terça-feira, 7 de março de 2017

Entendendo o Kosovo

Não espanta que o país mais novo da Europa fique nos Bálcãs, uma região famosa pelos conflitos políticos, militares, econômicos, étnicos, religiosos... Tudo contribui para que que seja difícil entender a história e a geografia deste novo país (aqueles que dizem que "o Brasil não é para principiantes" não devem conhecer os Bálcãs e certamente não andaram visitando o Kosovo).
17 de fevereiro de 2017,
9º aniversário da declaração de independência do Kosovo
Bem, nós visitamos. E, ansiosos por conhecer o ponto de vista deles, perguntamos a um kosovar se ele nos recomendava algum livro a respeito. Recebemos a indicação de "Kosovo: a short history", de Noel Malcolm. Porém, acabamos nos assustando ao descobrir que o livro tinha quase 500 páginas de letras pequenas - se a short history é grande assim, imaginem a versão longa! Enfim, já sabíamos, o tema é mesmo complexo. (No final, acabamos comprando outro livro sobre o Kosovo, quase do mesmo tamanho mas englobando aspectos de geografia e economia, além de "The Balkans: nationalism, war and the great powers", de Misha Glenny, jornalista que, depois de cobrir a queda do comunismo na Europa e as guerras da Iugoslávia, sintetizou a história balcânica em "apenas" 800 páginas).
Na época da Iugoslávia, dizia-se que o país tinha 7 fronteiras, 6 repúblicas, 5 nações, 4 línguas, 3 religiões, 2 alfabetos e 1 dinar (a moeda). Uma mistura, convenhamos, de fazer corar qualquer pretensa diversidade de outros países. Pois bem, o problema do Kosovo é que, embora fizesse parte da Iugoslávia, ele não estava representado nesta anedota (e nem em outros aspectos do país). Iugoslávia significa, literalmente, o "país dos eslavos do sul" (bósnios, croatas, eslovenos, macedônios, montenegrinos e sérvios, todos povos de origem eslava). Já o Kosovo é uma região de população em grande parte albanesa (não-eslava), que fala uma língua completamente diferente das demais. Note-se que é, mais uma vez, uma situação bem diferente do Brasil: para nós, a noção de nacionalidade está ligada basicamente à porção de terra em que se nasce, mas, nesses lugares de fronteiras frágeis e cambiantes, o sentimento de nacionalidade está ligado à família e aos laços étnicos (cultura, língua, religião); o local de nascimento é quase irrelevante. Assim, na maioria dos casos, um kosovar é um albanês em quase todos os aspectos e, andando pelo país, vê-se tantas bandeiras albanesas quanto kosovares.
Durante a existência da Iugoslávia, pode-se dizer que havia uma convivência relativamente pacífica entre as diferentes etnias; com o esfacelamento do país, cada uma das antigas repúblicas (eslavas) foi se separando, em geral à custa de sangue. O território do Kosovo era reclamado pela Sérvia por razões históricas (aquelas foram terras eslavas durante períodos que os sérvios consideram relevantes, e importantes igrejas sérvias se encontram lá), embora a maioria da população fosse kosovar-albanesa.
E aí o xis da questão: culturalmente, os kosovares têm muito mais em comum com os albaneses que com o restante dos ex-iugoslavos. Assim, o Kosovo lutou e conseguiu sua independência - não sem derramar sangue. Porém, é uma soberania relativa: a Sérvia não aceita a independência e continua reclamando seu direito sobre o território. É apoiada pela Rússia, que por sua vez é seguida pelos demais BRICs (incluindo o Brasil) e por alguns outros aliados. Do outro lado, o grande apoiador do Kosovo é os Estados Unidos, que vêm na história toda uma oportunidade de uma base de influência naquela região de confluência entre a Europa e a Ásia. Como os Estados Unidos, naturalmente, são ladeados por países do bloco ocidental (particularmente os da OTAN), pronto: tem-se uma reedição em miniatura da Guerra Fria.
Na prática, ao caminhar pelo Kosovo, não se vê marcas de guerra tão intensas quanto as que ainda estão presentes na Bósnia; por outro lado, vê-se muitos prédios abandonados, em ruínas; vê-se a desconfiança mútua entre sérvios e albaneses (igrejas e bolsões sérvios são cercados e protegidos pela polícia); e vê-se um país que está claramente começando a engatinhar na experiência da independência. Como criança recém-nascida, a precariedade da sua condição e a necessidade de ajuda externa são gritantes. Há muita sujeira nas ruas. E, no entanto, há um orgulho contido, uma vontade de crescer e uma cultura definitivamente rica.

5 comentários:

Renata Teixeira disse...

O Kosovo é um país lindo. Chegar ao Kosovo cortando montanhas nevadas, estradas apertadas, a alegria de ver um passaporte kosovar no banco do lado e a expectativa de chegar logo, de realizar o antigo desejo de pisar logo no chão daquele país (quando o desejo nasceu, o Kosovo ainda nem era ainda um país). Cada pontinha bonita me enchia de orgulho e cada cão abandonado me enchia de tristeza. Pensar o Kosovo como um bebê foi analogia que me deixou feliz. Lembra-me de que os bebês crescem e ficam independentes. Vimos muitos jovens nas saídas das universidades, carinhas bonitas e sorridentes, com um grande trabalho de consolidação da paz e do desenvolvimento pela frente. Não posso deixar de mencionar que a cor das águas dos rios dos Bálcãs são as mais incríveis e maravilhosas que já vi na vida!

Flávia Tavernari disse...

oi Eduardo! Muito boas suas postagens sobre o Kosovo. Estou praparando uma viagem para outubro e fiquei na dúvida sobre uma questão e gostaria de saber se vc pode me ajudar com uma informação. Estou planejando entrar no Kosovo via Macedônia e depois, entrar na Sérvia via Bulgária. Até onde vc pesquisou ou entendeu por lá, há algum problema entrar na Sérvia depois de já ter visitado o Kosovo? Vc teria informações sobre isso? Ficarei muito grata se puder me ajudar Muito obrigada!

Eduardo Trindade disse...

Renata querida!
Cada país que descobrimos juntos é sempre fascinante e o Kosovo, com sua cultura incrível, sua história complexa e suas belas paisagens, não foi diferente. Aprendemos muito e passamos dias inesquecíveis. E, claro, seguimos acompanhando à distância os passos desse bebê que nasceu de um casamento conturbado, mas que parece querer ir longe!

Eduardo Trindade disse...

Oi, Flávia, obrigado!
Quanto à tua pergunta, acredito que não vá ter problema. Nossa experiência: entramos no Kosovo vindos de ônibus de Montenegro e saímos, também e ônibus, para a Macedônia. Os passaportes foram devidamente carimbados. Depois disso, fizemos uma conexão de avião na Sérvia mas, como era somente uma conexão, acabamos não passando por nenhum controle de fronteira daquele país.
Fora isso, a informação que tínhamos era que não poderíamos entrar na Sérvia vindos diretamente do Kosovo (o que não parece ser o teu caso). Também ouvi histórias de gente que teve o carimbo kosovar “cancelado” ao entrar na Sérvia (ou seja, o guarda da fronteira sérvia carimbava por cima da marca do controle do Kosovo), mas só isso. Não parece que barram ninguém nessas circunstâncias.
Enfim, a região anda relativamente bem tranquila, mas não custa monitorar as notícias para sentir como andam os ânimos dos governantes de um lado e outro. Torço para que dê tudo certo. O Kosovo é muito interessante e vale a visita! Se quiser mais informações, pode escrever. Abraço!

Flávia Tavernari disse...

oi Eduardo!
Muito ovrigada pelo seu rápido retorno e informações! Nós vamos para a Bulgária, Macedônia, Kosovo e numa pontinha da Sérvia. Estamos bem ansiosos! Mas, temos a certeza que vai ser muito bacana visitar estes países!
Abs, Flávia