sábado, 4 de julho de 2009

Cenas em câmera lenta

Quando viajo, quando encontro pela primeira vez um lugar ou uma pessoa, converto-me em alguém muito ansioso. Vivo ao extremo a alegria da descoberta e também o medo de algo não sair como eu planejei. O instante em que, chegando a um destino, piso numa nova cidade ou ponho os olhos numa pessoa que possa estar lá me esperando é uma espécie de síntese das emoções que tudo isto envolve. É quando confronto a minha expectativa com os fatos e é quando tudo começa a se desencadear de forma mais intensa.
Já se falou muito do poder das primeiras impressões, não é? Pois eu tenho guardadas várias primeiras impressões. A vista das ruínas de São Miguel das Missões, que é a primeira lembrança que tenho de um monumento que me impressionou como turista, levado pelos meus avôs há mais de dez anos. A sensação de visitar uma cidade perdida no tempo, em Parati. A primeira lufada de ar europeu, na chegada ao continente. A emoção de vislumbrar a Grande Muralha da China e de colocar os pés nela. Cada uma das vezes em que retornei a Porto Alegre depois de estar morando no Rio.
Ah, e as lembranças que envolvem pessoas, o que as torna mais inesquecíveis que todas as outras. Aqueles longos abraços na família depois de semanas ou meses de saudades. Descobrir que um deixou a barba crescer, que uma traz nos braços o filhinho recém-nascido, que outro não mudou nada. Momentos emocionantes como um filme, cenas que comporiam o meu Cinema Paradiso particular. E encontrar uma pessoa pela primeira vez após descer do avião? Pode exigir diferentes tipos de coragem, e pode também ser incomparavelmente recompensador. Descobrir amizades lindas que se oferecem para compartilhar a cidade e o coração. Há lugares que se tornaram especiais para mim principalmente pela simpatia que encontrei lá... E há ainda a possibilidade de descer do avião e encontrar, no saguão do aeroporto, braços abertos e um sorriso nunca antes visto, mas muito sonhado, um sorriso que a intuição nos diz ser capaz de mudar a nossa vida. O que fazer? Sorrir também, e abrir os braços para receber e retribuir aquele abraço, e para reter aquela cena, mágica como os encontros em câmera lenta da sétima arte, no nosso baú de guardados. Que venham outras cenas, que o encontro inicial se transforme em filme: sorrisos assim fazem valer a pena a viagem e a vida.

Nota:
esta crônica é uma resposta à minha querida amiga, leitora e escritora
Maggie, que presenteou meus dois blogues – este e As Valsas Invisíveis – com o selo O teu blog merece ser filmado. Junto com o selo, uma proposta: escolher situações da vida que poderiam passar em câmera lenta. Não costumo seguir à risca as regras de selos deste tipo, mas não posso deixar de agradecer à Maggie o carinho. E faço uma homenagem, à minha maneira, escrevendo sobre cenas de viagens que se repetem em minha lembrança. Para quem eu repasso o selo? Não só para um blogue ou outro, que seria difícil escolhê-los, mas para todas as pessoas que já encontrei de braços abertos cada vez que cheguei em uma cidade.

3 comentários:

Maggie disse...

Como sempre, transformaste um pequeno desafio, num momento ímpar e lindo!
Ah e essa de eu ser escritora é mesmo um exagero! Talvez um dia, quem sabe, mas por agora apenas qualquer coisa bem mais simples - passo à escrita desabafos, emoções, pensamentos.

Abraço transatlântico!
(e não me esqueci do teu livro, estou ainda a pensar sobre ele, antes de passar o pensamento à escrita)

rejane disse...

Ah... que lindo isso! Emocionante, senti que ganhei um selo também... cada chegada tua é um momento ímpar e que pode ser passado em câmera lenta no nosso filme mental. Que venham muitos e muitos outros!!!

Marta disse...

Muito bom! Gostei de ler Eduardo. Muito :) íssimo.

beijo