domingo, 9 de janeiro de 2011

São Luís do Maranhão

Em geral, quando exploramos uma cidade, ganhamos muito deixando de lado expectativas e imagens pré-concebidas.
São Luís não foge a essa regra. Talvez a maioria das pessoas, ao pensar no Maranhão, lembre-se dos Sarneys, dos Lençóis Maranhenses e da crença levemente preconceituosa de que lá se fala o português mais correto do Brasil. Os mais bem-informados lembrarão, ainda, muito propriamente, de fascinantes artistas da terra: Gonçalves Dias, Ferreira Gullar, Zeca Baleiro e outros tantos.
Tudo isso pode ter seu mérito, mas eu prefiro desembarcar sem a influência destas lembranças de propaganda de jornal. Assim posso construir as minhas próprias imagens.
Adorei descobrir em São Luís uma mescla de gostos nortistas com outros tipicamente nordestinos. Somando a isso o ar vagamente europeu característico de algumas capitais brasileiras, encontrei uma das mais raras sínteses que conheço do nosso Brasil tão diverso. São Luís do Maranhão: cidade que é ilha e também é porto, que disputa a construção de uma refinaria, gera poetas que abrilhantariam qualquer literatura, orgulha-se igualmente de seu casario colonial e de sua culinária típica, sofre com a infra-estrutura pobre, diverte-se com sua musicalidade, seja ela da terra (o Boi, o Tambor) ou importada (o reggae), e roga as bênçãos de Nossa Senhora, de São José e de São Benedito. Digam-me, há algo mais brasileiro que isto?
E vocês sabiam que os filhos da cidade são chamados de ludovicenses? Não concordam comigo que é um dos gentílicos mais charmosos do Brasil?
Bem, se o gentílico é charmoso, a gente de São Luís é simplesmente cativante. Eles têm, sem dúvida, não o português mais correto (que isso de certo e errado não me cabe julgar), mas sim um sotaque delicioso. É um sotaque que deixa no ouvinte a idéia de algo familiar com pitadas de entonações encantadoras. E o que mais? Essa gente que não abre mão de seu guaraná Jesus, do arroz-de-cuxá e de chamar de juçara aquela frutinha que os nortistas e o márquetim do resto do país chamam de açaí.
Gente que não se abate com o asfaltamento precário, com a arquitetura menos preservada do que se esperaria e com os freqüentes alagamentos (desculpem-me, mas é preciso que certos problemas sejam ditos para que não passem por naturais). Soa familiar? Pois, para mim, isso é o Brasil.
Estar em casa e escutar, vinda da rua, a voz dos pregoeiros com suas imortais cantilenas? E ir ao mercado, circular entre as bancas e comprar ingredientes frescos para o preparo do almoço, incluindo frutas para o suco e para a sobremesa? O mercado pode não ser tão grande quanto o de São Paulo, nem tão variado quanto o de Belém ou tão organizado quanto o de Porto Alegre. Mas tem um pouco disso tudo, e o cheiro de peixes, frutas e ervas não permite enganos: estamos no Brasil.
Só depois de sentir tudo isso é que me lembro daquelas figurinhas carimbadas maranhenses. José Sarney: e não é que estamos falando de um imortal, quase tão imortal quanto o eco dos pregoeiros? Gonçalves Dias, Gullar, Zeca Baleiro? Sem dúvida são fascinantes e, vejam só: não é que a arte deles tem, muito propriamente, a cara do Brasil? Ah, sim, e os Lençóis Maranhenses: bem, digo que choveu, os dias voaram, e no final das contas não estive lá. Ficaram para a próxima viagem. Ei, espera aí: deixar algo para depois não é, mais uma vez, uma atitude brasileira?
Brasileiro que sou, difícil seria me sentir tão casa em qualquer outro lugar...

Republicação de crônica inicialmente divulgada no blogue Interferência Criativa, que não existe mais, e na revista Próxima Viagem de setembro de 2008.

5 comentários:

Gildson Souza disse...

rapaz, não me diga que vc estava aqui pela cidade...
Espero que tenha gostado bastante da cidade. Conhecer uma cidade nova (e com uma cultura nova) é quase sempre uma experiencia muito agradável. pra falar o mínimo.
Abraços

rejane disse...

Amei!!!

Mary Carvalho disse...

Caramba, veio pra São Luís e nem avisou? rs
Agradeço por ter limpado a mente das ideias pré concebidas sobre minha cidade [que não é só minha, claro]. E agradeço mais ainda por essa incrível descrição, sincera e realista que você fez, pois mesmo falando das qualidades teve senso crítico suficiente pra visualizar os defeitos sem embaçar sua concepção geral.
Enfim, volte mais vezes!
Até.

Mary Carvalho
www.badu-laques.blogspot.com

May-blog disse...

Nossa! Você estava aqui em São Luís? Agradecemos a visita!
concordo plenamente no que diz a respeito ao charme do gentílico ludovicense. ^^
abraços blogosféricos!
volte sempre!
Mayanne Serra

Daíse disse...

Eu morei 6 meses em são Luís, sou completamente apaixonada por esse lugar mágico!!!
Bjos!

Ps: Adorei o comentário no meu blog e o seu blog também!!!!