quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Quartos de hotel

Há qualquer coisa de sobrenatural em alguns hotéis pelo mundo afora. São como antigos castelos encantados.
Deve ser o assombro do desconhecido — uma cidade estranha, um quarto estranho, a noite, que é sempre estranha, e pronto, está montado o palco que intriga nossos sentidos.
Nem falo tanto de algumas pousadas e albergues onde é comum o pessoal ficar pelos cantos até tarde. Nestes casos, pode-se ouvir muitas histórias, algumas extraordinárias, mas todas bastante humanas. Não, o que mais desperta nossa atenção são aqueles quartos absolutamente silenciosos, ou que deveriam ser silenciosos, em que algo inexplicável — um barulho, por exemplo — insiste em testar nossa curiosidade.
Um hotel em Lisboa. Um hotel qualquer, apenas suficiente para passar uma noite. Desde o começo, achei que havia algo de estranho nele, mas demorei a identificar o que era: o quarto não tinha uma única janela. Um caixote onde nos fechamos hermeticamente. Certo, não deve ser o único quarto assim, mas não deixa de ser estranho.
Outro hotel em Lisboa. Escolhido a dedo pela localização e pela praticidade. No mínimo, curioso: a recepção não fica no térreo, mas no segundo andar, e precisamos subir até lá de escada para, então, tomar o elevador que nos leva ao quarto. No quarto, pelo menos, não faltam janelas e uma bela vista para a praça. Quando chega a noite e a cidade se aquieta, minha mãe, que está comigo, ouve um ruído insistente e monótono. Um zumbido. Demoro a perceber, mas acabo também ouvindo. Noite após noite, o zumbido se repete. Elaboramos hipóteses. Ondas nas águas do Tejo, o vento uivando entre as sete colinas? Não faz sentido. Barulho de conversas vindas da rua? Definitivamente não, a essa hora não há ninguém. O som do metrô? É a hipótese mais plausível, mas custo a acreditar que do metrô poderia vir um som tão constante e com aquele timbre. Desistimos de explicar. Agora, tempos depois, minha mãe encontra não uma explicação mas uma semelhança: as vuvuzelas! Pois estas cornetas sul-africanas, este enxame gigante, parecem exatamente o que ouvíamos em Lisboa, à noite.
Mas também há hotéis que nos espantam por motivos, se não prosaicos, pelo menos bastante humanos.
Santiago do Chile. A peculiaridade é que, para chegar ao quarto, que ficava no nível do chão, era preciso subir um lance de escada e em seguida descer outro. Mas nada de ruídos sobrenaturais, o que se ouvia era um casal no quarto ao lado entretido numa atividade bem íntima e definitivamente deste mundo...
Cambará do Sul, interior do Rio Grande do Sul. O hotel é uma casa de fazenda excelente e acolhedora. Os sons que se ouve são ruídos do campo, nada mais (e, sim, o coaxar incessante de um batalhão de sapos). A suíte é enorme, os banheiros também... Sim, os banheiros: o quarto tem dois banheiros, exagero que não sei se chegarei a ver em outro lugar.

Jaipur, na Índia. Um hotel (Umaid Mahal) que espanta pelo luxo (é, literalmente, uma mansão) e ainda mais pelo baixo preço, um achado. Estou no meu quarto, já de noite, tomando banho – há um box moderno e confortável, uma ducha potente e... uma porta. O que faz esta porta dentro do box em que estou me banhando? Abro a porta e descubro que estou numa sacada com vista para a rua, na fachada do hotel! Fecho a porta discretamente e volto ao meu banho...
Londres. Não vou descrever o hotel. Mas sei que eu precisava carregar a bateria de meu celular e a única tomada compatível ficava no banheiro. Liguei, pois, o aparelho na tomada, verifiquei no visor que ele estava carregando, e fui dormir. Na manhã seguinte, espantei-me ao ver que ainda não havia completado a carga. Paciência, deixei o celular na tomada o dia inteiro. Voltei no final do dia... E ele ainda estava carregando a bateria. Nem sei mais quanto tempo levei nisso. Até que, por acaso, descobri um detalhe: a tomada só funcionava enquanto a luz do banheiro estivesse ligada. Sempre que eu apagava a luz, o celular deixava de receber carga, e só voltava exatamente quando eu acendia a luz para verificar o andamento...
Celular carregado, sigo em frente. Na verdade, a lista de curiosidades não começa nem termina aqui. Seleciono recortes ao acaso; assim como falei destes, poderia ter falado de outros. Qual viajante nunca se deparou com alguma situação inusitada na sua hospedagem? Ou melhor: qual foi a tua situação inusitada?

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Mariana


De Ouro Preto, vai-se com relativa facilidade até Mariana. São cidades vizinhas, separadas (ou unidas) por cerca de 10 km de estrada asfaltada ou, melhor ainda, de estrada de ferro. Percorri a distância de carro, mas, para quem puder se programar, o melhor talvez seja fazer o percurso no trem turístico – a partir de Ouro Preto, vai-se de manhã e retorna-se à tarde, ficando lá o tempo justo para um passeio de reconhecimento.
Esta proximidade é, a meu ver, tanto benéfica quanto levemente nociva. Torna as coisas mais fáceis, mas também acaba dando a Mariana uma aparência de simples apêndice de Ouro Preto. E aí a comparação é difícil, pois Ouro Preto é uma cidade maior, mais variada e mais imponente. Curioso, a propósito, lembrar que foi Mariana, e não Ouro Preto, a primeira capital mineira. Bem, pode ser coincidência, mas eu notei uma certa disputa entre as duas cidades e um marianense chegou a me pedir que, na próxima visita, eu me hospedasse em Mariana e não em Ouro Preto. Preocupação talvez justa, embora, de um ponto de vista isento, eu não recomende a troca.
O difícil é visitar Mariana sem ter na mente a ideia de Ouro Preto. Nenhum demérito para qualquer uma delas, acontece apenas que, mais que vizinhas, são irmãs, partilham os mesmos ares e a mesma arquitetura.
Como, então, escapar desta xifopagia e descobrir, em Mariana, as suas particularidades? Primeiro, sem dúvida, caminhando, atentando para os detalhes, entregando-se aos poucos à cidade. Verdade que, durante a visita, fui prejudicado por uma forte chuva que me pegou em plena rua e me fez abreviar o passeio. Mas mesmo isso acaba sendo uma particularidade. Afinal, as cidades, inclusive as históricas, são vivas, e a memória do lugar se mistura inevitavelmente à memória dos momentos passados lá, criando uma figura única que se diferencia de todas as demais. Nem que, no caso, seja uma figura molhada de chuva.
E Mariana também tem pelo menos uma atração que, na minha experiência, distingue-a de Ouro Preto e das demais cidades da região. Saindo do centro (fui de carro), estão lá as Minas da Passagem, que dizem ser a maior mina de ouro atualmente aberta à visitação. É um passeio no tempo e no imaginário construído através de filmes e histórias que começa já no meio de transporte para o interior da mina: um trole. Quem nunca viu, num desenho animado, um destes carrinhos sobre trilhos? Lá, embarcar num trole dá direito a uma viagem entre o pitoresco e o inusitado. Com direito a pensar que, na saída, apesar da chuva, teremos a legítima comida mineira nos esperando para o almoço numa cidade que, além de tudo, tem nome de mulher.

sábado, 23 de outubro de 2010

As fontes de Minas

Sabemos que, há alguns séculos, não se falava em água encanada nas casas, isto seria um luxo inimaginável mesmo para as famílias abastadas. Daí a importância das fontes públicas de água, comuns nas cidades e vilas pelo Brasil afora. O interessante é que, em muitos lugares, ainda hoje pode-se ver algumas destas fontes preservadas e imaginar a rotina daqueles tempos, em que a dona de casa (ou, no mais das vezes, um escravo ou escrava) ia diariamente até a fonte buscar água para a cozinha, para a higiene da família, enfim, para todos os usos. Havia também a figura do aguadeiro, profissão herdada dos ibéricos e já desaparecida, que percorria as ruas oferecendo barris de água. Conta-se que os aguadeiros formavam filas nas fontes ou chafarizes, onde se abasteciam, antes de sair apregoando água fresca para a população.
E quem vai a Minas Gerais tem um prato cheio para se observar as fontes remanescentes desta época, pois muitas foram conservadas e algumas até ainda jorram água. Vale registrar algumas delas.


Chafariz da Glória, em Ouro Preto, com as tradicionais carrancas que jorravam água.














Chafariz do Pilar, também em Ouro Preto, um dos que foram restaurados para voltar a fornecer água como no século XVIII. Detalhe para as flores de jacarandá que formam um belo tapete na primavera.
















Chafariz de São José, na pequena Tiradentes, um dos mais imponentes. Servia para abastecimento da população, para as lavadeiras de roupas e também como bebedouro para animais, principalmente cavalos. Notem que possui até mesmo um oratório no centro.














E este obviamente não é um chafariz histórico de Minas, mas sim uma peça do variado artesanato em pedra-sabão daquele estado. Trouxe-o de Ouro Preto, torcendo para que não se quebrasse na viagem, e hoje ele faz parte da minha galeria de lembranças de viagem.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Rica Vila

Trilha sonora para esta crônica: Oh! Minas Gerais

A imagem pode parecer batida, mas Ouro Preto, a antiga Vila Rica, é uma cidade múltipla, como um diamante de faces brutas e lapidadas que apresentasse a quem olha uma miríade de cores, experiências e sensações. Ou, dizendo melhor ainda, como um altar barroco exuberante de dourado que reflete em cada direção um brilho próprio e único.
Cheguei à cidade na expectativa de conhecer a Ouro Preto (ou Vila Rica) colonial. E talvez esta realmente se sobressaia às demais. Mas não há como não notar que ela se divide em outras (ou a ela se somam outras? sutil diferença...): Ouro Preto dos estudantes, Ouro Preto das igrejas, Ouro Preto de Cecília e de Marília (esta, poética, também é diversa da Ouro Preto dos inconfidentes, mais uma sutil diferença), Ouro Preto mineira do tutu, do angu e do pão de queijo, Ouro Preto dos turistas e, claro, dos anfitriões.
Pois, como em praticamente todos os lugares que me surpreenderam positivamente, o que mais me marcou em Ouro Preto (e no restante das Minas Gerais que conheci depois) foi a receptividade de todos com quem eu conversava.
Claro, a cidade é realmente linda, ainda mais quando emoldurada por um arco-íris como o que tive a sorte de presenciar. As igrejas valem a visita. O Museu da Inconfidência é um dos melhores do Brasil. As ladeiras valem todo o fôlego que exigem. O artesanato de pedra-sabão vale o quanto pesa na bagagem, literalmente. Mas, acima de tudo, o que dá o tempero da viagem são as pessoas. Conversar com elas, deliciar-se com o sotaque, sentir que estão de braços realmente abertos. É um cuidado que os mineiros têm e que, quando se trata de culinária, não poderia resultar em outra coisa que não a típica cozinha mineira. É fato que outras plagas também têm receitas e restaurantes maravilhosos; mas em poucos lugares tive tão forte a impressão de que é “difícil errar” quanto em Minas: em qualquer pequeno restaurante que se entre, tem-se a certeza de que a refeição será saborosa, farta e a um preço bastante razoável.
Terminado o almoço, uma porção de doce de leite caseiro. Mais tarde, antes mesmo de sentir fome, a vontade de um pão de queijo: basta então se guiar pelo aroma que vem da primeira padaria e abastecer-se de uma fornada. Gula? Culpa? Fácil esquecê-las, nem que seja olhando para a próxima ladeira e considerando que será preciso energia para seguir em frente. Afinal, está-se em Minas e o doce esforço, como tudo nesta terra, vale a pena.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

O Explorador de Cidades


Explorar uma nova cidade é como preencher uma página em branco. Dá medo. Às vezes não sabemos por onde começar. E a cidade tem o agravante de não permitir borracha nem rasuras: raras vezes se consegue corrigir falsas primeiras impressões.
Ter um mapa ou guia debaixo do braço ajuda. Um livro lido na semana ou no dia anterior, mais ainda. Mas nada substitui o esquadrinhar das ruas que fazemos com nossos próprios passos. E é aí, no instante em que colocamos o pé na calçada, que surge a primeira hesitação: para lá ou para cá? Esta ou aquela rua? Apela-se para a sugestão de algum conhecido ou do recepcionista do hotel, apela-se para a intuição ou para algum pressentimento, mas é preciso apelar. Não é fácil ser um flâneur, como dizem os franceses.
Mas é preciso, e tão impreciso quanto viver não é preciso.
Sigo meus palpites. Às vezes, sim, apelo. Procuro ter na cabeça uma ideia geral da cidade ou do bairro por onde ando mas, isso posto, não me preocupo com me perder: ignorar momentaneamente o nome da rua por onde passo não vai me causar problema algum. E pode trazer surpresas.
Creio que é por isso que gosto tanto de explorar cidades pequenas. Delas, não sabemos exatamente o que esperar. Hoje em dia, todo mundo já foi a Paris e tem profusão de dicas imperdíveis sobre a cidade, mas quem conhece a Vila do Corvo? Nas cidades pequenas, todos os caminhos são válidos, todas as ruelas parecem nos esperar de braços abertos. Nas grandes metrópoles, a sensação de estar perdendo algo anda sempre à espreita, e alguém nos dirá, na volta: o quê, vocês foram a Paris e não subiram na Torre Eiffel? Ou pior ainda: mas eu avisei que aquele restaurante numa ruela desconhecida do Quartier Latin era imperdível, se vocês não foram até lá, voltaram sem saber nada de gastronomia francesa!
Dispenso os conselhos agourentos. Vou a YangShuo, na província chinesa de GuangXi, ninguém vai me dizer o que devo fazer por lá e poderei me perder à vontade. Principalmente com as placas todas escritas em chinês.
Claro, as cidades grandes também valem a visita, não há como dispensá-las. Nestes casos, a estratégia é diferente, não basta flanar. Sou um sujeito curioso e ansioso, o que significa que já terei de antemão uma lista dos pontos que não quero deixar de conhecer: um Corcovado aqui, uma Torre Eiffel ali, um Taj Mahal acolá. O primeiro dia será dedicado a explorar avidamente as tais atrações imperdíveis (que não coincidem necessariamente com as atrações imperdíveis dos guias de viagens). Mas o segundo dia, e talvez outros mais, deverá ter um tempo generoso dedicado a caminhar por aí, sentir o clima e o som da cidade, descobrir lojinhas e livrarias, ousar petiscos. Que graça teria uma viagem se já soubéssemos de antemão tudo o que nos espera?

sábado, 17 de julho de 2010

Chão de Estrelas

Existe, no estado do Rio de Janeiro, divisa com Minas Gerais, um vilarejo que vive de música. Não sei se é o único no Brasil, mas com certeza é um caso digno de nota. De belas notas musicais.
O lugar se chama Conservatória, não chega a ser um município, é pouco mais que um povoado em torno de duas ruas, a “rua que sobe” e a “rua que desce”. Mas é muito mais que isso, porque vive de música.
Poderia dizer que é um lugar parado no tempo, e seria verdade, mas apenas isso não seria motivo de tanto espanto porque, procurando bem, há cidades tão paradas no tempo quanto Conservatória, com arquitetura colonial, jeito de interior, espírito de província. O que espanta, sim, é o modo como tudo gira em torno da música na pequenina Conservatória.
E, já que estamos falando de um lugar parado no tempo, é claro que a música em questão não deve ser nenhum pop moderno, nenhuma corrente pós, ultra, heavy ou trash metal, nem mesmo qualquer das formas de rock ’n’ roll nacional ou importado. Se existe um lugar que nunca ouviu falar de Lady Gaga e outras contemporaneidades, este lugar só pode ser Conservatória. Retrocedamos no tempo. Passemos pelo Tropicalismo, pela Bossa Nova, cheguemos às velhas modinhas que nossos avôs cantavam ouvindo o rádio, nas praças ou nas esquinas, nas noites de luar, ao sereno.
Cheguemos à esquecida tradição das serenatas, que só vemos em filmes. Só em filmes? Em filmes e em Conservatória, reduto último de gente romântica.
Nomes como Pixinguinha, Vicente Celestino, Francisco Alves e Sílvio Caldas são os que continuam vivos nas ruas de Conservatória.
As ruas de Conservatória... É bem provável que, na rua onde moras, ó leitor, as casas e os prédios sejam identificados por números. Nas ruas de Conservatória (a rua que sobe, a que desce e mais alguns fiapos de ruas que ligam uma à outra ou se estendem para fora), as casas não têm números, mas nomes de canções. “Chão de Estrelas”, “Luar do Sertão”, “Carinhoso”, “Maringá”. Imaginem os diálogos possíveis. “Moro no Luar do Sertão”. “Darei um pulo até o Chão de Estrelas”. Uma delícia, não?
Cheguei a Conservatória de ônibus, mas talvez tivesse sido melhor ainda chegar de trem, um trem como o que algum dia foi puxado pela locomotiva conservada orgulhosamente ao lado da estação. Aproveitem a dica, ó fluminenses, e levem o trem novamente até Conservatória. Ou, pensando bem, não sei, não; deixem Conservatória do jeito que está, não mexam naquela caixinha de música.
Quando a noite chegar, façam como todos no vilarejo e se reúnam em torno de uma roda de violões. Façam como fiz. Relevem a possibilidade de não conhecer quase nenhuma das músicas que serão cantadas, elas se tornarão mais familiares à medida que a noite avançar. Sorriam ante a descoberta de que são, provavelmente, os mais jovens de toda a cidade, crianças entre um bando de adoráveis velhinhos. Encantem-se com a descoberta de que estes velhinhos talvez não sejam o conjunto mais harmônico que já ouviram mas são e serão o conjunto mais apaixonado que viram durante muito tempo. As canções são íntimas deles e eles são eternos namorados. E, quando a serenata terminar, voltem para a cama flanando, quase sem perceber que estão assobiando. Ou cantarolando. Afinal, não importa o tom da voz, importa é o tom do coração.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

O mar de Copacabana

Da sacada do meu apartamento em Copacabana, via-se o mar. O apartamento não era luxuoso nem ficava particularmente perto da praia, mas o prédio era alto e o andar era um dos últimos. Assim, da sacada, via-se não exatamente a praia, mas o mar. Com o seu azul delimitado pelo azul do céu, com os navios de carga, um ou outro veleiro e um punhado de ilhas mais adiante.
Era assim que eu preferia o mar. À distância, podia observá-lo e sonhar com ele à vontade, protegido de olhares indiscretos, de vendedores insistentes, de sal e areia grudados no corpo. Amava o mar, não a praia, se é que me entendem. Nos finais de tarde, eu me colocava, debruçado sobre a cidade, cuia de mate entre as mãos, e namorávamos, eu e o mar.
Já se vão alguns anos. Saí de Copacabana e passo por lá bem menos vezes do que alguém poderia supor. Hoje meu apartamento não tem sacada nem vista para o mar. Apesar disso, eu me acostumei e gosto dele, com suas paredes laranjas, sua rua sossegada, sua vista insuspeitada para o outro lado da cidade. Vivemos, eu e meu apartamento, numa união estável.
Outro dia, recebi uma visita que não conhecia o Rio de Janeiro. Transformado em cicerone, saí a mostrar o que a cidade tem a oferecer. E que, claro está, inclui Copacabana como passagem quase obrigatória. Pois fomos até lá. O bairro esperava por nós como espera, dia após dia, por tantos e diversos visitantes. Copacabana parece não mudar. Estendia em nossa direção o calçadão de pedras portuguesas que é seu vestido de ondas. Oferecia o que quiséssemos petiscar, de biscoito Globo a refeições completas. Abria seu tabuleiro nas esquinas, em artesanatos e feiras de frutas. Impunha-se com seus prédios inumeráveis, suas calçadas abarrotadas. Deixava entrever suas rugas num pedinte do asfalto, num bêbado de banco de praça, numa mulher de vida dita fácil. E a todos oferecia o mar.
Antes do mar, o mar de gente. Que é bom de se ver munido de lupa, atentando para cada gota, cada partícula deste universo que é Copacabana. Atletas de fim de semana. Turistas de camisa florida, sandália e meias coloridas. Senhoras idosas e respectivas enfermeiras. Mães de primeira viagem e filhinhos que são uma graça. Ciclistas. Ciclistas que voam rente a nós. Torcedores de todos os times de futebol, inclusive os mais improváveis. Pescadores. Políticos. Profetas.
Para todos, o mar. Sentemos. Sentamo-nos próximo a ele, sentimos. Reencontrei o sol e o sal, o cheiro do mar que não chegava até mim. De pés no chão e olhos abertos, viajei em silêncio. Senti-me também visita, também parte daquele mar. Em ondas que me chegavam naquela tarde como em tantas tardes. Que me faltava, por que não me aproximei antes deste mar? Quero mais uma vez te namorar, e agora é para valer.

Fotografia: praia de Copacabana vista do alto do Pão de Açúcar.

sábado, 29 de maio de 2010

Suvenires: vinho do Porto

Continuando a falar de suvenires de viagem... Não é que eu seja um inveterado apreciador de bebidas, antes até pelo contrário. Acontece que a marca registrada da cidade do Porto é, sem dúvida, o vinho do Porto. E, estando lá, é quase uma heresia não visitar um armazém ou uma loja de vinhos. Como ir a Roma e não ver o papa.
Saibam, então, que eu visitei, ainda que sem muita expectativa (sou um péssimo conhecedor de vinho, quanto mais de vinho do Porto). Meu faro era o de um viajante curioso. Mas todas as minhas expectativas foram superadas ao ver esta garrafa: Porto... Alegre. Porto Alegre! Ora, não me digam que atravessei o oceano para encontrar esta inusitada referência à minha querida cidade numa garrafa de vinho! Não tive dúvida: peguei a garrafa. Ainda perguntei ao vendedor o que ele me dizia daquela marca. Nada excepcional, mas mais do que razoável pelo preço dela, que aliás era bem acessível. Pois creio que a teria comprado mesmo que ele dissesse que o vinho era uma porcaria. Há coisas que são degustadas apenas com os sentidos, mas outras são degustadas também com o coração, não concordam?

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Mind the gap - ou - Brincando de Interpol

Sempre gostei muito de jogos de tabuleiro. Quando criança, cheguei a passar horas debruçado sobre a mesa, ou mesmo no chão da sala, brincando. Havia os clássicos, como ludo e xadrez. E havia, claro, outro tipo de clássicos: Banco Imobiliário, Jogo da Vida, Detetive, Interpol... Lembram de Interpol? Aquele desafio em que um dos jogadores era o procurado Mister X e os demais tentavam capturá-lo, correndo atrás dele de táxi, ônibus, metrô. O tabuleiro era o mapa de uma cidade. A cidade era Londres.
Daí que os anos passaram – mind the gap – e em 2005, quando a caixa de Interpol já estava guardada há algum tempo, surgiu a oportunidade de uma viagem à Inglaterra. Minha segunda ida à Europa. Descobrir Londres, assim, foi como me aventurar num jogo de Interpol, mas um jogo saboroso em que eu não tinha pressa para fugir de eventuais adversários; a única justificativa para pressa era o tempo escasso de que eu dispunha. Embarquei. E naquele jogo, em que eu andava pelo tabuleiro da Londres real, pipocavam imagens emblemáticas, cenas de filmes e de um inconsciente formado ao longo dos anos. Tudo merecia ser descoberto ou, mais precisamente, redescoberto, pois, ainda que se tratasse de novidades, era um universo familiar: os táxis pretos, os ônibus de dois andares, as cabines telefônicas, os guardas da rainha que sequer piscavam o olho. Sem falar nos cartões-postais, como a ponte sobre o Tâmisa e o Big Ben.
Além disso, não faltaram as histórias menos convencionais. Encontrei uma Londres com um gosto peculiar por mistérios e relatos macabros (uma cidade adequada, portanto, à ambientação de Interpol): Jack, o estripador; Henrique VIII e Ana Bolena; o Museu do Terror; o Dead Man’s Corner (algo como “Beco do Homem Morto”).
E histórias mais amenas, não poucas ambientadas em endereços célebres. Quem nunca sonhou em pisar na faixa de pedestres de Abbey Road, atravessando a rua exatamente como os Beatles fizeram? Pois Abbey Road está lá e, por mais prosaico que seja o gesto, tê-la atravessado é daquelas coisas que merecem serem contadas aos netos. Sim, e que tal ir até o número 221B da Baker Street? Reconhecem o endereço? É a morada de Sherlock Holmes. Lá, fui recebido por seu amigo, Dr. Watson em pessoa, que me levou para conhecer a habitação. Na verdade, é um curiosíssimo museu; mas, no meio de tantas histórias reais que parecem inventadas e outras tantas lendas que parecem reais, quem saberia dizer se eu pisava o tabuleiro de um jogo ou o calçamento de uma cidade?

Fotos: alguns encontros londrinos - um guarda na rua... outro "guarda" na Torre... e Sean Connery, ou melhor, a sua reprodução em cera no museu Madame Tussauds.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Suvenires: hulusi, a flauta chinesa

Há algum tempo sinto vontade de falar sobre os suvenires de viagem que tenho guardado. Sendo um coisista compulsivo (o termo, até onde sei, é do Neruda, patrono dos coisistas), material não falta. O difícil talvez seja escolher por onde começar; sinto que o assunto rende não uma crônica, mas uma coleção completa delas.
Começo divagando, explicando que não gosto muito da palavra suvenir. No dia-a-dia, costumo falar lembrança, ou mesmo recordação, mas tanto uma quanto outra têm o inconveniente de não deixar claro se nos referimos àqueles objetos que trazemos de determinado lugar ou situação ou da própria sensação que eles nos evocam. Fiquemos, pois, com a palavra suvenir, que é a pequena lembrança material, símbolo daquela outra lembrança maior, imponderável.
Um desafio é trazer suvenires que fujam do óbvio. Verdade que, muitas vezes, os objetos mais prosaicos já me dão um prazer imenso. Mas, ah, aqueles que são originais, seja pela criatividade ou pela história que guardam, são incomparáveis!
Então vamos lá: eis a hulusi, uma espécie de flauta tradicional chinesa praticamente desconhecida no Brasil, mas não muito difícil de encontrar por lá. Tem um som doce e levemente anasalado e não é um instrumento complicado - tanto que até eu, com limitados dotes musicais, consigo me arriscar razoavelmente a tirar alguns sons dela.
Encontrei algumas hulusi em diferentes cidades da China, desde as mais simples, de plástico, para crianças, às mais sofisticadas. E gostei mesmo desta, feita de bambu e porongo entalhado (sim, porongo, quem diria!) com um bocal de osso. Adquiri-la foi toda uma divertida experiência: pus à prova minhas habilidades de pechinchador no mercado de Panjiayuan, em Pequim. Mesmo normalmente não gostando de pechinchar, na China é quase impossível não fazer isso. Pois fiz, e saí orgulhoso com minha compra a um preço razoável depois de muito regatear.
Outro ponto curioso é que qualquer estação de metrô de lá, talvez por causa dos Jogos Olímpicos, tinha uma forte segurança, com detectores de metais e guardas austeros. Que, ao me ver com aquele estojo a tiracolo, invariavelmente ficavam ressabiados e perguntavam o que eu estava levando. Quando respondia que era um instrumento musical, as reações eram divertidas, com a seriedade muitas vezes deixada de lado em troca da deferência a quem, como chegaram a dizer, atravessara meio mundo para levar consigo um pouco daquela cultura.