segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Ilha de Paquetá

Da Moreninha ao Patinho Feio, do Patinho Feio ao cisne na água

A ilha de Paquetá é, de certa forma, o patinho feio do Rio de Janeiro. No interior da baía da Guanabara, Paquetá é lembrada, principalmente, por ser o cenário em que Joaquim Manuel de Macedo ambientou A Moreninha. Acontece que já se passou um bocado de tempo desde a publicação do romance (167 anos, para ser exato) e, para boa parte de nós, A Moreninha não evoca mais que uma vaga curiosidade dos tempos de escola. Na época de Macedo, a ilha deveria ser um encantador refúgio de veraneio, mas hoje, mesmo que se diga que suas praias tenham voltado a ter condições de banho, Paquetá está longe de disputar com outros destinos a preferência dos cariocas.
É justamente o contrário. Paquetá simboliza com precisão um fenômeno particularmente acentuado no Rio de Janeiro: o de que a população local conhece quase nada da sua própria cidade. Pois perguntem a qualquer carioca se ele já foi a Paquetá e ele dirá que não ou, quando muito, dirá que foi uma vez, quando criança, décadas atrás.
Cá entre nós, os cariocas que me perdoem, mas eu prefiro assim. Gosto desta ilha de Paquetá como um patinho feito a quem ninguém dá muita atenção. Afinal, a atração de lá definitivamente não são as praias (embora algumas delas ofereçam paisagens agradáveis). O gostoso de Paquetá é justamente a sensação de que algo parou no tempo e de que não estamos no mesmo ritmo do restante da metrópole. O exemplo mais lembrado é o fato de que não se anda de carro na ilha (pode-se percorrê-la a pé, ou de bicicleta, ou ainda de charrete). Mais ainda, o relativo isolamento insular também se reflete na naturalidade com que os pescadores vendem peixe na praça central, com que as árvores crescem literalmente no meio das ruas de terra (e há até um famoso baobá convertido em ponto turístico) e com que se pode cumprimentar qualquer pessoa que passe ou até mesmo puxar assunto com desconhecidos sem que isto pareça estranho.
Não esperem luxo nos restaurantes. Relevem a aparência antiga, às vezes mal cuidada, de algumas casas. Não é aí que reside o encanto deste patinho feio. Por outro lado, observem as árvores floridas, explorem o coreto, sintam a vista que se descortina do alto da ilha. Deixem o tempo passar como quem não tem pressa.
O meio natural para se chegar a Paquetá é a barca que faz o trajeto entre a ilha e o Centro do Rio de Janeiro em cerca de uma hora. Perfeito para quem quer passar um dia lá, voltando ao final da tarde. Mesmo isso, porém, tem sido um tanto moderno demais para mim: nas últimas vezes, preferi ir à ilha de veleiro e assim, tendo o vento como companhia e sem hora certa para chegar, já se pode entrar no clima de Paquetá logo ao soltar as amarras, ainda do lado de cá. Do lado de lá, os coloridos pedalinhos em forma de cisnes se espalham pela praia que já foi da Moreninha. Nem é preciso andar neles. Basta observá-los, fotografá-los, emoldurar com eles o horizonte e o sol que, com sua imperturbável calma, vai se por naquela direção quando chegar a hora. Apreciemos. Afinal, quem resiste a um pôr-do-sol além do mar?

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Na minha língua ou na tua?

Comprei um guia de conversação da língua croata. Sabendo que meu tempo e minha dedicação seriam limitados para aprender de verdade esta língua (na vida é preciso fazer escolhas, afinal, e o croata não está entre minhas prioridades, apesar do interesse pela Croácia), optei por este guia rápido, um livrinho do Lonely Planet.
Como era de se esperar, o livrinho tem muito pouco de gramática e de “como funciona” a língua, mas em compensação tem uma lista incrivelmente completa de frases feitas. Começa com o básico — oi, bom dia, por favor, obrigado, a sequência dos numerais — e avança, dividido por capítulos, despejando frases úteis em todo tipo de situação. No restaurante: o nome de comidas e utensílios, como escolher o prato, como pedir a conta. No hotel: como perguntar por um quarto. Ao ar livre: palavras relacionadas à praia e até termos náuticos. Praticando esportes: os mais diversos (se eu precisar me referir a uma raquete de tênis, por exemplo, basta dizer reket). Em relações sociais: como se apresentar, agradecer, convidar para um jantar ou para sair à noite...
E aí a coisa vai esquentando. Há um capítulo sobre... sexo. Quando eu disse que o guia é completo, é porque é mesmo completo. Imaginem, por exemplo, que se é virgem, vai-se à Croácia, lá se conhece um/uma croata, surge certa intimidade, vão para a cama... Nesta hora, pode-se querer dizer “é a minha primeira vez”, e então, caprichando no sotaque, basta pronunciar: Ovo mi je prvi put. Muito prático, não? E não precisamos parar por aí: se a temperatura subir de verdade, pode-se começar a repetir O bože!, que (segundo o guia) é o equivalente croata de Oh my God!, clássico dos casais de filmes estadunidenses. Brže, mais rápido. Sporije, mais devagar. Dodirni me tu, toque-me assim. Quem aí já pensou em ter um orgasmo em croata?
Exageros à parte, considero que boa parte do encanto de uma viagem a outro país está em mergulhar na sua língua. Claro que nem sempre é possível ter fluência para grandes conversas. Mas, quanto mais eu souber da língua, mais estarei aprofundando minha experiência — ouvindo histórias, pescando notícias nos jornais, descobrindo o que se vende nos restaurantes e supermercados. Sem contar que há sutilezas da própria língua que dizem muito sobre a cultura local. Os países hispânicos fazem piada sobre galegos como nós brasileiros fazemos sobre os portugueses. Os chineses não têm uma palavra que signifique “sim”. Para os franceses, oitenta se diz “quatro vintes”, como quem tenha aprendido a contar não só com os dedos das mãos, mas dos pés também. Os ingleses não atribuem gênero aos objetos, o que, se pararmos para pensar, é uma diferença marcante com relação à nossa língua, em que tudo é ou masculino ou feminino. E nós temos a palavra saudade, herdada, dizem, da tradição marítima portuguesa, e ausente em boa parte das outras línguas.
Quanto mais fundo se mergulha nestas particularidades, mais marcante se torna a viagem. Muito do fascínio da minha passagem por Portugal se deveu a isso: a língua é familiar e permite todo tipo de conversa ao mesmo tempo em que as diferenças (de sotaque, de vocabulário e mesmo de construção gramatical) são marcantes o suficiente para colorir tudo com um toque deliciosamente exótico. O que me deixa, em bom português, cheio de saudades.
Ou nostalgija, como diria, numa tradução aproximada, meu guia de croata — que também ensina algumas possibilidades para o caso de aquela história ir realmente longe demais: ja mislim da sam trudna (acho que estou grávida) e da li hoćeš udati se za mene (casa comigo)...

domingo, 9 de janeiro de 2011

São Luís do Maranhão

Em geral, quando exploramos uma cidade, ganhamos muito deixando de lado expectativas e imagens pré-concebidas.
São Luís não foge a essa regra. Talvez a maioria das pessoas, ao pensar no Maranhão, lembre-se dos Sarneys, dos Lençóis Maranhenses e da crença levemente preconceituosa de que lá se fala o português mais correto do Brasil. Os mais bem-informados lembrarão, ainda, muito propriamente, de fascinantes artistas da terra: Gonçalves Dias, Ferreira Gullar, Zeca Baleiro e outros tantos.
Tudo isso pode ter seu mérito, mas eu prefiro desembarcar sem a influência destas lembranças de propaganda de jornal. Assim posso construir as minhas próprias imagens.
Adorei descobrir em São Luís uma mescla de gostos nortistas com outros tipicamente nordestinos. Somando a isso o ar vagamente europeu característico de algumas capitais brasileiras, encontrei uma das mais raras sínteses que conheço do nosso Brasil tão diverso. São Luís do Maranhão: cidade que é ilha e também é porto, que disputa a construção de uma refinaria, gera poetas que abrilhantariam qualquer literatura, orgulha-se igualmente de seu casario colonial e de sua culinária típica, sofre com a infra-estrutura pobre, diverte-se com sua musicalidade, seja ela da terra (o Boi, o Tambor) ou importada (o reggae), e roga as bênçãos de Nossa Senhora, de São José e de São Benedito. Digam-me, há algo mais brasileiro que isto?
E vocês sabiam que os filhos da cidade são chamados de ludovicenses? Não concordam comigo que é um dos gentílicos mais charmosos do Brasil?
Bem, se o gentílico é charmoso, a gente de São Luís é simplesmente cativante. Eles têm, sem dúvida, não o português mais correto (que isso de certo e errado não me cabe julgar), mas sim um sotaque delicioso. É um sotaque que deixa no ouvinte a idéia de algo familiar com pitadas de entonações encantadoras. E o que mais? Essa gente que não abre mão de seu guaraná Jesus, do arroz-de-cuxá e de chamar de juçara aquela frutinha que os nortistas e o márquetim do resto do país chamam de açaí.
Gente que não se abate com o asfaltamento precário, com a arquitetura menos preservada do que se esperaria e com os freqüentes alagamentos (desculpem-me, mas é preciso que certos problemas sejam ditos para que não passem por naturais). Soa familiar? Pois, para mim, isso é o Brasil.
Estar em casa e escutar, vinda da rua, a voz dos pregoeiros com suas imortais cantilenas? E ir ao mercado, circular entre as bancas e comprar ingredientes frescos para o preparo do almoço, incluindo frutas para o suco e para a sobremesa? O mercado pode não ser tão grande quanto o de São Paulo, nem tão variado quanto o de Belém ou tão organizado quanto o de Porto Alegre. Mas tem um pouco disso tudo, e o cheiro de peixes, frutas e ervas não permite enganos: estamos no Brasil.
Só depois de sentir tudo isso é que me lembro daquelas figurinhas carimbadas maranhenses. José Sarney: e não é que estamos falando de um imortal, quase tão imortal quanto o eco dos pregoeiros? Gonçalves Dias, Gullar, Zeca Baleiro? Sem dúvida são fascinantes e, vejam só: não é que a arte deles tem, muito propriamente, a cara do Brasil? Ah, sim, e os Lençóis Maranhenses: bem, digo que choveu, os dias voaram, e no final das contas não estive lá. Ficaram para a próxima viagem. Ei, espera aí: deixar algo para depois não é, mais uma vez, uma atitude brasileira?
Brasileiro que sou, difícil seria me sentir tão casa em qualquer outro lugar...

Republicação de crônica inicialmente divulgada no blogue Interferência Criativa, que não existe mais, e na revista Próxima Viagem de setembro de 2008.