Basta eu citar a China numa conversa, ou então fazer uma busca rápida no Orkut, para virem à tona uma série de comentários. A maioria das pessoas tem uma opinião formada sobre o assunto. Boa parte das vezes é uma opinião desagradável, até ofensiva. E praticamente todas essas pessoas nunca encostaram o pé no solo chinês. Estou longe de ser um especialista em costumes chineses. Mas acho que o tempo que passei lá, bem como tudo o que li e vi antes e depois da viagem, permitem que eu dê também a minha opinião sobre tudo o que me falam.
“Os chineses são sujos e antipáticos”
Depois do que já escrevi sobre os
chineses, eu me abstenho de divagar mais sobre o assunto: trata-se, de longe, do povo mais simpático com que já tive contato. E não achei nada particularmente sujo; andar num metrô lotado em Pequim é mais agradável que fazer o mesmo em Paris, por exemplo.
“As cidades chinesas são poluídas”
Bem, esta é uma meia-verdade. Em Pequim, não vi nada desta tão falada poluição – tudo bem, eu estive lá em plenos
Jogos Olímpicos. No sudeste, também, ar lindo e límpido. Em Xi'an, cidade industrial de 7 milhões de habitantes no centro do país, o ar se manteve um tanto cinza nos dois dias em que estive lá. Mas nada que justificasse o espanto de um habitante de alguma cidade ocidental e/ou auto-proclamada desenvolvida como Houston, Londres, Santiago do Chile ou São Paulo.
“Os chineses comem cachorros”
E nós comemos vacas, porcos e galinhas. E daí? Cada um tem a sua maneira de tentar saciar a fome de milhões de bocas. Eles é que teriam direito de achar estranho que, num país com tantos miseráveis como o nosso, sejam desperdiçados tantos cachorros, escorpiões, lacraias e cabeças de galinha.
E, se a “acusação” parte de algum vegetariano convicto, informo que vegetarianos também há na China, e numa proporção muitíssimo maior que no Brasil.
Ah, antes que me esqueça: mesmo comer carne de cachorro lá é uma exceção; não são poucos os chineses que têm cães de estimação.
“Os chineses maltratam os animais”
Circulam pela Internet algumas fotos de cachorros em gaiolas. As fotos vêm sempre acompanhadas de textos detalhando as condições horrendas em que estes animais vivem e são mortos.
Pois eu desafio qualquer um a ir à China e procurar isso. Não vai achar facilmente. (Eu não achei.) Nós ocidentais também temos a nossa maneira de criar galinhas e outros animais – não necessariamente de forma cruel. Por outro lado, se procurarmos bem, vamos encontrar aqui no Brasil abatedouros até pior que os tais mantidos pelos “desalmados” chineses. Não se trata de maldade de um povo inteiro, é simplesmente a atitude de algumas pessoas, exceções que existem em qualquer lugar, para o bem e para o mal.
“Os chineses comem fetos humanos”
Confesso que essa chega a me fazer rir. Mas há um
texto detalhado circulando na Internet, acompanhado de fotos que mostram os tais fetos sendo servidos a pessoas em restaurantes. E conheço gente que jura que é verdade.
Sim, certo, e vão me dizer que os comunistas comem criancinhas.
No caso, trata-se de uma exibição (pseudo)artística acontecida em 2000, onde o “artista” simulava comer restos humanos – na verdade, bonecos montados a partir de materiais diversos.
Canibalismo assim não existe em lugar algum do planeta. O mesmo não se pode dizer de “artistas” de gosto duvidoso.
“Invadiram o Tibete e tentam acabar com a cultura local”
Considero essa mais uma meia-verdade. O Tibete foi invadido, sim. Mas quantas pessoas conhecem a história da invasão do Tibete? Vou contar um pouco do que já li sobre o assunto.
Nos séculos XIX e XX, aconteceu o que o escritor Rudyard Kipling (criador do Mogli) chamou de “Grande Jogo”: Rússia e Inglaterra, dois grandes impérios da época, mediam forças na Ásia. Os russos dominavam o território mais ao norte, enquanto que os ingleses dominavam a Índia, ao sul. No meio de tudo isso, Afeganistão, China e Tibete sofriam as conseqüências deste jogo. Os tibetanos tentaram se manter neutros e acabaram sendo invadidos pelos ingleses. Nesta época, houve conflitos também na China, que sofreu com a Guerra do Ópio, os Boxers e a invasão da Manchúria, para citar só alguns episódios.
Nesse contexto, saindo arrasados de uma Guerra Mundial e de uma Guerra Civil, os chineses invadiram, sim, o Tibete, que a essa altura já havia sido abandonado pelos ingleses. Como em qualquer invasão militar, trataram de sufocar a cultura local. Como qualquer invasão militar, algo lamentável.
Mas os chineses é que são os vilões da história? Ou será que simplesmente é muito conveniente para os ocidentais fazer uma propaganda negativa do país que atualmente mais cresce e se industrializa no mundo? Por que se fala tanto disso agora e quase não se falava há alguns anos, quando a situação dos tibetanos era bem pior?
Não aprovo a invasão do Tibete pelos chineses. Como também não aprovo a invasão do Tibete pelos ingleses e, antes deles, pelos mongóis. Como não aprovo o massacre dos índios estadunidenses pelos “colonizadores” ou o roubo dos recursos minerais sul-americanos pelos europeus quinhentistas. Mas por que só se fala no Tibete e ninguém se lembra de pedir ao governo dos Estados Unidos que devolva as terras tomadas dos índios? Por que ninguém vai a Espanha, Portugal e Inglaterra dizer que devolvam o ouro que foi “tomado emprestado” de nossos antepassados?
“Os chineses são maus”
Alguém ainda acredita que existam povos essencialmente maus e outros essencialmente bons? Eu já acho difícil dizer que uma pessoa é boa ou má, tão grande é a força das contradições humanas. Quanto mais um país inteiro!
Fotografia: uma residência rural em Yangshuo durante minha visita ao país