segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Guatemala, entre colonizados e colonizadores

Antigua Guatemala é uma bela cidade colonial. Com uns cinco séculos de história, a antiga capital do país está convenientemente situada a não muitos quilômetros da Cidade da Guatemala - de tal forma que uma fração grande dos visitantes que desembarcam no aeroporto rumam direto para Antigua, sem sequer passar pela capital.
Caminhar pelas ruas de Antigua é um prazer, assim como provar a boa comida guatemalteca num de seus restaurantes. E aqui vale tanto jantar numa boa mesa, à noite, quanto degustar o café da manhã típico do país - variações em torno de ovos, feijões, banana, queijo e tortillas. Ou quem sabe entregar-se ao autêntico chocolate centro-americano.
É também em Antigua que se encontra o que é certamente um dos principais cartões-postais da Guatemala: a vista do Arco de Santa Catarina com um dos vulcões ao fundo. Uma maravilha chegar a ela caminhando pelas ruas de pedra da cidade.
Tudo bonito demais, na verdade. A questão é que a cidade é carregada de símbolos coloniais adquiridos ao longo de séculos de invasão europeia - isso num país onde 80 % da população, ainda hoje, é de ameríndios e mestiços.
Basta andar um pouco pelo restante do país para perceber que Antigua Guatemala é arrumadinha demais, enfeitada demais, limpa demais, autêntica de menos. Uma joia para turistas que chegam falando inglês e pagando em dólar.
E, apesar disso, de Antigua é possível chegar a Atitlán após um trajeto de três horas em ônibus ou van. Trata-se de um lago realmente bonito, cercado de vulcões impressionantes e ao redor do qual se situam uma série de cidades e vilarejos; entre eles, Panajachel.
As margens do lago, além da beleza natural, chamam a atenção pelo aspecto demográfico. Estamos em uma região com fortes traços indígenas: a população é descendente direta dos maias que viviam na Guatemala quando chegaram os espanhóis. Muitos ainda falam alguma das línguas maias. Vestem-se, comem e criam seus filhos da maneira tradicional.
Acontece que, entre essa pequena cidade maia e o esplendor colonial de Antigua Guatemala há um abismo mais intransponível do que as montanhas guatemaltecas. Antigua é talvez a cidade mais limpa do país, bem como a mais estruturada para receber turistas. Já Panajachel tem um aspecto de caos e, mais que isso, de gente que (embora trabalhadora) é evidentemente pobre. Não se vai muito longe sem cruzar com alguém vendendo frutas e artesanatos a preços ridiculamente baixos - são pessoas sofridas, algumas delas bem idosas, outras são crianças pequenas. De partir o coração, e também para lembrar que o mundo (também) é isso, e não a nossa pequena bolha.
Então me ponho a pensar no quanto fomos cuidadosamente treinados para ignorar as injustiças. No caso da América Central, é chamar de "conquista" a invasão espanhola e as guerras que se seguiram. É sistematicamente agir como se a língua, a religião e a história europeias fossem superiores a suas contrapartes americanas (e ensinar umas e não outras nas escolas). Renomear cidades dando a elas nomes de santos, construir igrejas em cima de antigos templos. Acontece, porém, que, mesmo na porção mais espanhola da Guatemala (como em Antigua), alguns dos aspectos mais atraentes são aqueles ligados às raízes maias. Nossa percepção da cultura deles sem dúvida evoluiu desde a chegada dos primeiros europeus, mas ainda temos um longo caminho pela frente.

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