sábado, 18 de julho de 2009

Ímãs de geladeira

Está claro que, como a maioria dos viajantes, eu costumo trazer para casa uma série de lembranças e curiosidades de minhas andanças. Já trouxe miniaturas, moedas, postais, quadros, camisetas, chapéus, livros, CDs... (Será que esqueci alguma coisa?...) Eu não gostava muito de ímãs de geladeira: minha mãe sempre gostou destes ímãs, e eu trazia alguns para ela, mas morria de pena ao ver o quanto eles caíam e se quebravam sempre que alguém esbarrava neles. Por este motivo, a minha própria geladeira ficou lisa durante muito tempo. Até que me rendi aos ímãs. Na verdade, fizemos um acordo de paz: passei e trazê-los para casa, mas eles ficariam quietinhos, na lateral da geladeira, onde o risco de esbarrar neles é menor. E temos convivido bem assim.
O resultado é que já está se formando uma coleção razoável. Meu interesse é por lembranças que representem algo do lugar visitado. Nada de anúncios de farmácia, como vocês podem ver! A maioria dos ímãs fui eu mesmo que coletei por aí. Alguns foram acrescentados por amigos que sabiam desta minha pequena mania. E o mais gostoso de uma coleção como esta é que cada pedacinho dela tem uma história própria...
Em Pequim, comprar um ímã de geladeira, ou comprar qualquer coisa, requer muita pechincha. Bem, podem dizer que o ímã é tão barato que não vale a pena pechinchar. É verdade. Mas se vocês imaginarem o prazer que um chinês extrai do jogo da pechincha, concordarão comigo que não é justo não dar esta satisfação a ele – mesmo se a intenção for baixar o preço do que ele está vendendo! Além disto, como eu compro não apenas um, mas um punhado (afinal, também é preciso pensar nos amigos), o poder de barganha é maior. E pechinchar ímãs de geladeira é um excelente treino para quando, depois, chegar a hora de pechinchar algo mais caro...
Em São Luís, o principal símbolo do carnaval é o fofão, uma figura mascarada e colorida que lembra um pouco o clóvis ou bate-bola aqui do Sudeste. O fofão está em todos os cartazes, jornais e versos da cidade durante o carnaval. E também o encontrei na forma de ímã, este verde que acabei trazendo para casa. Porém... e se eu disser que passei todo o carnaval lá e não me lembro de ter visto um único fofão pelas ruas? Bom, serei justo: aqui no Rio eu também levei anos até ver finalmente o primeiro bate-bola. Ah, essas figuras dos carnavais de antigamente! Às vezes parece que até Colombina cansou de pular carnaval...
Como dizem que “em casa de ferreiro, o espeto é de pau”, levei tempo até ter um ímã de Porto Alegre. Mas quando dei pela falta de uma recordação dos pagos na minha geladeira, só pensei em um lugar onde eu poderia remediar a falha: o Brique da Redenção, a feira dominical de artes e antiguidades da capital gaúcha. Dito e feito: fui ao Brique e trouxe de Porto Alegre, além de erva-mate, chimia, histórias e saudades, mais uma pequena recordação que tem a cor disto tudo.


Nota: alguns já devem ter reparado que o blogue está de endereço novo. Agora, para acessá-lo, basta ir a
http://cartas.edutrindade.com
Para facilitar, o antigo endereço continua funcionando.

sábado, 4 de julho de 2009

Cenas em câmera lenta

Quando viajo, quando encontro pela primeira vez um lugar ou uma pessoa, converto-me em alguém muito ansioso. Vivo ao extremo a alegria da descoberta e também o medo de algo não sair como eu planejei. O instante em que, chegando a um destino, piso numa nova cidade ou ponho os olhos numa pessoa que possa estar lá me esperando é uma espécie de síntese das emoções que tudo isto envolve. É quando confronto a minha expectativa com os fatos e é quando tudo começa a se desencadear de forma mais intensa.
Já se falou muito do poder das primeiras impressões, não é? Pois eu tenho guardadas várias primeiras impressões. A vista das ruínas de São Miguel das Missões, que é a primeira lembrança que tenho de um monumento que me impressionou como turista, levado pelos meus avôs há mais de dez anos. A sensação de visitar uma cidade perdida no tempo, em Parati. A primeira lufada de ar europeu, na chegada ao continente. A emoção de vislumbrar a Grande Muralha da China e de colocar os pés nela. Cada uma das vezes em que retornei a Porto Alegre depois de estar morando no Rio.
Ah, e as lembranças que envolvem pessoas, o que as torna mais inesquecíveis que todas as outras. Aqueles longos abraços na família depois de semanas ou meses de saudades. Descobrir que um deixou a barba crescer, que uma traz nos braços o filhinho recém-nascido, que outro não mudou nada. Momentos emocionantes como um filme, cenas que comporiam o meu Cinema Paradiso particular. E encontrar uma pessoa pela primeira vez após descer do avião? Pode exigir diferentes tipos de coragem, e pode também ser incomparavelmente recompensador. Descobrir amizades lindas que se oferecem para compartilhar a cidade e o coração. Há lugares que se tornaram especiais para mim principalmente pela simpatia que encontrei lá... E há ainda a possibilidade de descer do avião e encontrar, no saguão do aeroporto, braços abertos e um sorriso nunca antes visto, mas muito sonhado, um sorriso que a intuição nos diz ser capaz de mudar a nossa vida. O que fazer? Sorrir também, e abrir os braços para receber e retribuir aquele abraço, e para reter aquela cena, mágica como os encontros em câmera lenta da sétima arte, no nosso baú de guardados. Que venham outras cenas, que o encontro inicial se transforme em filme: sorrisos assim fazem valer a pena a viagem e a vida.

Nota:
esta crônica é uma resposta à minha querida amiga, leitora e escritora
Maggie, que presenteou meus dois blogues – este e As Valsas Invisíveis – com o selo O teu blog merece ser filmado. Junto com o selo, uma proposta: escolher situações da vida que poderiam passar em câmera lenta. Não costumo seguir à risca as regras de selos deste tipo, mas não posso deixar de agradecer à Maggie o carinho. E faço uma homenagem, à minha maneira, escrevendo sobre cenas de viagens que se repetem em minha lembrança. Para quem eu repasso o selo? Não só para um blogue ou outro, que seria difícil escolhê-los, mas para todas as pessoas que já encontrei de braços abertos cada vez que cheguei em uma cidade.