de asa em asa.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Cidade Maravilhosa, Cidade Olímpica


O brasileiro, acima de tudo, é emoção. Isto ficou claro, hoje, na apresentação realizada em Copenhague. Enquanto o discurso das outras candidatas olímpicas apelava para a razão – tecnologia, investimentos em estrutura, condições logísticas – o Rio de Janeiro apelava para o coração. Os argumentos mais fortes foram os menos palpáveis: a ausência de edições anteriores dos jogos na América Latina, a festividade e a nossa fama (justificada ou não) de povo receptivo e simpático.
E então o suspense, a apoteose e o êxtase. Como na apuração dos desfiles de escolas de samba, a leitura do envelope desencadeou reações na cidade inteira e no país inteiro. Reações diversas (o apoio à candidatura foi grande, mas não unânime) com um ponto em comum: a emoção. Uns faziam muxoxo, outros fechavam a cara. Muitos festejaram na praia, gritando, dançando e cantando em diversos ritmos. Outros choraram.
Vejam a cena do presidente Lula chorando copiosamente, rosto afogueado, emoção incontida. Não me lembro de ter visto outro chefe de estado alguma vez numa demonstração tão profunda de emoção. Vejam a cena e digam: este cara pode ter muitos defeitos (e outras tantas qualidades), mas aí está uma reação maravilhosamente autêntica.
E merecida. Sei que ainda se vai falar muito das consequências da escolha do Rio de Janeiro, mas é fato que chegamos a um grau de reconhecimento internacional impensável há não muito tempo.
Não faltam críticas: a cidade tem problemas de transporte, de segurança, de hospedagem. E deveria ter outras prioridades. Bom, eu acho que está mais do que na hora de uma cidade que se pretende turística, e porta de entrada de estrangeiros, investir nisto tudo, e os Jogos Olímpicos são a oportunidade perfeita. Muitos dizem que somos um país corrupto e que o evento será um prato cheio para o desvio de dinheiro público. Eu não discordo, mas penso que não são os Jogos que vão agravar este problema. Se há corruptos, eles independem das Olimpíadas e precisam ser enfrentados com ou sem Jogos. Mais do que isso: se há corrupção e desonestidade, é preciso pensar: não estará ela em todos os níveis? Não somos um país democrático? Os “políticos” são a representação de toda a população. Por que seriam uma classe à parte? Não concordo com a atitude que muitos têm de lavar as mãos, atirando para “os políticos” a responsabilidade de todos os nossos problemas. Se há corrupção, ela é responsabilidade nossa. Pensemos nisto.
Mas não deixemos de pensar, também, que não se chega à toa ao ponto em que chegamos: a cidade e o país aclamados por representantes do mundo inteiro. Merecemos, sim, a festa. Eu, particularmente, adoro receber amigos em casa. Pois que venham, a festa está marcada: Rio de Janeiro, 2016.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Farroupilhas

O dia 20 de setembro, aniversário da Revolução Farroupilha, é uma data que movimenta todo o Rio Grande do Sul, numa intensidade que talvez espante os mais desavisados. A Revolução, como todas as revoluções, teve seus erros e seus acertos; entre estes, ela teve o mérito de propiciar a redação da primeira constituição republicana das Américas. Apesar disto, o que se comemora não é propriamente a Revolução Farroupilha; é a valorização de uma cultura da qual o povo gaúcho não esconde o orgulho; uma cultura cuja força, a meu ver, enobrece não só o estado como todo o Brasil. Afinal, poucos países têm tanta diversidade cultural quanto o nosso, e só temos a ganhar valorizando cada parte deste espectro. Assim, não é à toa que eu pulo do Bumba-meu-boi, sobre o qual escrevi há alguns dias, para a Semana Farroupilha.
E este salto vem junto com uma carga emotiva bastante grande. Há anos eu não passava o 20 de setembro em Porto Alegre. Nas ocasiões anteriores, eu havia tratado de marcar a data organizando pequenas confraternizações no Rio de Janeiro e até indo ao trabalho com o lenço farroupilha ao pescoço. Mas nada disso se compara a poder passar a data no meu pago, ou seja, em Porto Alegre. Setembro é o mês em que está de pé o Acampamento Farroupilha,num dos parques da cidade. O ambiente se transforma. E tudo culmina, é claro, no 20 de setembro, com um grande desfile à beira rio que enche o peito dos gaúchos, sobretudo daqueles que, como eu, vivem fora do estado e anseiam por qualquer ligação com a terra natal.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Viagem à roda da minha cidade

Boa parte das pessoas, mesmo dizendo adorar conhecer novos lugares, esquece-se de visitar sua própria cidade. Porém, é às vezes tão perto de casa que encontramos as cenas e os cenários mais encantadores! Procuro evitar este mal: sempre que posso, fecho os olhos e torno a abri-los diante das ruas que se oferecem aos meus passos. E assim vou descobrindo lugares. Ou redescobrindo. Uma visita à cidade onde nasci acaba trazendo muitas novidades, e não há tempo para achar que já sei de cor a paisagem, de tanto olhar para ela.
Nesta semana, uma região de Porto Alegre que, embora não estivesse nos meus trajetos mais habituais quando eu morava lá, desde cedo foi para mim um símbolo da cidade. Dali, num relance, avistam-se alguns dos nossos mais típicos cartões-postais. Que, de tão óbvios e tão integrados à paisagem, podem nem chamar a atenção de quem pensa estar, também, integrado à paisagem. Falo da histórica Ponte de Pedra, lembrança de uma Porto Alegre antiga. Do Centro Administrativo, marco de uma cidade moderna (embora o prédio de arquitetura marcante já exista há um bom tempo). E, claro, do Monumento aos Açorianos, emblema de Porto Alegre, ligação da cidade atual com a vila primitiva e seus fundadores.
Poucas vezes eu havia passado por ali com uma câmera na mão. Foi o que fiz agora, com a sorte de poder contar, também, com o céu limpo e com o coração bem disposto. Valeu a pena. Sempre vale a pena reencontrar os ângulos de que a cidade natal se vale para nos falar.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

As melhores livrarias do mundo

Já comentei antes que os livros fazem parte das minhas viagens. Duplamente: tanto porque viajo com eles, lendo-os, quanto porque viajo atrás deles, deliciando-me com as livrarias que encontro pelo caminho.
Assim, vou colecionando não só livros, mas também livrarias. Há algumas que são realmente marcantes. Certas livrarias chegam a ser mundialmente famosas. Claro que estou longe de conhecê-las todas; muitas não passam, pelo menos por enquanto, de sonhos de consumo. A Strand, em Nova Iorque, onde se diz que é possível encontrar tudo e nada ao mesmo tempo – porque, de tão grande, não se encontra o que se procura, mas encontra-se uma porção de livros que nem sonharíamos procurar. A Selexyz Dominicanen, de nome difícil, em Maastricht, nos Países Baixos, que simplesmente está instalada dentro de uma igreja medieval.
São espaços encantadores, sem dúvida, que eu espero conhecer pessoalmente um dia. Porém, como qualquer lista de “melhores do mundo” há de ser sempre subjetiva e pessoal, não faz sentido incluir na minha relação lugares em que eu nunca estive. Minha lista das melhores livrarias do mundo é a lista das minhas melhores livrarias do mundo, sutileza que justifico lembrando que só pode ser especial o que nos toca, e só nos toca o que julgamos conhecer (um pouco que seja). Eis aqui a minha lista, então, que serve como reminiscência nostálgica e convite para os que me leem: quais as melhores livrarias do mundo?
Em terceiro lugar, a livraria Lello, no Porto. Quem me falou dela pela primeira vez foi minha amiga Marta, e graças à Marta é que a visitei. Trata-se de um prédio com arquitetura e decoração de tirar o fôlego. Um convite aos olhos. E não chega a ser uma livraria grande em tamanho, o que, no caso, é uma vantagem, porque permite que ela seja aconchegante.
Em segundo lugar, El Ateneo, em Buenos Aires. Neste caso, o que rouba a cena é a sensação de surpreendente grandiosidade. Um ambiente onde os livros são as estrelas. Pudera, estamos num teatro, literalmente! Um antigo teatro convertido em livraria não tem como não ser uma experiência única. Como se não bastasse isso, o recheio do lugar é muitíssimo variado e tem preço bastante acessível.
Em primeiro lugar... Não, não posso dizer o primeiro lugar. Iriam rir de mim ou desconfiar de que estou fazendo piada. Pois o primeiro lugar não é nenhuma destas grandes livrarias que figuram em revistas ou guias turísticos. É, como eu insinuei aí em cima, a minha livraria. Estou falando desta livraria que encontramos sem esperar quando dobramos uma esquina, à toa, pela primeira vez. De repente, lá está ela: uma porta estreita, talvez uma escadaria um tanto empoeirada, estantes caóticas e apertadas. E, no meio de tudo, tesouros que vão nos conquistar (não nós a eles), livros nunca lidos que vão fazer lembrar a infância. E, quando nos maravilharmos ao ler a nota escrita à margem de uma destas raridades por uma mão infantil ou por um coração apaixonado, o senhor de trás do balcão, que parece ter vivido ali sua vida inteira, vai nos sorrir como quem conhece todas as histórias. E nos piscará o olho, pois terá adivinhado o que adivinhamos: que sempre haverá um novo leitor para as velhas leituras.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

As casas de Neruda

Um dos muitos motivos para se conhecer o Chile é o poeta Pablo Neruda.
Verdade que, quando se trata de um escritor, não é necessário ir ao seu país para começar a entendê-lo. Mas as ondas do Pacífico, a cozinha chilena, as pessoas – ah, as pessoas! – o país inteiro ganha um novo ar aos olhos do poeta. Assim como os seus versos ganham um novo significado quando contemplamos o entardecer do alto de um dos tantos cerros sorvendo um mote con huesillos, o curioso refresco chileno de trigo e pêssego.
E há, ainda, as casa de Neruda. Andando pelo Chile, tem-se a impressão de uma inédita familiaridade com o poeta, pois três de suas moradas estão preservadas e abertas à nossa visita.
São casas belas e interessantíssimas mesmo para quem não é fã do poeta. Repletas de curiosidades, como convém à habitação de uma mente criativa. A começar pelo fato de que algumas delas têm nomes próprios: La Chascona, em Santiago, La Sebastiana, em Valparaíso. La Chascona é a casa onde morou Matilde, amante e depois esposa de Neruda. La Sebastiana é uma pitoresca casa com amplas janelas para o mar. Mas a minha preferida é, sem dúvida, a casa da Isla Negra.
Isla Negra, para começar, não é uma ilha, mas um pequeno balneário e vila de pescadores. Das três, esta casa é a mais distante da capital, mas também a de visita mais recompensadora.
A própria vista que se tem do lugar é fantástica. Para quem leu ou viu O Carteiro e o Poeta, é impossível não imaginar Neruda contemplando este mesmo oceano. Mas o que mais chama a atenção é mesmo a casa. Comprida e estreita como os vagões de um trem (o pai de Neruda foi ferroviário), como um navio (a paixão pelo mar é patente na casa e na obra do poeta), como o próprio Chile. Tudo ali são referências. Há carrancas de proa. Há coleções de coleções: o poeta era muito criativo na arte de reunir objetos (ele mesmo se dizia um “coisista”). Há o “cavalo mais feliz do mundo”: um boneco que chegou a ganhar vários presentes de visitantes diversos, incluindo entre os presentes três rabos postiços. Viajar pela casa é deliciar-se com o inusitado. E descobrir que as palavras de Neruda não foram à toa:
"Em minha casa tive brinquedos pequenos e grandes, sem os quais eu não poderia viver. O menino que não brinca não é menino, mas o homem que não brinca perdeu para sempre o menino que vivia nele e que lhe fará muita falta. Por isso, edifiquei também minha casa como um brinquedo e brinco nela da manhã à noite."
Fotografia: parte da decoração nerudiana da Isla Negra e a vista para o Pacífico.

domingo, 14 de junho de 2009

Comentário musical de Porto Alegre

Como apaixonado pela minha cidade natal, eu estava devendo uma carta sobre Porto Alegre. Afinal, apesar de já ter escrito sobre ela em outros espaços, minhas botas de tantas léguas ainda não haviam palmilhado o solo porto-alegrense como deveriam. Pois qualquer viagem, por mais longa que seja, começa sempre no ponto de partida, não é? Vamos, então, a Porto Alegre.
Como escrever sobre Porto Alegre? O que destacar, quais lembranças despertar, que foco e que lente usar? A resposta é difícil para quem tem tanto da cidade nas veias. Mas é preciso escolher por onde começar, e eu escolho a música.
Porto Alegre tem algumas canções muito emblemáticas, não tanto pelo ritmo em si, mas principalmente pelas letras, pela forma apaixonada, lírica e às vezes ingênua de evocar a si mesma. São canções que estão na ponta da língua de qualquer porto-alegrense, que são orgulhosamente repetidas no aniversário da cidade, no aniversário farroupilha, nas festas de final-de-ano, em qualquer ocasião. E são canções que tocam particularmente fundo em quem, tendo nascido e vivido lá, mora longe da cidade dos jacarandás. É o meu caso.

A primeira destas canções é Horizontes, de Flávio Bicca. Flávio é ator e a canção surgiu na década de 1980 como parte de uma peça de teatro chamada Bailei na curva, que ainda hoje faz bastante sucesso no estado. Horizontes tem um forte fundo político e a menção à cidade oscila entre o saudosismo, um certo desconforto e uma esperança. Tornou-se o hino extra-oficial de Porto Alegre. Como pode? A canção evoca temas caros a nós, gaúchos da capital: o cotidiano de uma cidade que, oscilando entre um lado provinciano e outro cosmopolita, cresce e se transforma. Não está imune aos percalços do tempo, mas sabe afirmar com convicção: “não vou me perder por aí”. Assume com orgulho sua identidade, como qualquer porto-alegrense.

Deu pra ti, da dupla Kleiton & Kledir, exala Porto Alegre por todos os poros. A ponto de não ser facilmente compreendida pelos forasteiros. “Deu pra ti”? É a forma consagrada que temos de falar, com toda a propriedade, que “chegou, que o cara pode cair fora, pode tirar o cavalo da chuva, não faz mais sentido continuar o que vinha fazendo, já foi suficiente a demonstração de sua inoportunidade ou incompetência” – nada melhor que o Dicionário de Porto-Alegrês do Luís Augusto Fischer para explicar. Então o que Kleiton & Kledir proclamam, e não poderiam fazer melhor, é o sonho de todo desgarrado do pago: “Deu pra ti, baixo astral, vou pra Porto Alegre, tchau!”

E um passeio musical pela minha terra só pode terminar de maneira exaltada: Porto Alegre é demais é o que escreveu José Fogaça para sua mulher Isabela cantar. Acabamos todos os gaúchos cantando juntos. Afinal, a escala musical completa ainda é pequena quando se canta a saudade da terra natal. Saudade assim não se esgota: apenas dá uma trégua quando volto, quando revejo enfim o rio Guaíba e a cidade que ele banha. Não tem jeito: “é lá que eu vivo em paz”.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Memórias Ilustradas de Portugal

Poucas vezes fiz anotações de viagem tão sistemáticas quando agora. Pois comprei em Lisboa (n'A Vida Portuguesa) uma caderneta onde comecei a tomar notas e isto acabou sendo um exercício excelente para reviver alguns detalhes da viagem. Preenchi 58 páginas! Além de ser bastante coisa, são anotações particulares (nenhum segredo, mas também nenhuma intenção séria de publicação). Então ficarei no meio-termo: não há necessidade de colocar tudo aqui, mas uma amostra pode ser interessante. Eis algumas páginas que são, com todas as letras (e desenhos), cartas de tantas léguas.